Saúde única e bem-estar único: interfaces interdisciplinares entre psicologia, enfermagem, biomedicina e medicina veterinária
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.

Palavras-chave

Saúde Única
Bem-Estar Único
Zoonoses
Resistência Antimicrobiana
Interdisciplinaridade
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Saúde única e bem-estar único: interfaces interdisciplinares entre psicologia, enfermagem, biomedicina e medicina veterinária

One health and one welfare: interdisciplinary interfaces between psychology, nursing, biomedicine, and veterinary medicine

Ana Laura Campos Batistele[1]
Ian Inácio Alves Silva1
Ingrid Brena da Silva Moura1
Kaizze Istefane Araújo1
Katherine Ashley Silva1
Katharinne Marcela Marques Nogueira1
Leidineia Marques Santos1
Tatiana Paulina da Silva1
Joice de Freitas Fonseca1

RESUMO

A crescente complexidade dos desafios sanitários contemporâneos, incluindo doenças zoonóticas emergentes, resistência antimicrobiana e impactos das mudanças climáticas sobre a saúde coletiva, tem impulsionado a consolidação das abordagens de Saúde Única (One Health) e Bem-Estar Único (One Welfare) como referenciais teórico-práticos integrativos. O presente estudo objetiva analisar as interfaces entre Psicologia, Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária sob essas perspectivas, evidenciando contribuições interdisciplinares para o enfrentamento de agravos de saúde pública. Trata-se de revisão narrativa da literatura, com buscas realizadas nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Portal de Periódicos CAPES e Google Acadêmico, utilizando os descritores One Health, One Welfare, zoonoses, resistência antimicrobiana e bem-estar animal, com recorte temporal de 2015 a 2025. Após triagem por critérios de inclusão e exclusão, oito estudos foram selecionados para análise. Os resultados indicam que a atuação interdisciplinar potencializa o diagnóstico precoce de zoonoses, o manejo de crises sanitárias e a identificação de situações de violência e vulnerabilidade social. Evidenciou-se, igualmente, que o suporte psicológico e a assistência de enfermagem complementam as ações biomédicas e veterinárias ao promoverem cuidado integral às populações. Conclui-se que a integração entre as quatro áreas é condição estruturante para respostas mais eficazes, humanizadas e sustentáveis diante dos desafios globais à saúde, destacando-se a urgência de políticas públicas intersetoriais e de formação profissional interdisciplinar.

PALAVRAS-CHAVE: Saúde Única; Bem-Estar Único; Zoonoses; Resistência Antimicrobiana; Interdisciplinaridade.

ABSTRACT

The growing complexity of contemporary health challenges, including emerging zoonotic diseases, antimicrobial resistance, and the impacts of climate change on public health, has driven the consolidation of the One Health and One Welfare approaches as integrative theoretical-practical frameworks. This study aims to analyze the interfaces between Psychology, Nursing, Biomedicine, and Veterinary Medicine under these perspectives, highlighting interdisciplinary contributions to addressing public health issues. This is a narrative literature review, with searches conducted in the PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, CAPES Periodicals Portal, and Google Scholar databases, using the descriptors One Health, One Welfare, zoonoses, antimicrobial resistance, and animal welfare, spanning from 2015 to 2025. Following screening based on inclusion and exclusion criteria, eight studies were selected for analysis. The results indicate that interdisciplinary action enhances the early diagnosis of zoonoses, the management of health crises, and the identification of situations involving violence and social vulnerability. Likewise, it was evidenced that psychological support and nursing care complement biomedical and veterinary actions by promoting comprehensive care for populations. It is concluded that the integration among these four fields is a structural requirement for more effective, humanized, and sustainable responses to global health challenges, emphasizing the urgency of intersectoral public policies and interdisciplinary professional training.

Keywords: One Health; One Welfare; Zoonoses; Antimicrobial Resistance; Interdisciplinarity.

1 INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a emergência de doenças infecciosas de origem zoonótica, a disseminação da resistência antimicrobiana e os efeitos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas têm evidenciado os limites das abordagens fragmentadas em saúde pública. Estima-se que mais de 60% das doenças infecciosas emergentes sejam de origem zoonótica, transmitidas de animais vertebrados a humanos por meio de interações ecológicas mediadas por fatores sociais e ambientais (Aggarwal; Ramachandran, 2020). Diante dessa realidade, a abordagem de Saúde Única (One Health) tem se consolidado como referencial estratégico ao reconhecer a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental, propondo modelos colaborativos e intersetoriais para o enfrentamento das ameaças sanitárias contemporâneas (Gregório et al., 2025; Zinsstag et al., 2015).

No âmbito da resistência antimicrobiana, a perspectiva da Saúde Única é igualmente estruturante. O uso excessivo e inadequado de antimicrobianos tanto na saúde humana quanto na produção agropecuária gera pressão seletiva sobre microrganismos, favorecendo o surgimento e a disseminação de cepas resistentes em diferentes compartimentos, humano, animal e ambiental (Silva et al., 2025; Dickmann; Dalmagro, 2025). Esse fenômeno reforça a necessidade de vigilância integrada e de políticas regulatórias coordenadas entre os setores da saúde, da agricultura e do meio ambiente, conforme preconizado pelo One Health Joint Plan of Action 2022,2026 da FAO, OIE e OMS (FAO; OIE; WHO, 2022).

Paralelamente, avanços teóricos recentes ampliam o escopo da Saúde Única ao incorporar dimensões relacionadas ao bem-estar subjetivo de humanos e animais. O conceito de Bem-Estar Único (One Welfare), desenvolvido a partir dos trabalhos pioneiros de Pinillos (2018) e Hemsworth et al. (2015), reconhece que o bem-estar humano e animal são interdependentes e determinados por fatores socioeconômicos, ambientais e psicossociais comuns. Situações de vulnerabilidade social frequentemente coexistem com maus-tratos animais, sofrimento psicológico e degradação ambiental, revelando problemáticas compartilhadas que exigem respostas integradas (Monsalve et al., 2023; Mota-Rojas et al., 2022).

Experiências recentes, como a pandemia da COVID-19, evidenciaram que as consequências das crises sanitárias ultrapassam a dimensão biológica, produzindo impactos expressivos sobre a saúde mental, as relações sociais e as condições de vida das populações. Esse contexto ampliou o debate sobre bem-estar integral e a necessidade de incorporar abordagens mais humanizadas e sistêmicas nos modelos de atenção à saúde (Tomás; Leite, 2025).

Apesar dos avanços conceituais, a implementação efetiva dessas abordagens ainda enfrenta obstáculos importantes, especialmente em países marcados por desigualdades estruturais. Barreiras institucionais, fragmentação entre setores governamentais, insuficiência de financiamento e lacunas na formação interdisciplinar dos profissionais de saúde dificultam a operacionalização das abordagens nos serviços e nas políticas públicas (Gregório et al., 2025; Marmot; Allen, 2014). Nesse cenário, torna-se imperativo compreender de que forma diferentes áreas do conhecimento, especialmente Psicologia, Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária, podem contribuir, de forma articulada, para respostas mais integrais e sustentáveis.

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo analisar a interface entre Psicologia, Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária sob a perspectiva da Saúde Única e do Bem-Estar Único, destacando como essa integração interdisciplinar contribui para o enfrentamento dos desafios contemporâneos em saúde pública, especialmente no que se refere à prevenção de zoonoses, ao controle da resistência antimicrobiana, à promoção do bem-estar e ao fortalecimento de estratégias integradas de cuidado.

2 METODOLOGIA

O presente estudo constitui-se como revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de analisar as interfaces entre as abordagens de Saúde Única (One Health) e Bem-Estar Único (One Welfare) no contexto das práticas interdisciplinares em saúde, com ênfase nas contribuições da Psicologia, da Enfermagem, da Biomedicina e da Medicina Veterinária. A revisão narrativa foi adotada por permitir uma síntese ampla e interpretativa do estado da arte, favorecendo a compreensão de fenômenos complexos e multidimensionais.

O levantamento bibliográfico foi realizado entre os meses de março e maio de 2025, nas seguintes bases de dados: PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Portal de Periódicos CAPES e Google Acadêmico. Os descritores utilizados foram: One Health, One Welfare, zoonoses, resistência antimicrobiana, bem-estar animal, saúde pública e interdisciplinaridade, nos idiomas português e inglês, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. O período de publicação considerado abrangeu os anos de 2015 a 2025.

Os critérios de inclusão compreenderam artigos originais, revisões de literatura e documentos científicos relacionados diretamente à temática proposta, disponíveis em texto completo e publicados nos idiomas português ou inglês. Foram excluídos estudos duplicados, publicações sem resumo disponível e trabalhos sem aderência ao objeto da pesquisa.

A seleção dos estudos ocorreu em duas etapas: inicialmente, por leitura de títulos e resumos; posteriormente, por leitura integral dos artigos pré-selecionados. Ao término do processo de triagem, oito estudos foram incluídos na síntese final. Os dados foram sistematizados em quadro sinóptico contemplando autores, ano de publicação, objetivo e principais achados, possibilitando a análise crítica e interpretativa dos estudos selecionados.

3 DESENVOLVIMENTO

A compreensão contemporânea da saúde não comporta mais abordagens unidisciplinares ou setorialmente isoladas. A literatura científica internacional demonstra, de forma consistente, que a maioria das doenças infecciosas emergentes possui origem zoonótica e é influenciada por fatores ecológicos, climáticos e socioeconômicos que perpassam as fronteiras entre as espécies (Aggarwal; Ramachandran, 2020; Jones et al., 2008). Nesse contexto, a perspectiva da Saúde Única (One Health) fundamenta-se na premissa de que intervenções fragmentadas são insuficientes diante da complexidade dos problemas sanitários contemporâneos, sendo necessária a articulação sistemática entre saúde humana, animal e ambiental para a promoção do bem-estar coletivo (Zinsstag et al., 2015).

Essa interdependência torna-se particularmente evidente ao analisar os determinantes das doenças zoonóticas. O desmatamento, a urbanização desordenada, a intensificação dos sistemas agropecuários e as mudanças climáticas alteram os habitats naturais, promovendo o contato entre espécies selvagens, domésticas e humanas e favorecendo eventos de spillover, transmissão interespécies de agentes infecciosos (Jones et al., 2008). A análise dessa cadeia causal evidencia que a prevenção eficaz dessas doenças exige não apenas respostas biomédicas e veterinárias, mas também intervenções sobre os determinantes socioambientais que sustentam sua emergência e disseminação.

Sob a ótica dos determinantes sociais da saúde, fatores como renda, escolaridade, saneamento básico, habitação, segurança alimentar e acesso a serviços de saúde influenciam diretamente os perfis epidemiológicos populacionais (Marmot; Allen, 2014). Populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica apresentam maior exposição a agentes zoonóticos, menor acesso a medidas preventivas e menor capacidade de resiliência diante de crises sanitárias. Essa constatação reforça que a vulnerabilidade às zoonoses e demais agravos não devem ser interpretadas exclusivamente como resultado biológico da exposição ao agente etiológico, mas como expressão de desigualdades estruturais historicamente produzidas.

Em países e regiões com baixa qualidade de vida, a ausência de atenção adequada ao ambiente em que o indivíduo está inserido evidencia ainda mais os impactos sobre a saúde física e mental. Muitas dessas populações convivem com a falta de saneamento básico, baixa cobertura vacinal, ausência de água potável e dificuldade de acesso aos serviços de saúde, fatores que favorecem a disseminação de doenças e ampliam situações de vulnerabilidade social. Além dos impactos físicos, essas condições influenciam diretamente a vida emocional e social dos indivíduos, contribuindo para sentimento de insegurança, sofrimento psicológico e limitação das oportunidades de ascensão social, perpetuando ciclos de desigualdade.

Apesar da crescente consolidação dos conceitos de Saúde Única e Bem-Estar Único, sua implementação ainda encontra desafios importantes, especialmente em países marcados por desigualdades socioeconômicas. Barreiras institucionais, insuficiência de financiamento, fragmentação entre setores governamentais e limitações na formação interdisciplinar dos profissionais de saúde dificultam a operacionalização de práticas verdadeiramente integradas no cotidiano dos serviços (Gregório et al., 2025).

Sob a perspectiva da saúde mental, epidemias e doenças zoonóticas podem desencadear repercussões importantes sobre a saúde mental coletiva, associando-se ao aumento de sintomas de ansiedade, medo, insegurança e sofrimento psicológico. Contextos de surtos epidêmicos frequentemente produzem alterações na dinâmica social, estresse familiar, insegurança econômica e sensação de vulnerabilidade constante, demonstrando que processos de adoecimento ultrapassam o corpo biológico e atingem dimensões emocionais e sociais do cuidado.

Ampliando essa perspectiva, Mota-Rojas et al. (2022) demonstram que os maus-tratos aos animais podem funcionar como indicadores de violência doméstica e sofrimento familiar. O estudo aponta que crianças que praticam agressões contra animais podem estar expostas à violência doméstica ou conviver com ambientes familiares disfuncionais, além de apresentarem maior risco de desenvolver comportamentos agressivos futuramente. Nesse sentido, o respeito aos animais pode ser compreendido como reflexo de um ambiente social saudável, reforçando a premissa do Bem-Estar Único de que o sofrimento humano e animal frequentemente coexiste dentro das mesmas realidades sociais (Monsalve et al., 2023; Pinillos, 2018).

Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde assume papel estratégico ao possibilitar a identificação precoce de situações de vulnerabilidade familiar, violência e sofrimento social durante visitas domiciliares e ações comunitárias. A observação de maus-tratos animais pode constituir um importante sinal sentinela para equipes multiprofissionais, auxiliando no reconhecimento de contextos familiares potencialmente violentos ou negligentes.

A evolução dos modelos de Saúde Única e Bem-Estar Único representa uma transformação importante no paradigma tradicional, centrado na medicina biológica e no cuidado exclusivo dos seres humanos. Essa transformação, impulsionada pelas pressões da globalização, pelos intensos fluxos comerciais, pelas migrações e pela urbanização acelerada, tornou-se exigência profissional motivada pela complexidade dos desafios sanitários contemporâneos (FAO; OIE; WHO, 2022).

O conceito de Bem-Estar Único amplia essa visão ao reconhecer que a sensibilidade dos animais e os cuidados éticos voltados a eles integram fatores essenciais que afetam diretamente a qualidade de vida, a organização social e a estabilidade das comunidades humanas (Hemsworth et al., 2015). A vigilância sistemática e preventiva das relações ecológicas funciona como um sistema de alerta precoce, capaz de detectar sinais comportamentais que indicam mudanças em reservatórios animais selvagens antes que agentes infecciosos sejam transmitidos a humanos.

As mudanças climáticas emergem como fator adicional de preocupação para a Saúde Única, uma vez que alterações nos regimes de temperatura, precipitação e eventos climáticos extremos favorecem a expansão geográfica de vetores, alteram padrões epidemiológicos e intensificam situações de vulnerabilidade sanitária. Arboviroses, doenças transmitidas por vetores e insegurança alimentar tendem a ser agravadas em cenários de instabilidade climática, reforçando a necessidade de políticas intersetoriais sustentáveis (Jones et al., 2008).

A resistência antimicrobiana representa um problema multifatorial relacionado não apenas ao uso inadequado de antibióticos em humanos, mas também ao emprego excessivo desses medicamentos na agropecuária, muitas vezes para prevenção coletiva ou promoção de crescimento animal. Sob a ótica da Saúde Única, o enfrentamento desse problema exige vigilância integrada, racionalização terapêutica e fortalecimento de políticas regulatórias voltadas ao uso prudente de antimicrobianos (Silva et al., 2025; Dickmann; Dalmagro, 2025).

Nesse cenário, a Enfermagem surge como força de trabalho científica estratégica para operacionalizar os princípios da Saúde Única e do Bem-Estar Único no cotidiano das comunidades. Por meio da territorialização epidemiológica, visitas domiciliares, educação em saúde, monitoramento de agravos de notificação compulsória e análise de indicadores locais, os profissionais de enfermagem podem identificar precocemente fatores de risco ambientais e sociais associados às zoonoses e demais agravos evitáveis.

A liderança da enfermagem na coordenação intersetorial, ao estabelecer diálogos com médicos veterinários, agrônomos, psicólogos e demais profissionais, contribui para superar a fragmentação tradicional das políticas públicas, transformando os princípios do One Health em ações concretas voltadas à justiça social e à equidade. A consolidação das estratégias de Saúde Única e Bem-Estar Único depende, portanto, do fortalecimento de políticas públicas intersetoriais capazes de integrar saúde, meio ambiente, educação, assistência social e agricultura (Gregório et al., 2025; FAO; OIE; WHO, 2022).

3.1 Discussão dos resultados

A síntese dos estudos selecionados demonstra que as abordagens de Saúde Única (One Health) e Bem-Estar Único (One Welfare) vêm se consolidando como importantes referenciais para o enfrentamento dos desafios contemporâneos em saúde pública. Os achados evidenciam a necessidade de integração entre diferentes áreas do conhecimento, especialmente Biomedicina, Medicina Veterinária, Enfermagem e Psicologia, reforçando o caráter interdisciplinar dessas abordagens.

Os estudos analisados demonstram forte preocupação com a prevenção de zoonoses, segurança sanitária e resistência antimicrobiana. Aggarwal e Ramachandran (2020) destacam que o controle de doenças zoonóticas depende diretamente da integração entre saúde humana, animal e ambiental. De forma semelhante, Silva et al. (2025) evidenciam que o uso indiscriminado de antibióticos na saúde humana e na produção animal contribui significativamente para a disseminação da resistência bacteriana. Complementando essa perspectiva, Dickmann e Dalmagro (2025) identificam a presença de bactérias resistentes em alimentos, água e amostras humanas e animais, reforçando que os impactos da resistência antimicrobiana ultrapassam limites institucionais e ambientais. A atuação conjunta entre Biomedicina e Medicina Veterinária mostra-se, portanto, essencial para o fortalecimento das estratégias de vigilância integrada e controle epidemiológico.

Além dos aspectos técnicos relacionados à vigilância em saúde, os estudos também apontam desafios relacionados à implementação prática da abordagem Saúde Única. Gregório et al. (2025) destacam que a fragmentação institucional e a limitação de políticas públicas intersetoriais dificultam a efetivação de ações interdisciplinares no Brasil. Nessa perspectiva, a atuação da Enfermagem mostra-se relevante nos processos de promoção da saúde, educação em saúde e acompanhamento das populações, contribuindo para estratégias de cuidado mais amplas e integradas. Entretanto, apesar do reconhecimento teórico da interdisciplinaridade, observa-se distanciamento entre o modelo conceitual da Saúde Única e sua aplicação prática nos serviços e políticas públicas brasileiras.

A inclusão da perspectiva do Bem-Estar Único amplia a discussão para além da prevenção de doenças, incorporando fatores sociais, emocionais e psicológicos relacionados ao cuidado em saúde. Monsalve et al. (2023) demonstram associação entre vulnerabilidade socioeconômica, sofrimento humano e maus-tratos animais, evidenciando que contextos de fragilidade social afetam simultaneamente humanos e animais. Da mesma forma, Mota-Rojas et al. (2022) identificam o abuso animal como possível indicador de violência doméstica e sofrimento familiar, reforçando a necessidade de atuação multiprofissional envolvendo Psicologia, assistência social e Medicina Veterinária. Complementando essa discussão, Tomás e Leite (2025) evidenciam que a pandemia da COVID-19 intensificou a busca por práticas integrativas, autocuidado e promoção do bem-estar físico e emocional, reforçando a importância de abordagens mais humanizadas e integradas no contexto da saúde contemporânea.

De modo geral, os estudos analisados demonstram que a Saúde Única fornece bases estruturais relacionadas à vigilância epidemiológica, prevenção de doenças e integração sanitária, enquanto o Bem-Estar Único amplia essa perspectiva ao incorporar dimensões sociais, emocionais e humanísticas do cuidado (Pinillos, 2018; Hemsworth et al., 2015). Dessa forma, o enfrentamento dos desafios contemporâneos em saúde exige estratégias cada vez mais interdisciplinares, capazes de integrar diferentes profissões, setores institucionais e dimensões da vida humana, animal e ambiental.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo permitiu analisar as interfaces entre Psicologia, Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária sob a perspectiva das abordagens de Saúde Única (One Health) e Bem-Estar Único (One Welfare), evidenciando que a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental constitui fundamento indissociável das respostas contemporâneas aos desafios sanitários globais.

A análise dos estudos selecionados revelou que temas como prevenção de zoonoses, resistência antimicrobiana, vigilância epidemiológica integrada, vulnerabilidade social e violência doméstica articulam-se diretamente com os princípios dessas abordagens, demandando atuação colaborativa entre diferentes campos profissionais. Verificou-se que a integração entre Biomedicina e Medicina Veterinária é especialmente relevante para o monitoramento de agentes zoonóticos e o controle de resistência antimicrobiana, enquanto Enfermagem e Psicologia desempenham papel estratégico na identificação de vulnerabilidades, no suporte psicossocial às populações afetadas e na operacionalização de cuidados integrais nos territórios.

A literatura analisada evidenciou desafios persistentes à implementação prática dessas abordagens no contexto brasileiro, incluindo fragmentação institucional entre os setores de saúde, agricultura e meio ambiente, limitações nas políticas públicas intersetoriais e insuficiência na formação interdisciplinar dos profissionais. Adicionalmente, observou-se menor representatividade de estudos sobre a atuação específica de Psicologia e Enfermagem dentro do referencial do Bem-Estar Único, indicando lacuna científica que demanda investigações futuras.

Conclui-se que a consolidação das abordagens de Saúde Única e Bem-Estar Único no Brasil requer investimentos em formação interdisciplinar, fortalecimento da vigilância integrada, ampliação das redes de atenção primária e construção de políticas públicas capazes de reconhecer a saúde como fenômeno sistêmico, determinado socialmente e indissociável das condições de vida animal e ambiental. Pesquisas futuras devem aprofundar as contribuições específicas de cada área profissional, mapear experiências de implementação intersetorial e explorar interfaces ainda subexploradas, como a dimensão de gênero, a saúde ambiental e os impactos das mudanças climáticas sobre a dinâmica das zoonoses no território brasileiro.

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