A história, a cultura e a religião japonesa e sua influência no psiquismo dos nikkeis.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

A proposta do presente trabalho é trazer conhecimento da história, cultura e religião japonesa e fazer um estudo sobre sua influência no psiquismo dos descendentes de japoneses no Brasil, os “nikkeis”. A descrição como foi realizada a adaptação territorial no Brasil pelos imigrantes japoneses na época apresenta uma compreensão da psiquê dos nikkeis e seus comportamentos para os profissionais da psicologia e às novas gerações de descendentes.

Palavras-chave: Cultura japonesa. Religião no Japão. História do Japão. Hiroshi Saito. Imigração japonesa no Brasil. Psiquê japonesa. Nikkei. Contos de fadas japoneses.

ABSTRACT

The purpose of this study is to bring knowledge of Japanese history, culture, and religion and to conduct a study on their influence on the psychism of Japanese descendants in Brazil, the "nikkeis." The description of how the territorial adaptation in Brazil was carried out by Japanese immigrants at the time provides an understanding of the nikkei psyche and their behaviors for psychology professionals and new generations of descendants.

Keywords: Japanese culture. Religion in Japan. History of Japan. Hiroshi Saito. Japanese immigration in Brazil. Japanese psyche. Nikkei. Japanese fairy tales.

INTRODUÇÃO

Segundo Haga (2018) nikkei ou nikkey é uma denominação genérica para os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão.

Com a vinda imigratória de japoneses no início do século XX ao Brasil, os imigrantes e seus descendentes precisaram se adequar a um novo e diferente modo de viver. Com isso, alguns se adaptaram, outros pretenderam voltar – o que resultou no movimento migratório de dekasseguis ao Japão no fim dos anos oitenta.

A identidade de um povo que foi emigrado de outro país é algo dinâmico e faz parte de um movimento contínuo que com o tempo vai se mesclando com outras culturas. Mas alguns valores, aspectos culturais permanecem na psiquê dos seus descendentes. Isso é observável no dia a dia dos nikkeis com a herança nipônica através do idioma com uso de alguns termos em japonês como batchan que significa avó e ditian que significa avô e arigatou (obrigado); na comida japonesa, hoje consumida por boa parte dos brasileiros nos grandes centros urbanos como sushi (bolinho de arroz) e sashimi (peixe cru); cultura pop – como os mangás que são os desenhos em quadrinhos japoneses e os animés que são os desenhos animados; e de alguns eventos japoneses como o Oshogatsu que é a comemoração do dia do ano novo.

Hoje muitos jovens adultos de ascendência japonesa se identificam fortemente com as suas raízes japonesas, porém desconhecem aspectos da sua própria psiquê e de seus familiares que fazem parte de um passado histórico não explorado. Este trabalho vem ao encontro com uma pesquisa transgeracional histórica com finalidade de elucidar o que está oculto.

O questionamento principal desse trabalho é: Qual a relação entre a história, a cultura, a religião, os mitos japoneses e como estão presentes na vida, no pensar e no comportamento dos descendentes de japoneses no Brasil?

Para chegar ao objetivo principal de estudo, as pesquisas foram realizadas a respeito do Japão e dos imigrantes japoneses no Brasil no início da sua colonização. Dentro desse contexto são destacadas pesquisas referentes aos estudos do pesquisador e sociólogo Hiroshi Saito.

Faz-se importante elucidar questões históricas e culturais aos profissionais da psicologia no entendimento da estrutura do psiquismo japonês, suas características, como o modo de pensar e agir se diferem dos povos ocidentais. Aumentar o conhecimento da cultura japonesa conhecida historicamente por ser “fechada”, e ampliar o olhar dos profissionais da psicologia aos descendentes de japoneses em possíveis sofrimentos psíquicos. Estes sofrimentos poderão estar relacionados com um passado étnico desconhecido; com uma falta de assimilação; com um conflito de gerações com princípios muito distintos dos atuais; com uma falta de atualização de ideias, atitudes e comportamentos. Conhecer a cultura de um povo tem uma relevante importância para o profissional da psicologia com intuito de propiciar melhor auxílio aquele que o (a) procura. Somente com o conhecimento, a discussão e a ampliação da comunicação é possível a realização desse trabalho.

E não somente, mas inclusive, trazer a este corpo acadêmico a desmistificação da cultura nipônica; por se tratar de um ambiente étnico-racial diverso este tema faz-se imprescindível.

DESENVOLVIMENTO

Metodologia

A metodologia utilizada foi a Revisão Bibliográfica de textos dos autores como Kawai – A Psique Japonesa; Maejima – Preconceito e trauma no processo migratório dekassegui; Almeida e Nakao – Amae: uma emoção para compreender a psique japonesa; entre outros. As pesquisas descrevem os trabalhos publicados de autores ao longo de 26 anos.

O tipo de pesquisa realizada foi uma Revisão de Literatura, onde foram pesquisados livros, teses, dissertações, artigos científicos, boletins e artigos de revistas selecionados através de busca.

Resultados

Para elucidar esse entendimento do Japão e a imigração que ocorreu no Brasil, quatro pilares foram importantes nesse estudo: a história, a cultura, a religião e Hiroshi Saito.

2.2.1 História do Japão e a imigração japonesa no Brasil

Historicamente, foi na Era Meiji (1868-1912) que o Japão iniciou sua expansão territorial. Antes, o país foi precedido pelo Período Edo (1603-1868), um período fechado em que o xogunato (representado pelo líder, o xogum) detinha o poder político; o imperador existia, mas seu papel era representativo. O Japão vivia uma política isolacionista e tinha como características as hierarquias bem definidas e a atuação dos samurais. Com a abertura do comércio internacional o xogunato caiu e a Era Meiji foi anunciada em 1867. A Restauração Meiji marcou o período com o início da industrialização do Japão e mudanças nas áreas do governo, educação, economia, religião entre outros (LEMOS e RIBEIRO, 2018).

Segundo Tashima e Torres (2016) a imigração japonesa foi iniciada no Brasil em 1908 com a chegada do navio Kasato Maru no porto de Santos, estado de São Paulo. Inicialmente os dirigentes do Japão e Brasil fizeram um acordo - o Tratado de Amizade, Comércio e Brasil em 1895 - em que havia interesses de ambos os países. O Japão passava por problemas de aumento populacional e desemprego, já o Brasil precisava de mão de obra nas lavouras de café; sendo que o trabalho escravo havia sido abolido e a imigração de famílias europeias havia sido interrompida. (TASHIMA e TORRES, 2016 apud SAKURAI, 2000). A imigração japonesa foi caracterizada por ser uma imigração familiar pois era obrigatória a vinda de famílias com três a dez pessoas capacitadas para o trabalho (TASHIMA e TORRES, 2016). Foram estabelecidas colônias agrícolas de japoneses nos estados de São Paulo e Paraná e as dificuldades da língua, hábitos, costumes e adaptação se tornaram evidentes. Nesse período o Governo Getúlio Vargas restringiu a liberdade das colônias estrangeiras e proibiu o ensino de idiomas estrangeiros para privilegiar a língua portuguesa. (TASHIMA e TORRES, 2016, p. 5 apud SEYFERTH, 2000). Por volta de 1930 os primeiros descendentes de japoneses com nacionalidade brasileira nasceram e a tolerância aos casamentos interétnicos era maior. (TASHIMA e TORRES, 2016, p. 5 apud SAITO, 1980). Os japoneses e seus descendentes lutaram para preservar suas origens e ao mesmo tempo se adaptar a cultura brasileira.

De acordo com Sakurai (1998, p. 7) “As reações dos japoneses perante o Brasil são de total estranhamento a tudo que os rodeia. O clima, a língua, a alimentação...” A autora pontua que entre 1908 até a II Guerra Mundial foi um período de grande importância na construção da identidade dos imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil. A imigração para o Brasil foi vista como imigração tutelada, pois foi orientada, subsidiada e estimulada pelos governantes do Japão.

Historicamente o primeiro período da imigração japonesa no Brasil ocorreu entre 1908 e 1923 – apesar das diferenças culturais tão distintas, um dos fatores que proporcionaram aos primeiros imigrantes uma vantagem competitiva foi sua contribuição com o desenvolvimento da agricultura; pois eles já a praticavam em sua terra natal. Abaixo uma tabela com a quantidade e porcentagem de imigrantes japoneses que havia no Brasil no período entre 1908 e 1963 (SAKURAI, 2000 apud SUZUKI, 1969).

Tabela 1 - A Imigração Japonesa ao Brasil por período %

Fonte: Sakurai (2000)

O segundo período entre 1924 e 1941 foi o mais significativo para a imigração japonesa no Brasil com a entrada de 137.472 imigrantes. O governo japonês incrementou a vinda de japoneses e suas famílias, foram criadas companhias estatais de emigração japonesas como a K.K.K.K. – Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha, BRATAC e Tozan (SAKURAI, 2000). Essas companhias controladas pelo governo japonês interviam e controlavam os principais setores da economia – época do governo japonês Meiji. Além dos imigrantes serem contratados pelas fazendas de café, agricultores se tornaram independentes e formaram colônias com a finalidade de enriquecer e obter ascensão social. O sonho que alguns imigrantes tinham de retornar ao Japão acabou ficando em segundo plano, encarando o Brasil como um local de fixação, definitivo. A produção de algodão pelos imigrantes japoneses começou a crescer e se mostrou como uma alternativa de exportação ao país (SAKURAI, 1998).

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar da escassez de mão-de-obra, o governo brasileiro não incentivou a imigração, as diferenças étnicas, físicas e culturais foram fatores de discussão sobre a integração de trabalhadores japoneses à cultura local. Durante o século XIX predominou na sociedade brasileira o ideal de branqueamento da população, houve grande resistência à entrada de asiáticos no país, como explicado no decreto de 28/6/1890 que vigorou até o início do século XX em que restringia a entrada desses imigrantes no Brasil.

Hoje aproximadamente 2 milhões de descendentes de japoneses vivem em territórios brasileiros segundo Ministério do Turismo.

2.2.2 Cultura japonesa

Kebbe (2016, p. 2) discorre que o termo “família japonesa” ou “família tradicional japonesa” é um sistema de organização familiar característico do Japão, e que apesar de 115 anos desde o início da imigração japonesa no país, ainda o encontramos no Brasil. Para entender essa organização familiar que não se define unicamente pela consanguinidade, o autor esmiúça a sociologia interna da família nipônica. “O ideograma ie (家) apresenta a junção de dois radicais, o superior representando teto e o inferior pessoas, indicando, portanto, a proteção de determinadas pessoas sob determinado teto” (KEBBE, 2016). O ie seria Casa e Família, e suas características seriam a tangibilidade (posses e bens materiais do grupo) e intangibilidade (sistema de organização hierarquizado no qual as pessoas pertencem) (KEBBE, 2016 apud BHAPPU, 2000).

Esse sistema familiar possui eixos condutores como a harmonia, unidade e paz familiar; dois termos são usados como regras e deveres: e on. pode ser traduzido como amor filial, respeito aos pais, principalmente ao patriarca da família ou kachõ; on seria dever de gratidão. Na cultura japonesa o kachõ é o responsável pelo status de seu ie dentro da sociedade, sua esposa é a responsável pela boa conduta dos afazeres domésticos e transmissão das tradições. Já o filho mais velho, chonan é responsável pelos cuidados do ie e dos pais e avós. Desde cedo os membros da família são dispostos nesse sistema de organização familiar e estabelece funções e expectativas que transcendem passado, presente e futuro (KEBBE, 2016 apud BENEDICT, 1946).

Na psicologia cultural japonesa encontramos a palavra AMAE que possui o conceito de uma emoção; segundo Almeida e Nakao (2020 apud BEHRENS, 2004), o amae pode ser categorizado em amae positivo – afetivo, manipulativo e recíproco; e amae negativo – obrigatório e presuntivo. Os japoneses apresentam relações codependentes ou interdependentes comparados a outros povos como os americanos. Portanto podemos classificar o self japonês como interdependente, o qual depende das relações com os indivíduos à sua volta e a harmonia faz parte do amae. “...experimentar amae em relação a outra pessoa pode ser inerente à formação e manutenção de uma relação interdependente recíproca mútua com outra pessoa ...a aceitação ou rejeição de amae pode determinar se o futuro de um relacionamento será positivo ou negativo, trazendo consequências diretas para o self (ALMEIDA e NAKAO, 2020 apud MARKUS e KITAYAMA, 1991, p. 224-253).

Outro termo usado pelo povo japonês é ganbatte/ganbaru. Ganbaru é o verbo e ganbatte sua forma imperativa. O significado é esforçar-se, um esforço que envolve algum tipo de renúncia em prol de um objetivo maior, e que para alcançá-lo requer tempo e paciência. No Japão essa palavra é usada como forma de incentivo e encorajamento para as pessoas nos mais diversos contextos: escolar, trabalho, esporte ou outra atividade da vida (HAGA, 2018 apud KAWANAMI, 2012).

Hayao Kawai (2007) foi o primeiro psicólogo junguiano do Japão e fez um importante trabalho associando a psique japonesa com os contos de fadas japoneses. Ele apresenta neste livro as semelhanças e diferenças entre os japoneses e os povos ocidentais através do folclore e mitologia, seu foco se dá na força das figuras folclóricas femininas e como elas podem ser consideradas enquanto representantes do ego japonês. Alguns exemplos são a deusa-sol Amaterasu, a rainha Pimiko e as poderosas xamãs dos templos xintoístas que são representações da figura feminina na psique japonesa. O autor apresenta dois elementos que fazem parte da cultura japonesa: o urami – que representa o ressentimento e aware – que significa uma leve tristeza sem esperança. No Ocidente o fundamento da realidade é o ser e para o Oriente é o sem forma. Além das figuras femininas oriundas do imaginário japonês como esposas não humanas, mulheres persistentes, insistentes ou determinadas, entre outras. No livro “A psique japonesa: grandes temas dos contos de fadas japoneses”, Kawai (2007) destaca uma importante observação a respeito do não-ego dos japoneses: no Ocidente o Deus é único, o criador de tudo, já no Japão de acordo com a mitologia japonesa é o nada ou o vazio. “O nada absoluto não exige nenhuma “compensação”, ao contrário do Deus solitário personalizado no Ocidente. O próprio nada já significa uma completude” (KAWAI 2007, p. 213). O autor utilizou a análise dos mitos japoneses para compreender a psique japonesa e a complexidade do pensamento japonês.

2.2.3 Religião japonesa no Japão e no Brasil

Segundo a embaixada do Japão no Brasil, “quando o Budismo foi introduzido no Japão no século VI, as crenças Xintoístas e Budistas começaram a interagir”. Outras religiões como o Confucionismo e o Taoísmo também desempenharam importante papel na sociedade japonesa. O Xintoísmo é traduzido como “caminho dos deuses” em que os deuses são parte de todas as formas de vida e se manifestam em diversas formas. O Budismo no Japão é conhecido pelas escolas Zen e Nichiren. Já o Cristianismo em 2006 somavam 3,03 milhões de pessoas, que seria menos de 2,4% da população de acordo com a Embaixada do Japão no Brasil. Um possível motivo para a baixa adesão ao Cristianismo seria a crença exclusiva em um único Deus e a renúncia ao politeísmo mais brando do Xintoísmo e do Budismo japonês.

Já no Brasil de acordo com Uehara (2009) as religiões japonesas que mais se destacam por suas influências mais antigas são o Xintoísmo (Shintô) e o Budismo (Bukkyô) entre os descendentes.

Pode-se dizer que no início da colonização até a II Guerra as religiões japonesas estavam focadas às colônias - o issei (imigrante japonês); a partir dos anos 50 passaram a conceder mais importância aos nikkeis (descendentes de japoneses) (PEREIRA, 2001, p. 101).

Segundo Clarke (2008) os imigrantes que chegaram ao Brasil não tiveram interesse em praticar as religiões japonesas, eles acreditavam que as religiões do Japão pertenciam apenas ao contexto do país. Conforme os imigrantes foram ficando no Brasil, um dos aspectos importantes foi a necessidade de introduzir os ritos funerais ancestrais executados de forma correta de acordo com a tradição das novas gerações.

A partir da década de 50, três religiões japonesas começaram a disseminar seus ensinamentos no Brasil: a Soka Gakkai, a Igreja Messiânica, e a Seicho No Ie. A Soka Gakkai (Sociedade Educacional de Criação de Valores) foi fundada por Tsunesaburo Makiguchi em 1937. Suas bases são o Budismo Mahayana e os preceitos do Sutra de Lótus. Aqui não é pregado Deus como criador e não há impedimento do membro frequentar outras religiões como a Católica ou Umbanda. A Igreja Messiânica Mundial foi fundada por Mokichi Okada em 1938 em Tóquio e no Brasil em 1955. Okada pregava que o propósito da religião seria a busca da harmonia e eliminação do conflito com intuito de melhorar a vida das pessoas; como características, a inclusão e viver de acordo com as leis da natureza. Ele ainda acreditava na construção de modelos de paraíso na terra, empreendeu em museus de arte e papel no Japão e fazia parte da sua filosofia a distribuição de flores como método de aumentar o nível de consciência espiritual entre as pessoas. A Seicho No Ie significa “Lar do Progredir Infinito”, foi fundada em 1930 por Masaharu Taniguchi (1893-1988), no Brasil está presente desde a década de 50. Ela ensina que os seres humanos têm uma relação filial com o divino e a doença e o pecado seriam resultados de distorções dessa relação (CLARKE, 2008, p. 27-42).

Além dessas, há a Instituição Religiosa Perfeita Liberdade e Tenrikyio (UEHARA, 2009).

Depois da Segunda Guerra Mundial, missionários de escolas budistas tradicionais japonesas chegaram ao Brasil – Jôdo Shinshû, Jôdo-Shû, e as correntes do Zen: Nighiren e Shingon (USARSKI, 2002).

As religiões japonesas na sua maioria ou são politeístas (acreditam em vários deuses) e/ou possuem raízes no Budismo – em que a interiorização faz parte da sua premissa. De acordo com Silveira (2013 apud JUNG, 1988), a cultura oriental é predominantemente introvertida e a ocidental extrovertida. Partindo desse princípio, as religiões ocidentais focam em Deus como seu salvador; já para as religiões orientais a busca pelo autoconhecimento é a partir da interiorização de cada ser, do seu inconsciente e não fora.

2.2.4 Hiroshi Saito

Hiroshi Saito foi um imigrante japonês que se formou sociólogo em solo brasileiro, fez pesquisas a respeito da integração dos imigrantes japoneses no Brasil. Foi professor da ELSP Escola Livre de Sociologia e Política e um dos renomados pesquisadores sobre os imigrantes japoneses e seus processos de inserção na sociedade brasileira. Seu trabalho foi baseado na compreensão de três aspectos principais: adaptação ao novo meio (adaptação biológica e acomodação ao ambiente), o fator econômico e o fator social (ambos sob a análise da mobilidade espacial, ocupacional e status) (COTRIM, 2016, p. 121 apud SAITO, 1961, p. 15).

Cotrim (2016 apud SAITO,1961) defende que o indivíduo ao ingressar em uma nova cultura, não irá abandonar sua cultura e sim adquirir novos hábitos na medida que seja necessário para sua inserção na sociedade local. Ele define esse processo como assimilação e vai acontecendo durante toda a vida do indivíduo. A assimilação é um dos conceitos mais importantes para entendermos os trabalhos da década de 1940 e 1950 sobre imigrantes. A assimilação tem a ver com um “processo de interpenetração e fusão de culturas, isto é, de tradições, sentimentos, atitudes de pessoas e de grupos que, partilhando da mesma experiência e história, se incorporam numa vida cultural comum” (COTRIM 2016, apud BALDUS e WILLEMS, 1939). A assimilação depende do tempo de cada pessoa, podendo levar mais ou menos tempo. Já a aculturação se refere quando o indivíduo tem contato com outros de culturas diferentes e ocorrem mudanças nos seus padrões originais.

Segundo Cotrim (2016 apud WILLEMS e SAITO, 1947, p. 133) em 1945 foi criada uma sociedade secreta chamada “Shindô-Renmei” que era contra as novas leis brasileiras e iniciaram conflitos entre a própria comunidade japonesa. Estas leis proibiam o não uso da língua portuguesa nos materiais didáticos e informativos destinados à comunidade japonesa no Brasil. Apesar dos esforços, essa sociedade foi extinta pois os mais jovens estavam assimilando o novo meio de vida no Brasil e tinham pouco contato com a cultura japonesa fora do seu ambiente familiar.

Outro ponto importante pesquisado pela autora foram os casos de suicídio entre os imigrantes japoneses. De acordo com a cultura japonesa, a honra seria um fator de grande importância na vida do indivíduo; caso este não conseguisse se adaptar, se tivesse problemas de ordem pessoal, financeira, o suicídio seria uma maneira de justificar faltas e erros cometidos. A Tabela 2 apresenta uma pesquisa que Saito (1952) realizou com dados do Jornal Paulista entre janeiro de 1947 e agosto de 1952 sobre os casos de suicídio e seus motivos.

Tabela 2 – Motivos identificados para os casos de suicídio entre os imigrantes japoneses no Brasil

Fonte: Cotrim (2016)

De acordo com a pesquisa dos 74 casos de suicídio no período, o motivo predominante foram as questões de honra com 10 casos relatados. A não-adequação em um contexto social seria um fator importante para o japonês (e seus descendentes), algo que lhe trouxesse vergonha como a desonra seria um motivo para dar fim a vida.

Portanto a criação de uma sociedade secreta e o suicídio entre os imigrantes japoneses foram comprovações da não assimilação, os motivos seriam as dificuldades financeiras, choques culturais, desilusões amorosas, sentimentos nacionalistas e dificuldade pela própria língua.

Discussão

Como a imigração se iniciou no começo do século XX há ainda descendentes da segunda geração vivos no Brasil. Esses indivíduos são testemunhas da influência da história, cultura e religião japonesa em seus psiquismos e nos de seus descendentes.

De acordo com Cotrim (2020 apud Saito 1961), alguns indivíduos após terem emigrado para o Brasil ainda jovens, conservaram traços da cultura japonesa e adotaram outros da brasileira, são indivíduos que estariam entre dois mundos, mas não pertenciam a nenhum dos dois. Esses fatores foram importantes na formação psíquica das gerações de brasileiros decentes pós segunda guerra mundial. Havia a herança de um luto inacabado da terra natal com sentimento de não pertencimento à nova moradia para alguns. O movimento dekassegui no fim dos anos oitenta traz essa característica de retorno ancestral de algo que ficou para trás, mas que não havia uma garantia de trazer de volta o que foi deixado.

Em relação à cultura temos o conceito de não-ego pelos japoneses (KAWAI, 2007, p. 213) e o self interdependente de uns com os outros, “...tendem a se definir a partir das suas relações com indivíduos à sua volta, vendo a si mesmo como uma parte inseparável do seu contexto social, agindo e se motivando contextualmente” (ALMEIDA e NAKAO, 2020) - representa a importância da harmonia entre os seus pares de convívio. Essas são características importantes que os diferem dos brasileiros e povos ocidentais no geral.

O entendimento da identidade dos “nikkeis” envolve a leitura do simbólico, histórico, social, político e a interpretação de vários elementos que fazem parte desse contexto mutável, não estático na realidade contemporânea.

CONCLUSÃO

Os movimentos migratórios e históricos por motivos políticos, econômicos ou identitários sempre ocorreram e ainda ocorrem por diversos povos no mundo todo. A pesquisa, o estudo e o entendimento dos temas apresentados nesse trabalho – em particular dos japoneses – mostram a necessidade da compreensão sistêmica de uma etnia principalmente pelos profissionais da psicologia. Como a nível individual e coletivo os nikkeis fizeram e fazem essas interações de conhecimentos étnicos com seus pares.

Diferenças culturais, temáticas como racismo, formas de expressar as emoções, formas de expressar as verdadeiras opiniões - quando compreendidos por um profissional de saúde mental - podem proporcionar uma melhor aceitação e convívio, seja em um contexto familiar, pessoal, profissional ou identitário no atendimento àqueles que as (os) procuram.

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  1. Acadêmica do curso de Psicologia da Universidade Anhanguera.

  2. Docente do curso de Psicologia da Unidade São Paulo/SP – Campus Marte Unian.

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