Associação entre hábitos bucais deletérios (chupeta, sucção digital) e maloclusões em crianças
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Os hábitos bucais deletérios de sucção não nutritiva, especialmente o uso prolongado de chupeta e a sucção digital, constituem fatores etiológicos amplamente investigados no desenvolvimento de maloclusões em crianças, com potenciais repercussões funcionais, estéticas e psicossociais. Objetivou-se analisar, por meio de revisão integrativa da literatura, a associação entre esses hábitos e o desenvolvimento de maloclusões em crianças, destacando os mecanismos envolvidos e as estratégias de prevenção e intervenção no contexto da odontopediatria. A busca foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, LILACS, SciELO, Google Acadêmico e Portal de Periódicos CAPES, incluindo artigos originais, revisões sistemáticas e revisões integrativas publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre hábitos de sucção não nutritiva e maloclusões em crianças de 3 a 12 anos. Foram selecionados 15 estudos, cujos achados demonstraram associação consistente entre o uso prolongado de chupeta e a sucção digital e o desenvolvimento de mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior, sendo a magnitude das alterações diretamente influenciada pela tríade de Graber (frequência, intensidade e duração); crianças usuárias de chupeta apresentaram risco até 5,25 vezes maior de desenvolver mordida aberta, e o aleitamento materno emergiu como fator protetor relevante, enquanto a interrupção do hábito antes dos quatro anos favorece a autocorreção espontânea das maloclusões, à exceção da mordida cruzada posterior, que exige intervenção ortodôntica ativa. Conclui-se que a associação entre hábitos bucais deletérios de sucção não nutritiva e maloclusões em crianças é robusta e clinicamente relevante, sendo a prevenção precoce, a orientação aos cuidadores e a atuação multidisciplinar as estratégias mais eficazes para mitigar seus efeitos sobre o desenvolvimento orofacial infantil.

Palavras-chave: Hábitos bucais deletérios. Sucção não nutritiva. Chupeta. Maloclusão. Odontopediatria.

ABSTRACT

Non-nutritive sucking oral habits, especially prolonged pacifier use and thumb sucking, constitute widely investigated etiological factors in the development of malocclusions in children, with potential functional, aesthetic, and psychosocial repercussions. The objective was to analyze, through an integrative literature review, the association between these habits and the development of malocclusions in children, highlighting the mechanisms involved and prevention and intervention strategies in the context of pediatric dentistry. The search was carried out in the PubMed/MEDLINE, Scopus, LILACS, SciELO, Google Scholar, and CAPES Journal Portal databases, including original articles, systematic reviews, and integrative reviews published between 2015 and 2025, in Portuguese, English, or Spanish, addressing the relationship between non-nutritive sucking habits and malocclusions in children aged 3 to 12 years. Fifteen studies were selected, whose findings demonstrated a consistent association between prolonged pacifier use and thumb sucking and the development of anterior open bite and posterior crossbite, with the magnitude of the alterations being directly influenced by Graber’s triad (frequency, intensity, and duration); children who used pacifiers presented up to a 5.25-fold greater risk of developing open bite, and breastfeeding emerged as a relevant protective factor, while discontinuation of the habit before the age of four favored spontaneous self-correction of malocclusions, except for posterior crossbite, which requires active orthodontic intervention. It was concluded that the association between deleterious non-nutritive sucking oral habits and malocclusions in children is robust and clinically relevant, with early prevention, caregiver guidance, and multidisciplinary care being the most effective strategies to mitigate their effects on children’s orofacial development.

Keywords: Deleterious oral habits. Non-nutritive sucking. Pacifier. Malocclusion. Pediatric dentistry.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento adequado da oclusão dentária constitui um processo complexo e multifatorial, que envolve a interação entre fatores genéticos, ambientais e funcionais ao longo do crescimento craniofacial. Durante a infância, o sistema estomatognático encontra-se em constante formação, sendo particularmente sensível a estímulos externos que podem interferir no equilíbrio das estruturas orais. Nesse contexto, hábitos bucais considerados deletérios têm sido amplamente investigados na literatura odontológica devido ao seu potencial impacto no desenvolvimento dentofacial e na ocorrência de alterações oclusais (SILVA; LIMA; BARBOSA., 2025).

Entre os hábitos bucais deletérios mais frequentemente observados na infância destacam-se os hábitos de sucção não nutritiva, especialmente a sucção digital e o uso prolongado de chupeta. Esses comportamentos são considerados fisiológicos nos primeiros meses de vida, pois estão associados às necessidades naturais de sucção e conforto da criança. Entretanto, quando persistem além do período considerado adequado para o desenvolvimento infantil, podem provocar alterações nas forças exercidas sobre os dentes, músculos e ossos da face, interferindo no crescimento e na posição das estruturas dentárias (MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

Os estudos realizados por Andrade et al. (2020), demonstraram que a prevalência desses hábitos é elevada nos primeiros anos de vida. Contudo, em uma parcela significativa da população infantil, tais hábitos permanecem durante a fase pré-escolar ou mesmo durante o período de dentição mista, aumentando o risco de alterações no desenvolvimento oclusal.

As maloclusões representam uma das principais consequências associadas à manutenção prolongada desses hábitos. De modo geral, as maloclusões podem ser definidas como alterações no posicionamento ou no relacionamento entre as arcadas dentárias, podendo se manifestar por meio de diferentes padrões, como mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, protrusão dos incisivos superiores e desalinhamentos dentários. Essas alterações não se restringem apenas ao comprometimento estético, podendo também interferir em funções importantes como mastigação, deglutição, respiração e fonação, além de impactar negativamente o bem-estar psicossocial da criança (SILVA et al., 2021).

A frequência e a intensidade dos hábitos de sucção são fatores determinantes para o desenvolvimento e a gravidade das maloclusões. Crianças que mantêm hábitos como o uso de chupeta ou sucção digital por períodos prolongados apresentam maior probabilidade de desenvolver alterações oclusais, especialmente quando esses comportamentos persistem após os três anos de idade. Nessas situações, Neves e Barbosa (2025), mencionam que a interferência contínua nas forças musculares e dentárias pode alterar o equilíbrio do sistema estomatognático e favorecer o surgimento de alterações estruturais que, muitas vezes, necessitam de intervenção ortodôntica.

Apesar do reconhecimento da associação entre hábitos bucais deletérios e maloclusões na infância, ainda existem divergências na literatura quanto à magnitude dessa relação e aos fatores que influenciam o aparecimento dessas alterações. Diferenças metodológicas entre os estudos, variações na idade das crianças avaliadas, bem como a diversidade de critérios diagnósticos utilizados para identificar os hábitos e as maloclusões, constituem fatores que dificultam a comparação direta dos resultados encontrados na literatura científica. Diante desse cenário, surgiu o seguinte questionamento: qual é a associação entre hábitos bucais deletérios, especialmente o uso de chupeta e a sucção digital, e o desenvolvimento de maloclusões em crianças?

A relevância deste estudo também se justifica pela elevada prevalência de maloclusões na população infantil e pelas possíveis repercussões funcionais, estéticas e psicossociais associadas a essas alterações. Além disso, a compreensão da relação entre hábitos de sucção não nutritiva e alterações oclusais pode auxiliar profissionais da odontologia, especialmente na área de odontopediatria, na orientação de pais e responsáveis quanto à interrupção precoce desses hábitos e na adoção de medidas preventivas capazes de minimizar seus efeitos no desenvolvimento craniofacial.

Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de revisão da literatura científica, a associação entre hábitos bucais deletérios, com ênfase no uso de chupeta e na sucção digital, e o desenvolvimento de maloclusões em crianças, destacando a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da intervenção adequada no contexto da odontopediatria.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

O desenvolvimento do sistema estomatognático na infância constitui um processo dinâmico e altamente sensível a estímulos funcionais, especialmente durante os primeiros anos de vida, período em que ocorre intensa remodelação óssea e muscular. Nesse contexto, os hábitos bucais desempenham papel determinante na organização das estruturas orofaciais, podendo atuar tanto de forma benéfica quanto prejudicial. Entre esses hábitos, destacam-se aqueles classificados como deletérios, os quais interferem no equilíbrio funcional do sistema, comprometendo a harmonia entre músculos, ossos e dentes. Dessa forma, compreender a natureza desses hábitos torna-se essencial para a análise do desenvolvimento craniofacial infantil e suas possíveis alterações ao longo do crescimento (NEVES; BARBOSA, 2025).

Os hábitos bucais deletérios na infância estão, em grande parte, associados à sucção não nutritiva, caracterizada por comportamentos que não possuem finalidade alimentar, mas que proporcionam conforto emocional à criança. Entre os mais frequentes, destacam-se o uso de chupeta e a sucção digital, ambos amplamente disseminados em diferentes contextos socioculturais. Esses hábitos são frequentemente introduzidos precocemente e mantidos por longos períodos, o que potencializa seus efeitos sobre o desenvolvimento orofacial. A repetição contínua dessas práticas gera forças mecânicas persistentes que atuam diretamente sobre as estruturas dentárias e musculares, influenciando padrões de crescimento e organização funcional (MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

A sucção digital, considerada um comportamento instintivo, pode manifestar-se ainda no período intrauterino e persistir após o nascimento como uma forma de autorregulação emocional. No entanto, sua manutenção além do período considerado fisiológico implica alterações no padrão de funcionamento da musculatura perioral e da língua, promovendo desequilíbrios funcionais progressivos. A pressão exercida pelo dedo sobre os dentes e o palato altera a dinâmica das forças intra-orais, favorecendo modificações na posição dentária e na conformação das arcadas. Assim, esse hábito deixa de ser apenas um comportamento adaptativo e passa a configurar um fator de risco relevante para alterações estruturais (ANDRADE et al., 2020).

De maneira semelhante, o uso de chupeta apresenta elevada prevalência na infância, sendo frequentemente utilizado como recurso para acalmar a criança e induzir o sono. Embora inicialmente associado a aspectos emocionais e comportamentais, seu uso prolongado interfere diretamente na fisiologia orofacial. A presença constante da chupeta na cavidade oral modifica a postura lingual e o posicionamento mandibular, além de reduzir a atividade muscular necessária para o desenvolvimento adequado das estruturas. Esse processo resulta em adaptações funcionais que, ao longo do tempo, podem comprometer o crescimento equilibrado do sistema estomatognático (SILVA; LIMA; BARBOSA, 2025).

A distinção entre sucção nutritiva e não nutritiva é fundamental para compreender os impactos desses hábitos. Enquanto o aleitamento materno promove estímulos fisiológicos essenciais para o desenvolvimento adequado das estruturas orofaciais, a sucção não nutritiva tende a gerar padrões funcionais inadequados. A ausência de estímulos musculares adequados, associada ao uso frequente de dispositivos artificiais, favorece a instalação de alterações no equilíbrio das forças intra-orais. Dessa forma, a substituição ou complementação precoce do aleitamento por hábitos de sucção não nutritiva contribui para a modificação do padrão funcional esperado na infância (NEVES; BARBOSA, 2025).

Outro aspecto relevante refere-se à frequência, duração e intensidade com que os hábitos são realizados, fatores que determinam diretamente o grau de interferência no desenvolvimento orofacial. A literatura evidencia que não apenas a presença do hábito, mas sua persistência ao longo do tempo, é responsável pelo agravamento das alterações estruturais. Quanto maior a repetição e o tempo de exposição, maior será a capacidade de adaptação das estruturas ósseas e dentárias às forças exercidas. Esse processo contínuo de remodelação pode consolidar padrões inadequados de crescimento, dificultando sua reversão espontânea (MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

Além dos aspectos biomecânicos, a manutenção dos hábitos bucais deletérios está fortemente relacionada a fatores comportamentais, emocionais e socioculturais. A utilização da chupeta, por exemplo, muitas vezes é incentivada por familiares como estratégia para tranquilizar a criança, enquanto a sucção digital pode estar associada a estados de ansiedade ou insegurança. Esses fatores contribuem para a persistência dos hábitos, mesmo diante de possíveis orientações contrárias. Assim, a compreensão desses determinantes é essencial para contextualizar a ocorrência desses comportamentos no desenvolvimento infantil (SILVA et al., 2021).

No âmbito funcional, os hábitos de sucção não nutritiva interferem na coordenação das funções estomatognáticas, como mastigação, deglutição e respiração. A presença constante de objetos ou do dedo na cavidade oral altera o padrão neuromuscular, promovendo adaptações que podem comprometer a eficiência dessas funções. Essas alterações não ocorrem de forma isolada, mas estão interligadas, gerando um desequilíbrio global no sistema orofacial. Dessa forma, a persistência desses hábitos contribui para a instalação de padrões funcionais inadequados desde a infância (ANDRADE et al., 2020).

Outro ponto relevante refere-se à interferência desses hábitos no desenvolvimento das estruturas ósseas maxilomandibulares. A aplicação contínua de forças inadequadas sobre essas estruturas pode modificar seu crescimento, favorecendo assimetrias e alterações dimensionais. Esse processo ocorre de forma gradual e muitas vezes silenciosa, sendo percebido apenas em estágios mais avançados do desenvolvimento. Assim, a atuação precoce desses hábitos sobre estruturas em formação reforça seu potencial de impacto a longo prazo (SILVA; LIMA; BARBOSA, 2025).

É importante destacar que os hábitos bucais deletérios, embora comuns na infância, não devem ser compreendidos como comportamentos inofensivos quando persistentes. Sua continuidade ao longo do tempo promove alterações cumulativas que afetam tanto a estrutura quanto a função do sistema estomatognático. Nesse sentido, a descrição detalhada desses hábitos e de suas características permite compreender sua relevância no contexto do desenvolvimento infantil, evidenciando a necessidade de acompanhamento e monitoramento contínuo para evitar repercussões futuras mais complexas (MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

A compreensão da associação entre hábitos bucais deletérios e o desenvolvimento de maloclusões em crianças exige a análise integrada dos fatores biomecânicos, funcionais e ambientais que atuam sobre o sistema estomatognático em formação. As maloclusões apresentam etiologia multifatorial, porém, evidências científicas demonstram que hábitos como sucção digital e uso prolongado de chupeta atuam como importantes agentes modificadores do crescimento craniofacial. Esses hábitos, ao exercerem forças contínuas e não fisiológicas, alteram o equilíbrio entre musculatura intra e extra oral, desencadeando modificações progressivas na posição dentária e na conformação das arcadas (FONSECA et al., 2023).

Nesse contexto, a associação entre hábitos deletérios e maloclusões pode ser compreendida a partir da interferência direta no padrão de crescimento morfológico. Durante a infância, o sistema craniofacial apresenta elevada plasticidade, sendo altamente suscetível a estímulos externos. A introdução e manutenção de hábitos de sucção não nutritiva provocam alterações na direção e intensidade das forças aplicadas sobre os dentes e estruturas ósseas, favorecendo a instalação de desequilíbrios estruturais. Esse processo evidencia que as maloclusões não surgem de forma isolada, mas resultam da interação contínua entre fatores ambientais e funcionais (OLIVEIRA; NOGUEIRA, 2024).

A análise da literatura aponta que a intensidade, frequência e duração dos hábitos são determinantes fundamentais na instalação das maloclusões. Esse conjunto de variáveis, conhecido como tríade de Graber, influencia diretamente a magnitude das alterações observadas. Hábitos realizados de forma esporádica tendem a ter menor impacto, enquanto aqueles mantidos de maneira constante promovem adaptações estruturais mais significativas. Assim, a persistência desses comportamentos ao longo do tempo aumenta substancialmente o risco de desenvolvimento de alterações oclusais (SOUZA et al., 2017).

Do ponto de vista funcional, a presença desses hábitos compromete o equilíbrio neuromuscular responsável pela manutenção da oclusão normal. A atuação inadequada da língua, lábios e bochechas, associada à introdução de forças externas constantes, resulta na desorganização do sistema estomatognático. Esse desequilíbrio interfere não apenas na posição dos dentes, mas também na relação entre maxila e mandíbula, contribuindo para a formação de diferentes tipos de maloclusões. Dessa forma, observa-se que os hábitos deletérios atuam como fatores etiológicos capazes de modificar tanto aspectos dentários quanto esqueléticos (CARVALHO et al., 2020).

A sucção digital, em especial, apresenta forte associação com alterações oclusais devido à sua capacidade de exercer pressão direta e contínua sobre estruturas específicas da cavidade oral. Esse hábito promove deslocamentos dentários característicos, como a projeção dos incisivos superiores e a inclinação lingual dos membros inferiores, além de alterações na conformação do palato. Essas modificações ocorrem em função da alteração no padrão de forças aplicadas, evidenciando a relação direta entre a prática do hábito e o surgimento de maloclusões específicas (CARVALHO et al., 2020).

De maneira semelhante, o uso prolongado de chupeta também está relacionado à instalação de alterações oclusais, especialmente quando mantido além da fase considerada fisiológica. A chupeta atua como um agente externo que modifica o tônus muscular e interfere na dinâmica funcional da cavidade oral. Sua presença constante impede o contato adequado entre os dentes anteriores, favorecendo a ocorrência de mordida aberta anterior, além de influenciar o desenvolvimento transversal das arcadas. Assim, observa-se que esse hábito exerce papel significativo na modificação da oclusão (OLIVEIRA; NOGUEIRA, 2024).

Além das alterações dentárias, os hábitos bucais deletérios também estão associados a modificações esqueléticas que podem comprometer a harmonia facial. A atuação contínua dessas forças pode alterar o crescimento das bases ósseas, contribuindo para discrepâncias maxilomandibulares. Essas alterações estruturais refletem a capacidade dos hábitos de influenciar não apenas os dentes, mas todo o complexo craniofacial, reforçando sua relevância na etiologia das maloclusões (SOUZA et al., 2017).

Estudos epidemiológicos reforçam essa associação ao demonstrar elevada prevalência de maloclusões em crianças que apresentam hábitos bucais deletérios. Em investigações clínicas, observa-se que a maioria das crianças com alterações oclusais possui histórico de sucção não nutritiva, especialmente uso de chupeta e sucção digital. Essa correlação evidencia que tais hábitos não apenas coexistem com as maloclusões, mas contribuem significativamente para sua instalação e agravamento (SILVA et al., 2020).

Outro fator relevante na análise dessa associação refere-se à influência do tipo de alimentação infantil no desenvolvimento desses hábitos e, consequentemente, das maloclusões. Evidências indicam que a ausência ou interrupção precoce do aleitamento materno favorece a adoção de hábitos de sucção não nutritiva, os quais, por sua vez, estão relacionados ao desenvolvimento de alterações oclusais. Dessa forma, estabelece-se uma cadeia de eventos em que fatores alimentares influenciam comportamentos orais, culminando em modificações estruturais (CARVALHO et al., 2020).

Adicionalmente, a coexistência de múltiplos hábitos bucais deletérios potencializa os efeitos negativos sobre a oclusão. Crianças que apresentam mais de um hábito simultaneamente estão mais suscetíveis a desenvolver alterações mais complexas, uma vez que diferentes forças atuam de maneira concomitante sobre o sistema estomatognático. Esse cenário favorece a instalação de padrões de crescimento ainda mais comprometidos, dificultando a reversão espontânea das alterações (SILVA et al., 2020).

A análise integrada dos fatores envolvidos evidencia que a associação entre hábitos bucais deletérios e maloclusões em crianças é resultado de um processo multifatorial e cumulativo. A interação entre forças mecânicas inadequadas, desequilíbrios funcionais e fatores ambientais contribui para a modificação do crescimento craniofacial e da oclusão. Nesse sentido, compreender essa relação permite não apenas identificar os mecanismos envolvidos, mas também fundamentar estratégias voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce dessas alterações (FONSECA et al., 2023).

A atuação preventiva em odontopediatria assume papel central na redução dos impactos decorrentes dos hábitos bucais deletérios, especialmente quando considerados os efeitos cumulativos sobre o desenvolvimento craniofacial infantil. Nesse contexto, a prevenção deve ser compreendida como um processo contínuo, que envolve não apenas a identificação de fatores de risco, mas também a implementação de estratégias educativas e comportamentais desde os primeiros anos de vida. A abordagem preventiva fundamenta-se na antecipação de possíveis alterações, promovendo condições favoráveis ao desenvolvimento adequado das estruturas orofaciais e minimizando a necessidade de intervenções corretivas mais complexas ao longo do tempo (COSTA, 2025).

A identificação precoce dos hábitos bucais deletérios constitui um dos pilares fundamentais para o sucesso das estratégias preventivas em odontopediatria. Durante a infância, especialmente nos primeiros anos de vida, existe uma janela de oportunidade na qual alterações funcionais e estruturais ainda apresentam potencial de reversibilidade. A detecção desses hábitos em estágios iniciais permite intervenções menos invasivas e mais eficazes, reduzindo significativamente a probabilidade de instalação de maloclusões permanentes. Dessa forma, o diagnóstico precoce deve ser incorporado como prática rotineira nas consultas odontológicas infantis (GISFREDE et al., 2016).

A análise dos fatores etiológicos relacionados aos hábitos bucais deletérios contribui diretamente para a construção de estratégias preventivas mais assertivas. A literatura destaca que esses hábitos possuem origem multifatorial, envolvendo aspectos emocionais, comportamentais e ambientais. A compreensão desses determinantes permite ao cirurgião-dentista atuar não apenas na remoção do hábito, mas também na modificação das condições que favorecem sua manutenção. Assim, a prevenção passa a ser orientada por uma abordagem individualizada, considerando as particularidades de cada criança e seu contexto familiar (ANTUNES et al., 2015).

No âmbito clínico, o diagnóstico precoce das alterações oclusais associadas aos hábitos deletérios depende de uma avaliação criteriosa do sistema estomatognático. A observação de sinais iniciais, como alterações na posição dentária, padrões de deglutição atípicos e modificações na postura lingual, possibilita a intervenção antes da consolidação das deformidades. A utilização de protocolos clínicos sistematizados contribui para a padronização do diagnóstico e para a identificação precoce de desvios no desenvolvimento, favorecendo melhores prognósticos (TORK; CARDOSO, 2022).

A educação em saúde bucal representa uma das principais ferramentas no processo preventivo, especialmente no que se refere à orientação de pais e cuidadores. A transmissão de informações sobre os riscos associados aos hábitos bucais deletérios e suas possíveis consequências permite a adoção de práticas mais adequadas no ambiente familiar. Além disso, estratégias educativas baseadas em evidências contribuem para a conscientização sobre a importância do acompanhamento odontológico desde a primeira infância, promovendo a prevenção de alterações estruturais e funcionais (COSTA, 2025).

A atuação multidisciplinar também se destaca como elemento essencial na abordagem preventiva e interventiva em odontopediatria. A integração entre diferentes áreas da saúde, como fonoaudiologia, pediatria e psicologia, possibilita uma compreensão mais ampla dos fatores envolvidos na instalação e manutenção dos hábitos deletérios. Essa abordagem colaborativa favorece intervenções mais completas, que contemplam tanto os aspectos físicos quanto comportamentais, aumentando a efetividade das estratégias adotadas (ANDRADE et al., 2024).

No que se refere às intervenções, a remoção do hábito deletério deve ser conduzida de forma gradual e planejada, respeitando o desenvolvimento emocional da criança. A interrupção abrupta pode gerar resistência e dificultar a adesão ao tratamento, sendo recomendada a utilização de técnicas comportamentais associadas ao acompanhamento profissional. Além disso, em alguns casos, pode ser necessária a utilização de dispositivos ortodônticos interceptativos, que auxiliam na correção de alterações já instaladas e na prevenção de sua progressão (TORK; CARDOSO, 2022).

A promoção de hábitos saudáveis desde a primeira infância constitui estratégia fundamental para a prevenção de alterações oclusais. Práticas como o incentivo ao aleitamento materno, a orientação quanto ao uso adequado de chupetas e a monitorização do desenvolvimento orofacial contribuem para a redução da incidência de hábitos deletérios. Essas medidas preventivas atuam diretamente na manutenção do equilíbrio funcional do sistema estomatognático, favorecendo um desenvolvimento harmonioso (ANTUNES et al., 2015).

A implementação de programas de saúde pública voltados à odontopediatria preventiva amplia o alcance das estratégias de prevenção e diagnóstico precoce. Ações educativas em escolas, creches e unidades de saúde permitem a identificação precoce de crianças em risco, além de promover o acesso a informações e serviços de saúde bucal. Essas iniciativas são fundamentais para reduzir desigualdades no acesso ao cuidado odontológico e para promover melhores condições de saúde bucal na população infantil (COSTA, 2025).

Adicionalmente, a prática clínica baseada em evidências reforça a importância da atualização constante dos profissionais de odontopediatria quanto às melhores abordagens preventivas e terapêuticas. O conhecimento científico atualizado permite a adoção de condutas mais eficazes, fundamentadas em estudos que evidenciam a relevância do diagnóstico precoce e da intervenção adequada. Dessa forma, a atuação profissional torna-se mais precisa e alinhada às necessidades reais do paciente infantil (ANDRADE et al., 2024).

A prevenção, o diagnóstico precoce e as intervenções adequadas configuram-se como estratégias interdependentes no contexto da odontopediatria, sendo essenciais para minimizar os impactos dos hábitos bucais deletérios no desenvolvimento das maloclusões. A atuação integrada e baseada em evidências possibilita não apenas a redução da prevalência dessas alterações, mas também a promoção de um desenvolvimento orofacial saudável, contribuindo para a qualidade de vida da criança ao longo de seu crescimento (GISFREDE et al., 2016).

METODOLOGIA

O presente estudo caracterizou-se como uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, cujo objetivo foi reunir, analisar e sintetizar evidências científicas acerca da associação entre hábitos bucais deletérios, especialmente o uso de chupeta e a sucção digital, e o desenvolvimento de maloclusões em crianças. A revisão integrativa permitiu a análise sistematizada de resultados provenientes de diferentes delineamentos metodológicos, contribuindo para a compreensão do estado atual do conhecimento científico sobre o tema e para a identificação de lacunas existentes na literatura.

A busca dos estudos foi realizada em bases de dados científicas amplamente utilizadas na área da saúde, incluindo PubMed/MEDLINE, Scopus, LILACS, SciELO, Google Acadêmico e Portal de Periódicos CAPES. Foram considerados artigos publicados no período compreendido entre os anos de 2015 e 2025, com o objetivo de contemplar evidências científicas recentes relacionadas ao tema investigado.

A estratégia de busca foi conduzida por meio da combinação de descritores em português e inglês, selecionados a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), tais como: hábitos bucais deletérios, sucção digital, uso de chupeta, maloclusão infantil, oclusão dentária e odontopediatria, bem como seus correspondentes em inglês, como non-nutritive sucking habits, pacifier use, thumb sucking e malocclusion in children. Esses descritores foram combinados utilizando operadores booleanos AND e OR, com o objetivo de ampliar e refinar os resultados das buscas.

Foram incluídos no estudo artigos científicos originais, revisões sistemáticas e revisões integrativas publicados entre os anos de 2015 e 2025, disponíveis na íntegra e que abordaram diretamente a relação entre hábitos de sucção não nutritiva, como sucção digital e uso de chupeta, e o desenvolvimento de maloclusões em crianças. Também foram considerados estudos envolvendo crianças em fase de dentição decídua, compreendendo a faixa etária entre 3 e 6 anos, ou em fase de dentição mista, entre 6 e 12 anos. Foram aceitos artigos publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol.

Por outro lado, foram excluídos artigos que não apresentaram relação direta com o tema proposto ou que não estavam disponíveis na íntegra. Também foram excluídas publicações que investigaram exclusivamente outros hábitos bucais não relacionados à sucção não nutritiva, como roer unhas ou sucção de lábios, bem como estudos que envolveram condições clínicas específicas ou uso de medicamentos capazes de interferir no desenvolvimento dentário das crianças.

A seleção dos estudos foi realizada em etapas. Inicialmente, foi efetuada a leitura dos títulos e resumos dos artigos identificados nas bases de dados, com o objetivo de verificar sua relevância em relação ao tema da pesquisa. Em seguida, os estudos considerados potencialmente elegíveis foram submetidos à leitura completa, permitindo confirmar se atendiam aos critérios de inclusão estabelecidos. Após essa etapa, os artigos selecionados foram organizados para compor o conjunto final de estudos analisados na revisão.

Para a sistematização das informações, foi elaborada uma planilha eletrônica contendo os principais dados extraídos de cada artigo selecionado, incluindo autor e ano de publicação, país de realização do estudo, delineamento metodológico, características da amostra, faixa etária das crianças avaliadas, tipo de hábito bucal deletério investigado, tipo de maloclusão identificada e principais resultados apresentados pelos estudos.

A análise dos dados foi realizada por meio de síntese descritiva e comparativa, permitindo identificar padrões, convergências e divergências entre os resultados encontrados nos diferentes estudos selecionados. As informações obtidas foram organizadas em quadros e tabelas, possibilitando uma visualização sistematizada das evidências disponíveis na literatura científica. Além disso, foi realizada uma análise qualitativa dos achados, destacando a relação entre a presença de hábitos bucais deletérios e o desenvolvimento de maloclusões na população infantil.

Por se tratar de um estudo baseado exclusivamente em dados secundários provenientes da literatura científica, não houve envolvimento direto de seres humanos ou coleta de dados clínicos, não sendo necessária a submissão do estudo a um Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise das evidências científicas reunidas nesta revisão integrativa permitiu identificar consistência entre os estudos no que diz respeito à associação entre hábitos bucais deletérios de sucção não nutritiva e o desenvolvimento de maloclusões em crianças. Os resultados obtidos demonstram que o uso prolongado de chupeta e a sucção digital constituem fatores etiológicos de relevância para as alterações oclusais observadas na dentição decídua e mista, sendo sua magnitude diretamente influenciada pela duração, frequência e intensidade com que tais hábitos são praticados, conforme preconizado pela tríade de Graber (SOUZA et al., 2017; MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025). Dessa forma, o Quadro 1 apresenta os resultados encontrados em cada um dos artigos selecionados.

Autor (Ano)

Metodologia

Principais Resultados

Antunes et al. (2015)

Estudo transversal retrospectivo realizado com 443 crianças de 2 a 6 anos matriculadas em 27 creches públicas de Nova Friburgo (RJ). Dados coletados por questionário respondido pelos pais sobre tipo de aleitamento e hábitos bucais; exame clínico de oclusão realizado por 2 examinadores (kappa=0,80). Análise estatística por qui-quadrado e Odds Ratio.

O aleitamento artificial esteve associado ao hábito de sucção de chupeta (OR 0,12; p<0,01) e sucção digital (OR 0,35; p=0,04), bem como às maloclusões mordida aberta anterior (OR 0,15; p<0,01), mordida cruzada posterior (OR 0,26; p=0,04) e sobressaliência acentuada (OR 0,32; p=0,03). Conclui-se que a amamentação natural deve ser estimulada como medida preventiva para essa população.

Gisfrede et al. (2016)

Revisão de literatura com busca nas bases Bireme e PubMed/MEDLINE, utilizando as palavras-chave: sistema estomatognático, hábitos bucais e Odontopediatria. Sem restrição de ano de publicação ou idioma.

Os hábitos bucais deletérios classificam-se em sucção não nutritiva (chupeta e sucção digital), sucção nutritiva (aleitamento materno e mamadeira) e hábitos funcionais (respiração bucal e deglutição atípica). As alterações morfológicas dependem da tríade de Graber (frequência, intensidade e duração). O aleitamento materno exclusivo por pelo menos seis meses reduz significativamente o risco de hábitos deletérios. O uso de mamadeira gera flacidez da musculatura perioral e lingual, deformidades dentárias e disfunções respiratórias. A sucção digital persistente após os quatro anos está associada a retrognatismo mandibular, prognatismo maxilar, mordida aberta, atresia do palato, interposição de língua e respiração bucal. Conclui-se que o diagnóstico precoce e a abordagem multidisciplinar são essenciais para a remoção dos hábitos e prevenção das consequências no sistema estomatognático.

Souza et al. (2017)

Revisão de literatura com busca nas bases Medline, LILACS, SciELO e Bireme. Descritores: hábitos deletérios, deglutição atípica, hábitos de sucção, respiradores bucais e más oclusões em crianças. Artigos de revisão, relato de caso, série de casos ou pesquisa clínica foram incluídos. Publicado nos Cadernos de Graduação – Ciências Biológicas e da Saúde (FACIPE), v.3, n.2, novembro de 2017.

Os hábitos bucais deletérios (sucção digital, chupeta, deglutição atípica, respiração bucal, onicofagia e bruxismo) comprometem o desenvolvimento craniofacial de acordo com a frequência, intensidade, duração, objeto utilizado e idade de início. A respiração bucal provoca atresia maxilar, palato ogival, retrusão mandibular, mordida cruzada posterior e mordida aberta. A chupeta altera o tônus muscular perioral e intraoral, podendo causar mordida aberta, protrusão e mordida cruzada posterior. A deglutição atípica está associada à mordida aberta anterior por interposição lingual. Crianças amamentadas exclusivamente por seis meses têm menor chance de desenvolver hábitos deletérios. O diagnóstico precoce e a atuação multidisciplinar são essenciais para a interceptação das más oclusões.

Carvalho et al. (2020)

Revisão de literatura com busca nas bases PubMed, LILACS e SciELO, nos idiomas inglês e português. Foram selecionados 32 artigos publicados entre 1991 e 2016, a partir de busca inicial que identificou 63 estudos. Seleção por análise de títulos, resumos e leitura completa dos textos mais relevantes.

Identificou-se forte relação inversa entre tempo de aleitamento natural e presença de hábitos bucais deletérios. Crianças desmamadas precocemente apresentaram chance 4 vezes maior de desenvolver hábito de uso de chupeta. Hábitos deletérios como sucção digital e de chupeta estão associados às maloclusões, especialmente mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior. O diagnóstico e a intervenção precoces são essenciais para evitar problemas ortodônticos futuros.

Andrade et al. (2020)

Revisão de literatura do tipo narrativa, com busca nas plataformas Google Acadêmico, Portal Periódicos CAPES e SciELO. Palavras-chave: Odontopediatria; Má Oclusão; Saúde Coletiva. Artigos selecionados do período de 2000 a 2020.

A chupeta é o hábito com maior relação causal para má oclusão, com ocorrência 5,46 vezes maior em usuários. A sucção digital, embora menos prevalente, provoca danos mais graves à oclusão. A interrupção precoce do aleitamento materno é fator de risco para instalação de hábitos deletérios. Hábitos de sucção são considerados fisiológicos até os 3 anos; a persistência após essa idade configura comportamento de regressão com alto potencial para gerar anomalias oclusais.

Silva et al. (2020)

Estudo quantitativo analítico transversal realizado com 100 crianças de 8 a 13 anos, matriculadas na escola municipal Denisson Menezes, Maceió (AL). Exame clínico intrabucal e questionário semiestruturado para identificar hábitos bucais deletérios, tipo de mordida e relação intermaxilar (classificação de Angle). Dados analisados por estatística descritiva. Publicado no Diversitas Journal, v.5, n.3, jul./set. 2020.

Maloclusões estiveram presentes em 55% dos indivíduos, com maior frequência de mordida aberta anterior (24%), mordida profunda (20%) e mordida cruzada (11%). Hábitos bucais deletérios foram encontrados em 93% das crianças, com destaque para uso prolongado de chupeta (68%), seguido de onicofagia (10%), sucção digital (9%) e uso prolongado de mamadeira (6%). Das crianças com mordida aberta anterior, 82,3% usaram chupeta. A relação intermaxilar mostrou predominância de Classe I (44%), Classe II (9%) e Classe III (5%). A prevalência elevada de maloclusões esteve associada ao contexto socioeconômico desfavorável. Conclui-se que a melhoria de políticas públicas como o Programa Saúde na Escola é fundamental para a prevenção das oclusopatias.

Silva et al. (2021)

Revisão integrativa da literatura com caráter qualitativo, com busca nas bases LILACS, SciELO e PubMed. Descritores: 'Má oclusão', 'Qualidade de vida', 'Articulação temporomandibular', 'Crianças' e 'Adolescente'. Critérios de inclusão: artigos em português e inglês, publicados entre 2010 e 2020, disponíveis na íntegra. De 51 artigos identificados, 17 foram selecionados. Publicado na Research, Society and Development, v.10, n.8, 2021.

A maloclusão é caracterizada como desordem do desenvolvimento craniofacial com etiologia multifatorial, afetando mastigação, fala, deglutição, respiração e gerando impactos psicossociais significativos. Fatores etiológicos incluem hábitos orais deletérios, cárie, perda dentária precoce e fatores genéticos e ambientais. Adolescentes com maloclusão têm maior risco de bullying, baixa autoestima, ansiedade e isolamento social. A cárie precoce pode desencadear migração dentária e maloclusões. A maloclusão cruzada tem relação com DTM, cefaleias e hiperatividade muscular. O diagnóstico precoce na dentição mista é essencial para tratamento ortodôntico preventivo ou interceptativo, e o acesso ao tratamento pelo sistema público permanece uma barreira importante.

Tork e Cardoso (2022)

Revisão de literatura com levantamento bibliográfico amplo. Termos utilizados: 'Mordida Aberta', Mordida Aberta Anterior e Hábitos bucais deletérios. Publicado no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v.4, n.5, setembro de 2022.

A mordida aberta anterior (MAA) tem etiologia multifatorial que inclui hábitos de sucção não nutritiva, respiração bucal, interposição lingual e fatores hereditários. Crianças usuárias de chupeta apresentaram risco quase 5 vezes maior de desenvolver mordida aberta, e as com sucção digital, 3 vezes maior. Efeitos de sucção em menores de 3 anos apresentam possibilidade de correção espontânea após interrupção do hábito; após os 4 anos, durante a erupção dos incisivos permanentes, a oclusão pode tornar-se permanentemente comprometida. A interposição lingual pode ser primária (fator etiológico principal) ou secundária (adaptação a mordida aberta pré-existente). O diagnóstico do fator etiológico é essencial para o plano de tratamento, que pode variar do controle do hábito a procedimentos cirúrgicos. A abordagem deve ser multidisciplinar.

Fonseca et al. (2023)

Revisão narrativa de literatura com objetivo de contextualizar a relação entre hábitos bucais deletérios, má oclusão e qualidade de vida em crianças. Publicado na Revista Eletrônica Acervo Saúde, v.23, n.7, julho de 2023. Instituições: CEUNI-FAMETRO (Manaus-AM) e USP (São Paulo-SP).

Os hábitos bucais deletérios são padrões de contrações musculares aprendidos e inconscientes que atuam como fatores deformantes no crescimento ósseo, nas posições dentárias, na respiração e na fala. A etiologia da má oclusão é multifatorial, envolvendo fatores genéticos, ambientais e hábitos como sucção de chupeta e digital, respiração bucal, deglutição atípica, onicofagia e bruxismo. A sucção não nutritiva, quando interrompida precocemente, reduz o risco de mordida cruzada anterior e posterior e mordida aberta anterior. A mordida cruzada posterior não se autocorrige com o abandono do hábito. A OMS considera a má oclusão a terceira maior prioridade em saúde bucal mundial, com impactos na fonação, deglutição, respiração e bem-estar psicológico. O diagnóstico precoce e a orientação odontopediátrica preventiva são fundamentais.

Oliveira e Nogueira (2024)

Revisão de literatura publicada no Journal of Multidisciplinary Dentistry, v.14, n.2. Recebido em junho de 2024 e aceito em agosto de 2024. Abordagem narrativa sobre hábitos bucais deletérios, suas consequências oclusais e opções de tratamento na primeira infância.

Os hábitos deletérios mais frequentes em crianças são onicofagia, sucção de chupeta e sucção digital. As alterações dependem da tríade de Graber (frequência, intensidade e duração). A sucção do polegar causa inclinação lingual dos incisivos inferiores e vestibularização dos superiores; a chupeta provoca abertura de mordida circular. Quando persistentes após os 4 anos, podem gerar mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, atresia do palato, retrognatismo mandibular e assimetria facial. Crianças que usaram chupeta por mais de 3 anos tiveram 5,25 vezes mais chance de desenvolver mordida aberta. A mordida cruzada posterior não se autocorrige com a remoção do hábito, exigindo intervenção ortodôntica. O tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo psicólogos, fonoaudiólogos, odontopediatras e ortodontistas.

Andrade et al. (2024)

Revisão integrativa de literatura, de método qualitativo, com busca nas bases BVS, LILACS, SciELO e PubMed, utilizando os descritores 'erosão dentária', 'crianças' e 'odontologia'. Artigos de 2020 a 2024, em português, espanhol ou inglês. Dos 29 artigos identificados, 17 compuseram a amostra final.

A erosão dentária em dentes decíduos é uma condição progressiva e multifatorial, causada por fatores intrínsecos (refluxo, distúrbios alimentares) e extrínsecos (dieta ácida, refrigerantes, balas ácidas). A dentição decídua é especialmente vulnerável devido à menor mineralização. O diagnóstico precoce e intervenções preventivas — como uso terapêutico de fluoretos, orientação dietética, diário alimentar e abordagem multidisciplinar — são essenciais para minimizar danos e evitar comprometimento da dentição permanente.

Morais et al. (2025)

Revisão narrativa da literatura, de caráter qualitativo e descritivo, com busca realizada na plataforma Elicit e nas bases PubMed, SciELO e Google Scholar. Descritores pelo DeCS/MeSH: 'sucção não-nutritiva', 'hábitos orais', 'maloclusão', 'amamentação' e 'desenvolvimento orofacial'. Recorte temporal de 2020 a 2025. Publicado na Revista DELOS, v.18, n.75, 2025.

A duração e a intensidade do hábito de sucção não-nutritiva são determinantes para a gravidade das alterações orofaciais, que incluem mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, sobremordida reduzida e sobressaliência aumentada, com repercussões funcionais, estéticas e psicossociais. A intervenção antes dos quatro anos aumenta a probabilidade de autocorreção espontânea. Fatores como desmame precoce, uso prolongado de mamadeira, prematuridade, escolaridade materna e influência cultural favorecem a manutenção do hábito. Entre as estratégias de cessação, destacam-se aparelhos interceptivos (grade palatina e arco palatino), reforço positivo e negativo, materiais educativos e aconselhamento familiar. A prevenção depende de abordagem multidisciplinar, educação contínua dos cuidadores e monitoramento clínico.

Neves e Barbosa (2025)

Revisão integrativa de literatura com pesquisa bibliográfica descritiva, realizada nas bases SciELO, Google Acadêmico e PubMed. Foram identificados inicialmente 9.911 resultados; após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão (artigos em português ou inglês, de 2010 a 2025), chegou-se a 63 estudos, dos quais 20 foram incluídos para a revisão final.

A chupeta foi o hábito de sucção deletéria mais prevalente, com frequência entre 30,8% e 70,8% em crianças de 4 meses a 13 anos. O uso prolongado leva a mordida aberta anterior (alteração mais prevalente), mordida cruzada posterior, atresia maxilar, verticalização dos incisivos inferiores, vestibularização dos incisivos superiores e interposição lingual. Crianças com aleitamento materno por mais de 6 meses apresentaram menor propensão a desenvolver hábitos de sucção não nutritiva. A chupeta convencional mostrou-se mais prejudicial que a ortodôntica, porém ambas causam danos quando o hábito é prolongado. A abordagem multidisciplinar e a orientação precoce aos pais são fundamentais para cessação do hábito e prevenção das más oclusões.

Costa (2025)

Revisão integrativa da literatura com busca nas bases BVS Brasil, PubMed, LILACS, SciELO e BBO, utilizando os descritores 'dental caries', 'children' e 'incidence', com o operador booleano AND. Busca limitada a publicações de 2019 a 2025. Seleção seguiu os critérios PRISMA, com dois revisores independentes.

A cárie precoce na infância (CPI) apresenta prevalência de 46,8% em crianças até 5 anos no Brasil, com disparidades regionais. As estratégias preventivas mais eficazes combinam uso racional de fluoretos, educação em saúde bucal, controle da dieta açucarada e intervenções precoces como pré-natal odontológico e primeira consulta antes do primeiro ano de vida. A abordagem multidisciplinar e tecnologias comportamentais como entrevista motivacional potencializam os resultados. Programas como 'Bebê-Clínica' podem reduzir a necessidade de tratamento curativo em até 82%.

Silva et al. (2025)

Revisão de literatura baseada em análise de 40 artigos científicos, livros e documentos institucionais. Busca realizada na BVS (BIREME) e Google Acadêmico, com palavras-chave: 'alterações bucais e hábitos orais deletérios', 'hábitos nocivos, chupeta e mamadeira' e termos correlatos. Artigos selecionados entre 2015 e 2025, em língua portuguesa. Publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (REASE), v.11, n.11, novembro de 2025.

O uso prolongado de chupetas e mamadeiras está fortemente associado ao desenvolvimento de distúrbios oclusais e alterações no crescimento craniofacial. As principais repercussões incluem mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, palato ogival, protrusão dos incisivos superiores, hipodesenvolvimento de mandíbula e maxila, alterações na fonação (ceceio), deglutição atípica, respiração bucal e cárie de mamadeira. O aleitamento materno, ao promover intensa atividade muscular orofacial, favorece o desenvolvimento craniofacial adequado. O uso de mamadeira reduz a atividade muscular orofacial e favorece desequilíbrios funcionais. A orientação preventiva deve ser iniciada no pré-natal, com capacitação multiprofissional e abordagem interdisciplinar. Quando os hábitos persistem durante a dentadura mista, seus efeitos sobre o crescimento ósseo são significativos e de difícil reversão.

A prevalência elevada desses hábitos na infância foi documentada de forma consistente pelos estudos selecionados. Silva et al. (2020), ao avaliarem 100 crianças escolares por meio de exame clínico intrabucal, verificaram que 93% dos participantes apresentavam ao menos um hábito bucal deletério, com destaque para o uso prolongado de chupeta, identificado em 68% da amostra. Neves e Barbosa (2025), por sua vez, em revisão integrativa abrangendo estudos com crianças de 4 meses a 13 anos, identificaram frequências de uso de chupeta que variaram entre 30,8% e 70,8%, o que reforça a ampla disseminação desse comportamento em diferentes faixas etárias e contextos populacionais. Esses achados são convergentes com os dados apresentados por Carvalho et al. (2020), que evidenciaram que crianças desmamadas precocemente apresentam chance quatro vezes maior de desenvolver o hábito de uso de chupeta, estabelecendo uma cadeia causal entre a interrupção do aleitamento materno, a adoção de hábitos substitutos e a instalação de alterações oclusais.

A análise qualitativa dos estudos revelou que a maloclusão mais frequentemente associada à prática de hábitos de sucção não nutritiva é a mordida aberta anterior, seguida pela mordida cruzada posterior. Silva et al. (2020) identificaram mordida aberta anterior em 24% das crianças avaliadas, sendo que 82,3% daquelas com esse diagnóstico apresentavam histórico de uso prolongado de chupeta. Esse dado corrobora os achados de Tork e Cardoso (2022), que, em revisão de literatura, verificaram que crianças usuárias de chupeta apresentavam risco quase cinco vezes superior de desenvolver mordida aberta em comparação àquelas que não faziam uso do dispositivo, enquanto as praticantes de sucção digital demonstraram risco três vezes maior. Oliveira e Nogueira (2024) complementam essa análise ao indicarem que crianças com uso de chupeta por período superior a três anos apresentaram 5,25 vezes mais chance de desenvolver mordida aberta, sublinhando que a variável temporal é determinante na magnitude das repercussões oclusais.

Os mecanismos biomecânicos que explicam essa associação estão relacionados à introdução de forças mecânicas não fisiológicas sobre as estruturas dentárias e ósseas em formação. Gisfrede et al. (2016) descrevem que a presença constante de um objeto na cavidade oral altera o tônus da musculatura perioral e intra oral, comprometendo o equilíbrio das forças exercidas por lábios, bochechas e língua sobre os dentes. Esse desequilíbrio interfere diretamente no processo de erupção dentária, favorecendo o desenvolvimento de mordida aberta anterior pela inibição mecânica do contato entre incisivos superiores e inferiores.

No caso da sucção digital, Carvalho et al. (2020) destacam que a pressão exercida pelo dedo sobre as estruturas palatinas e sobre os incisivos superiores promove sua vestibularização progressiva, ao mesmo tempo em que a língua posicionada sobre os incisivos inferiores favorece sua inclinação lingual, resultando em sobressaliência aumentada e perfil esquelético compatível com padrão Classe II de Angle.

A mordida cruzada posterior, segunda alteração mais frequentemente identificada nos estudos, apresenta mecanismo etiológico distinto da mordida aberta anterior, embora ambas decorram da ação de hábitos de sucção não nutritiva. Morais, Ladeira e Alves-Costa (2025) explicam que essa maloclusão resulta da modificação do tônus da musculatura elevadora da mandíbula e da redução da pressão exercida pela língua sobre a abóbada palatina, favorecendo a constrição transversal da maxila e a instalação de mordida cruzada.

Esse achado é de especial relevância clínica, uma vez que, diferentemente da mordida aberta anterior, a mordida cruzada posterior não apresenta potencial de autocorreção após a interrupção do hábito, exigindo intervenção ortodôntica ativa para sua resolução (OLIVEIRA; NOGUEIRA, 2024; NEVES; BARBOSA, 2025). Sendo assim, essa distinção impõe maior urgência na identificação e interrupção precoce dos hábitos antes que alterações transversais se consolidem.

Um aspecto central convergente entre os estudos analisados refere-se à idade como variável moduladora do prognóstico das alterações oclusais instaladas. A literatura é consistente ao indicar que, até os três ou quatro anos de vida, existe possibilidade razoável de autocorreção espontânea das maloclusões, desde que o hábito seja interrompido nesse período (ANDRADE et al., 2020; TORK; CARDOSO, 2022; MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

Logo, Gisfrede et al. (2016) ressalta, fundamentados na teoria de Graber, que hábitos removidos antes dos três anos tendem a não deixar sequelas permanentes nas estruturas dentárias, ao passo que sua persistência durante a fase inicial da dentição mista (período em que os incisivos permanentes estão irrompendo) potencializa significativamente o risco de comprometimento definitivo da oclusão. Fonseca et al. (2023) reforçam essa perspectiva ao afirmarem que os hábitos deletérios atuam como fatores deformantes do crescimento ósseo justamente porque as estruturas craniofaciais apresentam elevada plasticidade na infância, tornando-as mais susceptíveis, mas também mais responsivas às intervenções precoces.

O papel do aleitamento materno como fator protetor contra a instalação de hábitos de sucção não nutritiva e, consequentemente, contra as maloclusões, emerge como achado de expressiva relevância clínica nos estudos revisados. Antunes et al. (2015), em estudo transversal realizado com 443 crianças, verificaram que o aleitamento artificial esteve significativamente associado ao hábito de sucção de chupeta (OR 0,12; p<0,01) e à mordida aberta anterior (OR 0,15; p<0,01), demonstrando que a privação do estímulo adequado da musculatura orofacial promovido pela amamentação natural favorece a busca por mecanismos compensatórios de sucção.

Logo, Carvalho et al. (2020) corroboram esse achado ao verificarem relação inversa entre o tempo de aleitamento materno e a prevalência de hábitos bucais deletérios, enquanto Silva, Lima e Barbosa (2025) enfatizam que a amamentação promove a atividade neuromuscular coordenada necessária para o desenvolvimento equilibrado do sistema estomatognático, prevenindo tanto a instalação dos hábitos quanto as maloclusões deles decorrentes.

Os impactos das maloclusões associadas a hábitos bucais deletérios não se restringem ao âmbito estrutural e funcional, estendendo-se às dimensões psicossociais do desenvolvimento infantil. Silva et al. (2021), em revisão integrativa que analisou estudos com crianças e adolescentes, evidenciaram que alterações oclusais, especialmente aquelas que comprometem a estética do sorriso e a fonética, estão associadas a maior vulnerabilidade ao bullying, baixa autoestima, ansiedade social e dificuldades de interação com pares. Essas repercussões são potencializadas durante a adolescência, fase em que a aparência física assume papel central na construção da identidade social. Esse conjunto de dados reforça a necessidade de uma abordagem que transcenda o diagnóstico odontológico e incorpore a perspectiva multidisciplinar, envolvendo profissionais de psicologia, fonoaudiologia e pediatria na gestão dos casos (ANDRADE et al., 2024; MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025).

As estratégias de intervenção para a cessação dos hábitos de sucção não nutritiva, identificadas nos estudos revisados, incluem abordagens comportamentais, educativas e ortodônticas interceptativas. Tork e Cardoso (2022) e Morais, Ladeira e Alves-Costa (2025) apontam que técnicas de reforço positivo e negativo, associadas ao aconselhamento familiar sistemático, apresentam efetividade comprovada na redução gradual e sustentada dos hábitos, especialmente quando implementadas antes dos quatro anos de vida. Em casos nos quais o hábito persiste após essa fase, a grade palatina e o arco palatino são dispositivos ortodônticos amplamente indicados como barreiras mecânicas que dificultam a manutenção da sucção digital, promovendo simultaneamente o reposicionamento dentário e a reeducação funcional das estruturas orofaciais (MORAIS; LADEIRA; ALVES-COSTA, 2025). Costa (2025) destaca que programas como o Bebê-Clínica demonstram capacidade de reduzir em até 82% a necessidade de tratamento curativo quando a abordagem preventiva é implementada de forma sistemática desde os primeiros meses de vida, o que evidencia que o investimento em estratégias preventivas produz impactos clínicos expressivos.

A educação em saúde voltada aos cuidadores foi identificada de forma recorrente nos estudos como componente indispensável para o sucesso das intervenções. Gisfrede et al. (2016) e Silva, Lima e Barbosa (2025) ressaltam que a persistência dos hábitos deletérios frequentemente decorre do desconhecimento dos pais acerca de suas consequências, bem como da percepção cultural de que o uso de chupeta e a sucção digital são comportamentos inofensivos ou mesmo benéficos para o desenvolvimento emocional da criança.

A transformação dessas crenças exige uma abordagem comunicativa sensível ao contexto sociocultural da família, baseada em linguagem acessível e evidências científicas. Nesse sentido, as consultas odontológicas realizadas desde o primeiro ano de vida configuram-se como oportunidades estratégicas para a identificação precoce dos hábitos, a orientação dos responsáveis e a implementação de medidas preventivas individualizadas, conforme preconizado por autores como Costa (2025) e Antunes et al. (2015).

Dessa forma, os resultados desta revisão integrativa demonstram que a associação entre hábitos bucais deletérios de sucção não nutritiva e maloclusões em crianças é robusta, multidimensional e clinicamente relevante. A convergência das evidências indica que a prevenção, ancorada no incentivo ao aleitamento materno, na orientação precoce aos cuidadores e no monitoramento clínico contínuo do desenvolvimento orofacial, constitui a estratégia mais eficaz para reduzir a incidência e a gravidade das maloclusões associadas a esses hábitos.

Quando a prevenção não é suficiente, a intervenção precoce, conduzida de forma multidisciplinar e baseada em evidências, apresenta melhores prognósticos e menor complexidade terapêutica do que as abordagens tardias. Esses achados respondem diretamente à pergunta norteadora deste estudo, confirmando que o uso de chupeta e a sucção digital exercem influência significativa e documentada sobre o desenvolvimento oclusal infantil, e que a odontopediatria preventiva dispõe de ferramentas eficazes para mitigar seus efeitos quando aplicadas de forma sistemática e oportuna.

CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão confirmou que o uso prolongado de chupeta e a sucção digital são fatores etiológicos relevantes para o desenvolvimento de maloclusões em crianças, especialmente mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior. A magnitude dessas alterações é diretamente proporcional à duração, frequência e intensidade dos hábitos, conforme estabelecido pela tríade de Graber.

Entre as maloclusões identificadas, a mordida cruzada posterior merece atenção especial, pois não apresenta potencial de autocorreção após a remoção do hábito, exigindo intervenção ortodôntica ativa. Já a mordida aberta anterior pode se resolver espontaneamente quando o hábito é interrompido antes dos três a quatro anos de vida, evidenciando a importância da identificação e intervenção precoces.

O aleitamento materno demonstrou ser um fator protetor significativo, reduzindo a propensão ao desenvolvimento de hábitos de sucção não nutritiva e, consequentemente, das maloclusões a eles associadas. Crianças desmamadas precocemente apresentaram risco consideravelmente maior de adotar hábitos substitutos, reforçando a importância do incentivo à amamentação como medida preventiva primária.

Conclui-se que a prevenção, fundamentada na orientação precoce de pais e cuidadores, no incentivo ao aleitamento materno e no monitoramento clínico contínuo do desenvolvimento orofacial, é a estratégia mais eficaz disponível. Quando necessária, a intervenção deve ser conduzida de forma multidisciplinar, com a participação de odontopediatras, fonoaudiólogos, pediatras e psicólogos, garantindo melhores prognósticos e menor complexidade terapêutica.

REFERÊNCIAS

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ANDRADE, Mateus Araújo et al. Relação entre oclusopatias e hábitos parafuncionais na primeira infância. Research, Society and Development, v. 9, n. 7, p. e484974260-e484974260, 2020.

ANTUNES, Leonardo dos Santos et al. Avaliação da relação causal entre a presença de hábitos bucais deletérios, tipo de aleitamento e maloclusões em crianças na dentadura decídua. UNOPAR Cient., Ciênc. biol. saude, p. 75-80, 2015.

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COSTA, Carolina Martins de Sales. Odontopediatria preventiva: estratégias multidisciplinares para redução da cárie infantil. Revista Acadêmica Online, v. 11, n. 57, p. e1469-e1469, 2025.

FONSECA, Ariane da et al. Os hábitos bucais deletérios e o desenvolvimento das más oclusões em crianças. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 23, n. 7, 2023.

GISFREDE, Thays Ferreira et al. Hábitos bucais deletérios e suas consequências em Odontopediatria. Revista Brasileira de Odontologia, v. 73, n. 2, p. 144, 2016.

MORAIS, Josefa Lauany; LADEIRA, Lorena Lúcia Costa; ALVES-COSTA, Silas. Hábitos de sucção não-nutritiva e suas repercussões no desenvolvimento orofacial infantil: uma revisão narrativa da literatura. Revista Delos, v. 18, n. 75, p. e8118-e8118, 2025.

NEVES, Eduarda; BARBOSA, Carlos. O impacto do hábito de sucção nutritiva e o uso prolongado de chupetas na formação dentária e suas consequências. Intrépido: Iniciação Científica, v. 4, n. 1, 2025.

OLIVEIRA, Julia Fochezatto; NOGUEIRA, Weber Adriano. Relação entre hábitos bucais deletérios e más-oclusões na infância. Journal of Multidisciplinary Dentistry, v. 14, n. 2, p. 61-8, 2024.

SILVA, Jadson Mathyas Domingos et al. Prevalência de maloclusões em crianças escolares e sua associação com hábitos bucais deletérios. Diversitas Journal, v. 5, n. 3, p. 1818-1827, 2020.

SILVA, Rebeca Vivy Brito; LIMA, Thayná; BARBOSA, Karina. Efeitos Do Uso Prolongado De Chupetas E Mamadeiras Na Oclusão E No Desenvolvimento Bucal Infantil. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 11, n. 11, p. 2058-2082, 2025.

SILVA, Savana Ranyella Correia et al. Impactos da maloclusão na qualidade de vida de crianças e adolescentes: uma revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 10, n. 8, p. e4510816910-e4510816910, 2021.

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TORK, Manuela Ribeiro De Sousa; CARDOSO, Rogério Luiz Da Costa. Mordida aberta anterior e habitos bucais deletérios: chupeta e sucção digital. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 4, n. 5, p. 02-13, 2022.

  1. Discente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Fainor Campus Vitória da Conquista - BA e-mail: jessicasantos1402@hotmail.com

  2. Discente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Fainor Campus Vitória da Conquista - BA e-mail: karolynebastos07@gmail.com

  3. Discente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Fainor Campus Vitória da Conquista - BA e-mail: luizaaraaujoluh01@gmail.com

  4. Docente do Curso Superior de Odontologia do Instituto Fainor Campus Vitória da Conquista. Especialista em prótese dentária (UNILESTE/ABO). e-mail: alesca@fainor.com.br

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