Resumo
O presente artigo analisa a relação entre religião, cultura e mal-estar psíquico do período antigo ao contemporâneo, considerando as transformações históricas, sociais e subjetivas que atravessam a constituição do sujeito. A justificativa do estudo fundamenta-se na relevância do tema para as Ciências Humanas e para a Psicanálise, diante do aumento do sofrimento psíquico e das tensões sociais observadas na contemporaneidade. A problemática central investiga de que modo as estruturas religiosas, culturais e normativas, ao longo da história, contribuem tanto para a produção de sentido quanto para o agravamento do mal-estar psíquico. O objetivo consiste em compreender o sofrimento psíquico como fenômeno multifatorial, resultante da interação entre pulsões individuais, exigências civilizatórias e discursos sociais. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza teórica, baseada em revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos da Psicanálise, da Sociologia e da Filosofia, como Freud, Lacan, Zimerman, Bauman e Eliade. Os resultados indicam que, embora a religião e a cultura tenham historicamente exercido funções organizadoras e simbólicas, também operam como instâncias normativas que impõem renúncias pulsionais, favorecendo conflitos intrapsíquicos, sentimento de culpa e exclusão social. A discussão evidencia que, na contemporaneidade, marcada pela fragilização dos vínculos e pela lógica do desempenho, tais conflitos se intensificam, exigindo uma escuta clínica e social sensível à singularidade do sujeito. Conclui-se que a Psicanálise oferece importante contribuição para a compreensão do mal-estar psíquico, ao articular dimensões históricas, culturais e subjetivas, promovendo possibilidades de elaboração simbólica e ressignificação do sofrimento humano.
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