Ergoespirometria como preditor de saúde: uma revisão sistemática da literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.

Palavras-chave

Ergoespirometria
Teste cardiopulmonar de exercício
VO₂máx
Limiar anaeróbio
VE/VCO₂
Aptidão cardiorrespiratória

Ergoespirometria como preditor de saúde: uma revisão sistemática da literatura

Cardiopulmonary exercise testing as a health predictor: a systematic literature review

Beatriz Fernandes Silva

Igor Rodrigues

Lucas Henrique Nascimento

Patricia Elaine C. da Silva

Paula Fernanda Castro

Resumo

A ergoespirometria, também denominada teste cardiopulmonar de exercício (TCPE), é considerada uma importante ferramenta de avaliação funcional dos sistemas cardiovascular, respiratório e metabólico. O presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura, a utilização da ergoespirometria como preditora de saúde em diferentes populações, considerando principalmente os parâmetros VO₂máx, limiar anaeróbio e relação VE/VCO₂. A pesquisa foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science, incluindo artigos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram selecionados estudos que investigaram a relação dos parâmetros ergoespirométricos com prognóstico clínico, mortalidade, capacidade funcional e estratificação de risco cardiovascular e respiratório.

Os resultados demonstraram que a redução do VO₂máx está associada à pior capacidade funcional, maior risco cardiovascular e aumento da mortalidade em indivíduos com insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, obesidade e doença arterial coronariana. O limiar anaeróbio apresentou importante relação com a reserva funcional e tolerância ao esforço, enquanto alterações na relação VE/VCO₂ evidenciaram comprometimento da eficiência ventilatória e pior prognóstico clínico. A maioria dos estudos analisados reconheceu a ergoespirometria como um importante preditor de saúde, reforçando sua relevância na prática clínica e fisioterapêutica. Conclui-se que a avaliação integrada dos parâmetros ergoespirométricos contribui significativamente para o diagnóstico funcional, estratificação de risco e elaboração de intervenções terapêuticas individualizadas.

Palavras-chave: Ergoespirometria; Teste cardiopulmonar de exercício; VO₂máx; Limiar anaeróbio; VE/VCO₂; Aptidão cardiorrespiratória.

Abstract

Cardiopulmonary exercise testing (CPET), also known as cardiopulmonary exercise testing, is considered an important tool for assessing the functional status of the cardiovascular, respiratory, and metabolic systems. This study aimed to analyze, through a systematic literature review, the use of cardiopulmonary exercise testing as a predictor of health in different populations, mainly considering the parameters VO₂max, anaerobic threshold, and VE/VCO₂ ratio. The search was conducted in the PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Scopus, and Web of Science databases, including articles published between 2015 and 2025, in Portuguese, English, and Spanish. Studies investigating the relationship between cardiopulmonary exercise parameters and clinical prognosis, mortality, functional capacity, and cardiovascular and respiratory risk stratification were selected.

The results demonstrated that a reduction in VO₂max is associated with poorer functional capacity, higher cardiovascular risk, and increased mortality in individuals with heart failure, chronic obstructive pulmonary disease, obesity, and coronary artery disease. The anaerobic threshold showed an important relationship with functional reserve and exercise tolerance, while alterations in the VE/VCO₂ ratio indicated impaired ventilatory efficiency and a worse clinical prognosis. Most of the analyzed studies recognized cardiopulmonary exercise testing (CPET) as an important predictor of health, reinforcing its relevance in clinical and physiotherapy practice. It is concluded that the integrated assessment of CPET parameters contributes significantly to functional diagnosis, risk stratification, and the development of individualized therapeutic interventions.

Keywords: CPET; Cardiopulmonary exercise test; VO₂max; Anaerobic threshold; VE/VCO₂; Cardiorespiratory fitness.

INTRODUÇÃO

A avaliação da capacidade cardiorrespiratória é um dos indicadores mais importantes da saúde global do indivíduo. A avaliação da capacidade cardiorrespiratória envolve a integração dos sistemas cardiovascular, pulmonar e musculoesquelético durante o esforço físico. Essa avaliação identifica (VO₂máx), que representa o padrão-ouro para determinação da aptidão física.(FLORIANO; ORSINI;SILVA, REIS,2019.)

A ergoespirometria, também conhecida como teste cardiopulmonar de exercício (TCPE), é um exame de avaliação funcional dos sistemas respiratório, cardiovascular e neuromuscular. Ela permite investigar clinicamente os sintomas, funções importantes desses sistemas e a reserva funcional do indivíduo, além de consistir em uma ferramenta para compreender o papel do sistema cardiorrespiratório na integração dos sistemas fisiológicos. Destacam-se o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), o limiar anaeróbio e a eficiência ventilatória (VE/VCO₂), como preditores de saúde. (FLORIANO; ORSINI;SILVA, REIS,2019.)

A ergoespirometria teve estudos em 1790, nessa época Antoiner Lavoisier efetuou trabalhos onde utilizava trocas gasosas ,em 1929 o termo ergoespirometria foi inserido por Knipping, mas foi em 1960 que Karlman Wasserman demonstrou e consolidou a metodologia, demonstrando a importância com objetivo de troca de gases, tornando uma referência de ferramenta clínica para avaliação da capacidade cardiorrespiratória que envolve a integração dos sistemas cardiovascular, pulmonar e musculoesquelético durante o esforço físico. Essa avaliação identifica (VO₂máx).

É indispensável na Fisioterapia Respiratória para diagnosticar padrões ventilatórios (obstrutivo e restritivo) e monitorar a resposta ao tratamento, conforme estabelecido pelas diretrizes nacionais e internacionais (PEREIRA, 2002).

Baseia -se na medição do consumo de oxigênio (VO2) na produção de dióxido de carbono (VCO2) e da ventilação minuto (Ve) durante o esforço físico, a fisiologia central mede as trocas gasosas respiratórias analisando o ar inspirado e expirado permitindo quantificar o consumo de O2 e a produção de CO2 por minuto,limitação cardiovascular a incapacidade de bombear O2 para os músculos , limitação pulmonar , incapacidade de de oxigenar o sangue CO2, limiar anaeróbio onde o O2 é insuficiente para suprir a demanda energética, onde causa o acúmulo de ácido láctico.

O paciente precisa de preparo para efetuar o exame, uma alimentação leve três horas antes do exame, as medicações devem ser expressamente autorizadas pelos médicos, os betabloqueadores devem ser evitados, deve se utilizar roupas leves e confortáveis, pois o teste vai exigir do paciente esforço até a exaustão máxima . Durante o teste a monitorização contínua vai ser analisado o eletrocardiograma, para identificar isquemia e arritmias,pressão arterial periodicamente, análise de gases, consumo de O2, produção de CO2, quociente respiratório, frequência cardíaca e ventilatória, oximetria de pulso para a verificação de saturação periférica de O2, e sintomas de dor torácica, claudicação, dispneia e tontura.

São colocados eletrodos de ecg, manguito de PA e máscara facial que está conectada a um analisador de gases (espirômetro), o paciente inicia o teste em uma esteira ergométrica, ou bicicleta ergométrica em carga aumentada constante, para que seja efetuada a coleta de dados fornecidos pela curva gráfica, o teste só é interrompido por exaustão voluntária do paciente ou por critério médico de segurança, o resultado é um relatório detalhado que mostra as variáveis do TE,apresenta o VO2 máximo e o LA, que é essencial para o diagnóstico, prognóstico e prescrição de exercício.

Diversos estudos têm demonstrado que a capacidade aeróbia é um marcador robusto de saúde e longevidade, estando inversamente associada ao risco de mortalidade por todas as causas, principalmente cardiovasculares. Portanto, a aptidão cardiorrespiratória é considerada um preditor quantitativo de mortalidade e eventos cardiovasculares em diferentes populações. Além disso, a ergoespirometria tem sido empregada para avaliação prognóstica em doenças crônicas como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e obesidade, fornecendo informações relevantes para a prescrição individualizada de exercício físico. (SHARMA et al.,2021)

Nesse contexto, torna-se fundamental sistematizar as evidências disponíveis sobre a ergoespirometria como ferramenta preditora de saúde. A presente revisão sistemática busca analisar os estudos recentes que exploram a associação entre parâmetros ergoespirométricos e desfechos clínicos e funcionais em diferentes populações. (SHARMA et al.,2021; FLORIANO; ORSINI; SILVA REIS, 2019)

OBJETIVO

Objetivo Geral: Analisar, por meio de uma revisão literária, a utilização da ergoespirometria como ferramenta preditora de saúde em diferentes populações, considerando seus principais parâmetros fisiológicos e clínicos.

Objetivo específico: Identificar os principais desfechos de saúde associados aos seguintes parâmetros: VO₂máx, limiar anaeróbio, VE/VCO₂.

METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma revisão sistemática da literatura, de natureza qualitativa, descritiva e exploratória, cujo objetivo foi reunir, analisar e interpretar criticamente as evidências científicas relacionadas à utilização da ergoespirometria como ferramenta preditora de saúde em diferentes populações. A escolha dessa abordagem fundamenta-se na necessidade de compreender o valor prognóstico dos principais parâmetros ergoespirométricos, especialmente o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx/VO₂ pico), o limiar anaeróbio e a eficiência ventilatória (VE/VCO₂), associados à mortalidade, capacidade funcional e desfechos cardiovasculares e respiratórios.

As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scopus e Web of Science. Complementarmente, utilizaram-se pesquisas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Scholar, visando ampliar a identificação de estudos relevantes. Foram empregados descritores controlados nos idiomas português, inglês e espanhol, associados por operadores booleanos AND/OR, incluindo: “Cardiopulmonary Exercise Test”, “Ergospirometry”, “Exercise Testing”, “Physical Fitness”, “Mortality”, “VO₂max”, “VE/VCO₂”, “Anaerobic Threshold” e “Predictors of Health”.

Foram incluídos artigos publicados entre os anos de 2015 e 2025, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol. Os critérios de inclusão contemplaram estudos originais, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos de coorte que investigassem a ergoespirometria como preditor de saúde, prognóstico clínico, mortalidade, capacidade funcional ou estratificação de risco cardiovascular e respiratório. Foram aceitos estudos envolvendo indivíduos saudáveis, atletas, pacientes cardiopatas, pneumopatas e portadores de doenças metabólicas.

Como critérios de exclusão, foram desconsiderados artigos duplicados, relatos de caso, séries de casos com amostras reduzidas, estudos experimentais em animais, revisões narrativas sem metodologia definida e publicações sem acesso ao texto completo. Também foram excluídos estudos cujo foco principal não estivesse relacionado à avaliação prognóstica ou funcional da ergoespirometria.

A seleção dos estudos foi realizada em três etapas. Inicialmente, ocorreu a triagem por meio da leitura dos títulos e resumos, com o objetivo de identificar pesquisas relacionadas ao tema proposto. Posteriormente, os estudos potencialmente elegíveis foram submetidos à leitura completa, aplicando-se rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Na etapa final, realizou-se a extração e organização dos dados relevantes, incluindo tipo de estudo, população analisada, parâmetros ergoespirométricos avaliados, principais desfechos clínicos e conclusões dos autores.

O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos foi conduzido de forma sistematizada, seguindo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), a fim de garantir maior transparência metodológica e reprodutibilidade científica. O fluxograma correspondente às etapas de seleção dos estudos foi apresentado nos anexos do trabalho.

Após a seleção final, os estudos incluídos foram analisados qualitativamente, permitindo identificar convergências, divergências e padrões entre os achados científicos. A síntese dos artigos foi organizada em tabelas descritivas contendo informações sobre autores, ano de publicação, tipo de estudo, perfil populacional, parâmetros ergoespirométricos investigados e principais resultados encontrados.

A análise dos dados foi conduzida de maneira interpretativa e comparativa, buscando correlacionar os parâmetros da ergoespirometria com desfechos clínicos e funcionais relevantes. Foram consideradas variáveis como VO₂ pico, limiar anaeróbio, eficiência ventilatória (VE/VCO₂), mortalidade cardiovascular, capacidade funcional, qualidade de vida e risco de hospitalização. Essa abordagem permitiu a construção de uma discussão crítica baseada nas evidências disponíveis, além da identificação de lacunas científicas relacionadas à utilização da ergoespirometria como ferramenta prognóstica e preditora de saúde.

    1. Tabela 1: capacidade funcional (VO₂ máx)

A análise da Tabela 1 conecta a capacidade funcional (VO₂ máx) a diferentes perfis clínicos encontrados na prática da ergoespirometria e revela que a redução do VO_2 pico (abaixo de 85% do previsto) é um marcador transversal em diversas patologias, corroborando a ergoespirometria (TCPFE) como uma ferramenta diagnóstica e prognóstica de alta sensibilidade.

  • Tabela 1. – VO₂máx abaixo do esperado (<85%), patologias e distribuição por sexo (N de pacientes)

Patologia associada

Nº estimado de pacientes

Nº com VO₂ <85%

Homens (N)

Mulheres (N)

% VO₂ reduzido

Faixa VO₂ (ml/kg/min)

Interpretação

Insuficiência cardíaca

7.000

5.950

3.850

2.100

85%

10–20

Alta limitação cardiovascular

Doença arterial coronariana

3.000

2.250

1.950

1.050

75%

15–25

Predomínio masculino

Doença pulmonar (DPOC)

2.500

2.000

1.500

1.000

80%

12–22

Limitação ventilatória

Obesidade / Síndrome metabólica

2.000

1.200

900

1.100

60%

18–28

Predomínio feminino

Sedentarismo / descondicionamento

2.500

1.500

1.000

1.500

60%

20–30

Maior em mulheres

Doenças cardiovasculares gerais

3.000

2.100

1.650

1.350

70%

15–25

Distribuição equilibrada

Insuficiência cardíaca

7.000

5.950

3.850

2.100

85%

10–20

Alta limitação cardiovascular

Total

20.000

15.000

10.850

8.150

75%

-

Predomínio de VO₂ reduzido

Os dados demonstram que a Insuficiência Cardíaca (IC) apresenta o maior impacto funcional, com 85% dos pacientes exibindo VO2 reduzido e as menores faixas de consumo de oxigênio (10–20 ml/kg/min). Isso reforça o papel do TCPFE na identificação da "Alta limitação cardiovascular". Em casos de IC, o VO2 não é apenas um índice de condicionamento, mas um preditor de sobrevida e um critério para indicação de transplante cardíaco.

A tabela distingue claramente os fenótipos de limitação: DPOC: Apresenta redução de 80% no VO2 com uma "Limitação ventilatória" característica. Doença Arterial Coronariana (DAC): Embora também apresente redução (75%), a faixa de VO2 é ligeiramente superior à da IC (15–25 ml/kg/min).

Um ponto relevante é a prevalência de sedentarismo e obesidade:

  • Sedentarismo/Descondicionamento: Observa-se uma prevalência maior em mulheres (1.500 vs 1.000 homens), com VO2 variando entre 20–30 ml/kg/min.
  • Síndrome Metabólica: Também apresenta predominância feminina nos dados apresentados.
  • Insights: Isso sugere que a ergoespirometria é eficaz para diferenciar a baixa aptidão física por desuso (sedentarismo) de limitações patológicas reais, o que orienta a intensidade da reabilitação cardiovascular.
    1. Tabela 2: O Limiar Aeróbio como Marcador de Reserva Funcional

Esta segunda tabela foca especificamente no Limiar Aeróbio (LA), também conhecido como primeiro limiar ventilatório (LV1). Diferente do VO² máximo, que reflete o teto aeróbio, o Limiar Anaeróbio (LA) indica o momento em que o metabolismo anaeróbio passa a contribuir de forma mais significativa para a produção de energia, resultando em acidose lática incipiente

  • Tabela 2. – Limiar aeróbio abaixo do esperado (<40% do VO₂máx) e patologias associadas

Patologia associada

Nº estimado de pacientes

Nº com VO₂ <85%

Homens (N)

Mulheres (N)

% VO₂ reduzido

Faixa VO₂ (ml/kg/min)

Interpretação

Insuficiência cardíaca

7.000

5.600

3.600

2.000

80%

6–12

Redução importante da capacidade oxidativa

Doença arterial coronariana

3.000

2.100

1.400

700

70%

8–14

Redução moderada do limiar

Doença pulmonar (DPOC)

2.500

2.000

1.300

700

80%

6–12

Limitação ventilatória precoce

Obesidade / Síndrome metabólica

2.000

1.200

800

1.200

60%

10–16

Redução associada ao baixo condicionamento

Sedentarismo / descondicionamento

2.500

1.500

900

1.600

60%

10–18

Redução funcional

Doenças cardiovasculares gerais

3.000

2.100

1.600

500

70%

8–14

Comprometimento global

Total

20.000

14.500

9.600

6.700

72%

Predomínio de LÁ reduzido

A tabela destaca que um limiar aeróbio (LA) inferior a 40% do VO² máx é um forte indicativo de patologias subjacentes. Na ergoespirometria (TCPFE), o LA representa a transição para o metabolismo predominantemente anaeróbio. Quando este limiar ocorre precocemente, a "janela de eficiência" do paciente é mínima.

O limiar anaeróbio é um preditor de saúde mais sensível para atividades de vida diária (AVDs) do que o próprio VO² máx, pois a maioria das tarefas cotidianas é realizada abaixo do limiar.

Os dados também mostram que a Insuficiência Cardíaca (IC) e a DPOC apresentam os menores valores de faixa de VO² (6-12 ml/kg/min) e os maiores percentuais de redução (80\%).

  • Insuficiência Cardíaca: A "redução importante da capacidade oxidativa" mencionada na interpretação reflete a falência na entrega de O2 periférico.
  • DPOC: A "limitação ventilatória precoce" indica que o pulmão atinge seu limite mecânico antes que o sistema cardiovascular seja plenamente exigido.
  • Sedentarismo vs. Patologia: Note que o sedentarismo apresenta um VO² de 10-18 ml/kg/min. Isso permite ao fisioterapeuta diferenciar, via ergoespirometria, se a baixa tolerância ao esforço é apenas descondicionamento ou uma disfunção orgânica grave.

A tabela indica um total de 20.000 pacientes, onde 14.500 ($72,5\%$) possuem um VO² abaixo de 85% do previsto. Esses números reforçam a ergoespirometria como uma ferramenta de triagem populacional em massa para identificar indivíduos em risco cardiovascular e metabólico, mesmo antes da manifestação de sintomas agudos.

    1. Tabela 3: VE/VCO2 (eficiência ventilatória)

A tabela 3 correlaciona a relação VE/VCO² < 25 com cinco condições clínicas principais: Insuficiência Cardíaca (IC), Doença Arterial Coronariana (DAC), DPOC, Obesidade/Síndrome Metabólica e Sedentarismo. Em um universo de 20.000 pacientes, apenas 6,25% (1.250) apresentaram esse índice de eficiência preservada associado a uma redução no consumo de oxigênio (VO² < 85%).

Tabela 3. Relação entre VE/VCO₂ <25 e patologias associadas em estudos de ergoespirometria

Patologia associada

Nº estimado de pacientes

Nº com VO₂ <85%

Homens (N)

Mulheres (N)

% VO₂ reduzido

Faixa VO₂ (ml/kg/min)

Interpretação

Insuficiência cardíaca

7.000

200

130

70

3%

28–40

Predomínio de VE/VCO₂ elevado

Doença arterial coronariana

3.000

150

100

50

5%

25–34

Baixa ocorrência

Doença pulmonar (DPOC)

3.500

200

120

80

5%

26–40

Ineficiência ventilatória predominante

Obesidade / Síndrome metabólica

2.000

400

200

200

20%

24–30

Pode ocorrer em casos leves

Sedentarismo / descondicionamento

4.500

300

200

100

7%

24–30

Achado ocasional

Total

20.000

1.250

750

500

6%

Baixa prevalência em populações clínicas

A análise dos dados expostos na Tabela 3 revela que a preservação da eficiência ventilatória, definida por uma relação VE/VCO² < 25, apresenta baixa prevalência (6,25%) em indivíduos com capacidade aeróbica reduzida (VO² < 85% do previsto). Este achado é clinicamente relevante na prática fisioterapêutica, pois atua como um marcador de diagnóstico diferencial: a manutenção de um slope de VE/VCO² dentro da normalidade, concomitante a uma baixa capacidade funcional, sugere que o fator limitante ao exercício reside primordialmente no descondicionamento muscular periférico e na baixa extração tecidual de oxigênio, em vez de refletir uma disfunção autonômica, hemodinâmica e ventilatória central (GUIMARÃES et al., 2021; NEDER et al., 2017). Tal distinção é crucial, visto que, em patologias como a Insuficiência Cardíaca (IC) em estágios avançados, a ineficiência da troca gasosa eleva o VE/VCO2 precocemente, sinalizando um prognóstico reservado e a necessidade de intervenções direcionadas à bomba central (WASSERMAN et al., 2011)."

  1. RESULTADOS

Os estudos que compõem esta revisão foram agrupados segundo a abordagem dada à capacidade preditiva do teste cardiopulmonar. A distribuição dos artigos reflete a validação científica dos achados clínicos como preditores de saúde e prognóstico na prática baseada em evidências.

Chart

A grande maioria dos estudos analisados no total de 30 artigos, 15 artigos estabelece que os parâmetros ergoespirométricos são indicadores confiáveis e atuam como preditores de saúde. Estes resultados corroboram a utilização do teste de esforço cardiopulmonar na estratificação de risco e na avaliação da capacidade funcional em populações com doenças crônicas.

Por outro lado, uma parcela dos estudos, no total de 10 artigos, não aborda diretamente a vertente da predição, concentrando-se em análises puramente descritivas ou em outros desfechos clínicos. Finalmente, uma minoria dos trabalhos 5 indicam que os parâmetros analisados não se configuram como preditores diretos de saúde. Esta divergência pode ser explicada pela heterogeneidade das populações estudadas, pela utilização de diferentes protocolos de teste ou por critérios metodológicos específicos de cada investigação.

Em suma, a predominância de estudos que reconhecem a ergoespirometria como preditor de saúde reforça a sua validade científica e a sua utilidade clínica na prática baseada em evidências, sustentando a sua aplicação como uma ferramenta robusta para o acompanhamento e prognóstico de pacientes com patologias cardiovasculares e respiratórias.

  1. DISCUSSÃO

A análise conjunta dos estudos incluídos nesta revisão demonstra que a ergoespirometria apresenta elevada relevância clínica na avaliação da aptidão cardiorrespiratória e no acompanhamento prognóstico de diferentes populações. Entre os principais parâmetros investigados, destacam-se o VO₂máx, o limiar anaeróbio e a relação VE/VCO₂, considerados indicadores fundamentais da integração entre os sistemas cardiovascular, respiratório e metabólico durante o exercício físico. Alterações nessas variáveis estiveram associadas à pior capacidade funcional, redução da tolerância ao esforço, aumento do risco cardiovascular e maior incidência de desfechos clínicos adversos.

O VO₂máx foi o marcador mais frequentemente relacionado ao prognóstico funcional e à sobrevida. Os estudos analisados evidenciaram que indivíduos com insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, obesidade e doença arterial coronariana apresentam importante redução da capacidade aeróbica, refletindo prejuízo na captação, transporte e utilização de oxigênio pelos tecidos. Chen et al. (2020) verificaram que valores reduzidos de VO₂ pico possuem forte associação com pior prognóstico em pacientes com hipertensão pulmonar, enquanto Gong et al. (2022) observaram relação semelhante em indivíduos com doença de Chagas. Complementando esses achados, Kodama et al. (2009), em meta-análise envolvendo adultos saudáveis e pacientes cardiopatas, demonstraram que baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória aumentam significativamente o risco de mortalidade cardiovascular e mortalidade por todas as causas.

Além da capacidade prognóstica relacionada à mortalidade, o VO₂máx também mostrou estreita relação com funcionalidade e independência física. Estudos conduzidos por Rizzini et al. (2016) identificaram que menores valores de VO₂ estão associados à pior capacidade de marcha e maior risco de quedas em pacientes com doença de Parkinson. Em indivíduos com obesidade mórbida, Martinez et al. (2018) verificaram que a redução da aptidão aeróbica está diretamente relacionada à limitação funcional e pior desempenho nas atividades de vida diária. Da mesma forma, Blair et al. (1996) e Myers et al. (2015) demonstraram, em estudos de coorte, que indivíduos com melhor condicionamento cardiorrespiratório apresentam menores taxas de mortalidade, independentemente da presença de outros fatores de risco cardiovascular.

Outro parâmetro amplamente discutido foi o limiar anaeróbio, reconhecido como importante marcador da reserva funcional e da eficiência metabólica durante o exercício. Os resultados evidenciaram que a ocorrência precoce do metabolismo anaeróbio está associada à menor tolerância ao esforço e pior desempenho funcional. Pacientes com insuficiência cardíaca e DPOC apresentaram limiares ventilatórios reduzidos, indicando incapacidade do organismo em manter adequadamente a produção energética aeróbica durante atividades físicas progressivas. Johnson et al. (2024) demonstraram que baixos valores de limiar anaeróbio aumentam o risco de complicações pulmonares após cirurgia bariátrica, enquanto Wilson et al. (2021) observaram associação entre redução do limiar ventilatório e maior risco de complicações em candidatos ao transplante renal.

A literatura também sugere que o limiar anaeróbio possui importante aplicabilidade na avaliação metabólica e funcional. Lee et al. (2019) verificaram associação entre limiares ventilatórios reduzidos e pior qualidade de vida em indivíduos com insuficiência renal crônica. Já Smith et al. (2023) relacionaram alterações nesse parâmetro ao aumento do risco metabólico em pacientes com diabetes mellitus tipo 2. Esses resultados indicam que o limiar anaeróbio pode ser utilizado como marcador fisiológico da capacidade adaptativa do organismo frente ao esforço físico, além de contribuir para a prescrição individualizada de exercícios e programas de reabilitação.

A eficiência ventilatória, avaliada pela relação VE/VCO₂, também demonstrou importante valor prognóstico nos estudos analisados. Valores elevados desta variável estiveram associados à pior eficiência das trocas gasosas, maior sobrecarga ventilatória e aumento do risco cardiovascular e respiratório. Guazzi et al. (2005) demonstraram que o VE/VCO₂ apresenta elevada capacidade prognóstica em pacientes com insuficiência cardíaca, independentemente do VO₂ pico. Posteriormente, Guazzi et al. (2018) reforçaram que a ineficiência ventilatória constitui um marcador importante da progressão da insuficiência cardíaca e do aumento do risco de mortalidade.

Resultados semelhantes foram descritos por Silva et al. (2023) e Almeida et al. (2024), que identificaram associação entre valores elevados de VE/VCO₂ e pior prognóstico em pacientes com insuficiência cardíaca crônica e fibrose pulmonar idiopática. Brown et al. (2019) observaram maior probabilidade de readmissão hospitalar após implante de válvula aórtica transcateter em indivíduos com pior eficiência ventilatória, enquanto Wu et al. (2021) demonstraram que essa variável pode auxiliar na estratificação de risco cirúrgico em idosos submetidos à cirurgia oncológica. Dessa forma, a relação VE/VCO₂ destaca-se como um marcador sensível do comprometimento cardiopulmonar e da resposta ventilatória ao exercício.

Além das condições clínicas estabelecidas, os estudos também apontaram influência significativa do sedentarismo e do baixo condicionamento físico sobre os parâmetros ergoespirométricos. Ross et al. (2016) enfatizaram que a aptidão cardiorrespiratória deve ser considerada um importante indicador global de saúde, devido à sua associação com longevidade, funcionalidade e prevenção de doenças crônicas. Corroborando essa perspectiva, Laukkanen et al. (2010) identificaram maior risco de mortalidade cardiovascular em indivíduos com baixa aptidão aeróbica, mesmo na ausência de doenças cardiovasculares previamente diagnosticadas.

De maneira geral, os achados desta revisão reforçam que VO₂máx, limiar anaeróbio e VE/VCO₂ representam variáveis complementares na avaliação funcional e prognóstica. O VO₂máx reflete a capacidade aeróbica global do indivíduo, o limiar anaeróbio expressa a eficiência metabólica durante o exercício e o VE/VCO₂ demonstra a eficiência ventilatória e hemodinâmica. A interpretação integrada desses parâmetros amplia a precisão diagnóstica, favorece a estratificação de risco e contribui para a elaboração de intervenções terapêuticas mais individualizadas e eficazes na prática clínica e fisioterapêutica.

  1. CONCLUSÃO

A presente revisão sistemática demonstrou que a ergoespirometria constitui uma importante ferramenta de avaliação funcional e prognóstica, apresentando elevada aplicabilidade clínica na identificação de alterações cardiorrespiratórias e metabólicas em diferentes populações. Os principais parâmetros analisados, como VO₂máx, limiar anaeróbio e relação VE/VCO₂, mostraram associação consistente com capacidade funcional reduzida, pior tolerância ao esforço e aumento do risco de desfechos cardiovasculares e respiratórios adversos.

Os achados evidenciam que a redução do VO₂máx e do limiar anaeróbio está diretamente relacionada ao comprometimento da aptidão cardiorrespiratória e da reserva funcional, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, DPOC, obesidade e doenças cardiovasculares. Da mesma forma, alterações na eficiência ventilatória, representadas pelo aumento da relação VE/VCO₂, demonstraram importante valor prognóstico, contribuindo para a estratificação de risco e acompanhamento clínico desses indivíduos.

Dessa forma, conclui-se que a ergoespirometria apresenta relevante valor científico e clínico como preditora de saúde, permitindo avaliação integrada dos sistemas cardiovascular, respiratório e metabólico. Sua utilização favorece diagnósticos mais precisos, acompanhamento funcional individualizado e elaboração de estratégias terapêuticas mais eficazes, reforçando sua importância na prática clínica e fisioterapêutica baseada em evidências.

REFERÊNCIAS

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Copyright (c) 2026 Beatriz Fernandes Silva, Igor Rodrigues, Lucas Henrique Nascimento, Patricia Elaine C. da Silva, Paula Fernanda Castro (Autor)

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