Palavras-chave
Bem-estar animal
Saúde mental
Saúde Única
Coterapeuta
Intervenções assistidas por animais, saúde mental humana e bem-estar do coterapeuta: uma revisão narrativa sob a perspectiva da saúde única
Animal-assisted interventions, human mental health, and co-therapist welfare: a narrative review from a one health perspective
Alexander Feliciano Sabino Silva[1]
Allan David Alves Rodrigues1
Anna Paula Rodrigues Silva1
Bianca Stephany Magalhães de Paes1
Daniel de Sales Moreira1
Henrique Rocha Miranda1
Iara Duarte de Sousa1
Michael Johnatan Costa Nascimento1
Joice de Freitas Fonseca1
RESUMO
Objetivo: Revisar as evidências científicas sobre a eficácia das Intervenções Assistidas por Animais (IAA) na saúde mental humana, correlacionando os desfechos terapêuticos à preservação do bem-estar do animal coterapeuta, sob a perspectiva da Saúde Única. Metodologia: Revisão narrativa da literatura, com buscas nas bases PubMed, SciELO e Google Acadêmico, abrangendo publicações do período de 2016 a 2025, nos idiomas português e inglês. Os descritores utilizados incluíram: animal-assisted interventions, equine-assisted therapy, animal welfare, One Health e mental health, combinados por operadores booleanos AND e OR. Resultados: As evidências indicam que a cinoterapia e a equoterapia promovem melhoras biopsicossociais e neuromotoras mensuráveis em populações diversas. Paralelamente, parâmetros fisiológicos, como os níveis de cortisol e ocitocina, demonstram que a eficácia terapêutica está condicionada ao manejo ético, à ausência de estresse crônico e ao respeito às necessidades etológicas dos animais envolvidos. Conclusão: A sustentabilidade técnica e ética das IAA requer atuação interdisciplinar do Médico Veterinário e a adoção de protocolos universais de monitoramento do bem-estar animal, consolidando o princípio de que a promoção da saúde humana não deve ocorrer em detrimento da integridade e da dignidade do coterapeuta animal.
Palavras-chave: Intervenções Assistidas por Animais. Bem-estar animal. Saúde mental. Saúde Única. Coterapeuta.
ABSTRACT
Objective: To review the scientific evidence on the efficacy of Animal-Assisted Interventions (AAI) in human mental health, correlating therapeutic outcomes with the preservation of the co-therapist animal's welfare, from a One Health perspective. Methodology: This is a narrative literature review, with searches conducted in the PubMed, SciELO, and Google Scholar databases, covering publications from 2016 to 2025 in both Portuguese and English. The descriptors used included: animal-assisted interventions, equine-assisted therapy, animal welfare, One Health, and mental health, combined using the boolean operators AND and OR. Resultados: The evidence indicates that cynotherapy and equine-assisted therapy promote measurable biopsychosocial and neuromotor improvements in diverse populations. Concurrently, physiological parameters, such as cortisol and oxytocin levels, demonstrate that therapeutic efficacy is conditional upon ethical management, the absence of chronic stress, and respect for the ethological needs of the animals involved. Conclusion: The technical and ethical sustainability of AAI requires the interdisciplinary action of the Veterinary Medical professional and the adoption of universal protocols for monitoring animal welfare, consolidating the principle that the promotion of human health should not occur to the detriment of the integrity and dignity of the animal co-therapist.
Keywords: Animal-Assisted Interventions; Animal Welfare; Mental Health; One Health; Co-Therapist.
INTRODUÇÃO
A interação entre humanos e animais constitui fenômeno de longa data, com implicações documentadas nos domínios físico, social e psicológico de ambas as espécies. Embora registros históricos indicam que, já no século XIX, instituições de saúde mental, como o York Retreat, na Inglaterra, incorporaram o convívio com animais como parte de suas práticas terapêuticas, tais iniciativas careciam de fundamentação empírica sistemática (FRIEDMANN; KRAUSE-PARELLO, 2018).
A consolidação científica do campo ocorreu, inicialmente, por meio de estudos cardiovasculares que demonstraram taxas de sobrevivência significativamente superiores em tutores de animais de companhia após eventos coronarianos agudos (FRIEDMANN; KRAUSE-PARELLO, 2018). A partir desse marco, a investigação científica passou a explorar os mecanismos biopsicossociais subjacentes à influência animal sobre a saúde humana, reconhecendo dimensões emocionais, comportamentais e fisiológicas dessa relação.
Sob a perspectiva psicológica, os animais de companhia atuam como fonte de apoio emocional, atenuando o isolamento social, o estresse e a ansiedade, ao mesmo tempo em que fortalecem a sensação de segurança e pertencimento. Na dimensão biológica, o cuidado com animais, predominantemente cães, incentiva a prática de atividade física e contribui para a redução do risco de comorbidades crônicas (FRIEDMANN; KRAUSE-PARELLO, 2018).
Contemporaneamente, a literatura científica sobre interação humano-animal organiza-se em torno de três frentes principais: os efeitos da posse contínua de animais de companhia, o impacto de contatos breves ou pontuais e a eficácia das Intervenções Assistidas por Animais (IAA). Entre as modalidades de IAA, destacam-se as intervenções assistidas por equinos, como a hipoterapia e a equoterapia, e por cães, denominadas cinoterapia. O uso dessas espécies como coterapeutas fundamenta-se na construção de vínculos baseados na confiança, no toque e no estímulo multissensorial, elementos centrais para a eficácia do processo terapêutico (TOWNSEND; GEE, 2021).
Embora tais terapias promovam ganhos motores e psicossociais evidentes nos pacientes (KOCA; ATASEVEN, 2016; LEMKE et al., 2014), o sucesso das intervenções está intrinsecamente condicionado ao bem-estar e à integridade do animal coterapeuta (MALINOWSKI et al., 2018). A seleção criteriosa dos animais, o manejo sanitário adequado, a vacinação e o treinamento específico são requisitos indispensáveis; contudo, a literatura científica ainda carece de padronização universal para tais procedimentos (TOWNSEND; GEE, 2021). O monitoramento contínuo de sinais de fadiga e estresse crônico é imperativo, visto que o comprometimento do bem-estar animal não apenas reduz a eficácia terapêutica, mas também eleva os riscos de segurança nas sessões. Fatores como a experiência e a idade dos animais desempenham papel relevante nesse contexto: equinos mais velhos e experientes tendem a apresentar maior estabilidade emocional e previsibilidade comportamental (JORMFELDT; CARLSSON, 2018).
Diante desse panorama, a atuação periódica do Médico Veterinário na avaliação clínica dos coterapeutas torna-se indispensável para assegurar tanto a saúde dos animais quanto a qualidade e a segurança das intervenções. O presente estudo tem, portanto, como objetivo revisar as evidências científicas sobre a eficácia das IAA na saúde mental humana, com enfoque na interface entre o bem-estar do animal coterapeuta e a sustentabilidade ética e técnica dessas terapias, sob a perspectiva da Saúde Única.
METODOLOGIA
O presente estudo constitui uma revisão narrativa da literatura, conduzida com o objetivo de sintetizar as evidências disponíveis acerca da interface entre a eficácia das Intervenções Assistidas por Animais (IAA) na saúde mental humana e o bem-estar do animal coterapeuta, sob a perspectiva da Saúde Única.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e Google Acadêmico, abrangendo publicações indexadas no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2025. Utilizaram-se descritores controlados conforme o MeSH (Medical Subject Headings) e o DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, incluindo os termos: animal-assisted interventions, animal-assisted therapy, equine-assisted therapy, hippotherapy, animal welfare, One Health, mental health e human-animal interaction. Adicionalmente, foram empregados termos livres em português como "cinoterapia", "equoterapia" e "bem-estar animal em terapias assistidas".
Foram incluídos artigos científicos originais, revisões sistemáticas e narrativas publicados nos idiomas português e inglês, com texto completo disponível e aderência ao escopo temático da revisão. Excluíram-se relatos de casos isolados, publicações de cunho exclusivamente opinativo e estudos sem avaliação de desfechos de saúde humana ou animal.
A seleção ocorreu em duas etapas consecutivas: (1) triagem inicial por meio de leitura de títulos e resumos das publicações identificadas; e (2) leitura integral dos textos pré-selecionados para verificação de elegibilidade. Os dados extraídos foram organizados em quadro sinóptico contendo: identificação dos autores, ano de publicação, objetivo, metodologia, principais resultados e conclusão. A síntese foi conduzida de forma descritiva e analítica, buscando correlacionar as evidências de benefícios terapêuticos na saúde mental humana aos parâmetros de manejo e bem-estar dos animais envolvidos.
DISCUSSÃO
A análise da literatura evidencia uma trajetória de progressiva qualificação metodológica das pesquisas sobre Intervenções Assistidas por Animais (IAA), marcada pela transição de registros observacionais e práticas empíricas para ensaios e estudos de coorte baseados em evidências. Esse percurso histórico, revisitado por Friedmann e Krause-Parello (2018), não apenas documenta a consolidação do campo, mas também revela a complexidade crescente das questões investigadas, que hoje incorporam dimensões biológicas, psicológicas, éticas e interespécies.
No domínio da saúde mental, os estudos analisados convergem ao demonstrar que a presença animal promove redução mensurável do estresse, da ansiedade e do isolamento social. Townsend e Gee (2021) ampliam essa perspectiva ao descrever o papel de cães com comportamento dócil e baixa reatividade na atenuação do estresse associado a hospitalizações prolongadas e no favorecimento da adesão terapêutica. Tais achados sugerem que a eficácia da cinoterapia não se apoia apenas no vínculo afetivo, mas em mecanismos neuroendócrinos específicos, como a liberação de ocitocina, que merecem maior investigação.
No âmbito das intervenções mediadas por equinos, os benefícios transcendem o campo emocional e alcançam respostas neuromotoras objetivas. Jormfeldt e Carlsson (2018) e Koca e Ataseven (2016) descrevem a hipoterapia e a equoterapia como modalidades em que o movimento tridimensional do cavalo ao passo reproduz o padrão cinesiológico da marcha humana, estimulando o controle postural, o equilíbrio e a integração sensório-motora. Essa particularidade biomecânica foi operacionalizada no estudo de Lemke et al. (2014), no qual crianças com Atrofia Muscular Espinhal tipo II submetidas à terapia equina demonstraram ganhos mensuráveis na força muscular e na amplitude de movimento. Esses resultados reforçam a hipótese de que a equoterapia pode atuar como modulador de neuroplasticidade, embora a escassez de grupos-controle nos estudos disponíveis ainda limite a força das inferências causais.
Não obstante os benefícios documentados para a saúde humana, a literatura contemporânea aponta para uma dimensão frequentemente negligenciada: o impacto das intervenções sobre o próprio animal coterapeuta. Essa perspectiva representa uma inflexão paradigmática relevante, de uma visão instrumental do animal para uma concepção relacional e ética, coerente com os princípios da Saúde Única. Malinowski et al. (2018) demonstraram que equinos submetidos a rotinas que respeitam suas necessidades etológicas mantêm níveis de cortisol e ocitocina compatíveis com equilíbrio fisiológico, o que, por sua vez, preserva a qualidade e a previsibilidade das respostas terapêuticas. Em contrapartida, animais cronicamente estressados não apenas perdem eficácia como coterapeutas, mas representam risco concreto à segurança dos pacientes.
Essa constatação é reforçada por Townsend e Gee (2021), que identificam a ausência de protocolos universalmente aceitos para o monitoramento contínuo de bem-estar animal como uma das principais fragilidades estruturais do campo das IAA. A lacuna normativa exposta por esses autores têm implicações que ultrapassam a esfera técnica: ela revela uma assimetria ética que coloca em risco a legitimidade científica e moral das próprias intervenções. Nesse sentido, a inserção sistemática do Médico Veterinário como membro ativo das equipes de IAA não constitui mero protocolo formal, mas condição estrutural para a sustentabilidade e a credibilidade dessas práticas. A eficácia terapêutica das IAA não pode, portanto, ser avaliada de forma fragmentada: ela emerge da qualidade da relação entre os sujeitos envolvidos, humanos e não humanos, e depende de condições que garantam dignidade e integridade a ambos.
CONCLUSÃO
A análise da literatura científica selecionada permite concluir que as Intervenções Assistidas por Animais (IAA) constituem uma modalidade terapêutica robusta e multidimensional, cujos benefícios transpõem a esfera do apoio emocional e alcançam respostas clínicas e neuromotoras mensuráveis. A cinoterapia demonstra eficácia na redução do estresse em contextos hospitalares e no fortalecimento da adesão terapêutica; a equoterapia e a hipoterapia, por sua vez, consolidam-se como instrumentos de reabilitação neuromuscular e promoção do equilíbrio sensório-motor em populações com demandas específicas.
O achado central desta revisão, contudo, aponta para uma relação de reciprocidade indispensável: a eficácia terapêutica e a sustentabilidade ética das IAA dependem, intrinsecamente, da preservação da integridade física e mental do animal coterapeuta. Parâmetros fisiológicos de estresse, como os níveis de cortisol e ocitocina, evidenciam que o manejo adequado e o respeito às necessidades etológicas dos animais não apenas preservam sua saúde, mas também condicionam a segurança e a qualidade das intervenções.
Identifica-se, ademais, uma lacuna crítica no estado da arte: a escassez de protocolos universais e padronizados para o monitoramento contínuo do bem-estar animal em contextos de IAA. Essa fragilidade estrutural reforça a necessidade imperativa da inserção ativa e interdisciplinar do Médico Veterinário na condução e na supervisão clínica dessas práticas.
Em síntese, o presente estudo corrobora a indissociabilidade preconizada pelo conceito de Saúde Única, reafirmando que o avanço ético e técnico das intervenções assistidas por animais demanda pesquisas futuras voltadas à padronização de diretrizes de bem-estar animal e à consolidação de modelos interdisciplinares de atuação, nos quais a promoção da saúde humana não ocorra em detrimento da saúde e da dignidade dos animais coterapeutas.
REFERÊNCIAS
FRIEDMANN, E.; KRAUSE-PARELLO, C. A. Companion animals and human health: benefits, challenges, and the road ahead for human-animal interaction research. Anthrozoös, v. 31, n. 1, p. 1–16, 2018.
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JORMFELDT, H.; CARLSSON, I. M. Equine-assisted interventions in mental health care: underground practices or evidence-based therapies? International Journal of Mental Health Nursing, v. 27, n. 5, p. 1320–1330, 2018.
KOCA, T. T.; ATASEVEN, H. What is hippotherapy? The indications and effectiveness of hippotherapy. Northern Clinics of Istanbul, v. 3, n. 3, p. 247–252, 2016.
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UVNÄS-MOBERG, K.; PETERSSON, M. Oxytocin, a mediator of anti-stress, well-being, social interaction, growth and healing. Zeitschrift für Psychosomatische Medizin und Psychotherapie, v. 51, n. 1, p. 57–80, 2005.
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