Resumo
Este artigo analisa a complexa e crescente atuação política da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e sua estratégica articulação com o partido Republicanos no Brasil contemporâneo, delimitando o período de 2016 a 2022. A pesquisa investiga em profundidade como essa aliança político-religiosa, longe de ser uma mera representação de interesses setoriais, consolidou um robusto projeto de poder que visa reconfigurar as estruturas do Estado e da sociedade. O estudo examina as sofisticadas estratégias discursivas de construção de inimigos políticos e seu profundo impacto no pluralismo democrático, analisando como a retórica de antagonismo se tornou uma ferramenta central de mobilização. A metodologia adota uma abordagem qualitativa, de caráter histórico-analítico, com base em uma exaustiva pesquisa documental e análise do discurso de um vasto corpus de fontes, incluindo dados eleitorais do TSE, documentos partidários, obras institucionais da IURD e material de imprensa. A fundamentação teórica ancora-se em autores clássicos e contemporâneos como Carl Schmitt (2009) e Chantal Mouffe (2015), para discutir a lógica do antagonismo e do agonismo, e Pierre Bourdieu (1989; 2007) e Michel Foucault (1999), para compreender as disputas por poder simbólico e a ordem do discurso. Os resultados, apresentados em 13 tabelas de dados e 4 gráficos, demonstram um crescimento paulatino do Republicanos em todas as esferas eleitorais – federal, estadual e municipal –, tanto em número de mandatos quanto em volume de votos. Conclui-se que a igreja utiliza uma retórica de antagonismo para mobilizar sua base, expandir sua influência política e redefinir as fronteiras entre religião e Estado, colocando em xeque os fundamentos da laicidade e do pacto democrático brasileiro.
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