palavras-chave: Sepse; Cateterismo Urinário; Cuidados de Enfermagem; Diagnóstico Precoce; Segurança do Paciente.
ABSTRACT
Introduction: Sepsis is a serious health problem and can progress rapidly when not identified in time. In hospitalized patients, the use of an indwelling urinary catheter requires attention, as it may favor urinary tract infections and other complications. In this context, nurses play an important role, as they provide continuous patient monitoring, observe clinical changes, and perform direct care. Thus, studying this topic is important to understand how nursing can contribute to the early identification of sepsis and patient safety. Objective: To analyze the role of nurses in the early identification and management of sepsis in patients with indwelling urinary catheters. Materials and methods: This is an integrative literature review with a descriptive and qualitative approach. Studies published between 2015 and 2025 were used, retrieved from PubMed, ScienceDirect, and Google Scholar databases. The search was conducted using terms related to sepsis, indwelling urinary catheter, urinary tract infection, early diagnosis, and nursing care. Articles directly related to the proposed topic were selected. Results/Discussion: The analyzed studies show that nurses play an essential role in infection prevention, continuous clinical observation, and early identification of signs suggestive of sepsis in patients with indwelling urinary catheters. Being closer to the patient, these professionals are able to identify important signs of infection and clinical deterioration, such as fever, changes in blood pressure, increased heart rate, mental confusion, decreased urine output, and changes in urine appearance. In addition, the studies highlight that care practices such as aseptic technique, proper hygiene, daily evaluation of catheter necessity, and early removal of the device help reduce the risk of infection. Conclusion: It is concluded that nurses play a fundamental role in the early identification of sepsis in patients with indwelling urinary catheters.
Keywords: Sepsis; Urinary Catheterization; Nursing Care; Early Diagnosis; Patient Safety.
INTRODUÇÃO
A sepse é uma condição grave que acontece quando o organismo responde de forma desregulada a uma infecção, provocando disfunção de órgãos e risco de morte. Por esse motivo, ela é considerada uma importante causa de internação prolongada, piora clínica e mortalidade em diferentes serviços de saúde. Além disso, a identificação precoce do quadro é fundamental, pois o atraso no reconhecimento e no início do manejo pode agravar rapidamente o estado do paciente (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
No Brasil, a sepse continua sendo um problema relevante de saúde pública. Estudo sobre tendência de mortalidade e custos hospitalares mostra que o quadro ainda apresenta grande impacto assistencial e econômico, reforçando a necessidade de melhorar a prevenção, o reconhecimento precoce e a qualidade do cuidado prestado aos pacientes hospitalizados (ALMEIDA et al., 2022).
Entre as infecções que podem evoluir para sepse, as infecções do trato urinário ocupam lugar importante, principalmente em pacientes internados e com maior grau de vulnerabilidade. Em casos mais graves, a infecção urinária complicada pode progredir para urossepse, especialmente quando o paciente apresenta comorbidades, fragilidade clínica ou uso de cateter urinário por tempo prolongado. Isso torna o tema especialmente relevante para a assistência de enfermagem em unidades de internação e terapia intensiva (SABIH; LESLIE, 2025).
A sonda vesical de demora é um recurso importante em situações clínicas específicas, como retenção urinária, monitorização rigorosa do débito urinário e algumas condições cirúrgicas. No entanto, seu uso também está associado a maior risco de infecção do trato urinário relacionada ao cateter, principalmente quando não há indicação bem definida, quando o tempo de permanência é prolongado ou quando os cuidados de inserção e manutenção não seguem adequadamente as medidas recomendadas (PATEL et al., 2023).
As estratégias mais atuais de prevenção da infecção associada à sonda vesical destacam medidas como uso criterioso do cateter, técnica asséptica na inserção, manutenção do sistema fechado, avaliação diária da necessidade de permanência e retirada o mais cedo possível. Essas recomendações envolvem diretamente o trabalho do enfermeiro, que participa tanto da vigilância clínica quanto da organização do cuidado e da segurança do paciente (PATEL et al., 2023; ROSENTHAL et al., 2025).
Nesse cenário, a atuação do enfermeiro é essencial porque esse profissional acompanha o paciente com maior frequência, observa alterações clínicas e pode perceber sinais iniciais de agravamento antes mesmo de uma piora mais evidente. Entre esses sinais, destacam-se febre, taquicardia, taquipneia, confusão mental, queda da pressão arterial, redução do débito urinário e alterações no estado geral. A observação contínua e a comunicação rápida com a equipe favorecem a tomada de decisão em tempo oportuno (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
Além da observação clínica, a literatura mostra que intervenções organizadas e protocolos conduzidos pela enfermagem ajudam a reduzir o uso desnecessário do cateter urinário e a ocorrência de infecção associada ao dispositivo. Revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 demonstrou que protocolos conduzidos por enfermeiros reduziram tanto a utilização do cateter quanto a incidência de infecção urinária associada ao cateter. Esses achados reforçam que a enfermagem não atua apenas no cuidado direto, mas também na prevenção de complicações e na melhoria dos indicadores assistenciais (SU et al., 2025).
Resultados semelhantes foram observados em estudo de implementação de protocolo para retirada do cateter urinário, no qual houve redução da taxa de infecção urinária associada à sonda e também da razão de utilização do dispositivo após a intervenção. Esse tipo de evidência mostra que a avaliação diária da necessidade da sonda e a retirada precoce são medidas práticas e efetivas, nas quais o enfermeiro possui papel central (KAMEL et al., 2025).
Mesmo com a relevância do tema, ainda existem dificuldades na prática, como conhecimento desigual entre profissionais, falhas de documentação, sobrecarga de trabalho e variações no cuidado prestado. Revisões recentes apontam que educação permanente, treinamento técnico, trabalho em equipe, lembretes de retirada do cateter e protocolos institucionais são fatores que favorecem melhores resultados. Dessa forma, discutir a atuação do enfermeiro na identificação precoce da sepse em pacientes com sonda vesical de demora é importante para fortalecer a assistência, prevenir agravos e contribuir para um cuidado mais seguro e de melhor qualidade (HUANG et al., 2023; DESSIE et al., 2024; GRAY et al., 2023).
2. OBJETIVO
O objetivo deste trabalho é analisar a atuação do enfermeiro na identificação precoce da sepse em pacientes com sonda vesical de demora.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa de literatura, de natureza descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvida com a finalidade de analisar a atuação do enfermeiro na identificação precoce e no manejo da sepse em pacientes com sonda vesical de demora. A escolha por esse tipo de estudo ocorreu por possibilitar o levantamento, a organização e a análise de publicações científicas já existentes sobre o tema, permitindo compreender de forma ampla as evidências disponíveis acerca da assistência de enfermagem, da prevenção de infecções associadas ao cateter urinário e do reconhecimento precoce de sinais clínicos compatíveis com sepse. O tema proposto no trabalho parte justamente dessa relação entre sepse, infecção urinária associada à sonda vesical e cuidado de enfermagem, conforme já delimitado no resumo, na introdução e no objetivo do estudo.
A questão norteadora definida para esta revisão foi: qual é a atuação do enfermeiro na identificação precoce e no manejo da sepse em pacientes com sonda vesical de demora? Essa pergunta orientou a seleção dos estudos e a organização dos principais achados, considerando a relação entre o uso do cateter urinário, o risco de infecção, a evolução para sepse e as intervenções realizadas pela enfermagem.
A coleta de dados foi realizada por meio de busca bibliográfica nas bases PubMed, ScienceDirect e Google Acadêmico, por reunirem publicações relevantes na área da saúde, enfermagem, sepse, infecção urinária associada ao cateter e segurança do paciente. Foram utilizados descritores e termos relacionados ao tema, em português e em inglês, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Entre os principais termos utilizados, destacaram-se: “sepse” OR “sepsis”; “sonda vesical de demora” OR “indwelling urinary catheter”; “cateter urinário” OR “urinary catheter”; “infecção urinária associada ao cateter” OR “catheter-associated urinary tract infection”; “diagnóstico precoce” OR “early diagnosis”; “cuidados de enfermagem” OR “nursing care”.
Foram incluídos artigos completos, disponíveis gratuitamente ou por acesso institucional, publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português e inglês, que apresentassem relação direta com a atuação do enfermeiro na prevenção, identificação precoce e manejo da sepse em pacientes hospitalizados com sonda vesical de demora. Também foram considerados estudos sobre infecção urinária associada ao cateter, protocolos de retirada de sonda, cuidados de enfermagem, segurança do paciente e documentos institucionais relevantes para a temática.
Foram excluídos estudos duplicados, publicações fora do período delimitado, artigos com resumo incompleto, materiais sem relação direta com o objetivo proposto e trabalhos que abordavam apenas aspectos médicos, laboratoriais ou microbiológicos, sem associação com a assistência de enfermagem ou com o contexto do uso da sonda vesical de demora.
Após a seleção dos materiais, foi realizada leitura dos títulos, resumos e textos completos, buscando identificar os estudos mais adequados ao objetivo da pesquisa. Os dados foram organizados de forma descritiva, considerando os principais achados relacionados à prevenção da infecção urinária associada ao cateter, identificação precoce da sepse, manejo de sinais clínicos, protocolos conduzidos pela enfermagem, educação permanente e segurança do paciente.
A análise dos estudos selecionados foi realizada por meio de síntese temática, permitindo a organização dos resultados em categorias relacionadas à atuação do enfermeiro no cuidado ao paciente com sonda vesical de demora. Dessa forma, os achados foram agrupados conforme sua contribuição para a prevenção de complicações infecciosas, reconhecimento precoce da sepse e fortalecimento da assistência de enfermagem baseada em evidências.
Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, este estudo não envolveu contato direto com seres humanos, coleta de dados em campo ou utilização de informações sigilosas de pacientes, não sendo necessária submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Ainda assim, foram respeitados os princípios éticos da pesquisa científica, com valorização da autoria das obras consultadas e apresentação adequada das referências utilizadas ao longo do trabalho.
3.1 Quadro-síntese dos estudos selecionados
Autor/Ano | Tipo de estudo | Principais achados | Implicações para a enfermagem |
|---|---|---|---|
Almeida et al. (2022) | Estudo epidemiológico | A sepse apresenta elevada mortalidade e impacto hospitalar no Brasil, reforçando a necessidade de reconhecimento precoce e melhoria da assistência. | Evidencia a importância da vigilância clínica e da atuação rápida da equipe de enfermagem diante de sinais de agravamento. |
Dessie, Gela e Yusuf (2024) | Estudo transversal | Identificou relação entre conhecimento, atitude e prática dos enfermeiros na prevenção de infecção urinária associada ao cateter. | Reforça a necessidade de educação permanente, treinamento técnico e adesão às boas práticas no cuidado com a sonda vesical. |
Gray, Rachakonda e Karnon (2023) | Revisão pragmática | Apontou intervenções eficazes para prevenção de infecção urinária associada ao cateter em pacientes adultos hospitalizados. | Destaca a importância de técnica asséptica, manutenção correta do sistema fechado e redução do tempo de permanência da sonda. |
Huang et al. (2023) | Revisão sistemática de métodos mistos | Demonstrou que conhecimento, atitudes e práticas dos profissionais influenciam diretamente a prevenção de infecção urinária associada ao cateter. | Mostra que capacitação, registro adequado e adesão aos protocolos fortalecem a segurança do paciente. |
Kamel et al. (2025) | Estudo observacional pré e pós-intervenção | A implantação de protocolo conduzido por enfermeiros reduziu a utilização de cateter urinário e favoreceu sua retirada oportuna. | Reforça o protagonismo do enfermeiro na avaliação diária da necessidade da sonda e na prevenção de complicações infecciosas. |
Patel et al. (2023) | Diretriz/recomendações atualizadas | Apresentou estratégias para prevenir infecção urinária associada ao cateter em hospitais de cuidados agudos. | Orienta práticas seguras de inserção, manutenção, indicação adequada e retirada precoce do cateter urinário. |
Rosenthal et al. (2025) | Documento de posicionamento | Atualizou recomendações internacionais para prevenção de infecção urinária associada ao cateter. | Reforça o papel da enfermagem na vigilância, manutenção do sistema fechado, monitoramento do débito urinário e segurança do paciente. |
Sabih e Leslie (2025) | Revisão clínica | Abordou infecções urinárias complicadas e risco de evolução para urossepse, principalmente em pacientes vulneráveis. | Auxilia o enfermeiro a reconhecer sinais de gravidade e possíveis complicações em pacientes com infecção urinária associada à sonda. |
Su (2025) | Revisão sistemática e meta-análise | Demonstrou que protocolos conduzidos por enfermeiros são eficazes na redução de infecção urinária associada ao cateter. | Fortalece a autonomia do enfermeiro em protocolos de retirada, prevenção de infecção e melhoria dos indicadores assistenciais. |
World Health Organization (2024) | Documento institucional | Define sepse como resposta desregulada do organismo à infecção, com risco de disfunção orgânica e morte. | Fundamenta a importância da identificação precoce, da vigilância clínica e da comunicação rápida diante de sinais sugestivos de sepse. |
Fonte: elaborado pelas autoras com base nos estudos selecionados.
4. RESULTADOS
A análise dos estudos selecionados permitiu identificar que a atuação do enfermeiro na identificação precoce e no manejo da sepse associada ao uso de sonda vesical de demora está relacionada a diferentes dimensões do cuidado. Os principais achados foram organizados em quatro categorias temáticas: reconhecimento precoce da sepse, prevenção da infecção urinária associada ao cateter, protocolos conduzidos pela enfermagem e educação permanente voltada à segurança do paciente.
Os estudos analisados demonstraram que o enfermeiro possui papel essencial no reconhecimento precoce de sinais clínicos sugestivos de infecção e possível evolução para sepse em pacientes com sonda vesical de demora. Entre os sinais mais citados estão febre, taquicardia, taquipneia, hipotensão, alteração do nível de consciência, redução do débito urinário, calafrios, fraqueza e mudanças no aspecto da urina, como turvação, sedimentos, odor forte ou coloração alterada. Esses achados reforçam que a observação contínua realizada pela enfermagem favorece a identificação de alterações clínicas ainda no início do agravamento, permitindo comunicação rápida com a equipe multiprofissional e início oportuno das condutas necessárias.
Outro resultado importante foi a relação entre o uso da sonda vesical de demora e o risco de infecção urinária associada ao cateter. Os estudos apontaram que o risco infeccioso aumenta quando a sonda permanece por tempo prolongado, quando não há indicação clínica bem definida ou quando os cuidados de inserção e manutenção não são realizados adequadamente. Nesse contexto, as principais medidas preventivas identificadas foram técnica asséptica na inserção, higienização adequada, manutenção do sistema fechado, posicionamento correto da bolsa coletora, observação da permeabilidade do cateter, registro do débito urinário e avaliação diária da necessidade de permanência da sonda.
Os estudos também evidenciaram que protocolos conduzidos por enfermeiros, conhecidos como protocolos nurse-driven, contribuem para reduzir o tempo de uso da sonda vesical de demora e a ocorrência de infecção urinária associada ao cateter. Esses protocolos incluem checklists, lembretes de retirada, avaliação diária da indicação do dispositivo e fluxos institucionais padronizados. Os achados mostram que a participação ativa do enfermeiro nesses processos fortalece sua autonomia, melhora a organização da assistência e contribui para a redução de complicações infecciosas.
A educação permanente da equipe de enfermagem também apareceu como um achado relevante nos estudos analisados. A capacitação sobre indicação, inserção, manutenção e retirada da sonda vesical, associada ao treinamento para reconhecimento precoce dos sinais de sepse, favorece maior adesão às boas práticas e reduz falhas assistenciais. Além disso, os estudos destacaram que registros adequados em prontuário, comunicação efetiva entre os profissionais e cultura institucional de segurança são elementos fundamentais para melhorar a qualidade do cuidado ao paciente sondado.
De forma geral, os resultados demonstraram que a atuação do enfermeiro é indispensável tanto na prevenção de infecções relacionadas à sonda vesical de demora quanto na identificação precoce de sinais compatíveis com sepse. A assistência de enfermagem qualificada, associada ao uso de protocolos, avaliação clínica contínua, educação permanente e comunicação rápida com a equipe, contribui para reduzir riscos, melhorar o prognóstico e fortalecer a segurança do paciente hospitalizado.
Como limitação deste estudo, destaca-se a escassez de publicações que abordem de forma específica a relação entre sepse, sonda vesical de demora e atuação direta do enfermeiro, uma vez que muitos estudos tratam separadamente da sepse ou da infecção urinária associada ao cateter. Além disso, a heterogeneidade dos estudos analisados, com diferentes métodos, populações e contextos hospitalares, pode limitar a comparação direta entre os achados.
Outra limitação refere-se à possibilidade de viés de seleção, considerando que a busca foi realizada em bases previamente definidas e incluiu apenas estudos disponíveis em português e inglês. Mesmo assim, os materiais selecionados permitiram compreender a importância da enfermagem na prevenção de infecções, no reconhecimento precoce da sepse e na adoção de práticas seguras no cuidado ao paciente com sonda vesical de demora.
5. DISCUSSÃO
A discussão dos estudos analisados confirma que a atuação do enfermeiro na identificação precoce e no manejo da sepse em pacientes com sonda vesical de demora vai além da execução de técnicas, envolvendo vigilância clínica contínua, raciocínio crítico e tomada de decisão diante de sinais iniciais de agravamento. Esse achado está de acordo com os resultados encontrados no presente estudo, que mostraram que o enfermeiro ocupa posição central no cuidado por acompanhar o paciente de forma mais próxima, observando alterações clínicas e participando das decisões relacionadas à manutenção ou retirada do cateter. Assim, a literatura reforça que a proximidade da enfermagem com o paciente favorece o reconhecimento precoce de manifestações infecciosas e contribui para intervenções em tempo oportuno (PATEL et al., 2023; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
Nesse contexto, um dos principais pontos discutidos na literatura é que a sonda vesical de demora, embora seja um recurso importante em várias situações clínicas, representa também um fator de risco importante para o desenvolvimento de infecção do trato urinário associada ao cateter. Quando esse dispositivo permanece por tempo prolongado, sem reavaliação diária e sem indicação clínica bem definida, aumenta-se a possibilidade de colonização bacteriana, infecção urinária e, em casos mais graves, progressão para sepse. Dessa forma, os estudos demonstram que a relação entre uso prolongado do cateter e agravamento infeccioso precisa ser considerada de forma criteriosa pela equipe de enfermagem, já que grande parte dos cuidados preventivos depende diretamente da assistência prestada à beira-leito (PATEL et al., 2023; ROSENTHAL et al., 2025).
Os achados também evidenciam que o reconhecimento precoce da sepse depende da capacidade do enfermeiro de identificar alterações clínicas muitas vezes sutis no início do quadro. Febre, taquicardia, taquipneia, hipotensão, redução do débito urinário, confusão mental e alterações no aspecto da urina foram sinais frequentemente citados nos estudos analisados. A discussão desses resultados mostra que, em pacientes com sonda vesical de demora, esses sinais não devem ser interpretados isoladamente, mas sim de maneira conjunta e contextualizada, considerando a possibilidade de evolução de uma infecção urinária para um quadro sistêmico mais grave. Isso reforça a importância do olhar clínico atento do enfermeiro, especialmente em ambientes hospitalares onde a deterioração do paciente pode ocorrer de forma rápida (SABIH; LESLIE, 2025; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
A compreensão dos critérios atuais de sepse também fortalece a atuação do enfermeiro no reconhecimento precoce do agravamento clínico. De acordo com a definição Sepsis-3, a sepse é caracterizada como uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do organismo à infecção. Nesse contexto, instrumentos como SOFA e qSOFA auxiliam na avaliação da gravidade do paciente, considerando alterações como pressão arterial, frequência respiratória, nível de consciência, função renal, oxigenação e outros indicadores clínicos. Embora a definição diagnóstica dependa da avaliação multiprofissional, o enfermeiro possui papel importante na identificação inicial dessas alterações, principalmente por acompanhar continuamente os sinais vitais, o débito urinário, o estado neurológico e a evolução geral do paciente.
Além disso, os bundles de atendimento à sepse, especialmente as medidas recomendadas na primeira hora após a suspeita clínica, reforçam a necessidade de resposta rápida diante de sinais de deterioração. Entre essas ações, destacam-se coleta de exames conforme protocolo institucional, comunicação imediata com a equipe médica, monitoramento hemodinâmico, administração de antimicrobianos prescritos dentro do tempo adequado, controle rigoroso dos sinais vitais e acompanhamento da resposta clínica. Em pacientes com sonda vesical de demora, essa vigilância se torna ainda mais importante, pois alterações no débito urinário e nas características da urina podem indicar piora infecciosa e risco de evolução para sepse. Dessa forma, o enfermeiro contribui diretamente para que o protocolo seja iniciado em tempo oportuno, reduzindo riscos e fortalecendo a segurança do paciente.
Outro aspecto relevante é que o monitoramento contínuo realizado pela enfermagem se mostra essencial para a prevenção de desfechos desfavoráveis. Como o enfermeiro e sua equipe permanecem maior tempo junto ao paciente, esse profissional consegue acompanhar sinais vitais, débito urinário, funcionamento do sistema de drenagem, características da urina e alterações do estado geral de forma mais frequente. Esse acompanhamento sistemático contribui para que o agravamento seja percebido antes que a sepse esteja plenamente instalada, permitindo comunicação precoce com a equipe multiprofissional e início mais rápido de condutas terapêuticas. Portanto, a literatura analisada sustenta a ideia de que a assistência de enfermagem não é apenas complementar, mas decisiva na evolução clínica do paciente sondado (HUANG et al., 2023; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
A prevenção da infecção urinária associada ao cateter também aparece, de forma consistente, como uma das maiores responsabilidades da enfermagem dentro desse processo. Os estudos destacam que medidas como técnica asséptica na inserção do cateter, higienização adequada da região perineal, manutenção do sistema fechado, posicionamento correto da bolsa coletora, observação da permeabilidade do sistema e redução de desconexões desnecessárias são condutas básicas, porém extremamente eficazes. A discussão desses achados permite compreender que muitas complicações infecciosas podem ser evitadas quando essas ações são executadas de maneira sistematizada e rigorosa. Assim, o papel do enfermeiro não se restringe à identificação do problema já instalado, mas começa ainda na prevenção do risco infeccioso desde o momento da inserção e manutenção do dispositivo (GRAY; RACHAKONDA; KARNON, 2023; PATEL et al., 2023).
Além disso, a avaliação diária da real necessidade da sonda vesical de demora se mostrou um ponto central entre os autores analisados. A literatura aponta que o uso desnecessário do cateter ou sua permanência além do tempo indicado é um dos principais fatores associados ao aumento das taxas de infecção. Nesse sentido, o enfermeiro tem papel estratégico ao questionar a continuidade do dispositivo, registrar a necessidade clínica, comunicar a equipe e incentivar a retirada precoce quando possível. A presença dessa conduta na prática clínica representa importante medida de segurança do paciente, pois reduz a exposição ao risco infeccioso e, consequentemente, diminui a possibilidade de evolução para sepse. Assim, a retirada oportuna da sonda deve ser entendida como uma intervenção preventiva concreta e baseada em evidências (KAMEL et al., 2025; SU, 2025).
A discussão dos estudos também mostra que os protocolos conduzidos pela enfermagem têm apresentado resultados positivos na redução do tempo de uso do cateter e da incidência de infecção urinária associada. Protocolos nurse-driven, checklists, lembretes institucionais e fluxos padronizados fortalecem a autonomia do enfermeiro e tornam o cuidado mais uniforme, menos dependente de decisões isoladas e mais próximo das recomendações baseadas em evidências. Isso demonstra que a enfermagem assume papel de protagonismo não apenas no cuidado direto, mas também na organização dos processos assistenciais. Dessa maneira, o uso de protocolos representa uma ferramenta importante para transformar conhecimento científico em prática clínica efetiva, com impacto direto na qualidade da assistência e nos indicadores de segurança do paciente (SU, 2025; KAMEL et al., 2025).
Outro ponto importante que emerge da literatura é a necessidade de educação permanente da equipe de enfermagem. Os estudos indicam que o conhecimento atualizado sobre prevenção da infecção urinária associada ao cateter, critérios de indicação e retirada da sonda, sinais precoces de sepse e técnicas corretas de manutenção do sistema favorece melhor desempenho assistencial. Quando os profissionais são capacitados de forma contínua, há maior adesão às boas práticas, menor ocorrência de falhas técnicas e maior segurança no reconhecimento de sinais clínicos suspeitos. Portanto, a qualificação profissional não deve ser vista como elemento secundário, mas como parte essencial da prevenção de complicações e do fortalecimento da atuação do enfermeiro no ambiente hospitalar (DESSIE; GELA; YUSUF, 2024; HUANG et al., 2023).
A documentação em prontuário também merece destaque nesta discussão, pois os estudos mostram que o registro adequado das condições da sonda, do aspecto da urina, do volume drenado, dos sinais vitais e das intercorrências clínicas contribui diretamente para a continuidade do cuidado. Quando os registros são realizados de forma clara e completa, a comunicação entre os profissionais se torna mais eficiente, facilitando decisões rápidas e seguras. Em contrapartida, falhas de anotação e ausência de registros podem atrasar o reconhecimento de alterações importantes e comprometer a resposta da equipe diante de um possível quadro séptico. Dessa forma, a documentação de enfermagem deve ser compreendida como parte ativa da assistência, e não apenas como exigência burocrática (HUANG et al., 2023).
A literatura também reforça que a avaliação do paciente com sonda vesical de demora deve ocorrer de forma integral. Isso significa que o enfermeiro não deve considerar apenas a presença do dispositivo ou alterações urinárias isoladas, mas observar o paciente em sua totalidade, correlacionando dados clínicos, hemodinâmicos e comportamentais. Em muitos casos, a piora clínica se manifesta por um conjunto de sinais que, quando analisados em associação, apontam maior risco de sepse. Assim, o raciocínio clínico da enfermagem se torna indispensável para que pequenas mudanças, como sonolência, prostração, redução do débito urinário ou alteração do padrão respiratório, não sejam subestimadas. Essa capacidade interpretativa fortalece o papel do enfermeiro como profissional-chave no reconhecimento precoce do agravamento infeccioso (SABIH; LESLIE, 2025; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
Outro aspecto importante discutido pelos autores é a relevância do trabalho em equipe. Embora o enfermeiro tenha papel central no monitoramento do paciente, os melhores resultados são alcançados quando existe integração efetiva entre enfermagem, equipe médica, controle de infecção hospitalar e demais profissionais de saúde. A enfermagem funciona como elo entre a observação contínua à beira-leito e a tomada de decisão clínica mais ampla, sendo muitas vezes a primeira a identificar alterações e a acionar os demais membros da equipe. Dessa forma, a literatura demonstra que a prevenção da sepse e das infecções associadas ao cateter não depende apenas de ações individuais, mas de uma assistência articulada, colaborativa e centrada na segurança do paciente (ALMEIDA et al., 2022; ROSENTHAL et al., 2025).
Apesar dos avanços descritos, os estudos também apontam fragilidades que precisam ser consideradas. Sobrecarga de trabalho, número insuficiente de profissionais, adesão irregular aos protocolos, falhas de treinamento, conhecimento desigual da equipe e permanência prolongada da sonda sem reavaliação adequada são barreiras frequentemente mencionadas. Tais fatores comprometem a qualidade da assistência e dificultam tanto a prevenção da infecção quanto a identificação precoce da sepse. Isso mostra que a boa atuação do enfermeiro não depende apenas de competência individual, mas também de condições institucionais adequadas, apoio da gestão e cultura organizacional voltada para a segurança do paciente. Portanto, discutir a atuação do enfermeiro nesse cenário exige também reconhecer os desafios estruturais que interferem na prática cotidiana (DESSIE; GELA; YUSUF, 2024; GRAY; RACHAKONDA; KARNON, 2023).
A análise dos estudos permite ainda observar que pacientes idosos, críticos, imunossuprimidos ou com múltiplas comorbidades apresentam risco ainda maior de desenvolver complicações infecciosas relacionadas à sonda vesical de demora. Nesses grupos, a evolução de uma infecção urinária para sepse pode ocorrer de forma mais rápida, exigindo monitoramento intensificado e valorização de qualquer sinal de alteração clínica. Assim, a enfermagem deve direcionar atenção redobrada aos pacientes mais vulneráveis, reconhecendo que a identificação precoce, nesses casos, pode ser determinante para evitar internação prolongada, admissão em unidade de terapia intensiva e até óbito. Esse ponto reforça a necessidade de assistência individualizada e vigilância mais rigorosa nos pacientes de maior risco (ALMEIDA et al., 2022; SABIH; LESLIE, 2025).
Também é importante destacar que o enfermeiro desempenha função educativa junto à equipe, ao paciente e, quando possível, aos familiares. Orientações sobre a finalidade da sonda, os cuidados com o sistema, a importância de evitar manipulações desnecessárias e a observação de possíveis alterações contribuem para fortalecer a segurança do paciente. Embora boa parte dessas condutas esteja concentrada no ambiente hospitalar, a educação em saúde continua sendo uma dimensão relevante do cuidado de enfermagem, pois promove maior compreensão sobre os riscos envolvidos e favorece a adesão às medidas preventivas. Assim, a atuação educativa complementa a assistência técnica e amplia o alcance do cuidado prestado (ROSENTHAL et al., 2025).
De maneira geral, a discussão dos achados confirma que a atuação do enfermeiro é indispensável em todas as etapas relacionadas ao cuidado do paciente com sonda vesical de demora. Desde a avaliação da indicação do dispositivo até sua retirada precoce, passando pela manutenção adequada, monitoramento clínico e comunicação com a equipe, o enfermeiro exerce papel decisivo na prevenção de infecção urinária associada ao cateter e na identificação precoce da sepse. Os estudos analisados convergem ao mostrar que a presença de protocolos, capacitação contínua e assistência sistematizada fortalece ainda mais esse papel, favorecendo uma prática segura e baseada em evidências (SU, 2025; PATEL et al., 2023).
Por fim, com base na literatura analisada, pode-se afirmar que o objetivo deste estudo foi alcançado, uma vez que ficou evidenciado que o enfermeiro exerce função fundamental na identificação precoce e no manejo da sepse em pacientes com sonda vesical de demora. Sua atuação interfere diretamente na prevenção de infecções, no reconhecimento dos primeiros sinais de agravamento clínico e na adoção de medidas que reduzem riscos e melhoram o prognóstico. Além disso, os estudos sugerem que investir em protocolos institucionais, educação permanente e fortalecimento da autonomia da enfermagem pode trazer resultados ainda mais positivos para a segurança do paciente. Dessa forma, recomenda-se que futuros estudos aprofundem a análise sobre a efetividade de intervenções educativas, protocolos nurse-driven e estratégias de monitoramento clínico voltadas especificamente para pacientes sondados em diferentes contextos assistenciais (KAMEL et al., 2025; DESSIE; GELA; YUSUF, 2024; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024).
6. CONCLUSÃO
Conclui-se que o enfermeiro desempenha papel fundamental na identificação precoce e no manejo da sepse em pacientes com sonda vesical de demora, atuando diretamente na prevenção de infecções, na vigilância clínica contínua, no reconhecimento de sinais de agravamento e na comunicação rápida com a equipe multiprofissional. A literatura analisada demonstrou que medidas como técnica asséptica, manutenção adequada do sistema fechado, avaliação diária da necessidade de permanência da sonda, retirada precoce do cateter e monitoramento do débito urinário contribuem de forma significativa para reduzir a infecção urinária associada ao cateter e, consequentemente, o risco de evolução para sepse.
Além disso, observou-se que a capacitação contínua da equipe, a adoção de protocolos assistenciais, o uso de instrumentos de avaliação clínica, como SOFA e qSOFA, e a aplicação de bundles de sepse favorecem uma assistência mais segura, organizada e baseada em evidências. Dessa forma, ressalta-se a importância do enfermeiro como profissional estratégico na prevenção de complicações, na identificação precoce de alterações clínicas e na promoção da segurança do paciente hospitalizado com sonda vesical de demora. Recomenda-se, ainda, que novas pesquisas sejam realizadas sobre protocolos conduzidos pela enfermagem e estratégias educativas voltadas especificamente ao cuidado desses pacientes.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, N. R. C. de P. et al. Análise de tendência de mortalidade por sepse no Brasil e por regiões de 2010 a 2019. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 56, p. 25, 2022. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/rsp/2022.v56/25/pt/. Acesso em: 17 mar. 2026.
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