Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar as interfaces contemporâneas entre religião, normatividade e desamparo humano, articulando contribuições da sociologia, da filosofia e da psicanálise. Justifica-se a relevância do estudo diante do papel historicamente atribuído às instituições religiosas como instâncias de amparo simbólico, ético e emocional, sobretudo em contextos marcados por sofrimento psíquico, exclusão social e crises existenciais. A problemática central reside na tensão entre normas religiosas tradicionais e as demandas sociais contemporâneas, que frequentemente produzem contradições entre discurso institucional e práticas concretas de acolhimento, intensificando experiências de desamparo subjetivo e social. Metodologicamente, trata-se de um estudo teórico-reflexivo, fundamentado em autores clássicos e contemporâneos, como Freud, Durkheim, Weber, Berger, Bauman e Safatle. Os resultados indicam que, embora a religião possa funcionar como espaço de sentido, pertencimento e suporte emocional, ela também pode operar como instância normativa excludente, especialmente quando sustenta verdades rígidas dissociadas das realidades vividas pelos sujeitos. Observa-se que o desamparo humano não se restringe à vulnerabilidade biológica ou social, mas constitui uma condição estrutural da existência, atravessada por conflitos psíquicos, familiares, culturais e institucionais. Conclui-se que o enfrentamento do desamparo humano exige uma revisão crítica das práticas religiosas e familiares, de modo a privilegiar ações inclusivas, dialógicas e humanizadoras. O reconhecimento do desamparo como condição ontológica, e não apenas como falha individual, amplia as possibilidades de cuidado, solidariedade e transformação social, recolocando a religião como potencial espaço de acolhimento ético e subjetivo no mundo contemporâneo.
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