A importância da organização do espaço interior na educação de infância: um contributo para a educação pré-escolar em Angola
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Este artigo, por intermédio da revisão sistemática da literatura, propõe-se a discutir questões ligadas à importância da organização do espaço interior na educação Pré-Escolar tendo em conta a intencionalidade educativa. O estudo de natureza qualitativa e de paradigma interpretativo, baseou-se na análise de conteúdo de documentos normativos, dissertações, artigos científicos (extraídos de bases como RIA, RCAAP e plataforma RESEARCHGATE). Os resultados indicam que a organização constante do espaço interior serve de ponte para o cumprimento dos objectivos estabelecidos a nível macro ou ministerial; ajuda a diversificar as actividades com as crianças, permite estar atento aos sinais de desconforto, dar oportunidades de expressão e reflectir a volta de todo processo a fim de gerar mudanças necessárias.

Palavras-chave: Organização; espaço; educação infantil

ABSTRACT

Through a systematic review of the literature, this article aims to discuss issues related to the importance of interior space organization in preschool education, taking into account educational intentionality. The study, which is qualitative in nature and based on an interpretive paradigm, was based on the content analysis of normative documents, dissertations, and scientific articles (extracted from databases such as RIA, RCAAP, and the RESEARCHGATE platform). The results indicate that the constant organization of interior space serves as a bridge for the fulfillment of objectives established at the macro or ministerial level; it helps to diversify activities with children, allows for attentiveness to signs of discomfort, provides opportunities for expression, and reflects on the entire process in order to generate necessary changes.

Keywords: Organization; space; early childhood education

RESUMEN

Este artículo, a través de una revisión sistemática de la literatura, propone discutir cuestiones relacionadas con la importancia de organizar el espacio interior en la educación preescolar, considerando la intencionalidad educativa. El estudio de naturaleza cualitativa y paradigma interpretativo, se basó en el análisis de contenido de documentos normativos, tesis doctorales y artículos científicos (extraídos de bases de datos como RIA, RCAAP y la plataforma RESEARCHGATE). Los resultados indican que la organización constante del espacio interior facilita el cumplimiento de los objetivos establecidos a nivel macro o ministerial; contribuye a diversificar las actividades con los niños, permite la atención a las señales de malestar, brinda oportunidades de expresión y permite la reflexión sobre todo el proceso para generar los cambios necesarios.

Palabras clave: Organización; espacio; educación infantil

INTRODUÇÃO

A educação, enquanto fenômeno social, constitui um processo por meio do qual os homens moldam-se segundo as normas socialmente aceites. Na condição de educação escolar, o processo planificado e organizado, caracterizado pelo ensino e aprendizagem, possibilitam a preparação global do indivíduo para as obrigações da vida individual e colectiva. Assim sendo, o ensino e a aprendizagem são processos que visam atingir o conjunto de intenções de um determinado estado, e operacionalizam-se através do chamado Sistema de Educação e Ensino. Em Angola, a Educação Pré-Escolar é um dos seis subsistemas e dos quatro níveis de educação e ensino previsto na Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino, Lei n.º 17/16 de 7 de Outubro, artigo 17.º, tendo como objectivo primordial o de cuidar a primeira infância num ambiente sadio como forma de atender à Declaração Universal dos Direitos da Criança proposta pela Organização das Nações Unidas e ratificada pelo Governo Angolano. A Lei acima referida, prevê no seu artigo 23.º que a Educação Pré-Escolar estrutura-se em duas etapas, designadamente creche (dos 3 meses aos 3 anos de idade) e Jardins de Infância (dos 3 aos 5 anos de idade); adicionalmente, no seu ponto 2, estabelece que a classe de iniciação pode ser ministrada igualmente em escolas do Ensino Primário, às crianças dos 5 de idade no ano de matrícula. Assim, observa-se na realidade educativa angolana, o uso de salas convencionais (também usadas pelos adultos) para as sessões do pré-escolar. Dada a especificidade deste subsistema, a questão que se levanta é: até que ponto as salas reservadas para a Educação Pré-Escolar nas escolas públicas de Angola, respondem aos interesses e as necessidades das crianças? Deste modo, o presente artigo se propõe a discutir acerca de questões ligadas a importância da organização do espaço interior na educação Pré-Escolar tendo em conta a Intencionalidade Educativa.

CARACTERÍSTICAS DE UM ESPAÇO INTERIOR ENRIQUECEDOR NA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Na idade pré-escolar, as crianças têm de ser acolhidas num espaço amplo e pensado para ser um auxiliador educativo, assumindo um processo que pode construir e transformar a aprendizagem de forma criativa e contribuindo para o avanço e desenvolvimento das crianças.

Assim sendo, nos espaços planeados e construídos para receber crianças em idade pré-escolar deve haver a preocupação ligada a aspectos como a promoção da identidade pessoal – é apropriado que as crianças tenham os seus objectos, personalizar o espaço e participar na sua organização; promoção do desenvolvimento da competência – trabalhar para que as crianças tenham autonomia nas actividades rotineiras, promoção de oportunidades para crescimento – que inclui movimentos corporais, tais como: pular, correr e andar, promoção da sensação de segurança e confiança – que ajuda a criança a sentir-se à vontade no espaço e a promoção de oportunidades para contacto social e privacidade – que tem a ver com a criação de diferentes áreas para isolamento, pequeno e grande grupo (BARACHO, 2011).

“Um espaço pedagógico de qualidade deve englobar um conjunto de características necessárias para dar resposta aos interesses e necessidades das crianças” (ANTUNES, 2017, p. 5). Assim, a sala de actividades que acolhe as crianças tem de ser, antes de tudo, um lugar muito estimulante, capaz de tornar fácil e propor possibilidades de acção (Rosa, 2019).

Na mesma linha de pensamento, Nunes (2018), defende que o espaço reservado para a Educação Pré-escolar deve oferecer condições para as crianças beneficiarem-se do seu desenvolvimento e aprendizagem. E as condições que se requer para a Pré-escola envolve mobiliário e materiais adequados que não tenham riscos para as crianças, materiais que se adequem às características e preferências individuais das crianças; a polivalência dos espaços, ou seja, a possibilidade de um espaço da sala poder ser convertido em outro, a pluralidade de diferentes culturas ou realidades, a sensibilidade estética, notável na estruturação do projecto arquitectónico das salas, nas cores seleccionadas para o mobiliário e equipamentos, nos jogos de luz e sombra que convidam para interacção das crianças, brincar e idealizar, nas formas de arte existente (OLIVEIRA-FORMOSINHO; ARAÚJO, 2018).

E para se efectivar o tão desejado desenvolvimento das crianças, Nunes (2018) acrescenta que é necessário que o espaço reservado para elas seja flexível para facilitar a sua reorganização sempre que for preciso na execução das actividades; tais como: jogo do nome, pintura da letra inicial do nome, simulação, dramatização, comparação de coisas e objectos, manipulação de objectos, classificação de objectos, contagem, observação de gravuras, colagem, picotar e rasgar, modelar, construir objectos, preencher espaço, brincadeira dança das cadeiras, observação do movimento do corpo (MED, 2018).

A reorganização que se requer na visão de Rosa (2019), cinge-se na introdução de novos materiais, que sejam mais desafiadores e correspondam aos interesses que vão sendo manifestados.

Tendo em conta que a manipulação de materiais ou objectos é fundamental para aprendizagem das crianças; muitas vezes os professores debatem-se com a questão relacionada ao tipo de material a usar. Silva et al. (2016) defendem que:

a utilização de material reutilizável (caixas de diferentes tamanhos, bocados de canos, interior de embalagens, bocados de tecidos, pedaços de madeira, fios, etc.), material natural (pedras, folhas sementes, paus), bem como a decoração das paredes da sala podem proporcionar inúmeras aprendizagens e incentivar a criatividade. (p. 26)

A utilização do material reutilizável e do material natural cumpre um propósito na realidade educativa angolana, pois na visão do Med (2019), estes materiais ajudam as crianças a conhecerem os objectos do seu contexto.

Entretanto, as preocupações não se limitam nos tipos de materiais de manipulação, pois continuamente nota-se que os materiais de acomodação (carteira feita de ferro e madeira) preparadas para crianças pequenas não difere das que se usam na etapa seguinte (ensino primário). Antagonicamente, Costa (2021) apoiando-se na metodologia Montessoriana, sugere que as crianças usem cadeiras e mesas baixas.

IMPORTÂNCIA DA ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO INTERIOR NA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Na Educação Pré-Escolar, o espaço interior assume características peculiares; pois precisa de uma organização que seja facilmente identificável pelas crianças, quer no que diz respeito às suas funções como as actividades que dela resultam a fim de atender as necessidades sociais, cognitivas e emocionais das crianças. Assim sendo, os educadores devem estar dispostos a refletir sobre as suas práticas e adaptar os seus espaços de ensino em resposta às necessidades das crianças.

Relativamente a “decoração” da parede, o dicionário online priberam de Língua Portuguesa, refere-se “ao acto de decorar, como tornar esteticamente mais agradável, adornar, enfeitar”. No espaço educativo, os enfeites educam, proporcionam mensagens morais, valores, conhecimentos. Ampliando o impacte da decoração no pré-escolar, Costa e Marin (2025) defendem que a decoração converte-se em conteúdo de aprendizagem. Por outra, a combinação das cores, a apresentação cuidadosa dos trabalhos, tornam-se necessários, pois se traduzem em sensações distintas que garantem o prazer de estar no espaço educativo.

Como uma forma de explorar ao máximo as paredes do espaço interior, Pessoa (2015) refere que podem ser usadas como espaços para exposições temporárias e permanentes de tudo o que as crianças e os adultos trazem à vida; desta forma, as paredes falam e documentam tudo o que aí é vivenciado.

Além do item “parede”, Lameiras (2025) refere que a organização do espaço interior deve incluir áreas (de leitura, trabalho manual, ciências, jogos…) que estimulem o diálogo, a exploração e a experimentação, valorizando o interesse e as necessidades das crianças, estimulando a criatividade e a curiosidade, chamando as crianças a influenciarem umas as outras e a compartilharem conhecimentos.

A fim de contribuir efectivamente nas aprendizagens das crianças, as distintas áreas da sala devem apresentar materiais diversificados, isto é, materiais prontos ou comprados e materiais não estruturados ou sucatas, pois na visão de Boeira e Silva (2024) quando se disponibiliza às crianças materiais de diferentes naturezas, isto permitirá que elas desenvolvam habilidades criativas, construção de conhecimento da própria criança e expressar sentimentos que não conseguem manifestar através da fala.

No geral, trabalhar com a Educação Pré-Escolar requer como tarefa essencial a organização dos espaços internos, pois permite que as crianças possam elaborar perguntas, hipóteses, explorar, criar, manipular e iniciar a produção de suas próprias teorias. Além disso, como é organizado o mobiliário, motiva encontros e ocupação de diferentes grupos para brincadeiras e realização de diferentes propostas (BARACHO, 2011).

O PAPEL DO PROFESSOR NA ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO PEDAGÓGICO

A utilização correcta do espaço pedagógico requer conhecer seus alunos e seus objectivos como professor, que envolve promover a identidade pessoal, promoção do desenvolvimento da competência, promoção de oportunidades para crescimento, promoção de oportunidades para contacto social e privacidade.

Nesta ordem de ideias, Vieira (2016, p. 62) refere que “o professor deve assumir o papel de quem intervém na realidade enquanto elege materiais - objectos e mobiliários - para compor o espaço-ambiente de dinâmicas interactivas”. Assim sendo, de tempo em tempo haverá necessidade de se fazer mudanças no espaço reservado para a Educação Pré-Escolar, entretanto, não pode ser feita arbitrariamente, ou seja, quando o professor achar por bem fazer isso; pois na visão de Pessoa (2015), a actuação do professor frente a esse ambiente exige o olhar atento às necessidades infantis, observando e escutando as crianças que ali estão presentes, assim como organizar o espaço conforme a intencionalidade educativa que respeite as crianças como sujeitos de direitos, porque ao considerar a criança activa, exploradora e criadora de sentidos, é necessário pensar em espaços que estimulem a criação e a autonomia, assegurem diversas formas de manifestações e relações, garantindo as possibilidades expressivas das diferentes linguagens.

Entretanto, ao intervir na realidade das crianças, o educador deve ter o cuidado de escolher adequadamente os materiais pedagógicos, tendo por base a existência de um vasto e variado repertório, pode alargar a variedade das actividades que as crianças podem desenvolver, bem como, trazer tranquilidade ao educador, estimular as crianças para criarem novas acções, estarem mais envolvidas e não repetirem sempre as mesmas actividades e brincadeiras, quer colectivas ou individuais (BARBOSA et al., [s. d.]).

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este artigo apresenta resultados de uma revisão sistemática de literatura centrada na análise de conteúdo sobre a importância que é atribuída a organização ao espaço interior na educação Pré-Escolar, tendo em conta a intencionalidade educativa.

O presente estudo enquadra-se no paradigma interpretativo de natureza qualitativa, a recolha dos dados foi assente na técnica de análise documental com maior incidência aos artigos científicos e dissertações que abordam a organização do espaço na Educação Pré-Escolar retirados de diferentes bases de dados como a RIA, RCAAP e plataforma RESEARCHGATE e alguns normativos legais da educação em Angola para fins contextuais.

A selecção deste paradigma de investigação é apropriado para o tipo de estudo que se realizou, pois na visão de Coutinho (2011), ciente de suas ideias pré-concebidas, o investigador vai em busca de mais conhecimento, abrindo-se para as demais perspectivas resultando em fundição, complementação e expansão de horizontes.

De acordo com Pardal e Lopes (2011) a natureza qualitativa deste estudo, levou o pesquisadores a preocupar-se com a compreensão dos significados das informações e a valorizar a subjectividade como instrumento de apreensão.

Com paciência e disciplina, a análise documental na perspectiva de Bardin (2016), permitiu tratar informações contidas nos documentos acumulados e relevantes para este estudo.

RESULTADO E DISCUSSÃO

A análise feita aos normativos legais que regem o sistema de educação e ensino em Angola, as dissertações e os artigos científicos seleccionados tendo na base a abordagem sobre a importância que é atribuída a organização do espaço interior na educação Pré-Escolar, tendo em conta a intencionalidade educativa, permitiu chegar aos seguintes resultados:

Nas diferentes actividades com as crianças deve-se usar materiais reutilizáveis e materiais naturais para o desenvolvimento de habilidades criativas, construção de conhecimento da própria criança e expressar sentimentos que não conseguem manifestar através da fala.

Os materiais de acomodação das crianças tem de ser diferente das que são usadas pelos adultos na escolarização, ou seja, elas devem usar cadeiras e mesas baixas.

A organização do espaço interno declara a concepção que o professor tem relativamente a criança, da educação e possibilita oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.

A organização do espaço interior deve incluir áreas que estimulem o diálogo, a exploração e a experimentação.

Os espaços reservados para o pré-escolar devem ser equivalente a diferentes materiais a serem observados e manipulados pelas crianças com a orientação do professor.

O adulto tem grande responsabilidade na promoção das interacções, na escuta activa e na observação das crianças.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados indicam que a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças na Educação Pré-escolar depende do uso constante de materiais de diferentes naturezas, acomodação confortável para as crianças, isto é, em diferentes áreas internas de exploração do saber, sem descuidar o olhar atento do adulto.

O educador não pode esperar encontrar tudo pronto para as suas actividades, em vez disso, tem de estar preparado para ir atrás do necessário para diversificar o trabalho com as crianças.

Os objectos de acomodação corporal das crianças e dos seus materiais de exploração, devem estar ao nível delas, permitindo uma postura ergonómica, reuni-las em pequenos espaços e reduzir o desconforto ao sentarem por um tempo considerável.

A atuação do educador deve privilegiar a partilha constante entre criança-criança e criança-adulto, porque quando a criança fala o que pensa, ela, ao mesmo tempo, organiza o seu pensamento.

A organização do espaço interno é expressão das intenções do educador, assim sendo, ele deve interrogar-se regularmente sobre a sua função, finalidades e utilização, de modo a planear e fundamentar as razões dessa organização.

Portanto, o que é realizado a nível micro deve servir de ponte para o cumprimento dos objectivos estabelecidos a nível macro ou ministerial; diversificando as actividades com as crianças, estar atento aos sinais de desconforto delas, dar-lhes oportunidades de expressão e reflectir a volta de todo processo a fim de gerar mudanças necessárias.

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