Uma análise inicial foi feita com base nos títulos dos trabalhos. Quando o título e o resumo não eram claros o suficiente, buscava-se o artigo completo para evitar a exclusão de estudos relevantes. Títulos duplicados eram identificados e apenas uma versão era mantida. Após essa etapa, passou-se à leitura dos resumos para uma nova seleção. Por fim, os artigos escolhidos foram lidos na íntegra para definir quais fariam parte da revisão.
Os estudos selecionados foram analisados utilizando-se da análise de conteúdo proposta por Bardin (2016), um método estruturado para lidar com dados qualitativos. O processo se divide em três etapas principais: a primeira, chamada pré-análise, envolve uma leitura inicial do material. Na sequência, vem a exploração do material, momento em que ocorre a codificação e a categorização dos dados. Por fim, a terceira fase se dedica ao tratamento dos resultados, onde as informações são interpretadas por meio de inferências, permitindo uma descrição e compreensão mais aprofundada do conteúdo analisado.
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados PubMed e LILACS, contemplando publicações no período de 2005 a 2025, com o objetivo de analisar a evolução da corrida de rua no contexto brasileiro ao longo dos anos. Os descritores foram definidos com base nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), utilizando-se os seguintes termos:
“corrida”, “atividade física”, “esportes”, “saúde”, “exercício físico” e “Brasil”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.
Quanto à elegibilidade dos estudos foram incluídos estudos originais, revisões e publicações que abordassem diretamente a prática de corrida de rua no Brasil, seu desenvolvimento histórico, fatores associados à adesão e características dos praticantes. Para serem elegíveis os artigos deveriam ser publicados nos últimos 20 anos, artigos publicados no idioma Português. Foram excluídos estudos que não apresentavam relação direta com o tema, publicações duplicadas, trabalhos incompletos e aqueles fora do recorte temporal estabelecido.
A seleção dos estudos foi realizada por meio da leitura dos títulos, resumos e, posteriormente, dos textos completos, garantindo maior rigor metodológico e relevância científica na composição da amostra final da revisão.
RESULTADOS
A busca pelas produções identificou 55 artigos potencialmente relevantes nas bases de periódicos investigadas. De acordo com os critérios de inclusão, após a leitura dos títulos e a exclusão de 2 títulos de artigos duplicados, 53 artigos foram selecionados para a leitura dos resumos. Em seguida, após a avaliação dos resumos, 53 artigos foram lidos na íntegra, dos quais somente 8 artigos foram selecionados.
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos.
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
O quadro 1 apresenta de forma resumida as principais informações e resultados observados dos estudos sobre desenvolvimento da corrida de rua no Brasil.
Quadro 1 – Síntese dos Artigos incluídos na Revisão Integrativa, 2026
Fonte: elaborado pelos autores, 2025.
DISCUSSÃO
4.1 Corrida de Rua no Brasil: Entre o Fenômeno Social e os Motivos que Impulsionam a Participação
A análise dos estudos selecionados permitiu compreender que a corrida de rua passou por um crescimento expressivo no Brasil nas últimas décadas, deixando de ser vista apenas como uma prática esportiva voltada ao desempenho físico e assumindo também um importante papel social, cultural e relacionado à qualidade de vida. Os artigos analisados mostram que o aumento do número de praticantes está diretamente ligado às mudanças nos hábitos da população, especialmente à maior preocupação com saúde, bem-estar e equilíbrio emocional. Além disso, a corrida passou a ocupar os espaços urbanos de forma mais evidente, fortalecendo relações sociais e ampliando as possibilidades de lazer nas cidades (Mota, 2023; Rojo et al., 2021).
Os estudos também demonstram que os principais fatores que levam as pessoas a iniciarem e permanecerem na corrida de rua estão relacionados à saúde, ao prazer proporcionado pela prática e à redução do estresse. Xczepaniak e Foschiera (2021) observaram que tanto corredores iniciantes quanto praticantes mais experientes apresentam motivações muito semelhantes, mostrando que a corrida vai além da busca por desempenho ou competição. Esse resultado se aproxima das análises de Albuquerque et al. (2018) e Truccolo, Maduro e Feijó (2008), que identificaram a socialização como um dos elementos centrais para a permanência dos corredores na modalidade. Dessa forma, percebe-se que a corrida de rua vem sendo cada vez mais associada à convivência social, ao sentimento de pertencimento e à melhora da saúde mental.
Outro aspecto importante identificado nos estudos é a maneira como a corrida de rua vem sendo ressignificada na sociedade contemporânea. O trabalho de Mota (2023), ao analisar o grupo “Calma Clima”, mostra que a prática da corrida ultrapassa os limites do esporte e passa a funcionar também como forma de ocupação dos espaços urbanos e fortalecimento das relações coletivas. O crescimento do grupo através das redes sociais demonstra como os meios digitais influenciam diretamente a expansão da modalidade e contribuem para aproximar pessoas com interesses em comum. Nesse contexto, a corrida deixa de ser apenas uma atividade individual e passa a representar uma experiência compartilhada, marcada pela interação social e pela construção de identidade entre os participantes.
Os estudos analisados demonstram consenso quanto ao crescimento expressivo da corrida de rua no Brasil nas últimas décadas. Essa expansão pode ser observada tanto pelo aumento do número de praticantes quanto pela ampliação dos eventos esportivos, grupos de corrida e assessorias esportivas em diferentes regiões do país. Oliveira, Lopes e Hespanhol (2021) identificaram crescimento progressivo da proporção de corredores ao longo de 12 anos de análise populacional, evidenciando que a corrida deixou de ser uma prática restrita ao alto rendimento e passou a integrar o cotidiano da população brasileira. De maneira semelhante, Thuany et al. (2023) observaram aumento contínuo da participação na Corrida de São Silvestre, especialmente entre adultos e idosos, reforçando o caráter de expansão nacional da modalidade. Esses achados corroboram a ideia de que a corrida de rua vem se consolidando como uma das principais práticas corporais contemporâneas, impulsionada pela busca por saúde, lazer, sociabilidade e qualidade de vida.
4.2 Entre o Lazer e a Performance: Quem São os Corredores de Rua no Brasil?
Os estudos selecionados evidenciam que o perfil dos corredores de rua no Brasil passou por importantes transformações ao longo dos anos. Observa-se atualmente maior diversidade entre os praticantes, incluindo diferentes faixas etárias, gêneros e níveis socioeconômicos. Entretanto, os estudos demonstram que ainda existem diferenças regionais significativas relacionadas ao acesso à prática esportiva e ao desempenho competitivo. Thuany et al. (2022) identificaram maior concentração de corredores de alto rendimento nas regiões Sudeste e Sul do país, associando esse fenômeno a fatores socioeconômicos, como Produto Interno Bruto (PIB), densidade populacional e melhores condições estruturais para treinamento e participação em eventos esportivos. Em contrapartida, regiões como Norte e Nordeste apresentam menor representatividade nos rankings nacionais, evidenciando desigualdades que também se refletem no cenário esportivo brasileiro.
Outro aspecto importante identificado nos estudos refere-se às mudanças nos objetivos associados à prática da corrida de rua. Historicamente, a modalidade esteve fortemente relacionada ao desempenho esportivo e à competição. Entretanto, os estudos atuais demonstram que a corrida passou a incorporar também elementos relacionados ao lazer, à saúde, ao bem-estar psicológico e à convivência social. Rojo et al. (2021) observaram que muitos corredores contemporâneos não possuem foco competitivo, mas buscam na prática uma forma de melhorar a qualidade de vida, reduzir o estresse e fortalecer vínculos sociais. Nesse contexto, a corrida deixa de representar apenas rendimento atlético e passa a assumir múltiplos significados sociais e culturais.
Além das transformações relacionadas ao perfil dos praticantes, os estudos também evidenciam um processo crescente de mercantilização da corrida de rua no Brasil. Couto e Freitas (2020) destacam que a modalidade passou a movimentar diferentes setores econômicos, envolvendo assessorias esportivas, eventos temáticos, marcas esportivas, aplicativos de monitoramento e produção de conteúdo digital. Esse cenário demonstra que a corrida contemporânea ultrapassa os limites da prática esportiva tradicional, tornando-se também produto de consumo e experiência social compartilhada. As redes sociais exercem papel importante nesse processo, contribuindo para a disseminação da modalidade e para a construção de identidades coletivas entre os corredores.
Os estudos também apontam crescimento significativo da participação feminina na corrida de rua, demonstrando que a modalidade vem se tornando mais diversa e inclusiva ao longo do tempo. A ampliação da presença das mulheres nos eventos esportivos reflete transformações sociais mais amplas relacionadas à ocupação dos espaços urbanos, à valorização da saúde e à busca por autonomia corporal e bem-estar. Além disso, a crescente participação feminina contribui para modificar o perfil tradicional da corrida de rua, historicamente associado ao público masculino e ao desempenho competitivo.
CONCLUSÃO
A partir da análise dos estudos incluídos nesta revisão integrativa, foi possível compreender que a corrida de rua passou por importantes transformações no Brasil nas últimas décadas, consolidando-se não apenas como uma prática esportiva, mas também como um fenômeno social, cultural e relacionado à promoção da saúde e da qualidade de vida. Os resultados evidenciaram um crescimento expressivo da modalidade, acompanhado pela ampliação do número de praticantes, diversificação dos perfis dos corredores e fortalecimento da presença da corrida nos espaços urbanos e no cotidiano da população brasileira.
Os estudos analisados demonstraram que a adesão à corrida de rua está associada principalmente a fatores relacionados à busca por saúde, bem-estar físico e mental, redução do estresse, lazer e socialização. Nesse contexto, observou-se que a modalidade ultrapassa os limites da prática esportiva tradicional, assumindo também um papel importante na construção de vínculos sociais, no fortalecimento do sentimento de pertencimento e na ocupação dos espaços públicos urbanos. Além disso, a corrida de rua vem sendo ressignificada socialmente, deixando de estar associada exclusivamente ao desempenho competitivo e passando a integrar estilos de vida voltados à promoção da saúde e ao equilíbrio biopsicossocial.
Outro aspecto relevante identificado nesta revisão refere-se à expansão do mercado esportivo relacionado à corrida de rua, impulsionado pelo crescimento das assessorias esportivas, pela organização de eventos temáticos e pelo uso de tecnologias digitais e redes sociais, que têm contribuído significativamente para a disseminação da modalidade no país. Observou-se ainda que essas transformações favoreceram a ampliação do acesso à prática por diferentes grupos sociais, embora persistam desafios relacionados à acessibilidade, desigualdade regional e inclusão de pessoas com deficiência.
Além disso, observou-se que a evolução da corrida de rua no Brasil não ocorreu de maneira homogênea entre as regiões do país, sendo influenciada por fatores econômicos, sociais e estruturais. Estudos identificaram associação entre desenvolvimento regional, indicadores socioeconômicos e maior presença de corredores de alto desempenho, evidenciando que desigualdades sociais também impactam o cenário esportivo nacional.
Os resultados também permitiram identificar que a evolução da corrida de rua no Brasil acompanha transformações sociais, culturais e econômicas mais amplas, refletindo mudanças nos hábitos de vida da população e na forma como o exercício físico passou a ser incorporado ao cotidiano contemporâneo. Dessa forma, a corrida de rua pode ser compreendida como uma prática multifacetada, que envolve não apenas benefícios fisiológicos, mas também dimensões sociais, culturais, emocionais e simbólicas.
Entretanto, apesar do crescimento da produção científica sobre o tema, observou-se que muitos estudos ainda se concentram em aspectos específicos da modalidade, especialmente fatores fisiológicos e motivacionais, existindo menor aprofundamento acerca das dimensões históricas, socioculturais e econômicas relacionadas à expansão da corrida de rua no Brasil. Assim, evidencia-se a necessidade de novas investigações que ampliem acompreensão sobre os impactos sociais da modalidade, as desigualdades de acesso, as transformações urbanas associadas à prática e o papel das tecnologias e mídias digitais no fortalecimento desse fenômeno esportivo contemporâneo.
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Mestre em Educação pela Universidade Federal o Piauí – UFPI. Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. Docente do Centro Universitário Santo Agostinho – UNIFSA. Email: robpi202@gmail.com ↑
Acadêmico do Bacharelado em Educação Física pelo Centro Universitário Santo Agostinho - UNIFSA. Email: elioenaytharsis@gmail.com. ↑

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