Administração com propósito: caminhos do bem
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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ABSTRACT

This article presents the results of a university extension project carried out by students of Module VI of the Bachelor’s Degree in Administration at the Federal Institute of Piauí (IFPI), Campus São João do Piauí, during the second semester of 2025. The project, entitled Administration with Purpose: Paths of Good, was developed under the guidance of the professor of the Extension discipline and involved the collaboration of other faculty members in its execution. The initiative was conducted in partnership with the Nova Vida Therapeutic

Community, located in the surroundings of the municipality of João Costa-PI, near São João do Piauí. This institution is dedicated to the reception and social reintegration of people in situations of chemical dependency. The project included actions such as fundraising, professional training, and community integration, applying principles of Administration in an inclusive and dynamic social context. The analysis and relevance of university extension as an instrument of social transformation and comprehensive student education are addressed in this article, structured into introduction, theoretical foundation, and final considerations, offering a reflective overview of the work.

Keywords: Extension. University. Transformation. Social. Projecto

Introdução

A universidade brasileira fundamenta-se em três pilares essenciais: ensino, pesquisa e extensão. A extensão universitária, especificamente, desempenha papel estratégico ao promover a interação entre a instituição de ensino e a sociedade, permitindo que o conhecimento acadêmico seja aplicado na busca por soluções para problemas reais. Nesse sentido, a extensão contribui para a formação integral do estudante, estimulando a cidadania, empatia e compromisso social (MEC, 2001; SANTOS, 2004).

Mais do que um eixo complementar, a extensão universitária representa um espaço de diálogo e de construção coletiva, em que saberes acadêmicos e populares se encontram para gerar transformação social. Paulo Freire (1983) já destacava que não há verdadeira extensão sem comunicação, sem escuta ativa e sem reconhecimento da dignidade dos sujeitos envolvidos. Assim, projetos de extensão tornam-se instrumentos de emancipação, pois aproximam os estudantes das realidades concretas da comunidade, despertando neles a consciência crítica e a responsabilidade ética diante das desigualdades sociais.

Nesse contexto, pensar em um projeto de extensão na área de Administração que envolva uma iniciativa social de grande magnitude é reconhecer que a Administração não se limita a processos burocráticos ou empresariais. Ela também se manifesta como prática capaz de elaborar, planejar e implementar ações que mudam vidas, oferecendo novas oportunidades e reconstruindo trajetórias. A gestão, quando orientada por valores humanísticos, torna-se ferramenta de transformação social, capaz de articular recursos, pessoas e estratégias em prol da dignidade e da reinserção de sujeitos em situação de vulnerabilidade. Como afirma Goulart et al. (2023), a gestão de projetos sociais deve ser compreendida como um processo que organiza esforços coletivos e orienta comportamentos em direção à mudança da realidade, reafirmando o papel da Administração como prática emancipatória.

O presente artigo tem como objetivo relatar e analisar o projeto de extensão Administração com Propósito: Caminhos do Bem, desenvolvido pelos alunos do Módulo VI do Curso de Bacharelado em Administração do IFPI Campus São João do Piauí, sob orientação da professora da disciplina de extensão e com o apoio de docentes colaboradores. A iniciativa foi realizada em parceria com a Comunidade Terapêutica Nova Vida, situada no município de João Costa – PI, instituição que atua na recuperação e reinserção social de pessoas em situação de dependência química. A escolha dessa parceria se deu pela relevância social de sua missão e pela oportunidade de aplicar, na prática, princípios da Administração em um contexto de impacto humano e comunitário.

Ao aproximar a universidade de uma realidade marcada por vulnerabilidades, o projeto buscou não apenas oferecer suporte material e capacitação profissional, mas também promover integração social e valorização da dignidade humana. Dessa forma, reafirma-se o papel da extensão como ponte entre teoria e prática, entre conhecimento e solidariedade, entre formação acadêmica e compromisso social.

Fundamentação Teórica: Extensão Universitária e Comunidades Terapêuticas

2. 1 Entendendo conceitos: Extensão Universitária e Comunidade Terapêutica

A extensão universitária é compreendida como prática que articula ensino e pesquisa com um diálogo social que promove a transformação social e a formação cidadã. O Plano Nacional de Extensão Universitária (MEC, 2001) define-a como um processo educativo, cultural e científico que promove a interação transformadora entre universidade e comunidade. Paulo Freire (1983, p. 27) afirma que “não há extensão do conhecimento, mas comunicação”, reforçando que o verdadeiro sentido da extensão está no diálogo e na escuta ativa. Em Pedagogia do Oprimido, complementa: “é escutando os oprimidos que se aprende a falar com eles e não por eles” (FREIRE, 1987, p. 44). Essa perspectiva é essencial para compreender a relevância de projetos sociais voltados a minorias excluídas, como os acolhidos em comunidades terapêuticas, que necessitam de reconhecimento e participação ativa em seu processo de reinserção.

O conceito de Comunidade Terapêutica foi sistematizado por Maxwell Jones (1953), que a definiu como “um ambiente social estruturado que promove mudanças de comportamento por meio da participação e da responsabilidade coletiva”. Sua proposta rompeu com modelos exclusivamente clínicos, ao enfatizar a dimensão social e democrática do tratamento. Na mesma linha, Franco Basaglia (1985) defendia que “não se trata de curar a doença, mas de devolver ao sujeito sua cidadania”. Essa visão amplia o papel das comunidades terapêuticas, que não apenas acolhem, mas também promovem reinserção social e dignidade, objetivos que se alinham ao compromisso da universidade em formar cidadãos críticos e engajados.

No contexto brasileiro, Maria Paula Gomes dos Santos (2014) destaca que comunidades terapêuticas são instituições voltadas para o acolhimento de pessoas em sofrimento decorrente do uso de substâncias psicoativas, atuando como espaços de cuidado e reinserção. Mais recentemente, Leandro Dominguez Barretto (2024) analisou o papel dessas instituições como políticas públicas, reforçando sua relevância na promoção da autonomia e da dignidade dos acolhidos.

Assim, observa-se que tanto a extensão universitária quanto as comunidades terapêuticas compartilham um mesmo horizonte: o da transformação social. A primeira, ao aproximar a universidade das demandas reais da sociedade; a segunda, ao oferecer acolhimento e reinserção a sujeitos historicamente marginalizados. A conexão entre ambas reforça o caráter emancipatório da prática extensionista e legitima sua função como instrumento de cidadania e dignidade.

2. 2 Metodologia de execução do Projeto

O projeto foi estruturado em quatro etapas principais: diagnóstico inicial, planejamento, execução e avaliação. A metodologia adotada foi qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em observação participante e entrevistas semiestruturadas. Na etapa de diagnóstico inicial, realizada em outubro de 2025, os alunos visitaram a Comunidade Terapêutica Nova Vida, entrevistaram gestores e observaram a rotina institucional. Essa visita foi registrada em vídeos e áudios, que documentaram tanto os relatos dos acolhidos quanto às percepções dos gestores, permitindo uma compreensão mais profunda da realidade vivenciada pela instituição.

Na etapa de planejamento, foram definidas as ações prioritárias, incluindo a arrecadação de produtos de higiene e limpeza e a organização de atividades de capacitação voltadas à reinserção profissional. O planejamento contou com reuniões entre os alunos e professores colaboradores, que auxiliaram na estruturação das atividades e na definição de metas financeiras e logísticas.

Na etapa de execução, realizada em dezembro de 2025, ocorreu à entrega das doações arrecadadas e a realização das atividades planejadas. Foram ministradas palestras sobre elaboração de currículos e comportamento em entrevistas de emprego, conduzidas por dois os docentes que orientaram os acolhidos em práticas de confecção de currículos e simulações de entrevistas. Além disso, foi realizada uma roda de conversa sobre empreendedorismo, conduzida por outra docente do IFPI e também consultora do SEBRAE-PI, que discutiu as expectativas e realidades do mundo empreendedor, fundamentando sua fala em autores como Dornelas (2012) e Schumpeter (1982). Essa etapa também foi registrada em vídeos e áudios, que captaram depoimentos dos acolhidos e gestores, reforçando o caráter participativo e integrador da ação.

Por fim, na etapa de avaliação, os alunos foram provocados a elaborar relatórios individuais, nos quais relataram suas experiências pessoais com o projeto e refletiram sobre o impacto social sentido. Esses relatos evidenciaram não apenas o aprendizado acadêmico, mas também o desenvolvimento de competências como empatia, responsabilidade social e visão humanizada da gestão. A avaliação, portanto, não se limitou a mensurar resultados objetivos, mas buscou compreender o impacto subjetivo e formativo da experiência extensionista.

  1. 3 Resultados e Discussões

Os resultados obtidos evidenciam a relevância da extensão universitária como prática formativa e social, tanto para os acolhidos quanto para os estudantes. A capacitação profissional foi um dos pontos centrais. Os acolhidos elaboraram seus próprios currículos, orientados pelos docentes, e participaram de simulações de entrevistas de emprego. Essa prática dialoga com Marras (2011), que afirma que o currículo é um instrumento estratégico de inserção no mercado de trabalho, e com Chiavenato (2014), que enfatiza a preparação comportamental como essencial para a empregabilidade. A roda de conversa sobre empreendedorismo trouxe reflexões sobre oportunidades e desafios do mundo empreendedor.

Fundamentada em Dornelas (2012) e Schumpeter (1982), a atividade destacou o papel da inovação e da identificação de oportunidades como caminhos para a autonomia e reinserção social. Além disso, houve integração comunitária por meio de atividades culturais e rodas de conversa, que proporcionaram momentos de descontração e troca de experiências, fortalecendo vínculos entre estudantes e acolhidos. A arrecadação de recursos resultou na entrega de produtos de higiene e limpeza, atendendo a uma necessidade imediata da instituição e fortalecendo o vínculo entre universidade e comunidade. Por fim, o impacto formativo dos alunos foi evidenciado nos relatórios individuais, que revelaram sentimentos de empatia, gratidão e responsabilidade social. Como afirma Freire (1987, p. 44), “os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”, e essa experiência extensionista possibilitou que os alunos se educassem na prática, em diálogo com a realidade social, consolidando competências essenciais como ética, trabalho em equipe e visão humanizada da gestão.

2.4 Análise Estatística dos Relatórios Individuais

Durante a etapa de avaliação do projeto, os alunos elaboraram 27 relatórios individuais, nos quais relataram suas percepções e aprendizados. A análise desses documentos permite observar tanto a dimensão quantitativa quanto qualitativa da experiência extensionista:

    • Participação total: 100% dos alunos envolvidos entregaram seus relatórios, o que demonstra engajamento pleno com a atividade.
    • Percepção de relevância: em todos os 27 relatos (100%), os estudantes destacaram que a experiência foi significativa para sua formação acadêmica e pessoal.
    • Dimensões mais citadas:

Empatia e responsabilidade social: mencionada em 23 relatórios (85%).

Aprendizado prático em Administração: destacada em 21 relatórios (78%).

Valorização da dignidade humana e reinserção social: presente em 19 relatórios (70%).

    • Impacto subjetivo: 18 alunos (67%) relataram que o projeto os fez repensar o papel da

Administração além do ambiente empresarial, reconhecendo sua função social.

    • Impacto objetivo: 20 alunos (74%) afirmaram que desenvolveram novas

competências, como trabalho em equipe, comunicação e planejamento estratégico.

Esses dados evidenciam que a experiência não apenas cumpriu os objetivos propostos, mas também gerou impactos formativos amplos. A unanimidade na percepção positiva reforça o caráter transformador da extensão universitária, confirmando que a prática administrativa, quando aplicada em projetos sociais, contribui para a formação de profissionais mais conscientes, éticos e comprometidos com a realidade comunitária.

Considerações Finais

A experiência relatada no projeto “Administração com Propósito: Caminhos do Bem” confirma a potência da extensão universitária quando orientada por um viés social, dialógico e emancipatório. Ao aproximar os alunos do Módulo VI do Bacharelado em Administração do IFPI Campus São João do Piauí da realidade da Comunidade Terapêutica Nova Vida, o projeto materializou a articulação entre ensino, pesquisa e extensão em práticas concretas de formação cidadã. As ações de capacitação profissional, com elaboração de currículos e simulações de entrevistas e a roda de conversa sobre empreendedorismo mostraram-se caminhos efetivos para ampliar a empregabilidade e a autonomia dos acolhidos, ao mesmo tempo em que desenvolveram nos estudantes competências éticas, colaborativas e de gestão humanizada. A fundamentação teórica ancorada em Freire, Jones e Basaglia, somada às contribuições de autores brasileiros contemporâneos, sustentou o caráter democrático e participativo das atividades, reforçando a centralidade da escuta ativa e da coautoria dos sujeitos no processo de reinserção social. Os registros em vídeo e áudio, bem como os relatórios individuais de avaliação, evidenciam impactos objetivos (preparação para o mercado, acesso a insumos essenciais) e subjetivos (empatia, responsabilidade social, sentido de pertencimento), compondo um quadro robusto de transformação social e formativa. Os relatos dos estudantes evidenciam que a vivência foi marcante e significativa, revelando aprendizagens que vão além da técnica. A unanimidade das percepções positivas mostra que o contato direto com a comunidade proporcionou não apenas o desenvolvimento de competências práticas, como elaboração de currículos e simulações de entrevistas, mas também despertou valores como empatia, responsabilidade social e consciência crítica. Muitos alunos destacaram que a experiência os fez repensar o papel da Administração, compreendendo-a como prática social capaz de oferecer novas oportunidades e contribuir para a dignidade humana. Em síntese, o projeto reafirma que a extensão universitária, quando orientada por princípios de diálogo, participação e dignidade, cumpre sua função pública: formar administradores capazes de integrar competência técnica e compromisso social, e contribuir para a reconstrução de trajetórias de vida em contextos de vulnerabilidade. Recomenda-se a continuidade e o aprofundamento de iniciativas semelhantes, com monitoramento longitudinal dos acolhidos e ampliação de parcerias institucionais, para consolidar resultados e fortalecer políticas de reinserção social no território.

Referências Bibliográficas

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SCHUMPETER, J. A. Capitalismo, socialismo e democracia. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

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