Resumo
A saúde humana, o bem-estar animal e o equilíbrio dos ecossistemas constituem dimensões interdependentes que fundamentam o conceito de Saúde Única (One Health). O presente artigo de revisão narrativa analisa as interações humano-animal sob a perspectiva dessa abordagem, discutindo os mecanismos neurobiológicos subjacentes aos benefícios terapêuticos documentados, as aplicações clínicas da Terapia Assistida por Animais (TAA) na saúde mental e na reabilitação, e os desafios sanitários associados ao manejo inadequado dessas interações em contextos de vulnerabilidade social. A partir da síntese de estudos selecionados nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO e Google Scholar, publicados entre 2012 e 2025, identificam-se evidências consistentes de que o contato supervisionado com animais produz efeitos ansiolíticos, reduz marcadores fisiológicos de estresse e melhora indicadores de qualidade de vida em populações vulneráveis. Em contrapartida, a ausência de protocolos institucionalizados de biossegurança e a precarização das condições sanitárias urbanas amplificam o risco de transmissão de agentes zoonóticos. Conclui-se que a integração interprofissional entre Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária, articulada a políticas públicas de vigilância epidemiológica, constitui
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1Centro Universitário Una Betim
estratégia indispensável para que os benefícios da TAA sejam alcançados com segurança e equidade.
Palavras-chave: Saúde Única; Terapia Assistida por Animais; Zoonoses; Vigilância Epidemiológica; Atuação Interprofissional; Biossegurança.
Abstract
Human health, animal welfare, and ecosystem balance constitute interdependent dimensions that underpin the One Health concept. This narrative review analyzes human–animal interactions from the perspective of this approach, discussing the neurobiological mechanisms underlying documented therapeutic benefits, the clinical applications of Animal-Assisted Therapy (AAT) in mental health and rehabilitation, and the health challenges associated with the inadequate management of these interactions in contexts of social vulnerability. Based on a synthesis of studies selected from the PubMed/MEDLINE, SciELO, and Google Scholar databases, published between 2012 and 2025, consistent evidence was identified demonstrating that supervised contact with animals produces anxiolytic effects, reduces physiological markers of stress, and improves quality-of-life indicators among vulnerable populations. Conversely, the absence of institutionalized biosafety protocols and the precariousness of urban sanitary conditions increase the risk of zoonotic disease transmission. It is concluded that interprofessional integration among Nursing, Biomedical Sciences, and Veterinary Medicine, articulated with public epidemiological surveillance policies, constitutes an essential strategy to ensure that the benefits of Animal-Assisted Therapy are achieved with safety and equity.
Keywords: One Health; Animal-Assisted Therapy; Zoonoses; Epidemiological Surveillance; Interprofessional Practice; Biosafety.
INTRODUÇÃO
A relação entre humanos e animais percorre a história da civilização de forma contínua e multifacetada. O que se originou como vínculo instrumental, voltado à caça, à proteção territorial e ao trabalho agrícola, transformou-se, no contexto contemporâneo, em uma conexão de natureza emocional e social profunda, cujas implicações para a saúde humana têm sido crescentemente investigadas pela literatura científica (Brooks et al., 2018; Martins; Rodrigues, 2025). Nesse cenário, o conceito de Saúde Única emerge como referencial teórico integrador, ao postular que a saúde humana, o bem-estar animal e a integridade dos ecossistemas constituem dimensões mutuamente dependentes de um mesmo sistema complexo, inseparáveis para fins de análise ou de intervenção (Pereira et al., 2025; Sumiya et al., 2024).
No Brasil, o uso de animais em contextos terapêuticos tem raízes históricas documentadas. A psiquiatra Nise da Silveira, em sua atuação no Centro Psiquiátrico Pedro II (Rio de Janeiro), a partir da década de 1940, introduziu animais no ambiente hospitalar como elementos do processo terapêutico de pacientes com esquizofrenia, opondo-se aos métodos coercitivos hegemônicos à época, como o eletrochoque e a lobotomia. Sua experiência pioneira evidenciou que o vínculo afetivo com animais podia favorecer a reorganização subjetiva e a ampliação da comunicação em pacientes gravemente comprometidos.
A literatura científica contemporânea distingue e hierarquiza essas formas de interação. As Intervenções Assistidas por Animais (IAA) constituem o conceito abrangente, subdividindo-se em: Atividades Assistidas por Animais (AAA), de caráter recreativo e informal; Educação Assistida por Animais (EAA), com fins pedagógicos; e Terapia Assistida por Animais (TAA), modalidade formal, estruturada e orientada por objetivos clínicos específicos, conduzida por profissional de saúde habilitado (Mandrá et al., 2019). A TAA diferencia-se das demais por sua dimensão terapêutica propriamente dita, com indicações, protocolos e avaliação de resultados (Rodríguez-Martínez et al., 2021).
Embora os benefícios emocionais e cognitivos da TAA estejam relativamente bem documentados, a inserção de animais em ambientes clínicos e hospitalares introduz variáveis biológicas de alta complexidade. O contato físico próximo aumenta o risco de transmissão de patógenos zoonóticos, exigindo protocolos rigorosos de biossegurança para proteger os pacientes e garantir também o bem-estar do animal. Diante disso, o objetivo desta revisão é analisar os mecanismos terapêuticos da TAA na saúde mental, identificar os principais riscos biológicos e sanitários associados a essa prática e discutir estratégias de atuação interprofissional integrada, com ênfase nas contribuições da Enfermagem e da Biomedicina no âmbito da Saúde Única.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, modalidade que permite a análise crítica e integrativa de um tema com base em fontes bibliográficas selecionadas de forma não exaustiva, priorizando a construção argumentativa e a síntese interpretativa (Rother, 2007). A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO e Google Scholar. Para complementação de dados epidemiológicos, normativos e institucionais, foram consultados portais da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), do Ministério da Saúde do Brasil, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e do Conselho Federal de Biomedicina (CFBM).
O período de busca englobou publicações editadas entre 2012 e 2025. Para rastrear o material, utilizamos os seguintes descritores: "terapia assistida por animais", "animal-assisted therapy", "saúde mental", "mental health", "zoonoses", "Saúde Única", "One Health", "biossegurança" e "atuação interprofissional", combinados pelos operadores booleanos AND e OR.
Foram adotados como critérios de inclusão: artigos originais, revisões sistemáticas, revisões narrativas e documentos técnicos de consenso disponíveis na íntegra, publicados em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos estudos duplicados, trabalhos disponíveis apenas em resumo e produções que não abordavam a interface entre saúde humana, animal e ambiental. Após aplicação dos critérios, foram selecionados oito estudos primários para compor o corpus analítico desta revisão, complementados por referências institucionais e documentos normativos.
1. REVISÃO DA LITERATURA
1.1. Mecanismos neurobiológicos da interação humano-animal
O contato tátil e visual com animais desencadeia respostas fisiológicas mensuráveis que operam em múltiplos eixos do sistema neuroendócrino. Em nível do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), essa interação promove redução da secreção de cortisol, com consequente diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial, modulando a resposta autonômica ao estresse (Jabrazi; Shigaeff, 2021). Paralelamente, a interação interespecífica estimula a liberação de neurotransmissores e neuropeptídeos associados ao bem-estar e à formação de vínculos afetivos, como ocitocina, endorfinas, dopamina e serotonina (Martins; Rodrigues, 2025), mecanismo que confere à TAA uma base neurobiológica consistente.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o papel das intervenções complementares — entre as quais se incluem as IAA — na redução de sintomas ansiosos, contribuindo para abordagens terapêuticas menos dependentes de psicofármacos em determinados contextos clínicos (OMS, 2022). Essa perspectiva é particularmente relevante para populações em sofrimento psíquico grave, nas quais a polimedicação representa risco adicional.
Para indivíduos com transtornos mentais, o animal assume função de objeto de vinculação não-julgador, oferecendo estabilidade relacional em contextos de instabilidade subjetiva. A responsabilidade cotidiana pelo cuidado do animal — alimentação, higiene, exercício — estrutura rotinas que contribuem para a ruptura dos ciclos de apatia e isolamento social, ao mesmo tempo em que favorece a restauração da autoestima e do senso de capacidade e utilidade do sujeito (Brooks et al., 2018; Pereira et al., 2025).
1.2. A Terapia Assistida por Animais (TAA): evidências clínicas e aplicações
A TAA distingue-se das demais modalidades de IAA por sua natureza formal: constitui intervenção terapêutica estruturada, orientada por objetivos clínicos individualizados e conduzida sob supervisão de profissional de saúde habilitado, em conformidade com diretrizes técnicas e éticas estabelecidas (Mandrá et al., 2019; Fine, 2019). Sua aplicação abrange diferentes campos clínicos, com evidências documentadas em contextos de saúde mental, reabilitação neurológica e psicogeriatria.
No campo da psicogeriatria, particularmente no cuidado de pacientes com síndrome demencial, a presença do animal co-terapeuta atua como estímulo multissensorial qualificado. Estudos apontam redução na frequência de episódios de agitação psicomotora, diminuição do comportamento de deambulação errante e melhora nos indicadores de interação social (Jabrazi; Shigaeff, 2021). Esses efeitos têm relevância clínica considerável, dada a frequência com que tais sintomas comprometem a qualidade de vida de pacientes e cuidadores e resultam no uso de psicofármacos com perfil de efeitos adversos desfavoráveis.
Na reabilitação neurológica de adultos com lesão medular, esclerose múltipla e outras condições que afetam a motricidade, a equoterapia, terapia mediada pelo cavalo, apresenta resultados promissores. O movimento tridimensional do cavalo ao passo simula o padrão biomecânico da marcha humana, proporcionando estimulação do tônus muscular, melhora do equilíbrio postural e ativação proprioceptiva (Rodríguez-Martínez et al., 2021).
A dimensão ética da TAA impõe obrigações indeclináveis em relação ao animal co-terapeuta. A OPAS recomenda que os programas institucionais de TAA incluam protocolos de monitoramento do bem-estar animal, com avaliação comportamental periódica, limitação do tempo de exposição e garantia de condições adequadas de repouso e nutrição, evitando situações que induzam estresse ou exaustão (OPAS, 2021). A negligência com o bem-estar animal não constitui apenas problema ético, representa também risco biológico, pois animais estressados são mais propensos a comportamentos agressivos e a alterações imunológicas que favorecem o adoecimento.
1.3. Riscos biológicos e o imperativo da Saúde Única
A interface entre humanos e animais, quando mediada por condições sanitárias precárias, converte-se em vetor de transmissão de agentes patogênicos zoonóticos. No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades sociais, déficits estruturais de saneamento básico e alta população de animais errantes sem cobertura veterinária, esse risco assume dimensões de saúde pública. Animais sem vacinação, controle parasitário ou acompanhamento clínico podem transmitir agentes causadores de esporotricose, leishmaniose visceral, leptospirose e toxoplasmose, entre outras zoonoses de relevância epidemiológica (Martins; Rodrigues, 2025).
Esse cenário de vulnerabilidade agrava-se substancialmente em situações de desastre ambiental. Eventos de inundação, cada vez mais frequentes no contexto de crise climática, dispersam microrganismos patogênicos, em especial Leptospira spp., em larga escala pelo ambiente aquático, expondo simultaneamente populações humanas e animais a risco aumentado de infecção. Além do impacto biológico direto, há um componente psicossocial significativo frequentemente subestimado: a perda abrupta de animais de estimação em tragédias ambientais configura experiência de luto que pode romper redes de suporte emocional e precipitar quadros de depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) nas comunidades afetadas (Brooks et al., 2018; FIOCRUZ, 2022).
Esses dados reafirmam a centralidade do referencial de Saúde Única para a análise das interações humano-animal: não é possível promover os benefícios terapêuticos do vínculo interespecífico sem que o contexto sanitário, ambiental e social seja simultaneamente considerado e monitorado (Zinsstag et al., 2011).
1.4. Estratégias interprofissionais: Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária
A operacionalização segura e eficaz da TAA, em consonância com os princípios da Saúde Única, demanda a atuação coordenada de profissionais de diferentes áreas, superando a fragmentação disciplinar ainda hegemônica nos serviços de saúde.
A Biomedicina contribui de forma estratégica no campo do diagnóstico laboratorial e do controle ambiental. Por meio de técnicas de biologia molecular, como a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), é possível detectar com alta sensibilidade e especificidade agentes patogênicos em amostras clínicas e ambientais, permitindo identificação precoce de situações de risco antes que se configurem surtos. O profissional biomédico também atua no monitoramento microbiológico de ambientes clínicos onde a TAA é praticada, assegurando a ausência de contaminação cruzada (CFBM, 2020).
A Enfermagem exerce papel central na linha de frente da prevenção e do cuidado. Cabe ao enfermeiro realizar a avaliação pré-sessão do paciente, identificando condições de risco, como feridas abertas, imunossupressão clínica ou uso de terapia imunossupressora, que possam contraindicar o contato com animais. A garantia da adesão aos protocolos de higiene das mãos durante as sessões de TAA, a educação em saúde dirigida a pacientes e familiares sobre zoonoses e a notificação compulsória de casos suspeitos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) são atribuições que integram o escopo da prática de enfermagem nesse contexto (COFEN, 2023).
A Medicina Veterinária fecha o ciclo proposto pela Saúde Única ao garantir a saúde e a aptidão comportamental do animal co-terapeuta. A atestação de vacinação atualizada, o controle antiparasitário periódico, a avaliação do temperamento e o monitoramento do bem-estar animal são condições indispensáveis para a participação segura do animal em programas terapêuticos institucionais.
A integração funcional dessas três áreas, articulada por protocolos interinstitucionais e amparada por regulamentação específica, constitui o modelo de governança mais adequado para a implementação sustentável da TAA no sistema de saúde brasileiro (Beetz et al., 2012; IAHAIO, 2018).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As interações humano-animal mediadas pela Terapia Assistida por Animais representam uma modalidade terapêutica complementar com base neurobiológica consistente e aplicações clínicas documentadas. Os benefícios sobre a saúde mental — redução de sintomas ansiosos e depressivos, melhora de indicadores de sociabilidade e restauração do senso de autoeficácia — conferem à TAA potencial relevante para populações em situação de vulnerabilidade psicossocial, desde que inserida em uma estrutura de cuidado integral e multiprofissional (Brooks et al., 2018; Charry-Sánchez et al., 2018; Jabrazi; Shigaeff, 2021).
Contudo, sob a perspectiva da Saúde Única, os benefícios terapêuticos não podem ser dissociados dos riscos epidemiológicos, bioéticos e sanitários que acompanham a proximidade física entre espécies em contextos de desigualdade social e precariedade ambiental (Martins; Rodrigues, 2025; Sumiya et al., 2024). A ausência de regulamentação federal específica para a TAA no Brasil, combinada à baixa cobertura de saúde animal para populações errantes e à fragilidade dos sistemas de vigilância epidemiológica em territórios vulneráveis, configura cenário de risco que demanda atenção dos gestores de saúde pública.
Para que os benefícios da TAA na saúde mental sejam alcançados de forma sustentável e equitativa, faz-se necessária a superação das práticas fragmentadas em favor da formulação de políticas públicas integradas, ancoradas em protocolos institucionais de biossegurança e em modelos de governança interprofissional. A articulação entre Enfermagem, Biomedicina e Medicina Veterinária, com papéis claramente definidos e comunicação intersetorial efetiva, representa a expressão prática do referencial de Saúde Única aplicado ao contexto das interações terapêuticas humano-animal (Martins; Rodrigues, 2025; Pereira et al., 2025). Investir nessa integração é, em última instância, investir na saúde do ecossistema compartilhado entre humanos, animais e ambiente.
REFERÊNCIAS

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