O Burnout e os profissionais de enfermagem: a relação entre o duplo papel da enfermagem na atenção primária e o adoecimento.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.

Palavras-chave

Enfermagem Atenção Primária
Burnout
Saúde mental
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O Burnout e os profissionais de enfermagem: a relação entre o duplo papel da enfermagem na atenção primária e o adoecimento.

Burnout and nursing professionals: the relationship between the dual role of nursing in primary health care and illness.

Anderson Freitas de Paiva[1]
Maria Eduarda Silva Santos[2]
Raiza Capile Ramirez[3]
Gabrielly Cândido Santos[4]
Samylla Duarte Silva Assis[5]
Everson da Silva Souza[6]

Resumo: A Atenção Primária à Saúde (APS) é considerada a principal porta de entrada do sistema de saúde, sendo fundamental para a promoção e prevenção de doenças. Nesse contexto, o enfermeiro exerce um papel central, acumulando funções assistenciais e gerenciais, o que caracteriza o chamado duplo papel profissional. Essa sobrecarga de atribuições pode impactar diretamente a saúde mental desses trabalhadores, favorecendo o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. O presente estudo tem como objetivo analisar a relação entre o duplo papel do enfermeiro na APS e o surgimento do burnout. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada em bases de dados como SciELO, LILACS e PubMed, utilizando descritores relacionados à enfermagem, atenção primária e burnout. Os resultados apontam que fatores como sobrecarga de trabalho, pressão por metas, falta de apoio institucional e múltiplos vínculos empregatícios contribuem significativamente para o adoecimento mental dos enfermeiros. Conclui-se que a reorganização do processo de trabalho e o fortalecimento de políticas de saúde do trabalhador são fundamentais para reduzir os impactos do burnout na enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem Atenção Primária; Burnout; Saúde mental.

Abstract: Primary Health Care (PHC) is considered the main entry point to the health system, playing a fundamental role in health promotion and disease prevention. In this context, nurses have a central role, accumulating both care and managerial responsibilities, which characterizes the so-called dual role. This overload of functions can directly impact the mental health of these professionals, contributing to the development of Burnout Syndrome. This study aims to analyze the relationship between the dual role of nurses in PHC and the occurrence of burnout. This is an integrative literature review, carried out in databases such as SciELO, LILACS, and PubMed, using descriptors related to nursing, primary health care, and burnout. The results indicate that factors such as work overload, pressure for goals, lack of institutional support, and multiple employment relationships significantly contribute to the mental illness of nurses. It is concluded that the reorganization of the work process and the strengthening of occupational health policies are essential to reduce the impacts of burnout among nursing professionals.

Keywords: Nursing. Primary Health Care; Burnout; Mental Health.

1 INTRODUÇÃO

Na Atenção Primária à Saúde (APS), o enfermeiro desempenha um papel central, atuando em diferentes frentes que ultrapassam a assistência direta ao paciente. Entre suas atribuições, destacam-se a realização de consultas de enfermagem, o acompanhamento de grupos prioritários, a supervisão da equipe, o planejamento de ações em saúde e a execução de atividades educativas. Essa amplitude de atribuições evidencia o chamado duplo papel do enfermeiro, que envolve tanto atividades assistenciais quanto gerenciais (Pires; Lucena; Mantess, 2022).

Seu objetivo primordial é desenvolver uma atenção integral que impacte positivamente na situação de saúde das comunidades, orientando-se pelos princípios da universalidade, acessibilidade, continuidade do cuidado, integralidade, responsabilização, humanização e equidade (PIRES; LUCENA; MANTESSO, 2022).

No entanto, o acúmulo dessas responsabilidades pode levar à sobrecarga de trabalho, especialmente em contextos marcados pela escassez de recursos, alta demanda de atendimentos e pressão por resultados. Dessa forma, o próprio ambiente de trabalho na APS pode configurar-se como um fator de risco para o desenvolvimento de problemas relacionados à saúde mental dos profissionais (Almeida; Miclos, 2022).

Entre os agravos relacionados, destaca-se a Síndrome de Burnout., considerada um problema de saúde pública que afeta trabalhadores expostos a estresse crônico no ambiente laboral. A síndrome manifesta-se a partir de três dimensões principais: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional. Seus efeitos incluem prejuízos na qualidade de vida, no desempenho profissional e na segurança do paciente (Almeida; Miclos, 2022).

Evidências apontam que enfermeiros da atenção primária estão expostos a diversos fatores de risco para o desenvolvimento do burnout, como alta demanda de trabalho, pressão por metas, falta de recursos e baixa valorização profissional. Soma-se a isso a necessidade de conciliar atividades assistenciais e administrativas, o que intensifica o desgaste (Almeida; Miclos, 2022; Santos et al., 2023 ).

Considerando esse cenário, percebe-se que o acúmulo de funções desempenhadas pelo enfermeiro na Atenção Primária à Saúde, associado às condições de trabalho frequentemente adversas, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de agravos à saúde mental, especialmente a Síndrome de Burnout. Assim, torna-se fundamental compreender de que forma o duplo papel exercido por esses profissionais influencia esse processo de adoecimento, bem como identificar os fatores que potencializam esse risco no ambiente laboral (Almeida; Miclos, 2022; Santos et al., 2023).

A Síndrome de Burnout tem se tornado um importante problema de saúde ocupacional entre os profissionais de enfermagem, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), onde os trabalhadores desempenham múltiplas funções assistenciais, administrativas, educativas e gerenciais. Além das demandas técnicas e emocionais inerentes ao cuidado em saúde, muitos profissionais acumulam o chamado “duplo papel”, conciliando as responsabilidades do trabalho com tarefas domésticas, familiares e sociais, o que pode intensificar o desgaste físico e emocional (Amaral; Silva, 2023).

Nesse contexto, a enfermagem encontra-se constantemente exposta a situações de sobrecarga, pressão psicológica, excesso de trabalho, escassez de recursos humanos e elevada responsabilidade profissional, fatores que favorecem o adoecimento mental e ocupacional. O Burnout compromete não apenas a saúde do trabalhador, mas também a qualidade da assistência prestada aos usuários, impactando diretamente a segurança do paciente e o funcionamento dos serviços de saúde. (Amaral; Silva, 2023; Costa et al., 2026).
Dessa forma, torna-se relevante investigar a relação entre o duplo papel exercido pelos profissionais de enfermagem na Atenção Primária e o desenvolvimento da Síndrome de Burnout, visando compreender os fatores associados ao adoecimento e contribuir para a elaboração de estratégias de promoção da saúde mental e melhoria das condições de trabalho desses profissionais. (Almeida; Miclos, 2022; Santos et al., 2023).

Diante disso, o presente estudo tem como objetivo geral analisar a relação entre o duplo papel desempenhado pelos profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde e o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Como objetivos específicos, busca-se: identificar os principais fatores relacionados ao adoecimento ocupacional dos profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde; investigar como a sobrecarga de funções profissionais e pessoais influencia o desenvolvimento da Síndrome de Burnout; descrever os sinais e sintomas mais frequentes da Síndrome de Burnout entre os profissionais de enfermagem;

Para responder a problemática proposta, elaborou-se a seguinte pergunta de pesquisa: qual é a relação entre o duplo papel desempenhado pelos profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde e o desenvolvimento da Síndrome de Burnout?

2 METODOLOGIA

Para a construção deste trabalho, optou-se pela realização de uma revisão integrativa da literatura, sob o título “O burnout e os profissionais de enfermagem: a relação entre o duplo papel da enfermagem na atenção primária e o adoecimento”. O levantamento de dados ocorreu em março de 2026, ancorado em três importantes bases digitais: Google Acadêmico, *Scientific Electronic Library Online* (SciELO) e Acervo+ Index.

A busca pelos estudos fundamentou-se na combinação de descritores controlados e não controlados, articulados por operadores booleanos (AND/OR) nos idiomas português e inglês. A estratégia inicial delineou-se a partir dos seguintes termos: “burnout” OR “síndrome de burnout” AND “enfermagem” OR “nursing” AND “atenção primária” OR “primary health care” AND “saúde mental” OR “mental health”.

Diante do volume expressivo de publicações retornadas no Google Acadêmico (n=257), fez-se necessário refinar os critérios de busca nessa plataforma para garantir a especificidade do corpus. Assim, incorporaram-se termos relacionados ao ambiente laboral: *(“burnout” OR “síndrome de burnout”) AND (“enfermagem” OR “nursing”) AND (“atenção primária” OR “primary health care”) AND (“saúde mental” OR “mental health”) AND (“condições de trabalho” OR “work environment” OR “ocupacional”)*. Adicionalmente, foram inseridos filtros de exclusão para os termos *“revisão”*, *“review”*, *“systematic”* e *“integrative”*. Nas bases SciELO e Acervo+ Index, a estratégia original foi integralmente mantida, uma vez que o volume de resultados mostrou-se condizente com a pesquisa.

Os critérios de elegibilidade foram desenhados para selecionar artigos originais publicados entre 2021 e 2026, disponíveis na íntegra em português ou inglês, cujo escopo central discutisse a síndrome de burnout na equipe de enfermagem inserida na Atenção Primária à Saúde (APS), com foco especial em seus fatores de risco e impactos na saúde mental. Em contrapartida, foram desconsiderados os estudos distantes da assistência direta em saúde, monografias, dissertações, resumos de eventos científicos, revisões prévias da literatura e publicações que desviassem do tema central.

O percurso de seleção dos artigos ocorreu de forma sistemática e cuidadosa, dividido em três momentos essenciais: a triagem inicial dos títulos, a leitura criteriosa dos resumos e, por fim, a análise integral dos textos selecionados. Para estruturar os achados, elaborou-se um quadro-síntese que organizou as informações por autor/ano, título, objetivo, método e principais resultados/conclusões. A análise do material fundamentou-se em uma síntese narrativa, dedicada a evidenciar padrões, fatores associados ao esgotamento profissional e as reais implicações do burnout para a saúde mental dos enfermeiros na APS.

Todo o percurso percorrido para a seleção das evidências foi mapeado e ilustrado por meio de um fluxograma baseado no modelo PRISMA, detalhando visualmente as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão final das obras.

Figura 1 – Fluxograma PRISMA adaptado para as etapas da revisão integrativa.

Etapa Descrição

Identificação Registros identificados através de bases de dados

Contagem (n)

SciELO (n=12)

Google Acadêmico (n=257)

Acervo + Index (n=14) Total: n=283

Triagem Duplicados removidos n=65

Registros para triagem n=218

Registros excluídos após triagem por título, resumo e

período n=194

Registros para leitura na íntegra n=24

Elegibilidade

Registros para leitura na íntegra (artigos em texto

completo avaliados para elegibilidade) n=24

Registros excluídos após aplicação dos critérios de elegibilidade

n=16

Inclusão Estudos incluídos na revisão n=8

Fonte: as autoras (2026).

3 RESULTADOS

No Quadro 1, encontra-se o compilado dos estudos selecionados para compor a presente revisão integrativa. A estrutura contempla autoria, ano de publicação, base de dados, objetivos e principais resultados dos estudos, destacando as evidências relacionadas à síndrome de burnout em profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde, com ênfase nos fatores associados ao adoecimento mental, sobrecarga de trabalho e impactos do duplo papel assistencial e gerencial exercido pelo enfermeiro.

Quadro 1 - Caracterização da produção científica analisada

Autor / Ano de

Publicação

Título do Artigo

Método

Objetivo

Principais resultados/ conclusões

Almeida; Miclos (2022)

Nursing in Primary Health Care: association between leadership, psychological capital, and burnout implications

Estudo transversal com aplicação de instrumentos de avaliação e análise estatística de variáveis.

Analisar a

associação entre liderança, capital psicológico e

burnout em

enfermeiros da APS.

Demonstrou que a liderança influencia as dimensões do burnout. Fatores organizacionais, como sobrecarga e falta de recursos, elevam o

esgotamento.

Amaral; Silva (2023)

Síndrome de burnout em profissionais da área da saúde: um olhar para a literatura [...]

Revisão de

literatura com análise teórica de estudos sobre bem- estar e estresse ocupacional.

Analisar a

síndrome de

burnout e a

importância de

estratégias de cuidado voltadas aos profissionais.

O burnout decorre de estresse crônico e afeta a qualidade de vida. Reforça a necessidade de apoio institucional e valorização do trabalhador.

Costa et al. (2026)

Burnout na saúde: desafios e impactos entre profissionais da enfermagem e medicina

Estudo de

abordagem descritiva com análise da literatura sobre fatores de risco e saúde mental.

Discutir desafios, fatores predisponentes e impactos do burnout na prática profissional.

Fenômeno multifatorial gerado por sobrecarga e baixas condições de trabalho, comprometendo o desempenho e a qualidade do cuidado.

Pires; Lucena; Mantesso (2022)

Atuação do enfermeiro na atenção primária à saúde (APS): uma revisão integrativa da literatura

Revisão integrativa da literatura com seleção e análise de estudos por categorias temáticas.

Analisar as

atribuições e

contribuições do enfermeiro para o funcionamento dos serviços na APS.

O enfermeiro possui duplo papel (assistencial e

gerencial). A

diversidade de

funções gera sobrecarga e exige múltiplas competências.

Santos et al. (2023)

O protagonismo do enfermeiro na gestão das unidades de saúde da família: cenários e desafios

Revisão integrativa da literatura baseada na estratégia PRISMA em bases de dados científicas.

Compreender o

papel do

enfermeiro na gestão de USF e identificar os

desafios deste processo.

Enfermeiro atua como gestor central (liderança e planejamento).

Desafios incluem falta de recursos, falhas na

comunicação e limitações estruturais.

Batista et al. (2025)

Burnout na enfermagem: fatores causais

Revisão sistemática da literatura sobre

Analisar os fatores causais e impactos do

Identificou que o burnout está relacionado à

e impactos na saúde e desempenho profissional: uma revisão sistemática

fatores causais do burnout e seus impactos na saúde e desempenho profissional da enfermagem.

burnout na enfermagem.

sobrecarga de funções, exaustão emocional e precarização das condições de trabalho, impactando negativamente a saúde e o desempenho profissional.

Santos et al. (2021)

Estresse no trabalho em enfermeiros brasileiros atuantes na atenção primária à saúde

Estudo transversal com abordagem quantitativa, realizado com enfermeiros da Atenção Primária à Saúde para avaliação do estresse ocupacional.

Avaliar o estresse ocupacional em enfermeiros da Atenção Primária à Saúde.

Evidenciou que a sobrecarga de trabalho, a pressão cotidiana e as condições inadequadas na APS favorecem o estresse ocupacional e aumentam o risco de adoecimento mental dos enfermeiros.

Rodrigues et al. (2024)

Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem: uma revisão integrativa

Revisão integrativa da literatura sobre a Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem.

Investigar a Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem.

Demonstrou que a Síndrome de Burnout está associada ao desgaste físico e emocional da enfermagem, comprometendo a qualidade de vida e a assistência prestada aos pacientes.

Fonte: elaborado pelos autores, 2026.

4 DISCUSSÃO

Os resultados obtidos nesta revisão integrativa evidenciam que a Síndrome de Burnout no contexto da saúde está associada a múltiplos fatores de natureza individual, organizacional e psicossocial, conforme identificado nos estudos analisados. Essa multifatorialidade apontada por Costa et al. (2026) e Amaral e Silva (2023), reforça a compreensão do Burnout como um fenômeno complexo, relacionado a interação entre condições de trabalho, demandas emocionais e reconhecimento profissional. 

No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), os profissionais de enfermagem encontram-se expostos a elevadas exigências ocupacionais, decorrentes tanto da assistência direta ao paciente quanto das responsabilidades administrativas e gerenciais atribuídas ao enfermeiro. Conforme descrito por Pires, Lucena e Mantesso (2022), o enfermeiro ocupa posição central no funcionamento das unidades de saúde, sendo responsável pelo planejamento das ações, supervisão da equipe, gerenciamento de insumos, organização do processo de trabalho e acompanhamento dos usuários do território.

Essa multiplicidade de atribuições evidencia o chamado duplo papel profissional, caracterizado pela necessidade de conciliar funções assistenciais e gerenciais no mesmo ambiente de trabalho. Tal acúmulo de responsabilidades contribui significativamente para a sobrecarga ocupacional, principalmente em cenários marcados pela escassez de recursos humanos, alta demanda de atendimentos e pressão constante por metas institucionais. Dessa forma, o profissional passa a desempenhar atividades complexas sob intensa pressão psicológica, favorecendo o desenvolvimento do estresse ocupacional crônico, e consequentemente, da síndrome de Burnout (Almeida; Miclos, 2022; Santos et al., 2023).

Os achados dessa revisão podem ainda ser compreendidos à Luz do Modelo Demanda-Controle, proposto por Robert Karasek, segundo o qual o adoecimento ocupacional tende a ocorrer quando altas demandas psicológicas estão associadas ao baixo controle sobre o processo de trabalho. Na APS, os enfermeiros frequentemente vivenciam situações de elevada exigência, caracterizadas por múltiplas responsabilidades assistenciais, administrativas, educativas e gerenciais. Entretanto, muitas vezes possuem limitada autonomia para tomada de decisões, baixa participação nos processos institucionais e insuficiência de recursos materiais e humanos, fatores que intensificam a percepção de sobrecarga e desgaste emocional. Esses achados corroboram os resultados encontrados por Santos et al. (2021), que identificaram elevados níveis de estresse ocupacional entre enfermeiros atuantes na Atenção Primária à Saúde, especialmente relacionados a sobrecarga de trabalho e as condições laborais inadequadas. 

Além disso, o Modelo Esforço-Recompensa, desenvolvido por Johannes Siegrist, contribui para compreender a relação entre dedicação profissional e desvalorização no ambiente de trabalho. Esse modelo demonstra que o sofrimento ocupacional pode surgir quando o elevado esforço realizado pelo trabalhador não é acompanhado por reconhecimento profissional, remuneração adequada, estabilidade ou valorização institucional. Na enfermagem da APS, a dedicação intensa e o envolvimento emocional com os pacientes frequentemente contrastam com salários defasados, sobrecarga de funções e pouca valorização profissional, favorecendo sentimentos de frustração, exaustão emocional e despersonalização. Rodrigues et al. (2024) reforçam essa discussão ao evidenciarem que a Síndrome do Burnout em profissionais de enfermagem está diretamente relacionada às condições organizacionais do trabalho e a insuficiente valorização profissional. 

Percebe-se, portanto, que o adoecimento mental não deve ser compreendido como um problema isolado do indivíduo, mas como reflexo direto das fragilidades existentes na organização do trabalho em saúde. A rotina intensa, associada a pressão por produtividade, a burocratização excessiva, a falta de reconhecimento institucional e as limitações estruturais das unidades de saúde, favorece a naturalização do sofrimento psíquico entre os profissionais de enfermagem (Almeida; Miclos, 2022).

Outro aspecto relevante identificado nos estudos refere-se a dupla jornada enfrentada por muitos profissionais, que frequentemente conciliam as exigências do trabalho com responsabilidades domésticas, familiares e sociais. Essa sobrecarga reduz o tempo destinado ao descanso, lazer e autocuidado, elementos fundamentais para a recuperação física e emocional dos trabalhadores. Dessa forma, o cuidado constante direcionado ao outro acaba, muitas vezes, ocorrendo em detrimento da própria saúde do profissional, intensificando o desgaste físico e mental. Batista et al (2025) apontam que a sobrecarga ocupacional e os fatores psicossociais relacionados ao ambiente de trabalho estão entre os principais desencadeadores do Burnout na enfermagem, comprometendo tanto a saúde física quanto o desempenho profissional. 

Além dos impactos individuais, a síndrome de Burnout repercute diretamente na qualidade da assistência prestada a população. O esgotamento científico e emocional pode comprometer a capacidade de concentração, a tomada de decisão e as relações interpessoais no ambiente de trabalho. Estudos apontam ainda consequências institucionais importantes, como aumento do absenteísmo, presenteísmo, rotatividade profissional e redução da qualidade do cuidado oferecido aos usuários dos serviços de saúde. Na APS, onde o vínculo entre profissional e comunidade representa um dos pilares do cuidado integral, esse desgaste interfere negativamente na continuidade da assistência e nas ações de promoção e prevenção em saúde (Amaral; Silva, 2023). 

Diante desse cenário, observa-se a necessidade de estratégias institucionais voltadas à humanização do ambiente de trabalho e a valorização dos profissionais de enfermagem. Medidas como melhoria das condições estruturais das unidades, dimensionamento adequado de pessoal, fortalecimento das lideranças, incentivo a educação permanente e implementação de políticas de saúde do trabalhador mostram-se fundamentais para minimizar os impactos do Burnout e promover melhor qualidade de vida aos profissionais da Atenção Primária à Saúde

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo buscou analisar a relação entre o duplo papel desempenhado pelos profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde e o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. A revisão integrativa da literatura permitiu identificar que a sobrecarga de funções assistenciais e gerenciais, aliada a um ambiente de trabalho com recursos limitados, pressão por metas e falta de reconhecimento, são fatores cruciais para o adoecimento mental desses profissionais.

Conclui-se que a Síndrome de Burnout na enfermagem da APS é um problema multifatorial que exige uma abordagem sistêmica. A reorganização dos processos de trabalho, o investimento em políticas de saúde ocupacional e a valorização do enfermeiro são medidas essenciais para mitigar os impactos negativos do burnout, promovendo não apenas a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, mas também a qualidade e a segurança da assistência prestada à população.

Ao considerar a complexidade das demandas enfrentadas pelos profissionais de enfermagem na APS, torna-se evidente a necessidade de estratégias institucionais voltadas à prevenção do adoecimento mental. Nesse contexto, recomenda-se a implementação de ações permanentes de apoio psicossocial aos trabalhadores, programas de promoção da saúde mental, redução da sobrecarga laboral por meio de dimensionamento adequado das equipes e divisão mais equilibrada entre atividades assistenciais e administrativas. Além disso, é fundamental fortalecer políticas públicas que garantam melhores condições de trabalho, valorização profissional ,educação permanente e espaços de escuta qualificada dentro dos serviços de saúde.

Dessa forma, compreender e enfrentar o Burnout na enfermagem não significa apenas cuidar da saúde do trabalhador, mas também assegurar maior qualidade na assistência prestada à população, contribuindo para um sistema de saúde mais humanizado, eficiente e seguro. Espera-se que este estudo possa incentivar novas pesquisas e reflexões acerca da saúde mental dos profissionais de enfermagem, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde, ampliando discussões sobre prevenção, acolhimento e valorização desses trabalhadores.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Debora Paulino da Silva; MICLOS, Paula Vitali. Nursing in Primary Health Care: association between leadership, psychological capital, and burnout implications. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, supl. 3, e20210942, 2022.

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PIRES, Renata de Cássia Coelho; LUCENA, Adriana Dias; MANTESSO, Jhennyfer Barbosa de Oliveira. Atuação do enfermeiro na atenção primária à saúde (APS): uma revisão integrativa da literatura. Revista Recien, v. 12, n. 37, p. 107-114, 2022. DOI: 10.24276/rrecien2022.12.37.107-114.

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  1. Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. E-mail: dersoneilana@gmail.com Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. 2026.

  2. Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. 2026.

  3. Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. 2026.

  4. Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. 2026.

  5. Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. 2026.

  6. Mestre. Professor orientador do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. – UNISUL. E-mail: everson.souza1@ulife.com.br

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Copyright (c) 2026 Anderson Freitas de Paiva, Maria Eduarda Silva Santos, Raiza Capile Ramirez, Gabrielly Cândido Santos, Samylla Duarte Silva Assis, Everson da Silva Souza (Autor)

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