Palavras-chave
Suplementação Nutricional
Cicatrização
Nutricionista
Perioperatório
Suplementação nutricional no pré e pós-operatório de cirurgias plásticas
Nutritional supplementation in the preoperative and postoperative periods of plastic surgeries
Eduarda de Oliveira Silva Elias
Marcella Franco Villela
Antônio José de Rezende
RESUMO
A cirurgia plástica, seja voltada para o âmbito reconstrutivo, seja para o estético, estabeleceu-se como uma área de atuação médica de crescimento substancial nos últimos anos, estimulada pelos progressos tecnológicos e pela progressiva valorização do corpo e da imagem. Contudo, o sucesso destas cirurgias não é determinado de modo exclusivo pelo procedimento operatório, mas também por uma fase perioperatória de recuperação bem-sucedida, em que o suporte nutricional exerce uma função crucial no controle do processo inflamatório e na evolução da cicatrização. O presente artigo explora a importância da terapia de suplementação nutricional no período perioperatório de pacientes submetidos a cirurgias plásticas, ressaltando, assim, seus efeitos na recuperação e na redução do risco de complicações, incluindo edemas, hematomas, fibroses e infecções. Do ponto de vista metodológico, foi realizada revisão integrativa da literatura nas bases SciELO, ScienceDirect e PubMed, envolvendo artigos e ensaios clínicos publicados entre 2015 e 2025. Com base nos dados analisados, a pesquisa constatou que a condição nutricional preexistente do paciente exerce influência direta sobre a taxa de eventos adversos, além de apontar que deficiências nutricionais podem ampliar o tempo de recuperação e a fase inflamatória. Na fase pré-operatória, a suplementação com ferro, vitaminas C e D e ômega-3 atua na regulação da resposta inflamatória, no fortalecimento do sistema imunológico e na recuperação do perfil hematológico. Na fase pós-operatória, nutrientes como colágeno, zinco e vitaminas C e A estimulam a regeneração dos tecidos e o processo de cicatrização. Os ensaios clínicos evidenciam ainda que a co-suplementação oferece resultados mais favoráveis do que a suplementação individual, potencializando a resposta imunológica e o processo de cicatrização. Conclui-se que o nutricionista tem função importante no corpo clínico multidisciplinar, sendo encarregado da elaboração do planejamento nutricional individualizado. Por fim, convém destacar a carência de novas pesquisas para a definição padronizada da posologia e do tempo de administração.
Palavras-chave: Cirurgia Plástica; Suplementação Nutricional; Cicatrização; Nutricionista; Perioperatório.
ABSTRACT
Plastic surgery, whether reconstructive or aesthetic in scope, has established itself as a medical field of substantial growth in recent years, driven by technological advancements and the increasing valorization of body image. However, the success of these surgeries is not determined exclusively by the surgical procedure, but also by a well-conducted perioperative recovery phase, in which nutritional support plays a crucial role in controlling the inflammatory process and promoting wound healing. The present article explores the importance of nutritional supplementation therapy in the perioperative period of patients undergoing plastic surgery, highlighting its effects on recovery and on the reduction of the risk of complications, including edema, hematomas, fibrosis, and infections. From a methodological perspective, an integrative literature review was conducted using the SciELO, ScienceDirect, and PubMed databases, including articles and clinical trials published between 2015 and 2025. Based on the analyzed data, the study found that the patient’s preexisting nutritional status directly influences the rate of adverse events, and also indicates that nutritional deficiencies may prolong the recovery time and the inflammatory phase. In the preoperative phase, supplementation with iron, vitamins C and D, and omega-3 fatty acids contributes to the regulation of the inflammatory response, strengthening of the immune system, and improvement of hematological parameters. In the postoperative phase, nutrients such as collagen, zinc, and vitamins C and A stimulate tissue regeneration and the healing process. Clinical trials further demonstrate that co-supplementation provides more favorable outcomes than isolated supplementation, enhancing the immune response and accelerating wound healing. It is concluded that the nutritionist plays an important role within the multidisciplinary clinical team, being responsible for the development of individualized nutritional planning. Finally, the need for further research to establish standardized dosage and administration protocols is emphasized.
Keywords: Plastic Surgery; Nutritional Supplementation; Wound Healing; Nutritionist; Perioperative.
1 INTRODUÇÃO
A cirurgia plástica, uma área da medicina aplicada a processos tanto reparadores quanto estéticos, tem experimentado um avanço exponencial em seu acesso e notoriedade mundialmente (ISAPS, 2023). Esse progresso é estimulado por uma convergência de aspectos, incluindo novas tecnologias, ampla difusão de informações referentes aos tratamentos à disposição e uma transformação de valores e princípios que, progressivamente, aprecia a imagem e a estética (Nunes et al., 2020).
Entretanto, apesar dos benefícios reiteradamente divulgados das cirurgias plásticas, elas não estão livres de intercorrências antes, durante ou após o procedimento cirúrgico. Nesse contexto, Balbino (2025) aponta que o paciente com desequilíbrio nutricional pode aumentar o perigo de inflamação, estender ou comprometer o período de cicatrização e, por consequência, crescer a incidência de eventos adversos e as despesas do tratamento. Por isso, o cuidado nutricional no perioperatório dos pacientes integra a atuação preventiva e colabora, de modo direto, para o sucesso do procedimento cirúrgico (Silva et al., 2020).
Assim sendo, destaca-se que o paciente que se submete à cirurgia plástica pode ser amplamente beneficiado com a assistência nutricional individualizada. Por meio da ingestão adequada de micro e macronutrientes, é viável reduzir a inflamação e o estresse oxidativo. Esses dois comportamentos, por si só, já contribuem para os resultados operatórios, além de reduzirem as chances de intercorrências (Nunes et al., 2020).
Nesse sentido, o procedimento que abrange a cirurgia plástica, sobretudo no período pós-cirúrgico, pode acarretar algumas intercorrências. Essas intercorrências podem afetar de modo crucial a qualidade de vida dos pacientes, causando redução de mobilidade, eventuais alterações de sensibilidade, bem como hematomas, fibroses, edema e seroma (Gonçalves, 2015). Logo, tais mudanças e intercorrências podem ter maior ou menor probabilidade de ocorrer, a depender do tipo de intervenção cirúrgica a ser realizada. No que se refere às cirurgias plásticas, Gonçalves (2015) aponta que existe um risco razoável de inflamação tecidual, ocasionando alterações estruturais e funcionais dos vasos sanguíneos.
Por isso, o processo de cicatrização após uma cirurgia plástica é um procedimento biológico bastante estruturado, abrangendo uma sucessão sistematizada de eventos moleculares e celulares (Silva et al., 2020). Entretanto, esse processo pode apresentar algumas intercorrências, e inúmeros aspectos podem afetar a cicatrização, como, por exemplo, queloides, infecções da incisão cirúrgica e formação excessiva de cicatrizes. Atualmente, inúmeras metodologias têm sido utilizadas para examinar e aperfeiçoar o processo de cicatrização de feridas decorrentes de cirurgias plásticas. Teles et al. (2025) destacam que a cicatrização é um elemento indispensável para o êxito das cirurgias plásticas, sendo a nutrição um fator de função significativa. É nesse contexto que metodologias como a suplementação nutricional se apresentam como importantes aliadas na regeneração tecidual e na recuperação de pacientes submetidos a cirurgias plásticas durante todo o período perioperatório (Silva et al., 2020).
A nutrição adequada é essencial para pacientes cirúrgicos. Os macronutrientes desempenham um papel fundamental em todas as etapas do processo de cicatrização de incisões (Roy et al., 2018). Tal como, a redução na ingestão de proteínas pode prolongar a fase inflamatória, reduzir a formação de novos vasos sanguíneos (neoangiogênese) e comprometer a síntese de proteoglicanos. Assim sendo, Silva et al. (2020) afirmam que a deficiência de proteínas e disfuncionalidades no DNA afetam na síntese de colágeno e multiplicação de fibroblastos.
Brito et al. (2021) constataram, após inúmeros estudos, que a vitamina C (ácido ascórbico) promove a produção de colágeno, fundamental para a cicatrização do paciente cirúrgico. Além disso, atua em diversas ações bioquímicas cruciais para o organismo e melhora a funcionalidade do sistema imunológico. Ademais, a interação entre a vitamina C e a vitamina E apresenta caráter colaborativo antioxidante, ou seja, regenera a vitamina E e previne danos provocados por medicamentos (Gonçalves, 2015).
Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo investigar a importância da suplementação nutricional no pré e pós-operatório de pacientes submetidos a cirurgias plásticas, evidenciando seus impactos no processo de cicatrização, reabilitação e prevenção de intercorrências.
Por isso, Aguilar-Nascimento et al. (2017) apontam que a busca por uma aparência cada vez mais jovem e saudável tem levado a um crescimento exponencial da demanda por cirurgias plásticas no Brasil. Nesse sentido, a nutrição adequada no perioperatório de cirurgias plásticas é importante para assegurar um processo de reabilitação eficaz e reduzir o risco de intercorrências. Por isso, é de extrema valia a atuação do nutricionista no quadro de profissionais responsáveis pela assistência ao paciente cirúrgico, considerando todos os benefícios que a prescrição nutricional pode oferecer (Aguilar-Nascimento et al., 2017).
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Breve histórico e evolução da cirurgia plástica
Os primeiros relatos sobre cirurgia plástica foram registrados em sociedades milenares, precedendo até séculos antes de Cristo, como consequência da precisão de um método capaz de reparar as imperfeições humanas, causadas por lesões, punições ou mutilações. No entanto, apesar da existência de sinais no que diz respeito à origem da cirurgia plástica nessas sociedades, foi no cenário da 1ª Guerra Mundial em que se ampliaram e aprimoram métodos e procedimentos destinados à correção de traumas no rosto e/ou readaptação funcional. Por efeito das lesões sofridas pelos militares por causa das armas de fogo usadas nos confrontos (Piccinini et al., 2017).
Nesse sentido, Piccinini et al. (2017) ratificam que não há dúvidas de que os experimentos realizados com feridos da Primeira Guerra Mundial contribuíram consideravelmente para o aperfeiçoamento da cirurgia plástica moderna, visto que diversos procedimentos foram desenvolvidos a partir das abordagens realizadas nesses sujeitos. Os autores ainda apontam que lesões complexas no rosto passaram a ser reparadas com intervenções cirúrgicas inovadoras que, nos dias atuais, fazem parte da história da medicina. Como exemplo, pode-se citar a reconstrução do maxilar utilizando enxerto ósseo, dentre inúmeros outros procedimentos.
Sob essa perspectiva, a 2ª Guerra Mundial, da mesma forma, estimulou o aperfeiçoamento da cirurgia plástica no que tange à reparação. Assim sendo, foi nesse contexto histórico que surgiram mais metodologias e procedimentos voltados às intervenções em situações de queimaduras profundas, do mesmo modo que suas consequências, e à reintegração dos pacientes ao convívio social, mesmo com lesões resultantes de queimaduras. É nesse momento que surge a figura do médico neozelandês Archibald McIndole que, por meio de estudos e experimentos, desenvolveu práticas e metodologias de enxertos de pele e restauração de malformações na região do rosto, as quais ainda são usadas atualmente (Carbolin et al, 2024).
Além disso, após o tempo de guerra, a cirurgia plástica se apresentou como uma aptidão relevante, em virtude da ampliação das diversas especialidades médicas diante de uma carência histórica. Logo, foram aperfeiçoados outros artigos e pesquisas destinados à comunidade como um todo, sobretudo, intervenções reparadoras e ampliação dos modelos de cirurgia utilizadas até aquele período (Piccinini et al., 2017).
Logo, a cirurgia plástica se volta para a melhoria de aspectos físicos não resultantes de deformações ou ferimentos, isto é, para finalidades estéticas (Carbolin et al., 2024). Nesse sentido, Américo et al. (2022) apontam que os arquétipos de perfeição estética propagados pelas mídias em geral salientam um modelo estético que tem crescendo substancialmente a busca por cirurgias plásticas direcionadas à beleza.
Em vista disso, Piccinini et al. (2017) aponta que a imagem do corpo, na sociedade contemporânea, adquiriu um aspecto de intensa valorização, dado que as cirurgias plásticas passaram a ser relacionadas ao conceito de prosperidade e de satisfação pessoal do sujeito moderno. Logo, por efeito dos princípios capitalistas que predominam no mundo globalizado, principalmente do materialismo desenfreado, ocorre a naturalização das cirurgias plásticas. Esse processo surge como reação à intensa exploração comercial de diversas características dos indivíduos, com o objetivo de adequá-los aos padrões de beleza exigidos por uma sociedade narcisista (Piccinini et al., 2017).
A propósito, é inegável o crescimento exponencial na busca por cirurgias plásticas com fins estéticos, como lipoescultura e abdominoplastia, por parte das mulheres, a fim de moldarem-se ao estereótipo de beleza inatingível (Américo et al., 2022). Nesse sentido, Sousa (2020) adota o termo ‘plasticomania’, que estimula o público feminino, em sua grande maioria e de diferentes idades, a recorrer com frequência a tais cirurgias na busca pela autoestima e por respostas mais céleres, em consonância com os padrões de beleza.
Por fim, Carbolin et al. (2024) concluem que, a evolução da cirurgia plástica foi, extremamente, condicionada por modelos de beleza exigidos pela sociedade, como a devoção exacerbada à estética, a fixação pela imagem impecável e pela procura de um padrão inexistente e inatingível. Tal compreensão fortalece, a importância de analisar a história, de maneira integral, ressaltando, em especial, o momento histórico de cada período, com a intenção de entender as interferências dos episódios (Piccinini et al., 2017). Portanto, Santoro Junior e Avelar (2017) concluem que a cirurgia plástica é uma especialidade médica que está em desenvolvimento contínuo, estimulada pelos progressos científicos e transformações nas necessidades dos pacientes.
2.2 Fisiologia da cicatrização e recuperação cirúrgica
O procedimento de cicatrização acontece pela troca do tecido lesado por tecido saudável. Apesar do motivo, reparar a capacidade de funcionalidade dos tecidos é a finalidade essencial (Oliveira, 2020). Considerando isso, entender essa metodologia é crucial para estruturar cirurgias que consigam concluir a reparação com êxito.
Para tanto, as lesões cirúrgicas são consideradas como lesões de primeira intenção, conforme a categoria de cicatrização, visto que são feitas com programação prévia da equipe médica, a fim de restringir o perigo de contratempos. Do mesmo modo, são consideradas lesões severas que têm tendência de cicatrizar integralmente, sem grandes intervenções médicas, no espaço de tempo previsto. Entretanto, se acontecerem intercorrências ao longo dessa evolução, estas são capazes de tornar-se crônicas e em consequência, o intervalo de reabilitação integral pode ser estendido (Mendes et al., 2017).
Ademais, segundo Oliveira (2020), o procedimento de cicatrização é heterogêneo e variável, podendo ser separado em três fases básicas: inflamatória, proliferativa e de maturação. O progresso das lesões também é variável, em razão da pluralidade dos acontecimentos intercelulares e intracelulares, bem como dos fatores que podem adiar o procedimento de cicatrização. Nesse sentido, esse procedimento é padrão para todas as lesões, mesmo com causas distintas.
Sob essa ótica, Mendes et al. (2017) aponta que a etapa inflamatória se inicia logo após a lesão, tendo como atributo fundamental a permeabilidade vascular. Seu papel é positivo, no entanto, depende do período em que permanece ativa. Em geral, seu período de permanência é de aproximadamente três dias, representando uma resposta inflamatória intensa e prevista. Quando esse período é prolongado, passa a configurar uma resposta inflamatória crônica.
Já a segunda etapa é a proliferativa, e os acontecimentos basilares incluem a epitelização, fibroplastia e neoangiogênese. Para Mendes et al. (2017) esses agentes são responsáveis pela geração de novos vasos, pela contribuição sanguínea e celular, além da transferência de células epiteliais, que realizarão a dispersão para o local do ferimento.Ainda de acordo com os autores, essa etapa tem duração geralmente de três a vinte e três dias, variando a depender da reação individual de cada paciente (Mendes et al., 2017)..
Por fim, na etapa de maturação, acontece o controle da geração de colágeno, evitando seu desenvolvimento desalinhado. Essa etapa começa na terceira semana e pode se estender durante todo o período da lesão. Portanto, vale salientar, que para o êxito de uma reabilitação cirúrgica integral, é necessário restringir as possibilidades de infecção, ruptura de suturas e, ao mesmo tempo, possibilitar um bom processo de cicatrização. Isso depende, essencialmente, do período das etapas de cicatrização (Balbino, 2018).
Assim, para a regeneração de um tecido cicatricial, de acordo com Balbino (2018), admite-se que, quanto menor o período de finalização das etapas de cicatrização, mais adequado será o padrão de qualidade da cicatriz. Afinal, as cicatrizes não apenas comprometem a reabilitação do corpo, como também provocam impactos visuais nos sujeitos, sendo capaz de prejudicar a dignidade, causar desconfortos e, em alguns casos, desencadear problemas mentais relacionados à depressão. Dessa forma, a equipe multidisciplinar de assistência ao paciente deve se atentar ao processo de cicatrização tardia e ao aumento do risco de complicações e infecções pós-cirúrgicas, quando estas acontecem devido a um fator nutricional passível de correção (Roy et al., 2018).
2.3 A importância do nutricionista no pós-operatório
O profissional de nutrição desempenha uma função fundamental em cada etapa do processo cirúrgico, desde os preparos no pré-operatório até a etapa essencial de reabilitação no pós-operatório. Sua relevância ultrapassa a simples recomendação de ingestão de alimentos, sendo um agente crucial para o êxito do processo cirúrgico e para o incentivo da saúde no futuro (Micchi et al., 2020).
Nesse contexto, o sucesso de um processo cirúrgico não deriva apenas da programação da prática cirúrgica. A atenção aos cuidados no pós-operatório tem sido destacada com um aspecto significativo para prevenção de intercorrências (hematomas, fibroses, edemas, entres outros) e efetivação de um resultado adequado (Oliveira, 2020). Ademais, nota-se que as complicações clínicas podem resultar em deficiências nutricionais, consideradas fatores passíveis de mudança que afetam de modo direto na redução de intercorrências e na evolução adequada da cicatrização.
Em vista disso, a perspectiva nutricional de pacientes cirúrgicos é fator importante nos cuidados prestados a eles. Uma vez que exista indicação cirúrgica, a recuperação do paciente pode ser prejudicada pelo elevado nível de nervosismo em relação ao procedimento. O contexto, de acordo com Micchi et al. (2020), pode se agravar quando existe deficiência nutricional, causado tanto pela enfermidade que levou ao processo cirúrgico quanto por diversas razões, como, por exemplo, alimentação desequilibrada, circunstâncias econômicas e sociais impróprias.
Na mesma linha, dentre os cuidados ofertados pelos nutricionistas estão os relativos à alimentação, em seus variados estágios de complexidade, considerados essenciais para a reabilitação dos pacientes. Para Mendes et al. (2017), a nutrição é uma ciência definida como um grupo de práticas que representa um setor valoroso na atenção proporcionada aos pacientes, sendo caracterizada como a condição fisiológica resultante da ingestão e do uso biológico de energia e nutrientes. Já a ação de se alimentar é uma demanda cultural, essencial à vida, que ultrapassa as exigências biológicas e se manifesta em fatores como a seleção, preparo e ingestão de um ou diversos alimentos.
Em vista disso, Micchi et al. (2020) afirmam que a suplementação nutricional nas fases pré e pós-operatório pode ter um reflexo expressivo sobre os resultados do processo cirúrgico, diminuindo os riscos de intercorrências, inchaços e inflamações, possibilitando a cicatrização adequada da incisão, bem como promovendo a melhora da imunidade. Sendo assim, ao tratar a condição nutricional e oferecer prescrições direcionadas à suplementação, o profissional de nutrição pode intervir, de forma assertiva, na precaução das intercorrências que podem ocorrer no pós-operatório (Aguilar-Nascimento et al., 2017).
Além disso, pesquisas recentes confirmam que a condição nutricional é, sem dúvidas, um dos aspectos autônomos que mais atuam nos resultados dos processos cirúrgicos (Micchi et al, 2020). Em pacientes desnutridos ou em ameaça de desnutrição, que se submetem a um procedimento cirúrgico, a reação ao pós-operatório tende a apresentar graves consequências, interferindo nos resultados de forma prejudicial. Sob essa ótica, pacientes idosos com baixa massa corporal ou em estado de desnutrição, quando hospitalizados para procedimentos cirúrgicos, apresentam maiores riscos de permanecer internados ou até mesmo de óbito (Mendes et al., 2017). Por esses motivos, com a finalidade de aperfeiçoar os resultados do processo cirúrgico, Aguilar-Nascimento et al. (2017) destacam a importância de analisar a condição nutricional do paciente e estruturar um programa de consumo de micro e macronutrientes durante o período pós-operatório.
Por fim, é importante destacar a relevância do nutricionista não somente como um agente integrante do quadro multiprofissional de saúde, porém como um especialista crucial e qualificado no cuidado completo aos pacientes. Cabe a esse profissional assegurar a oferta adequada de nutrientes úteis à reabilitação da condição nutricional, assim como todas as ações pertinentes à intervenção nutricional.
2.4 Suplementação nutricional no pré-operatório de cirurgias plásticas
A preparação do paciente para um procedimento cirúrgico é baseada em uma assertiva avaliação multidisciplinar de profissionais, considerando, nesse contexto, a importância de uma condição nutricional ideal para restringir intercorrências pós-operatórias. Assim, Micchi et al. (2020), apontam que em uma situação de cirurgias plásticas, um levantamento clínico nutricional no período pré-operatório é primordial para restringir as complicações e mortalidade no pós-operatório.
Para tal, antes de qualquer procedimento de cirurgia plástica, é fundamental que o paciente se submeta a uma avaliação nutricional integral. Nesse sentido, pacientes com excesso de peso possuem mais riscos durante o processo cirúrgico, em razão da elevada concentração de agentes inflamatórios, além da reduzida margem terapêutica dos fármacos anestésicos (Corrêa et al., 2019). Ademais, para Aguilar-Nascimento et al. (2017), a deficiência nutricional pode expor esse paciente a intercorrências, como inflamações e dificuldades de cicatrização.
Deste modo, na fase pré-operatória, o ideal é a não ficar longos períodos sem se alimentar e fornecer energia na dosagem mínima necessária para manter eficientes os procedimentos de coagulação, combate às infecções e reações inflamatórias, além de preservar a cicatrização da lesão cirúrgica que ocorrerá futuramente (MicchiI et al., 2020). Por consequência, a mudança nos hábitos alimentares necessita começar já na fase pré-operatória e permanecer, no mínimo, até a finalização da reabilitação completa. Assim, além de atentar-se à dosagem mínima de cada micro e macronutriente, o paciente deve considerar a qualidade dos alimentos que consome (Corrêa et al., 2019).
2.4.1 Ácidos graxos ômega-3
Inicialmente, é preciso entender a cirurgia como um procedimento que requer preparo pré-operatório apropriado, com melhoria de déficits nutricionais e precaução com doenças associadas. Isso possibilita um estado metabólico potencializado, favorecendo maior êxito no procedimento cirúrgico e uma fase pós-operatória com menos intercorrências (BRASPEN, 2020).
A classe dos ácidos graxos ômega-3 é um grupo de cadeia longa que oferece uma série de benefícios à saúde. Esses ácidos, por sua vez, são recomendados como componentes nutricionais que proporcionam contribuição calórica e realizam a regulação eficiente dos processos inflamatórios e de cicatrização (Nunes et al., 2020). Ademais, Nunes et al. (2020), afirmam que a administração de ômega-3 no período pré-operatório pode restringir a aderência das plaquetas ao endotélio e as interações, o que, consequentemente, estimula a produção de glutationa, capaz de reduzir a reação oxidativa. Vale ressaltar que a suplementação nutricional com ômega-3 é recomendada, principalmente, para os pacientes cirúrgicos que possuem predisposição à formação de cicatrizes hipertróficas (Micchi et al., 2020).
No entanto, é importante manter os parâmetros sob controle, afinal sua ingestão excessiva pode intensificar a produção de colágeno, resultando em cicatrizes indesejáveis no pós-operatório. Por isso, Nunes et al. (2020), em sua recente pesquisa, estabelecem dosagem diária de 2 a 3 gramas de ômega-3, de 7 a 14 dias antes da cirurgia.
2.4.2 Vitamina C (Ácido Ascórbico)
A vitamina C (ácido ascórbico), realiza uma função fundamental na fase pré-operatória, especialmente em virtude das suas características antioxidantes e anti-inflamatórias e sua importância na síntese de colágeno, vital para o processo de cicatrização (Maia, 2018). Diante disso, Carvalho et al. (2021), aponta que para pacientes cirúrgicos com níveis baixos de vitamina C (ácido ascórbico) a dosagem é de 1 a 2 gramas por dia, devendo ser iniciada 14 dias antes da cirurgia.
Nesse sentido, Brito et al. (2021), em seu estudo, apontam que pacientes pré-cirúrgicos que realizaram suplementação com vitamina C tiveram seu período de internação hospitalar reduzido, apresentaram menores complicações e melhor recuperação. Logo, a ingestão de vitamina C também se mostrou eficiente na otimização da atividade ventricular, reforçando a reação vascular, a prevenção da apoptose e o desenvolvimento da defesa bacteriana.
2.4.3 Vitamina D
A vitamina D, também denominada como calciferol, é um micronutriente extraída pelo consumo de alguns alimentos como carnes, peixes e frutos do mar ou pela modificação do colesterol por meio da radiação solar. Sob esse entendimento, ela atua no equilíbrio do fósforo e do cálcio no organismo, além de auxiliar na proteção dos tecidos nervosos e cardíacos e motivar reações à inflamações (Corrêa et al., 2020). Em caso de pacientes cirúrgicos com deficiência nutricional de vitamina D no período pré-operatório, de acordo com Corrêa et al. (2019), é indicado a utilização de 50.000 UI de colecalciferol, uma vez por semana, durante sete semanas.
2.4.4 Ferro
A ferritina é uma proteína essencial que armazena ferro no corpo, realizando uma função basilar no controle dos parâmetros de ferro no sangue. Nesse sentido, em cirurgias plásticas, a análise dos parâmetros de ferritina é crucial, porque parâmetros inadequados são capazes de apontar déficits nutricionais ou alterações no estado de saúde que podem comprometer o processo cirúrgico (Micchi et al., 2020). Ademais, a deficiência de ferro é a causa implícita em 1/3 dos pacientes com anemia pré-cirúrgica, o que torna a suplementação de ferro uma tática favorável para estimular a eritropoiese e reduzir futuras transfusões de sangue (Neef et al., 2022).
Sob esse aspecto, a ferritina opera como um indicador da condição do ferro no organismo, e sua análise pode auxiliar a equipe médica a estabelecer a necessidade de intercorrências complementares no pré-operatório. Logo, a suplementação de ferro deve ser avaliada para pacientes com parâmetros reduzidos de ferritina na fase pré-operatória. Afinal, esse procedimento consegue auxiliar no aumento dos parâmetros de ferro e aprimorar a capacidade do organismo de suportar o estresse cirúrgico (Aguilar-Nascimento et al., 2017).
2.5 Suplementação nutricional no pós-operatório de cirurgias plásticas
A cirurgia plástica provoca lesão ao tecido, sendo capaz de modificar a sua função. Assim, fica evidente a relevância da utilização de condutas inerentes ao pós-operatório para restringir prováveis intercorrências e respostas do processo cirúrgico, como, por exemplo, hematomas, inflamações, cicatrizes, entre outras (Aguilar-Nascimento, 2020). Por isso, o pós-operatório de cirurgias plásticas começa quando o paciente acorda da anestesia e só finaliza quando está completamente reabilitado, e não no momento da alta médica (Franco et al., 2020).
Além disso, as cirurgias plásticas provocam inúmeras modificações metabólicas, que podem afetar a condição nutricional do paciente, uma vez que os estados nutricionais anteriores e seguintes ao procedimento cirúrgico são de extrema relevância para as reações metabólicas que acontecerão (Aguilar-Nascimento, 2020). Com base nisso, diversos artigos e pesquisas procuram examinar o vínculo entre a suplementação nutricional e a reabilitação fisiológica do paciente cirúrgico, isto é, quais micro ou macronutrientes são mais eficientes para beneficiar o processo de cicatrização ou reduzir as possibilidades de inflamação (BRASPEN, 2020).
Logo, Franco et al. (2020) constatam que o déficit de nutrientes costuma estar relacionado à diminuição das propriedades imunológicas e das próprias células, às transformações na reação inflamatória e o retardo no procedimento de cicatrização das lesões.
2.5.1 Colágeno
As proteínas são reconhecidas com uma categoria de macronutriente geralmente deficitária em pacientes cirúrgicos. Nesse sentido, o estresse oxidativo das cirurgias plásticas provoca uma condição catabólica, ampliando o uso de proteínas e a demanda energética (Aguilar-Nascimento, 2020). À vista disso, um consumo reduzido de proteína não é recomendado no pós-operatório, visto que pode acarretar perda de massa corporal magra e uma consequente diminuição na taxa metabólica. Ademais, a redução de consumo proteico pode comprometer a capacidade do paciente em digerir e absorver proteínas, em virtude da menor produção de renina, pepsina e ácido clorídrico (Franco et al., 2020). Sendo assim, Nunes et al. (2020) constatam que a deficiência proteica pode estender a etapa inflamatória do processo de cicatrização e restringir a formação de colágeno, prejudicando a recuperação dos tecidos.
O colágeno é uma proteína de origem animal que tem como finalidade elementar colaborar com a integridade da estrutura celular ou colaborar para a fixação das células à matriz (Corrêa et al., 2019). Em seu estado hidrolisado, o colágeno contém aminoácidos em sua constituição, com elevada taxa de prolina e glicina. Seus benefícios para o paciente cirúrgico incluem a recuperação da elasticidade da pele, redução da resposta inflamatória e intensifica a cicatrização. Nesse sentido, Nunes et al. (2019), recomenda o início da suplementação logo após o procedimento cirúrgico, em doses de 10 a 15 gramas diárias.
2.5.2 Zinco
O zinco é fundamental em qualquer etapa da reabilitação celular e processo cicatrização, assim como exerce uma função significativa no apoio ao sistema imunológico. Isso porque ele age como cofator de inúmeras enzimas que por sua vez operam na resposta celular, na conservação da integridade do DNA, no combate aos radicais livres de oxigênio, entre diversas outras finalidades (Aguilar-Nascimento, 2020).
Nesse sentido, o déficit nutricional de zinco colabora para prejuízos e mutações oxidativas do DNA (Franco et al.,2020). Por essa razão, compreende-se que sua suplementação nutricional está ligada diretamente ao aumento da imunidade e à limitação do estresse oxidativo em pacientes cirúrgicos.
2.5.3 Vitamina C (Ácido Ascórbico)
A vitamina C (ácido ascórbico) é um micronutriente solúvel em água, com uma abundância de funcionalidades, implicando agir como cofator na síntese de colágeno e outros elementos orgânicos da matriz intracelular. De maneira mais específica, ela é fundamental na hidroxilação da lisina e hidroxiprolina no processo de formação de colágeno, além de estar envolvida no que se compreende como reticulação do colágeno maduro (Carvalho et al., 2021). No que se refere ao pós-operatório, Balbino et al. (2005) ao abordar a suplementação nutricional de vitamina C (ácido ascórbico) no processo de cicatrização, considera-se que sua participação na síntese de propolina ocorre entre o terceiro e quinto dia após a cirurgia plástica.
Ademais, constatou-se que a suplementação com vitamina C otimizou a funcionalidade dos neutrófilos e o processo de formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese), além de atuar como importante antioxidante (Laliberté et al., 2019). Por isso, a orientação de ingestão de vitamina C por pacientes após cirurgias plásticas está relacionada a excelentes resultados funcionais, à diminuição de dores pós-operatórias e, claro, ao auxílio em inúmeros processos bioquímicos que atuam na saúde da pele e dos ossos (Ramón et al., 2023).
Nesse sentido, Laliberté et al. (2019) recomendam a suplementação de vitamina C, de 500 miligramas por dia, iniciando após o processo cirúrgico e mantendo até a cicatrização completa. Por outro lado, a deficiência de vitamina C (ácido ascórbico) pode acarretar complicações no pós-operatório, em virtude da geração anormal de fibras colágenas, além de mutações no núcleo celular e aderência deficitária das células endoteliais (Cavalari; Sanches, 2018).
2.5.4 Vitamina A
A vitamina A é um micronutriente oriundo de carotenoides encontrados em frutas e vegetais. Seu consumo correto é fundamental para a multiplicação e regeneração do tecido cicatricial, por meio da associação do retinol aos receptores da membrana celular (Micchi et al., 2020). Nesse âmbito, Oliveira (2020) salienta que a vitamina A se mostra imprescindível na etapa inflamatória do pós-operatório de cirurgia plástica (etapa essa que pode se prolongar, a depender da complexidade do procedimento cirúrgico), além de ter a capacidade de anular a inibição do procedimento de cicatrização de lesões provocadas por corticosteroides. Dessa forma, opera na diminuição dos processos inflamatórios e incentiva a síntese de colágeno.
Segundo Laliberté et al. (2019), recentes estudos constataram que a suplementação de vitamina A ocasiona evolução significativa na síntese e na reticulação do colágeno e, consequentemente, um maior desenvolvimento do tecido epitelial e ósseo, além de melhorar a funcionalidade do sistema imunológico do paciente. Ainda de acordo com o artigo, recomenda-se a suplementação de vitamina A de 25.000 UI todos os dias durante o período de cicatrização (Laliberté et al., 2019). No entanto, o déficit de vitamina A posterga a síntese e o entrecruzamento do colágeno, amplia a vulnerabilidade a inflamações, prejudica a regeneração dos tecidos e limita o equilíbrio do colágeno no organismo (Franco et al., 2020).
2.5.5 Arginina e Glutamina
A arginina é um aminoácido que se torna fundamental em situações metabólicas como hipercatabolismo e estresse oxidativo, realizando função primordial na síntese de proteínas, formação de colágeno e no processo de cicatrização. De acordo com Roy et al. (2018), em seu estudo, a suplementação de arginina no estágio pós-operatório apresentou redução dos níveis de ácido lático no sangue, além de uma diminuição considerável na produção de óxido nítrico. Consequentemente, essa suplementação exerce efeitos positivos sobre pacientes submetidos à cirurgia plástica, uma vez que níveis elevados de ácido lático e óxido nítrico podem se tornar tóxicos, causando malefícios (Roy et al., 2018).
A glutamina tem assumido papel cada vez mais relevante em pacientes em condições hipercatabólicas, como aqueles submetidos a cirurgias plásticas. Nesse contexto, destaca-se por exercer efeitos benéficos sobre o sistema imunológico, uma vez que estimula a produção de linfócitos T e B, além de atuar como importante fonte energética para as células imunocompetentes (Abreu, 2024).
No entanto, apesar de não existirem parâmetros recentes quanto à sua utilização na prática clínica, a suplementação de arginina em pacientes cirúrgicos demonstrou aumentar a resistência à tração da incisão (Roy et al., 2018). Já a glutamina deve ser utilizada com o objetivo de promover o equilíbrio do nitrogênio e otimizar a função do sistema imunológico.
3 METODOLOGIA
O presente trabalho constitui-se de uma revisão integrativa da literatura, definida como um gênero de estudo que procura agregar e resumir a compreensão sobre uma temática específica, colaborando para a investigação do debate e possibilitando uma perspectiva integral do conteúdo examinado (Lima et al., 2022). Nesse sentido, essa revisão integrativa foi composta por cinco fases, que precisaram ser elaboradas de maneira criteriosa e estruturada, sendo elas: seleção dos trabalhos primários, leitura do título e resumo dos artigos primários, leitura completa dos artigos científicos selecionados, elaboração dos resultados e discussão, por fim, considerações finais.
A busca dos artigos científicos ocorreu nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Science Direct e U.S. National Library of Medicine’s Public MEDLINE Database (PubMed). Os descritores utilizados foram combinados com os operadores booleanos “AND” e “OR”. Para isso, utilizaram-se os seguintes descritores: no idioma inglês, Nutritional Supplementation, Postoperative Care e Plastic Surgery. No idioma português, Suplementos Nutricionais, Micronutrientes, Macronutrientes e Pós-operatório e Cirurgia Plástica.
Por fim, os artigos científicos escolhidos, a princípio, com base em seus títulos e resumos, publicados nos últimos 10 anos (2015-2025). Em seguida, procedeu-se à análise dos artigos e desenvolvido um texto com a discussão dos resultados encontrados, com a finalidade de debater o tema da pesquisa. Incluíram-se ensaios randomizados com achados clínicos, compreendendo os seguintes assuntos: Suplementação Nutricional e Cirurgia Plástica. Vale salientar que foram excluídos os artigos científicos repetidos nas bases de dados, além daqueles que não estiverem disponíveis na íntegra e/ou demonstrarem relevância para a temática central.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A avaliação dos artigos inicialmente selecionados nas bases de dados permitiu a organização dos principais achados científicos para compor esta revisão. Após a adoção dos critérios de exclusão e inclusão definidos anteriormente, apenas os ensaios clínicos que evidenciavam conformidade metodológica e relevância temática foram efetivamente utilizados na análise. Sendo assim, as pesquisas classificadas possibilitaram estruturar os principais resultados científicos associados à terapia nutricional nos períodos pré e pós-operatório em pacientes submetidos a intervenções cirúrgicas, considerando ensaios clínicos randomizados que avaliaram diferentes abordagens de intervenção nutricional e seus resultados na reabilitação e no desenvolvimento clínico dos pacientes.
Sendo assim, com o objetivo de sistematizar e otimizar a apresentação dos aspectos dos ensaios avaliados, elaborou-se o Quadro 1, onde consta os dados acerca da autoria, do desenho do estudo, da amostra, do tipo de intervenção e dos desfechos constatados. Essa padronização propicia um entendimento mais preciso das metodologias aplicadas e dos achados clínicos identificados, contribuindo como suporte para a interpretação detalhada dos resultados.
Quadro 1 – Características dos ensaios clínicos selecionados
Autoria | Desenho do estudo | Amostra | Intervenção | Resultados |
|---|---|---|---|---|
Pedroso (2017) | Ensaio clínico randomizado, controlado | 56 pacientes divididos em 2 grupos de 28 pacientes cada | Grupo 1: 200 mg de ferro por via endovenosa no pós-operatório imediato e no 1º dia após a cirurgia Grupo 2: 100 mg de ferro duas vezes ao dia por 8 semanas | Grupo 1 apresentou maiores níveis de hemoglobina; redução na deficiência de ferro após a cirurgia. |
Akintoye (2018) | Ensaio clínico randomizado, controlado, multinacional | 1516 pacientes | Grupo 1: 8 a 10 g por dia de ômega 3 (EPA e DHA) durante 5 dias antes da cirurgia e 2 g por dia após a cirurgia até estabilização clínica Grupo 2: placebo | Redução no risco de sangramento; redução na necessidade de transfusão; potencial benefício clínico |
Martinez et al. (2018) | Ensaio clínico randomizado, controlado | 40 pacientes sendo: 20 no grupo de intervenção e 20 no grupo de controle | Grupo 1: suplementação enteral com 4,5 g de arginina e 10 g de glutamina por dia, durante 7 dias após a cirurgia. Grupo 2: placebo | Ausência de complicações infecciosas (contra 13 no grupo de controle); menor taxa de recorrência de fístula (35% menor)60 pacientes sendo: 30 no grupo de intervenção e 30 no grupo de controle |
Ruiz-Tovar et al. (2018) | Ensaio clínico, prospectivo, randomizado | 40 pacientes sendo: 20 no grupo de intervenção e 20 no grupo de controle | Grupo 1: suplementação enriquecida com ácidos graxos ômega-3 Grupo 2: recebeu fórmula pré-operatória padrão | Redução notável na dor pós-operatória média (10,9 mm vs 25 mm); níveis de Proteína C-reativa (PCR) significativamente menores 24h após a cirurgia. |
Zasada et al. (2019) | Ensaio clínico randomizado, controlado | 17 pacientes, idade entre 45 e 70 anos | Aplicação de sérum contendo 2,5ml de ácido L-ascórbico (20%, pH 3,5, grupo tratado | Melhora na hidratação cutânea; diminuição do eritema cutâneo; melhora na firmeza cutânea |
Kjaer et al. (2020) | Ensaio clínico randomizado, controlado | 21 pacientes sendo: 10 no grupo de suplementação multinutricional; 11 no grupo de controle | Grupo 1: 14 g de L-arginina; 14 g de L-glutamina; 1250 mg de ácido L-ascórbico ; 55 mg de zinco, no período de 14 dias antes e 14 dias após a cirurgia Grupo 2: placebo | Manutenção e estímulo da produção de colágeno; manutenção do marcador PRO-C5 no sangue; Aumento de CICP no local da ferida. |
Norouzi et al. (2022) | Ensaio clínico randomizado, controlado | 60 pacientes sendo: 30 no grupo de intervenção e 30 no grupo de controle | Grupo 1: suplementação oral de 2 sachês diários com combinação de 7 g de L-arginina, 7 g de L-glutamina e 1,5 g de HMB Grupo 2: placebo | Redução no tempo de internação; melhora da imunidade perioperatória; redução da resposta inflamatória. |
Albanese et al. (2025) | Ensaio clínico, comparativo | 44 pacientes do sexo feminino submetidas a lipoabdominoplastia de 360 graus. | Grupo 1: ferro lipossomal oral (14 mg, 2 vezes ao dia) por um mês antes da cirurgia. Grupo 2: dose única intravenosa de Carboximaltose Férrica (1000 mg) 72 horas antes da cirurgia | O Grupo 2 (intravenoso) apresentou resultados superiores, com melhor preservação dos níveis de hemoglobina, estoques de ferro (ferritina) significativamente mais altos e recuperação hematológica mais rápida do que o Grupo1. |
Hajizadeh et al. (2025) | Ensaio clínico randomizado, controlado, duplo-cego | 28 pacientes | Aplicação tópica de pomada de vitamina A (250 UI/g) durante os 4 dias pós-operatório | Aceleração estatisticamente significativa na cicatrização durante as primeiras 72 horas pós-operatórias; não houve diferença relevante nos escores de dor. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
A interpretação dos artigos classificados revelou que a suplementação nutricional, no período perioperatório, desempenha função crucial na recuperação de pacientes submetidos a cirurgias, interferindo de modo direto no processo de cicatrização, na reação do sistema imunológico e na incidência de complicações pós-operatórias. Sob essa perspectiva, foram integrados ensaios clínicos randomizados e controlados, assim como estudos comparativos, publicados nos últimos 10 anos, resultando em uma seleção multifacetada de pacientes e intervenções nutricionais.
De maneira geral, os artigos científicos avaliados apresentaram o uso de distintos tipos de suplementação, abrangendo micronutrientes, como ferro e zinco, e vitaminas A e C, além de compostos bioativos e macronutrientes, como glutamina, arginina e ácidos graxos ômega-3. Nesse sentido, nota-se que a suplementação individual, assim como a associada, demonstrou resultados benéficos no que diz respeito à reabilitação dos pacientes. Entretanto, a combinação de suplementos apresentou efeitos mais substanciais em diferentes aspectos clínicos (estado nutricional, resposta imunológica, capacidade funcional, tempo de recuperação, entre outros).
No que tange à suplementação de ferro, as pesquisas de Albanesse et al. (2025) e Pedroso (2017) apontaram resultados significativos quanto à melhora do quadro hematológico dos pacientes. A priori, Pedroso (2017) comprovou que a administração endovenosa de ferro, no período imediato do pós-operatório, proporcionou crescimento mais expressivo das concentrações de hemoglobina quando comparado com a suplementação oral. De maneira semelhante, Albanese et al. (2025) identificaram que a administração intravenosa de carboximaltose férrica resultou em maiores concentrações de ferritina e reabilitação, em menor tempo, do quadro hematológico em relação à suplementação oral lipossomal. Dessa forma, essas constatações evidenciam que a via de administração da suplementação pode impactar de modo direto seu potencial terapêutico, em especial em quadros em que existe necessidade de resposta fisiológica imediata do organismo.
Ademais, esses achados confirmam o que é apresentado nos referenciais teóricos, visto que a carência de ferro no período perioperatório está vinculada ao aumento do risco de intercorrências, ao atraso na cicatrização e ao tempo de internação prolongado. Dessa maneira, a suplementação desse micronutriente mostra-se importante para assegurar uma reabilitação efetiva.
Acerca dos ácidos graxos ômega-3, as pesquisas de Akintoye (2018) e Ruiz-Tovar et al. (2018) evidenciaram resultados clinicamente relevantes na redução da resposta inflamatória e na otimização dos desfechos clínicos dos pacientes. Nessa perspectiva, Akintoye (2018) verificou diminuição na incidência de sangramento e redução da necessidade de transfusões sanguíneas em pacientes no período perioperatório submetidos à suplementação com ômega-3, enquanto Ruiz-Tovar et al. (2018) constataram alívio da dor pós-operatória e redução dos níveis de proteína C-reativa, importante biomarcador inflamatório.
Em vista disso, esses resultados corroboram a função anti-inflamatória dos ácidos graxos ômega-3, conforme relatado por Nunes et al. (2020), que enfatizam seu efeito modulador sobre a resposta inflamatória e a redução dos níveis de estresse oxidativo. Logo, a suplementação com ômega-3 pode contribuir de forma significativa para a melhora na cicatrização e para a diminuição da ocorrência de intercorrências pós-operatórias.
Com relação à vitamina C, os achados também evidenciaram relevância. O ensaio clínico de Zasada et al. (2019) indicou melhora no estado de hidratação, na elasticidade e na integridade da pele, bem como atenuação do eritema cutâneo associada ao uso tópico de ácido ascórbico. Ademais, outras pesquisas indicaram desfechos favoráveis correlacionados aos processos de resposta imunológica e cicatrização. Dessa forma, tais desfechos estão alinhados aos referenciais teóricos pesquisados, que apontam a vitamina C como crucial para a produção de colágeno e para o adequado funcionamento fisiológico do sistema imunológico.
Vale ressaltar que a ação da vitamina C no processo de cicatrização é de extrema importância, visto que ela atua de modo direto na síntese e estabilização das fibras colágenas. Diante dessa constatação, sua suplementação no período pós-operatório é capaz de promover a regeneração tecidual e a redução do risco de intercorrências.
Outro aspecto relevante constatado nos artigos investigados diz respeito à suplementação combinada de nutrientes. O ensaio clínico apresentado por Kjaer et al. (2020) revelou que a combinação de vitamina C, zinco, arginina e glutamina resultou na sustentação da síntese de colágeno e na otimização dos indicadores de cicatrização. Na mesma linha de pesquisa, Martinez et al. (2018) não identificaram ocorrência de intercorrências infecciosas e redução da recorrência de fístulas em pacientes que foram submetidos à suplementação com glutamina e arginina.
Somado a esse achado, Norouzi et al. (2022) identificaram a redução do tempo de permanência hospitalar, a melhora da função imunológica e a inibição da resposta inflamatória em pacientes que receberam co-suplementação. Dessa forma, essas evidências e desfechos evidenciam que a interação funcional dos nutrientes é capaz de intensificar seus efeitos individuais, contribuindo para a melhora dos resultados clínicos.
Nesse contexto, a glutamina e a arginina ressaltam-se por sua participação no metabolismo proteico e na resposta imunológica. Enquanto a glutamina exerce papel de fonte energética para as células do sistema imunológico, a arginina participa da síntese de colágeno e do processo de cicatrização. Logo, a interação entre esses nutrientes pode ser altamente benéfica em pacientes submetidos a cirurgias plásticas.
No que se refere à vitamina A, o ensaio clínico realizado por Hajizadeh et al. (2025) constatou aumento relevante da taxa de cicatrização já nas primeiras 72 horas do período pós-operatório, com o uso tópico desse nutriente. Em vista disso, esse desfecho corrobora sua relevância durante a fase inflamatória do processo de cicatrização, promovendo a regeneração tecidual e a modulação da resposta inflamatória.
Em termos gerais, os estudos avaliados sinalizam que o suporte nutricional adequado no período perioperatório pode contribuir para a redução de complicações, a otimização da resposta imunológica, a aceleração do processo de cicatrização e a redução do tempo de recuperação dos pacientes. Ademais, ressalta-se que a carência nutricional está associada de forma direta a desfechos clínicos adversos, evidenciando o papel crucial do nutricionista na avaliação e intervenção nutricional.
Outro ponto a ser considerado está relacionado à importância da personalização da terapia nutricional. Tendo em vista que os achados clínicos revelam que indivíduos distintos podem apresentar respostas diferentes às intervenções, sendo, portanto, necessário levar em consideração aspectos como o tipo de cirurgia, a ocorrência de comorbidades e o estado nutricional na elaboração da intervenção nutricional.
Sob esse sentido, o papel do nutricionista mostra-se fundamental no acompanhamento de pacientes submetidos a procedimentos de cirurgia plástica. Tal profissional é encarregado de realizar a avaliação do estado nutricional dos pacientes, bem como a identificação de deficiências nutricionais. Além disso, é responsável pela indicação da suplementação nutricional adequada, colaborando para a otimização dos desfechos clínicos e para a redução do risco de intercorrências.
Por fim, salienta-se que, ainda que os dados obtidos sejam favoráveis, ainda se faz necessária a realização de mais pesquisas e estudos clínicos que avaliem a posologia adequada, o tempo de administração e a associação dos nutrientes com maior eficácia no âmbito das cirurgias plásticas. Além disso, a pluralidade das pesquisas avaliadas é considerada uma limitação, visto que distintas abordagens metodológicas, amostras e intervenções foram utilizadas. Concluímos que a suplementação nutricional no período perioperatório exerce função essencial na reabilitação de pacientes submetidos a cirurgias plásticas, sendo uma estratégia eficiente para aprimorar os resultados clínicos e promover uma recuperação mais ágil e segura.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo contribuiu para o entendimento, de modo abrangente, da importância da suplementação nutricional no período pré e pós operatório de pacientes submetidos a cirurgias plásticas, ressaltando seu impacto direto nos resultados clínicos, em especial no processo de cicatrização, na diminuição de complicações e na resposta imunológica. Considerando a avaliação dos ensaios clínicos selecionados, verificou-se o alcance dos objetivos propostos. Atestou-se que a condição nutricional do paciente é um pilar crucial para a evolução pós-operatória favorável e para uma reabilitação satisfatória.
A princípio, notou-se que o diagnóstico do estado nutricional do paciente no período pré-operatório é essencial para o rastreamento de possíveis carências nutricionais que possam afetar negativamente o organismo em resposta ao estresse cirúrgico. A adequação dessas deficiências, com o uso de uma suplementação nutricional adequada e de uma dieta equilibrada, colabora para otimizar o estado fisiológico do organismo, tornando-o mais resistente a respostas inflamatórias, quadros infecciosos e intercorrências pós-operatórias. Assim, a terapia nutricional preliminar se apresenta como uma abordagem preventiva eficiente.
No que diz respeito ao período pós-operatório, os desfechos constataram que a suplementação nutricional atua diretamente no processo de cicatrização e regeneração tecidual. Nutrientes como compostos bioativos (ômega-3, glutamina e arginina), minerais (ferro e zinco) e vitaminas (A, C e D) demonstraram-se importantes na síntese de colágeno, na reconstrução tecidual e na regulação da resposta inflamatória no pós-operatório. Tais elementos, quando administrados de maneira adequada, colaboraram para a modulação do processo de cicatrização, a redução do tempo de permanência hospitalar e a melhora no quadro clínico global do paciente.
Outro aspecto de relevância clínica constatado foi a maior eficácia terapêutica, em diversos cenários, da intervenção nutricional combinada em relação à administração isolada de nutrientes. Nesse contexto, a associação de diversos compostos promove o aumento das respostas fisiológicas do organismo, resultando em desfechos significativos na evolução pós-operatória. Entretanto, destaca-se que a personalização da abordagem nutricional é determinante, visto que é necessário considerar as características individuais de cada paciente, como faixa etária, perfil nutricional, existência de comorbidades e tipo de procedimento operatório.
Ademais, destaca-se a função importante do nutricionista na equipe de assistência multiprofissional de saúde. Considerando esse âmbito, sua atuação não se restringe ao processo de avaliação e caracterização do estado nutricional. Nesse contexto, ele possui responsabilidade direta na estruturação e no planejamento de abordagens terapêuticas individualizadas ao perfil clínico do paciente, no monitoramento sistemático do seu quadro clínico e no ajuste dos protocolos de acordo com as demandas detectadas. Consequentemente, sua participação colabora de modo relevante para a redução da probabilidade de eventos adversos, a melhora dos resultados pós-operatórios e a promoção do bem-estar do paciente.
Ainda que os desfechos positivos tenham sido demonstrados nos referenciais teóricos e nos ensaios clínicos analisados, este artigo também evidencia algumas limitações. Sendo assim, a diversidade dos artigos avaliados, com múltiplas abordagens metodológicas, amostras de estudo e intervenções de suplementação nutricional, compromete a uniformização de protocolos clínicos definidos em termos de posologia, duração e combinação nutricional. Sob essa perspectiva, fica evidente a importância de novos estudos, com amostras cada vez maiores nos ensaios clínicos, que possam determinar, com precisão, protocolos mais eficazes para a aplicação clínica.
Por fim, os resultados analisados na pesquisa indicam que a suplementação nutricional em pacientes submetidos a cirurgias plásticas constitui um recurso com impacto clínico positivo e crucial para a promoção de um processo de recuperação satisfatório. Considerando esse contexto, seu uso, combinado a uma estratégia terapêutica adaptada ao paciente e à supervisão clínica adequada, colabora de modo relevante para a redução do risco de intercorrências e para a aceleração da regeneração tecidual.
Diante do que foi exposto, recomenda-se que novas pesquisas explorem ainda mais as abordagens terapêuticas específicas de suplementação nutricional, assim como aprofundem a análise de novos protocolos que contribuam para otimizar os desfechos clínicos no âmbito das cirurgias plásticas. Desse modo, será possível o fortalecimento de condutas clínicas fundamentadas em achados científicos e, como resultado, a melhoria da qualidade da assistência prestada aos pacientes.
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Copyright (c) 2026 Eduarda de Oliveira Silva Elias, Marcella Franco Villela, Antônio José de Rezende (Autor)