Palavras-chave
mulheres jovens
saúde mental
estado nutricional
comportamento alimentar
Transtornos alimentares em mulheres jovens adultas: impactos psicológicos e consequências no estado nutricional
Eating disorders in young adult women: psychological impacts and consequences on nutritional status
Laura de Araújo Leonel
Antônio José de Andrade (Orientador)
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo analisar os principais transtornos alimentares em mulheres jovens adultas, enfatizando seus impactos psicológicos e as consequências no estado nutricional. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, de caráter descritivo e qualitativo, realizada a partir de buscas nas bases de dados PubMed e Science Direct, utilizando descritores em português e inglês relacionados ao tema, combinados por operadores booleanos. Foram incluídos artigos publicados entre 2016 e 2026, disponíveis na íntegra, que abordassem mulheres jovens adultas com transtornos alimentares ou em risco de desenvolvê-los. Os resultados evidenciaram elevada prevalência desses transtornos nesse público, associada a fatores psicológicos, como ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldade na regulação emocional, além de forte influência de fatores socioculturais, especialmente relacionados aos padrões estéticos e ao uso de redes sociais. Observou-se que a anorexia nervosa está relacionada à restrição alimentar e comprometimentos fisiológicos, a bulimia nervosa a comportamentos compensatórios e alterações metabólicas, e o transtorno de compulsão alimentar ao sobrepeso e ao risco de doenças crônicas. No aspecto nutricional, verificaram-se inadequações no consumo de nutrientes e alterações no estado nutricional, que variam desde desnutrição até excesso de peso. Conclui-se que os transtornos alimentares são condições multifatoriais que demandam abordagem multiprofissional, com destaque para a atuação do nutricionista na prevenção, no tratamento e na promoção de uma relação saudável com a alimentação, sendo fundamental o desenvolvimento de estratégias que considerem os aspectos psicológicos, nutricionais e socioculturais envolvidos.
Palavras-chave: transtornos alimentares; mulheres jovens; saúde mental; estado nutricional; comportamento alimentar.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the main eating disorders in young adult women, emphasizing their psychological impacts and consequences on nutritional status. It is an integrative literature review with a descriptive and qualitative approach, conducted through searches in the PubMed and Science Direct databases, using descriptors in Portuguese and English related to the topic, combined with Boolean operators. Articles published between 2016 and 2026, available in full and addressing young adult women with eating disorders or at risk of developing them, were included. The results showed a high prevalence of these disorders in this population, associated with psychological factors such as anxiety, depression, low self-esteem, and difficulties in emotional regulation, in addition to strong influence from sociocultural factors, especially those related to aesthetic standards and social media use. It was observed that anorexia nervosa is associated with food restriction and physiological impairments, bulimia nervosa with compensatory behaviors and metabolic changes, and binge eating disorder with overweight and increased risk of chronic diseases. From a nutritional perspective, inadequacies in nutrient intake and changes in nutritional status were identified, ranging from malnutrition to excess weight. It is concluded that eating disorders are multifactorial conditions that require a multidisciplinary approach, highlighting the role of the nutritionist in prevention, treatment, and promotion of a healthy relationship with food, as well as the importance of developing strategies that consider psychological, nutritional, and sociocultural aspects.
Keywords: eating disorders; young women; mental health; nutritional status; eating behavior.
1 INTRODUÇÃO
Os transtornos alimentares (TAs) constituem distúrbios complexos caracterizados por alterações persistentes no comportamento alimentar, preocupação excessiva com peso e forma corporal e impactos significativos na saúde física e psicológica. Estima-se que a prevalência ao longo da vida dos transtornos alimentares seja de aproximadamente 8,4% entre mulheres e 2,2% entre homens, demonstrando maior vulnerabilidade do público feminino a essas condições (Galmiche et al., 2019). No Brasil, estudos apontam aumento dos comportamentos alimentares de risco e da insatisfação corporal, especialmente entre mulheres jovens adultas, que constituem um grupo vulnerável às pressões socioculturais e estéticas contemporâneas (Santos et al., 2024).
A intensa exposição a padrões corporais irreais, frequentemente reforçados pelas redes sociais, tem contribuído para a insatisfação com a imagem corporal, aumentando o risco para o desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais. Estudos nacionais evidenciam que mulheres jovens apresentam maior propensão a experimentar comparação social, baixa autoestima e internalização do ideal de magreza, fatores que desempenham papel central na etiologia dos transtornos alimentares (Vieira et al., 2023).
Os impactos psicológicos associados aos TAs incluem sintomas ansiosos e depressivos, distorção da imagem corporal e dificuldades na regulação emocional, que se intensificam em mulheres jovens devido às demandas sociais, emocionais e profissionais vivenciadas nessa etapa da vida (Pereira et al., 2023). Essa interação entre fatores emocionais e comportamentais contribui para a manutenção dos distúrbios e para a piora do prognóstico.
No aspecto nutricional, os transtornos alimentares podem gerar repercussões severas. Pesquisas brasileiras mostram que mulheres com risco para TAs frequentemente apresentam desequilíbrios no estado nutricional, incluindo alterações no peso corporal, inadequações energéticas, déficit de micronutrientes, distúrbios gastrointestinais e alterações metabólicas decorrentes de práticas como restrição alimentar extrema, compulsão e comportamentos compensatórios (Biolchi, 2022). A distorção da percepção corporal, por sua vez, está estreitamente relacionada à autopercepção do estado nutricional, podendo levar a estratégias alimentares prejudiciais (Cruz et al., 2024).
Deste modo, a finalidade desse estudo é compreender a relação entre aspectos psicológicos, comportamentais e nutricionais em mulheres jovens adultas com risco ou diagnóstico de transtornos alimentares é fundamental para a construção de estratégias de prevenção, intervenções multidisciplinares e políticas públicas voltadas à promoção da saúde no contexto brasileiro.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Caracterização dos principais transtornos alimentares em mulheres jovens
Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas caracterizadas por padrões persistentes de comportamentos alimentares disfuncionais e distorções na percepção da imagem corporal, apresentando elevada prevalência entre mulheres jovens. Entre os principais transtornos, destacam-se anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar, definidos pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais DSM-5-TR como quadros que comprometem o funcionamento físico, psicológico e social (American Psychiatric Association, 2022).
Estudos epidemiológicos demonstram diferenças importantes na prevalência dos transtornos alimentares entre mulheres. Segundo a revisão sistemática de Galmiche et al. (2019), a prevalência ao longo da vida em mulheres é estimada em aproximadamente 2,8% para o transtorno de compulsão alimentar, 1,9% para bulimia nervosa e 1,4% para anorexia nervosa, evidenciando maior ocorrência do transtorno de compulsão alimentar em comparação aos demais. Apesar da menor prevalência, a anorexia nervosa apresenta elevada gravidade clínica e importante risco de mortalidade. Além disso, observa-se crescimento significativo dos comportamentos alimentares de risco entre mulheres jovens, especialmente relacionados à compulsão alimentar, insatisfação corporal e práticas restritivas influenciadas por fatores socioculturais e digitais (Galmiche et al., 2019; Santos et al., 2024).
A prevalência de comportamentos alimentares de risco em mulheres jovens permanece elevada, com estudos apontando impacto significativo de fatores hormonais, socioculturais e emocionais (Santos et al., 2024). A exposição contínua a padrões corporais idealizados, amplificados especialmente pelas redes sociais, aumenta a vulnerabilidade e reforça comportamentos alimentares disfuncionais (Almeida et al., 2020; Brito; Almeida; Ferreira, 2021).
2.1.1 Anorexia nervosa
A anorexia nervosa caracteriza-se pela restrição intensa da ingestão energética, resultando em peso corporal significativamente abaixo do esperado, acompanhada de medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal (American Psychiatric Association, 2022).
Além dos critérios diagnósticos, esse transtorno envolve alterações fisiológicas importantes, como bradicardia, hipotensão, amenorreia e desequilíbrios hormonais, decorrentes do estado de desnutrição prolongado (Mantovaneli, 2023). Estudos mais recentes também destacam prejuízos cognitivos, dificuldade de concentração e alterações no humor, como irritabilidade e depressão (Treasure et al., 2020).
2.1.2 Bulimia nervosa
A bulimia nervosa envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos por comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, jejuns prolongados ou exercícios excessivos (American Psychiatric Association, 2022).
Embora o peso corporal geralmente permaneça dentro da normalidade, os prejuízos à saúde são significativos. Entre as principais complicações estão distúrbios hidroeletrolíticos, desidratação, alterações gastrointestinais e erosão dentária, decorrente do vômito frequente (Stefani et al., 2023; Westmoreland; Krantz; Mehler, 2016).
2.1.3 Transtorno de compulsão alimentar
O transtorno de compulsão alimentar (TCA) consiste em episódios de ingestão alimentar excessiva acompanhados de sensação de perda de controle, porém sem comportamentos compensatórios, diferenciando-se da bulimia (American Psychiatric Association, 2022; Stefani et al., 2023; Lima-Santos; Santos; Oliveira-Cardoso, 2023).
Esse transtorno está fortemente associado ao sobrepeso e à obesidade, além de aumentar o risco de desenvolvimento de síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e outras comorbidades (Mantovaneli, 2023; Hilbert, 2019).
2.2 Fatores psicológicos associados aos transtornos alimentares
Os fatores psicológicos exercem papel central no desenvolvimento e manutenção dos transtornos alimentares. Baixa autoestima, perfeccionismo, ansiedade e padrões rígidos de pensamento são frequentemente observados entre mulheres jovens diagnosticadas com esses transtornos. Estudos qualitativos recentes demonstram que sentimentos de inadequação, culpa e vergonha fazem parte das vivências emocionais dessas mulheres, contribuindo para o ciclo de restrição e compulsão alimentar (Lima-Santos; Santos; Oliveira-Cardoso, 2023).
A baixa autoestima está diretamente relacionada à forma como o indivíduo percebe seu corpo e seu valor pessoal, sendo um dos principais fatores associados à insatisfação corporal. Mulheres jovens, em especial, apresentam maior vulnerabilidade à internalização de padrões estéticos irreais, o que favorece o desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais. Nesse contexto, a constante comparação social, intensificada pelo uso de redes sociais, contribui significativamente para o aumento da autocrítica e da distorção da imagem corporal (Brito; Almeida; Ferreira, 2021; Peres; Gomes; Oliveira, 2022).
Sintomas de ansiedade e depressão são comumente observados em indivíduos com transtornos alimentares, podendo atuar tanto como fatores desencadeantes quanto como consequências dessas condições. A dificuldade na regulação emocional faz com que muitas mulheres utilizem a alimentação como estratégia de enfrentamento, seja por meio da restrição alimentar ou da compulsão, reforçando um ciclo prejudicial à saúde mental e física (Lima-Santos; Santos; Oliveira-Cardoso, 2023).
A pressão estética e a comparação social intensificadas por ambientes digitais também atuam como gatilhos emocionais relevantes. Pesquisas mostram que essas influências reforçam a autocrítica, a insatisfação corporal e a adoção de condutas alimentares restritivas (Brito; Almeida; Ferreira, 2021; Peres; Gomes; Oliveira, 2022).
2.3 Implicações nutricionais dos transtornos alimentares
As consequências nutricionais associadas aos transtornos alimentares podem ser severas e variam conforme a duração e gravidade do quadro. A restrição prolongada pode levar à desnutrição, perda de massa magra, alterações metabólicas e déficits de micronutrientes. Na anorexia, observa-se desde bradicardia até alterações hormonais; na bulimia, distúrbios hidroeletrolíticos; e no transtorno de compulsão alimentar, maior risco de obesidade e síndrome metabólica (Mantovaneli, 2023; Stefani; et al., 2023).
De forma geral, indivíduos com transtornos alimentares apresentam inadequações no consumo de macro e micronutrientes, o que compromete o funcionamento adequado do organismo. Os prejuízos clínicos incluem comprometimento imunológico, alterações endócrinas e redução da capacidade funcional, evidenciando a gravidade dessas condições (Marques; Magalhães; Carvalho, 2019).
Esses achados reforçam a necessidade de acompanhamento nutricional especializado e de uma abordagem integrada no tratamento dos transtornos alimentares, considerando os impactos físicos e metabólicos associados a essas condições (Treasure et al., 2020).
2.4 Aspectos socioculturais contemporâneos e sua relação com os transtornos alimentares
Os padrões estéticos atuais influenciam diretamente a relação das mulheres com o corpo. A cultura da dieta e a valorização de um ideal magro, amplamente propagados pela mídia, contribuem para o desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais e maior insatisfação corporal (Alvarenga et al., 2018; Peres; Gomes; Oliveira, 2022).
Nesse contexto, a pressão sociocultural exerce papel significativo na construção da imagem corporal, especialmente entre mulheres jovens, que estão mais expostas a expectativas relacionadas à aparência física. A internalização desses padrões pode levar à busca por corpos considerados ideais, muitas vezes incompatíveis com a diversidade corporal real, favorecendo o surgimento de práticas alimentares restritivas e prejudiciais à saúde (Almeida et al., 2020; Brito; Almeida; Ferreira, 2021).
As redes sociais intensificam essas pressões, promovendo ambientes de comparação constante. Estudos mostram que a exposição frequente a conteúdos idealizados de corpo e estilo de vida está associada ao aumento de sintomas relacionados a transtornos alimentares (Holland; Tiggemann, 2017; Rodgers et al., 2020).
Além disso, a cultura contemporânea valoriza práticas de controle alimentar e padrões estéticos restritivos, frequentemente associados ao sucesso, disciplina e aceitação social. Esse cenário pode favorecer a normalização de comportamentos alimentares inadequados, como dietas extremamente restritivas e práticas compensatórias, dificultando a identificação precoce dos transtornos alimentares (Peres; Gomes; Oliveira, 2022).
Outro aspecto relevante refere-se ao impacto da globalização e da disseminação de padrões ocidentais de beleza, que reforçam a magreza como ideal estético. Esse fenômeno contribui para o aumento da insatisfação corporal em diferentes contextos culturais, ampliando a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos alimentares (Rodgers et al., 2020).
3 METODOLOGIA
O presente trabalho trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e qualitativo, com o objetivo de reunir e analisar as evidências científicas disponíveis acerca dos principais transtornos alimentares em mulheres jovens adultas, enfatizando seus impactos psicológicos e as consequências no estado nutricional.
dados PubMed e Science Direct, utilizando os descritores no idioma inglês: “eating disorders”, “mental health” e “nutritional status”, e no idioma português: “transtornos alimentares”, “saúde mental” e “estado nutricional”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.
Foram incluídos artigos publicados entre 2016 e 2026, disponíveis na íntegra, nos idiomas português e inglês, que abordassem mulheres jovens adultas, com faixa etária entre 18 e 35 anos, diagnosticadas ou em risco de desenvolver transtornos alimentares, relacionando-os aos impactos psicológicos e/ou às consequências nutricionais. Foram excluídos estudos com população masculina, adolescentes ou idosas, assim como revisões narrativas, editoriais, teses, dissertações não publicadas e trabalhos que não apresentassem relação direta com o tema proposto.
A busca nas bases de dados resultou inicialmente em 86 estudos relacionados ao tema. Após a leitura dos títulos e resumos, 34 artigos foram excluídos por não apresentarem relação direta com a proposta do estudo. Em seguida, 22 estudos foram removidos por duplicidade, indisponibilidade do texto completo ou inadequação aos critérios de inclusão estabelecidos. Ao final do processo de seleção, 30 artigos foram incluídos na revisão integrativa e analisados na íntegra.
Após a seleção dos artigos, realizou-se a leitura analítica dos textos, identificando os principais resultados, metodologias e conclusões dos autores. As informações extraídas foram organizadas de forma descritiva, permitindo uma síntese interpretativa dos achados, destacando os aspectos psicológicos e nutricionais relacionados aos transtornos alimentares, bem como pontos de convergência e divergência entre os estudos analisados. Esse procedimento contribui para maior rigor metodológico e confiabilidade na análise das evidências científicas.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A busca nas bases de dados PubMed e Science Direct resultou inicialmente em 86 estudos relacionados aos transtornos alimentares em mulheres jovens adultas. Após a leitura dos títulos e resumos, 34 artigos foram excluídos por não apresentarem relação direta com o tema proposto. Em seguida, 22 estudos foram removidos por duplicidade, indisponibilidade do texto completo ou por não atenderem aos critérios de inclusão estabelecidos. Ao final do processo de seleção, 30 artigos foram incluídos na revisão integrativa e analisados na íntegra.
Os estudos selecionados foram publicados entre os anos de 2016 e 2026, predominando pesquisas observacionais, revisões sistemáticas e estudos qualitativos. Os principais temas abordados envolveram fatores psicológicos associados aos transtornos alimentares, influência das redes sociais e dos padrões estéticos, insatisfação corporal, além das consequências nutricionais decorrentes desses transtornos.
Os achados evidenciaram maior prevalência de transtornos alimentares entre mulheres jovens adultas, especialmente associada à baixa autoestima, ansiedade, depressão e intensa preocupação com peso e imagem corporal. Diversos estudos apontaram que a exposição frequente a padrões corporais idealizados, reforçados principalmente pelas redes sociais, contribui significativamente para o desenvolvimento de comportamentos alimentares disfuncionais, como restrição alimentar, compulsão e práticas compensatórias (Brito; Almeida; Ferreira, 2021; Rodgers et al., 2020).
A influência sociocultural foi um dos fatores mais recorrentes entre os estudos analisados. Observou-se que mulheres jovens estão constantemente expostas a conteúdos que valorizam padrões corporais muitas vezes inalcançáveis, favorecendo sentimentos de inadequação, comparação social e insatisfação corporal. Segundo Peres, Gomes e Oliveira (2022), a internalização do ideal de magreza está diretamente relacionada ao aumento de sintomas associados aos transtornos alimentares.
No aspecto psicológico, os estudos demonstraram forte associação entre transtornos alimentares e sintomas ansiosos e depressivos. Lima-Santos, Santos e Oliveira-Cardoso (2023) destacam que sentimento de culpa, vergonha, inadequação e dificuldade na regulação emocional fazem parte da vivência de mulheres acometidas por esses transtornos. Além disso, muitos indivíduos utilizam a alimentação como mecanismo de enfrentamento emocional, o que contribui para a manutenção do quadro clínico.
Em relação às consequências nutricionais, os artigos analisados apontaram impactos significativos no estado nutricional das mulheres jovens. Na anorexia nervosa, observou-se maior ocorrência de desnutrição, perda de massa magra, alterações hormonais e déficits de micronutrientes. Já na bulimia nervosa, foram identificados distúrbios hidroeletrolíticos, alterações gastrointestinais e erosão dentária decorrentes dos episódios frequentes de vômito autoinduzido. No transtorno de compulsão alimentar, verificou-se maior associação com sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica (Mantovaneli, 2023; Stefani et al., 2023).
Outro aspecto identificado nos estudos, refere-se ao impacto dos transtornos alimentares na qualidade de vida e no funcionamento social das mulheres acometidas. Muitos artigos relataram prejuízos emocionais, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, isolamento social e comprometimento da autoestima, evidenciando que os transtornos alimentares ultrapassam as consequências físicas e nutricionais.
Os resultados encontrados reforçam a importância da atuação multiprofissional no cuidado às mulheres com transtornos alimentares, especialmente envolvendo nutricionistas, psicólogos e psiquiatras. A abordagem integrada mostrou-se fundamental para o tratamento adequado, considerando a complexidade dos fatores psicológicos, sociais e nutricionais envolvidos nesses transtornos.
Embora os estudos demonstrem forte associação entre redes sociais e transtornos alimentares, observa-se que os fatores psicológicos e socioculturais atuam de forma multifatorial, dificultando a identificação de uma única causa determinante para o desenvolvimento desses
Além disso, os estudos destacaram a necessidade de estratégias de prevenção e promoção da saúde voltadas ao público jovem feminino, principalmente no ambiente digital e escolar, visando reduzir a influência de padrões estéticos irreais e estimular uma relação mais saudável com a alimentação e a imagem corporal.
Quadro 1 - Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre transtornos alimentares em mulheres jovens adultas.
Autor/ano | Objetivo | Tipo de estudo | Amostra/público | Principais achados |
|---|---|---|---|---|
Lima-Santos; Santos; Oliveira-Cardoso (2023) | Compreender as vivências de mulheres com transtornos alimentares | Estudo qualitativo | Mulheres com diagnóstico de transtornos alimentares | Identificou sentimento de culpa, vergonha, sofrimento emocional e dificuldades na relação com a alimentação |
Brito; Almeida; Ferreira (2021) | Avaliar a influência dos padrões estéticos na imagem corporal | Revisão integrativa | Mulheres jovens | Evidenciou associação entre redes sociais, insatisfação corporal e comportamentos alimentares disfuncionais |
Mantovaneli (2023) | Caracterizar os impactos clínicos e nutricionais dos transtornos alimentares | Revisão narrativa | Estudos sobre transtornos alimentares | Demonstrou consequências metabólicas, hormonais e déficits nutricionais importantes |
Stefani et al. (2023) | Analisar perfil sociodemográfico e fatores associados aos transtornos alimentares | Estudo observacional | Pacientes com transtornos alimentares | Identificou alterações nutricionais, psicológicas e sociais frequente |
Rodgers et al. (2020) | Investigar o impacto da internet e redes sociais na imagem corporal | Revisão sistemática | Jovens usuários de redes sociais | Observou associação entre uso excessivo de redes sociais e aumento dos sintomas de transtornos alimentares |
Santos et al. (2024) | Apresentar panorama dos transtornos alimentares em mulheres jovens | Estudo descritivo | Mulheres jovens adultas | Evidenciou aumento da prevalência de comportamentos alimentares de risco |
Holland; Tiggemann (2017) | Avaliar a influência das redes sociais na imagem corporal | Revisão sistemática | Usuários de redes sociais | Identificou relação entre exposição a conteúdos idealizados e insatisfação corporal |
Treasure; Duarte; Schmidt (2020) | Discutir aspectos clínicos dos transtornos alimentares | Revisão científica | Pacientes com transtornos alimentares | Destacou a complexidade psicológica e nutricional dos transtornos alimentares |
Fonte: Elaborado pela própria autora (2026).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os transtornos alimentares em mulheres jovens adultas configuram um importante problema de saúde pública, devido à sua crescente prevalência e aos impactos significativos na saúde física, psicológica e nutricional. A presente revisão integrativa permitiu compreender que esses transtornos são influenciados por múltiplos fatores, com destaque para aspectos psicológicos, pressões socioculturais e padrões estéticos contemporâneos.
Os achados evidenciam que a insatisfação com a imagem corporal, associada à baixa autoestima e à influência das redes sociais, desempenha papel central no desenvolvimento e manutenção dos transtornos alimentares. Além disso, os prejuízos nutricionais observados, que variam desde desnutrição até alterações metabólicas associadas ao excesso de peso, reforçam a gravidade dessas condições e a necessidade de intervenções precoces.
Destaca-se a importância de uma abordagem multiprofissional no manejo dos transtornos alimentares, integrando cuidados nutricionais e psicológicos, com foco na promoção da saúde e na recuperação da qualidade de vida das pacientes. A atuação do nutricionista é fundamental nesse processo, tanto na reabilitação do estado nutricional quanto na educação alimentar e no desenvolvimento de uma relação mais saudável com a alimentação.
Por fim, ressalta-se a necessidade de ampliação de estratégias de prevenção, especialmente voltadas ao público jovem, considerando o impacto das redes sociais e dos padrões estéticos na construção da imagem corporal. Espera-se que este estudo contribua para o fortalecimento de práticas clínicas mais eficazes e para o desenvolvimento de futuras pesquisas na área, ampliando a compreensão sobre os transtornos alimentares e seus múltiplos determinantes.
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