Perfil epidemiológico da saúde mental de idosos no Brasil: análise comparativa de dados nacionais e hospitalares
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.

Palavras-chave

Saúde Mental
Idoso
Hospitalização
Epidemiologia
Tendências Temporais
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Perfil epidemiológico da saúde mental de idosos no Brasil: análise comparativa de dados nacionais e hospitalares

Epidemiological profile of mental health in the elderly in Brazil: comparative analysis of national and hospital data.

Francielle Alba Moraes[1]; Soraya Cristina Werklenhg Nascimento²; Sara Cristina Werklaenhg Nascimento³; Giovanna Correia Borges4; Ana Clara Rabelo Batista5; Letícia Gurkewicz6; Paulo Tenório Luna Neto7; Vitor Resende da Silva8; Tobias Barbosa da Fonseca9; Matheus Ames Mucke10; Eliott Cavalcante de Mesquita11

RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar o perfil epidemiológico e a tendência temporal das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em idosos no Brasil. Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo e retrospectivo, com abordagem quantitativa, baseado em dados secundários do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A coleta abrangeu os meses de janeiro, fevereiro e março de 2013, 2019 e 2026, além de uma série temporal para o mês de janeiro entre 2016 e 2026, submetidos à análise estatística descritiva e regressão linear simples. Os resultados evidenciaram um crescimento consistente de 49,2% nas internações na série temporal, com variação percentual anual de 4,09% e incremento médio de 82 casos por ano. Observou-se acentuada predominância das internações nas regiões Sul e Sudeste, embora a região Norte tenha apresentado o maior crescimento proporcional. Houve ainda predomínio de hospitalizações na faixa etária de 60 a 69 anos e entre indivíduos do sexo masculino. Conclui-se que o aumento progressivo das internações acompanha o acelerado envelhecimento populacional e a transição epidemiológica do país, evidenciando a necessidade de fortalecer as redes de atenção psicossocial e implementar políticas públicas integradas voltadas à saúde mental na terceira idade.

Palavras-Chave: Saúde Mental; Idoso; Hospitalização; Epidemiologia; Tendências Temporais.

ABSTRACT

The objective of this study was to analyze the epidemiological profile and time trend of hospitalizations due to mental and behavioral disorders among older adults in Brazil. This is a descriptive, retrospective epidemiological study with a quantitative approach, based on secondary data from the Hospital Information System of the Unified Health System and the Brazilian Institute of Geography and Statistics. Data collection covered the months of January, February, and March of 2013, 2019, and 2026, as well as a time series for the month of January between 2016 and 2026, submitted to descriptive statistical analysis and simple linear regression. The results showed a consistent growth of 49.2% in hospitalizations in the time series, with an annual percent change of 4.09% and an average increase of 82 cases per year. A sharp predominance of hospitalizations was observed in the South and Southeast regions, although the North region showed the highest proportional growth. There was also a predominance of hospitalizations in the 60 to 69 age group and among males. It is concluded that the progressive increase in hospitalizations follows the country's accelerated population aging and epidemiological transition, highlighting the need to strengthen psychosocial care networks and implement integrated public policies aimed at mental health in old age.

Keywords: Mental Health; Aged; Hospitalization; Epidemiology; Time Trends.

  1. INTRODUÇÃO

O perfil demográfico brasileiro tem passado por profundas transformações nas últimas décadas, caracterizado por um processo acelerado de transição demográfica e envelhecimento populacional. O aumento expressivo da expectativa de vida, associado à queda acentuada nas taxas de fecundidade, reconfigurou a pirâmide etária do país, ampliando de forma inédita a proporção de indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos na composição societária (BRASIL, 2006; IEPS, 2023). Essa mudança estrutural impõe complexos desafios ao Sistema Único de Saúde (SUS), exigindo uma reorientação do modelo assistencial para lidar com as demandas de um contingente populacional majoritariamente marcado por condições crônicas de saúde.

Paralelamente à transição demográfica, a transição epidemiológica no Brasil evidencia um deslocamento das causas de morbimortalidade das doenças infectocontagiosas para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), dentre as quais os transtornos mentais e comportamentais ganham crescente relevância (VERAS, 2009). O envelhecimento avançado frequentemente correlaciona-se ao surgimento de patologias neurodegenerativas, síndromes demenciais e declínio cognitivo, além de vulnerabilidades psicossociais como o isolamento, perdas afetivas e o impacto de multimorbidades, fatores que potencializam o sofrimento psíquico na terceira idade (LIMA-COSTA et al., 2022; OMS, 2023).

A despeito da consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e das diretrizes voltadas ao cuidado ambulatorial e comunitário, as internações hospitalares por motivos psiquiátricos em idosos continuam a registrar um crescimento consistente no cenário nacional. Esse fenômeno acena para possíveis gargalos na atenção primária, desigualdades regionais na distribuição de serviços especializados e a necessidade de internações em momentos de gravidade clínica (BARRETO; CARMO, 2007; IEPS, 2023). Adicionalmente, eventos extremos de saúde pública, como a pandemia de COVID-19, alteraram temporariamente a dinâmica assistencial e o acesso hospitalar desse grupo vulnerável, gerando repercussões epidemiológicas que demandam análise detalhada (ROMERO et al., 2021).

Diante desse cenário, faz-se imperativo mapear o comportamento temporal e socioespacial dessas hospitalizações para subsidiar o planejamento em saúde pública. Assim, o objetivo deste estudo é analisar o perfil epidemiológico e a tendência temporal das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em idosos no Brasil, identificando variações segundo faixas etárias, sexo e grandes regiões geográficas, contribuindo para o fortalecimento de políticas de assistência integral à saúde mental na velhice.

  1. REVISÃO DA LITERATURA

2.1 O Envelhecimento Populacional e a Transição Epidemiológica no Brasil

O envelhecimento contemporâneo no Brasil não ocorre de forma homogênea ou gradual, como verificado em nações desenvolvidas, mas sim de maneira acelerada e imersa em profundas desigualdades socioeconômicas (VERAS, 2009). Conforme explicitado pelos indicadores demográficos e de saúde, o crescimento expressivo da população idosa reconfigura as demandas direcionadas ao Estado (BRASIL, 2024; IEPS, 2023). O aumento da longevidade traz consigo a necessidade de gerenciar a transição epidemiológica, caracterizada pela coexistência de múltiplas condições crônicas que afetam a autonomia e a qualidade de vida dos indivíduos (LIMA-COSTA et al., 2022). O sistema de saúde, originalmente estruturado para responder a condições agudas, enfrenta o desafio de se adaptar a uma realidade onde o manejo contínuo e a abordagem multidisciplinar são essenciais (BRASIL, 2006).

2.2 Transtornos Mentais e Comportamentais na População Idosa

Os transtornos mentais na população idosa (classificados no Capítulo V da CID-10) possuem etiologia multifatorial e manifestações clínicas complexas. A idade avançada desponta como o principal fator de risco para o desenvolvimento de demências e comprometimento cognitivo progressivo, condições que frequentemente evoluem com alterações de comportamento, episódios psicóticos e perda da capacidade funcional (OMS, 2023).

Além dos fatores estritamente neurodegenerativos, os idosos sofrem impactos de determinantes sociais, como a sobrecarga por multimorbidades e fragilidades físicas, que elevam significativamente o risco de episódios depressivos e ansiosos graves (LIMA-COSTA et al., 2022). Quando não manejados precocemente na rede ambulatorial, esses quadros podem evoluir para crises agudas, episódios de autoagressão ou instabilidade clínica severa, culminando na necessidade de intervenção em ambiente hospitalar especializado (IEPS, 2023).

2.3 Desigualdades Regionais e Estruturais na Assistência à Saúde Mental

A distribuição dos agravos à saúde mental e o consequente padrão de internações hospitalares no território nacional são fortemente condicionados por disparidades socioespaciais e estruturais. Historicamente, as regiões Sul e Sudeste concentram os maiores contingentes populacionais absolutos de idosos e apresentam elevados índices de urbanização, fatores que naturalmente elevam o volume de notificações (BARRETO; CARMO, 2007). Ademais, tais regiões contam com redes assistenciais mais consolidadas e sistemas de vigilância epidemiológica estruturados, facilitando o diagnóstico e o registro formal dos casos (IEPS, 2023).

Por outro lado, localidades como a região Norte, apesar de registrarem menores números absolutos devido ao seu perfil demográfico ainda mais jovem, têm experimentado expressivos crescimentos proporcionais de hospitalizações. Esse fenômeno reflete tanto os avanços na interiorização e expansão da rede do SUS quanto o acesso tardio de demandas historicamente reprimidas em regiões marcadas por vazios assistenciais e escassez de profissionais especializados (BRASIL, 2024; IEPS, 2023).

2.4 Fatores de Gênero e o Perfil de Internações na Terceira Idade

A análise da morbidade psiquiátrica sob a ótica de gênero revela importantes assimetrias no comportamento epidemiológico de homens e mulheres idosos. Embora a literatura científica aponte de forma consistente uma maior prevalência de sintomas depressivos e de ansiedade autorreferidos entre as mulheres, os dados de internação hospitalar demonstram, paradoxalmente, um predomínio persistente do sexo masculino (LIMA-COSTA et al., 2022).

Essa divergência é amplamente discutida à luz dos determinantes socioculturais descritos pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Barreiras culturais associadas a modelos tradicionais de masculinidade frequentemente geram resistência à busca por cuidados preventivos e adesão a tratamentos ambulatoriais, fazendo com que a população masculina acesse o sistema de saúde prioritariamente em estágios avançados de adoecimento (BRASIL, 2009).

Soma-se a isso a estreita correlação na terceira idade masculina entre transtornos psiquiátricos e o uso abusivo de substâncias psicoativas, destacando-se o alcoolismo, condição frequentemente associada a manifestações clínicas mais graves, episódios de violência e maior taxa de hospitalização compulsória ou de emergência (KLEIN et al., 2024).

  1. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo, retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado a partir da análise de dados secundários de domínio público. As informações referentes às internações hospitalares foram obtidas por meio do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS), utilizando o módulo "Morbidade Hospitalar do SUS por local de internação", acessado na plataforma TabNet.

3.1 Coletas dos Dados

Foram selecionadas as internações hospitalares registradas no Brasil entre idosos com idade igual ou superior a 60 anos, classificadas no Capítulo V da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde da 10ª Revisão (CID-10), correspondente aos Transtornos Mentais e Comportamentais (F00–F99). A população estudada foi estratificada nas faixas etárias de 60 a 69 anos, 70 a 79 anos e 80 anos ou mais.

O recorte temporal compreendeu os meses de janeiro, fevereiro e março dos anos de 2013, 2019 e 2026, permitindo a comparação entre diferentes momentos do processo de envelhecimento populacional brasileiro. Adicionalmente, foi realizada uma análise temporal das internações registradas no mês de janeiro entre os anos de 2016 e 2026, com o objetivo de identificar tendências de crescimento ou redução ao longo do período.

Também foram utilizados dados demográficos provenientes do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA/IBGE), especialmente das tabelas 4670 e 7904, para contextualização do envelhecimento populacional e apoio à interpretação dos resultados epidemiológicos.

3.2 Processamento e Análise dos Dados

Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas no Microsoft Excel e submetidos à análise estatística descritiva. Foram calculadas frequências absolutas (n), frequências relativas (%) e variações percentuais para caracterização das internações segundo ano, sexo, faixa etária e região geográfica.

Para avaliação da tendência temporal das internações, foi realizada regressão linear simples, utilizando o ano como variável independente e o número de internações como variável dependente. Foram estimados o coeficiente de determinação (R²), o incremento médio anual de internações e a Variação Percentual Anual (Annual Percent Change – APC), permitindo avaliar a magnitude e a direção da tendência observada ao longo do período estudado.

A distribuição espacial das internações foi analisada segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação, visando identificar possíveis desigualdades geográficas. Os resultados foram apresentados por meio de tabelas e gráficos elaborados no Microsoft Excel e na plataforma Infogram.

3.3 Aspectos Éticos

Por utilizar exclusivamente dados secundários agregados, de acesso público e sem identificação individual dos participantes, o estudo dispensa apreciação pelo Sistema CEP/CONEP, conforme disposto no Art. 1º, Parágrafo Único, Inciso V, da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

  1. RESULTADOS E DISCUSSÃO:

Foram analisadas as internações hospitalares por transtornos mentais em idosos (≥60 anos) no Brasil, considerando os registros dos meses de janeiro, fevereiro e março dos anos de 2013, 2019 e 2026, além da série temporal referente ao mês de janeiro entre 2016 e 2026. Os resultados evidenciaram um crescimento consistente e progressivo das internações ao longo do período analisado.

Figura1: Tendência temporal das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em idosos (≥60 anos) no Brasil, no mês de janeiro, entre 2016 e 2026. Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS).

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A série temporal demonstrou aumento de 1.712 internações em janeiro de 2016 para 2.555 em janeiro de 2026, correspondendo a um crescimento acumulado de 49,2%. A análise de regressão linear confirmou essa tendência ascendente (R² = 0,663), indicando que o fator temporal explica aproximadamente 66,3% da variação observada no número de internações. Tal resultado evidencia uma associação expressiva entre a progressão dos anos e o aumento das hospitalizações por transtornos mentais em idosos, reforçando a consistência da tendência temporal identificada. O modelo estimou ainda um incremento médio de aproximadamente 81,8 internações por ano, enquanto a Variação Percentual Anual (Annual Percent Change – APC) revelou crescimento médio de 4,09% ao ano.

O aumento progressivo das internações sugere ampliação da demanda por cuidados hospitalares relacionados à saúde mental da população idosa. Esse fenômeno ocorre em um contexto de acelerado envelhecimento demográfico brasileiro, marcado pelo aumento da expectativa de vida, redução das taxas de fecundidade e ampliação da participação dos idosos na composição populacional. Paralelamente, a transição epidemiológica observada nas últimas décadas tem contribuído para o aumento da prevalência de doenças crônicas, transtornos mentais e condições neurodegenerativas, elevando a necessidade de assistência especializada e acompanhamento contínuo dessa população (BRASIL, 2006; IEPS, 2023).

Entretanto, a série temporal evidenciou uma redução nas internações entre 2020 e 2021, período correspondente ao ápice da pandemia de COVID-19. Esse comportamento pode estar relacionado à reorganização dos serviços de saúde para atendimento das demandas emergenciais da pandemia, à redução das internações eletivas e às dificuldades de acesso aos serviços hospitalares enfrentadas pelos idosos, grupo considerado de maior vulnerabilidade às complicações da doença (ROMERO et al., 2021). Assim, a diminuição observada nesse intervalo provavelmente reflete alterações na dinâmica assistencial do sistema de saúde, e não necessariamente uma redução real da ocorrência de transtornos mentais na população idosa.

Figura 2: Distribuição estimada da população idosa com diagnóstico de outra doença mental por faixa etária no Brasil, no ano de 2013. Elaborado pela Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (SIDRA/IBGE, Tabelas 4670).

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Figura 3: Distribuição estimada da população idosa com diagnóstico de outra doença mental por faixa etária no Brasil, no ano de 2019. Elaborado pela Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (SIDRA/IBGE, Tabelas 7904).

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Os dados das tabelas 4670 e 7904 do SIDRA/IBGE evidenciam novamente o processo de envelhecimento populacional no Brasil, caracterizado pelo aumento da população idosa e pela redução proporcional das faixas etárias mais jovens. Esse cenário reflete o aumento da expectativa de vida observado nas últimas décadas. Ao relacionar esses dados com as internações por transtornos mentais e comportamentais em idosos, observa-se que o crescimento desse grupo populacional pode contribuir para uma maior demanda por serviços de saúde mental. Além disso, as projeções indicam que o envelhecimento populacional continuará avançando nos próximos anos, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e assistência integral à saúde mental da população idosa.

Figura 4: Distribuição absoluta e variação percentual das internações hospitalares por transtornos mentais em idosos (≥60 anos) segundo as Grandes Regiões brasileiras, durante o primeiro trimestre nos anos de 2013, 2019 e 2026. Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS).

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No que se refere à distribuição regional, observou-se predominância das internações nas regiões Sul e Sudeste durante todo o período analisado. Em 2013, a região Sul registrou 2.611 internações, seguida pela Sudeste, com 1.203 casos. Em 2019, esses valores corresponderam a 2.551 e 1.741 internações, respectivamente, alcançando 3.257 e 2.355 casos em 2026.

A concentração das hospitalizações nessas regiões pode ser explicada por fatores demográficos e estruturais. Sul e Sudeste apresentam maior proporção de idosos, elevado grau de urbanização e maior disponibilidade de serviços especializados em saúde mental. Adicionalmente, possuem redes assistenciais mais consolidadas e sistemas de informação mais estruturados, favorecendo a identificação, o diagnóstico e o registro dos casos (IEPS, 2023; BARRETO; CARMO, 2007).

Embora a região Norte tenha apresentado os menores números absolutos de internações, registrou o maior crescimento proporcional entre 2013 e 2026, com incremento superior a 300%. Esse achado sugere mudanças importantes na organização da assistência à saúde mental da população idosa. Parte desse crescimento pode ser atribuída à expansão da rede de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), à ampliação da cobertura dos serviços especializados e ao fortalecimento dos sistemas de vigilância e registro epidemiológico. Entretanto, a literatura demonstra que a região ainda enfrenta importantes desafios relacionados à distribuição desigual dos serviços de saúde, à escassez de profissionais especializados e à existência de extensos vazios assistenciais. Nesse contexto, o aumento expressivo das internações pode refletir não apenas maior detecção dos transtornos mentais, mas também o acesso gradual de uma demanda historicamente reprimida aos serviços de saúde (BRASIL, 2024; IEPS, 2023).

Figura 5: Distribuição e participação percentual das internações hospitalares por transtornos mentais em idosos segundo a faixa etária no Brasil, durante o primeiro trimestre nos anos de 2013, 2019 e 2026. Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS).

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A análise por faixa etária revelou predomínio das internações entre idosos de 60 a 69 anos ao longo de todo o período estudado. Em 2013, essa faixa representava 70,60% das internações, percentual semelhante ao observado em 2019 (70,11%). Em 2026, verificou-se discreta redução para 67,94%, embora o grupo tenha permanecido como o principal responsável pelas hospitalizações.

Os idosos de 70 a 79 anos corresponderam a aproximadamente um quinto das internações. Já os indivíduos com 80 anos ou mais apresentaram menor participação percentual, porém com crescimento gradual ao longo do período analisado. Esse comportamento acompanha o aumento da população longeva brasileira e o consequente crescimento da prevalência de demências, comprometimento cognitivo e outras condições neurodegenerativas associadas ao envelhecimento avançado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a idade constitui o principal fator de risco para o desenvolvimento de demências. De forma complementar, estudos do ELSI-Brasil demonstram que os idosos mais longevos apresentam maior carga de multimorbidades, fragilidade e limitações funcionais, condições que aumentam substancialmente a necessidade de cuidados especializados e de hospitalizações (OMS, 2023; LIMA-COSTA et al., 2022; VERAS, 2009).

Figura 6: Comparação do perfil de internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em idosos (≥60 anos) segundo o sexo no Brasil, durante o primeiro trimestre nos anos de 2013, 2019 e 2026. Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS).

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Quanto ao sexo, observou-se predomínio das internações entre indivíduos do sexo masculino em todos os períodos avaliados. Em 2013, foram registradas 2.690 internações entre homens e 2.218 entre mulheres; em 2019, os valores corresponderam a 3.085 e 2.499 internações, respectivamente; e, em 2026, atingiram 3.868 internações masculinas e 3.564 femininas.

Esse padrão suscita importantes reflexões sobre as desigualdades de gênero na utilização dos serviços de saúde. Embora a literatura frequentemente aponte maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos entre mulheres, homens tendem a apresentar menor adesão às ações preventivas e maior resistência à procura precoce por assistência em saúde. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem destaca que aspectos socioculturais associados aos modelos tradicionais de masculinidade favorecem a busca tardia por atendimento, contribuindo para que muitos indivíduos acessem os serviços apenas em estágios mais avançados de adoecimento. Soma-se a isso a associação entre transtornos mentais, consumo abusivo de álcool e outras substâncias psicoativas, fatores frequentemente relacionados a quadros clínicos mais graves e maior necessidade de hospitalização na população masculina idosa (BRASIL, 2009; KLEIN et al., 2024; LIMA-COSTA et al., 2022).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo demonstraram um aumento expressivo das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em idosos no Brasil ao longo do período analisado. A série temporal evidenciou crescimento consistente das hospitalizações, indicando que a saúde mental da população idosa representa um desafio cada vez mais relevante para o sistema de saúde brasileiro.

Observou-se predominância das internações nas regiões Sul e Sudeste, embora a região Norte tenha apresentado o maior crescimento proporcional ao longo dos anos, sugerindo importantes transformações na organização da assistência à saúde mental e no acesso aos serviços especializados. Também foi identificado predomínio das hospitalizações entre idosos de 60 a 69 anos e entre indivíduos do sexo masculino.

Os achados reforçam a influência do envelhecimento populacional brasileiro sobre a demanda por cuidados em saúde mental, especialmente diante do aumento da expectativa de vida e da maior ocorrência de transtornos psiquiátricos, doenças neurodegenerativas e multimorbidades associadas ao envelhecimento. Nesse contexto, torna-se fundamental o fortalecimento das ações de promoção da saúde mental, prevenção de agravos, diagnóstico precoce e ampliação da rede de atenção psicossocial voltada à população idosa.

Como limitações, destaca-se a utilização de dados secundários provenientes do SIH/SUS, os quais estão sujeitos a subnotificações, inconsistências de registro e impossibilidade de avaliação individual dos pacientes. Além disso, os dados contemplam apenas internações financiadas pelo Sistema Único de Saúde, não incluindo hospitalizações ocorridas na rede privada.

Por fim, os resultados apresentados podem subsidiar o planejamento de políticas públicas e estratégias de atenção à saúde mental dos idosos, contribuindo para a organização dos serviços de saúde e para o enfrentamento dos desafios decorrentes do envelhecimento populacional no Brasil.

REFERÊNCIAS

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  1. Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0004-9050-7362

    2 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0004-3851-3239

    3 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3113-4671

    4 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3044-4141

    5 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0009-1449-624X

    6 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0002-6736-3204

    7 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6995-7104

    8 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0004-2874-0534

    9 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0000-5557-8414

    10 Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8997-7144

    ¹¹ Faculdade Metropolitana de Porto Velho – Porto Velho – Rondônia – Brasil.
    ORCID: https://orcid.org/0009-0000-2777-0433

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Copyright (c) 2026 Francielle Alba Moraes, Soraya Cristina Werklenhg Nascimento, Sara Cristina Werklaenhg Nascimento, Giovanna Correia Borges, Ana Clara Rabelo Batista, Letícia Gurkewicz, Paulo Tenório Luna Neto, Vitor Resende da Silva, Tobias Barbosa da Fonseca, Matheus Ames Mucke, Eliott Cavalcante de Mesquita (Autor)

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