Palavras-chave
Assistência Farmacêutica
Adesão à Medicação
Atenção Primária à Saúde
Controle Glicêmico
O papel da assistência farmacêutica na adesão ao tratamento e no controle glicêmico de pacientes com Diabetes tipo 2 na atenção básica.
The role of pharmaceutical assistance in treatment adherence and glycemic control of patients with Type 2 Diabetes in primary care.
Mylene Talita Melônio Reis
Orientador: Prof. Gustavo Pereira Calado
RESUMO
O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença crônica de alta prevalência que demanda rigoroso controle glicêmico para a prevenção de complicações micro e macrovasculares. No entanto, a baixa adesão ao tratamento pelos pacientes apresenta-se como um dos maiores desafios na Atenção Básica, sendo fortemente influenciada por fatores socioeconômicos, complexidade da terapia, efeitos adversos e baixo letramento em saúde. Diante deste cenário, o presente estudo tem como objetivo principal analisar as barreiras enfrentadas por pacientes com DM2 na adesão ao tratamento e avaliar o papel estratégico do farmacêutico na Atenção Básica para superá-las. A metodologia adotada consiste em uma pesquisa bibliográfica, de caráter qualitativo e descritivo, realizada por meio de buscas nas bases de dados SciELO, PubMed/MEDLINE e LILACS. A literatura revisada evidencia que a atuação clínica do farmacêutico transcende a dispensação logística, englobando a educação em saúde, a conciliação medicamentosa e o acompanhamento farmacoterapêutico contínuo. Conclui-se que a inserção ativa da assistência farmacêutica na Estratégia Saúde da Família é fundamental para promover o empoderamento do paciente frente ao autocuidado, otimizar a adesão terapêutica e, consequentemente, garantir um controle glicêmico mais seguro e eficaz, reduzindo os impactos negativos e os custos no Sistema Único de Saúde (SUS).
Palavras-chave: Diabetes Mellitus Tipo 2. Assistência Farmacêutica. Adesão à Medicação. Atenção Primária à Saúde. Controle Glicêmico.
ABSTRACT
Type 2 Diabetes Mellitus (T2DM) is a highly prevalent chronic disease that requires strict glycemic control to prevent micro and macrovascular complications. However, low patient adherence to treatment presents itself as one of the major challenges in Primary Care, being strongly influenced by socioeconomic factors, therapy complexity, adverse effects, and low health literacy. Given this scenario, the main objective of the present study is to analyze the barriers faced by patients with T2DM in treatment adherence and to evaluate the strategic role of the pharmacist in Primary Care to overcome them. The adopted methodology consists of a bibliographic research, of a qualitative and descriptive nature, carried out through searches in the SciELO, PubMed/MEDLINE, and LILACS databases. The reviewed literature shows that the clinical performance of the pharmacist transcends logistical dispensing, encompassing health education, medication reconciliation, and continuous pharmacotherapeutic follow-up. It is concluded that the active insertion of pharmaceutical care in the Family Health Strategy is fundamental to promote patient empowerment towards self-care, optimize therapeutic adherence, and, consequently, ensure safer and more effective glycemic control, reducing negative impacts and costs in the Unified Health System (SUS).
Keywords: Type 2 Diabetes Mellitus. Pharmaceutical Care. Medication Adherence. Primary Health Care. Glycemic Control.
- INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma das condições crônicas mais prevalentes do século XXI, caracterizada por resistência à insulina e/ou sua deficiência relativa, resultando em hiperglicemia persistente (Araújo et al., 2000). A doença representa um desafio crescente para os sistemas de saúde, uma vez que está associada a complicações micro e macrovasculares, como nefropatia, neuropatia, retinopatia, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (Padilha; Filho, 2022). Tais complicações impactam negativamente a qualidade de vida, aumentam incapacidades e elevam substancialmente os custos em saúde pública (Lyra et al., 2006).
O DM2 caracteriza-se como um distúrbio metabólico complexo. Fatores como o rápido envelhecimento populacional, a urbanização desenfreada, o sedentarismo e os padrões alimentares inadequados contribuem significativamente para a expansão da doença. No Brasil, o DM2 é responsável pela maior parte dos casos de diabetes e está fortemente relacionado a esses fatores modificáveis (McLellan et al., 2007; Cassano et al., 1992). Diante desse cenário, a manutenção de um controle glicêmico rigoroso desponta como a estratégia primordial para prevenir ou retardar a incidência desses agravos sistêmicos (Nogueira et al., 2020). O manejo do DM2 exige mudanças profundas e permanentes no estilo de vida do paciente, além do uso contínuo de agentes hipoglicemiantes e insulina (Dias et al., 2017).
É neste contexto que a Atenção Básica à Saúde (ABS), estruturada primordialmente por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), assume um papel decisivo no acompanhamento longitudinal dos pacientes. A ESF funciona como a porta de entrada do paciente no Sistema Único de Saúde (SUS), permitindo o rastreamento, o diagnóstico precoce e a promoção de ações contínuas de educação em saúde. Dentro dessa rede de cuidado, a Assistência Farmacêutica não deve ser compreendida apenas como a etapa logística de aquisição e entrega de medicamentos, mas sim como um serviço clínico integrado. O cuidado farmacêutico engloba o acompanhamento farmacoterapêutico, a conciliação medicamentosa e a identificação de Problemas Relacionados a Medicamentos (PRMs), consolidando-se como um componente essencial para a segurança e eficácia do tratamento (Silva; Ferreira, 2022).
Contudo, estudos indicam que apenas uma parcela reduzida dos pacientes consegue manter níveis glicêmicos adequados, evidenciando falhas na adesão influenciadas pelo nível de letramento em saúde, suporte familiar e complexidade da terapia (Péres et al., 2006; Sampaio et al., 2015). Diante da importância da adesão terapêutica para a prevenção de complicações, este trabalho busca responder: quais são as principais barreiras enfrentadas por pacientes com DM2 na adesão ao tratamento e qual é o papel do farmacêutico na Atenção Básica para superá-las?
A pesquisa justifica-se pela necessidade de evidenciar os obstáculos reais no contexto da atenção primária e demonstrar como a atuação ativa do farmacêutico empodera o paciente para o autocuidado, atuando como um facilitador indispensável. O objetivo geral é analisar as barreiras à adesão do tratamento no DM2 e avaliar as estratégias farmacêuticas implementadas, enquanto os objetivos específicos buscam identificar fatores comportamentais da falta de adesão, descrever as atividades clínicas do farmacêutico e investigar o impacto da educação em saúde no monitoramento da doença.
- DESENVOLVIMENTO
2.1 Metodologia
O estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de natureza qualitativa e descritiva, desenvolvida com o objetivo de analisar os fatores que influenciam a adesão ao tratamento e o controle glicêmico em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2), considerando também aspectos comportamentais, socioeconômicos e educacionais associados à doença. Para isso, foram consultadas publicações científicas que abordam a relação entre o letramento em saúde, o comportamento alimentar, a resistência à insulina e o acompanhamento farmacoterapêutico, conforme discutido por autores como Péres et al. (2006) e Sampaio et al. (2015).
A busca pelos estudos foi realizada nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE, LILACS e Google Acadêmico, utilizando descritores como: diabetes mellitus tipo 2, adesão ao tratamento, assistência farmacêutica, comportamento alimentar, atenção primária à saúde e controle glicêmico. Também foram incluídas publicações não indexadas, desde que demonstrassem relevância para o tema proposto.
A seleção do material ocorreu inicialmente pela leitura de títulos e resumos, seguida da leitura integral dos textos que apresentaram relação direta com os objetivos do trabalho. Foram considerados como critérios de inclusão os estudos que apresentassem vínculos claros com o DM2 na Atenção Básica e com os fatores investigados, como hábitos de autocuidado e o impacto das intervenções farmacêuticas. Foram excluídos textos repetidos, documentos sem rigor metodológico, abordagens de populações excessivamente específicas e materiais que não se relacionavam diretamente com a temática central.
Após a seleção, os artigos foram analisados de forma crítica, permitindo identificar como cada estudo contribui para o entendimento das dificuldades no manejo do DM2. A análise dos dados foi realizada por meio de leitura interpretativa, buscando integrar as diferentes perspectivas apresentadas nas publicações, com os conteúdos organizados em torno dos elementos mais recorrentes na literatura. Para uma melhor visualização do processo metodológico e das etapas de definição da pesquisa, a Figura 1 apresenta o fluxograma correspondente.
Figura 1 – Fluxograma da Metodologia
Fonte: Elaborada pela autora (2026)
2.2 Resultados e discussão
A análise da literatura selecionada revelou que a dificuldade de adesão à farmacoterapia por pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) na Atenção Básica está intrinsecamente ligada a fatores comportamentais, socioeconômicos e à própria complexidade dos tratamentos prescritos. Autores como Péres et al. (2006) e Sampaio et al. (2015) já destacavam, respectivamente, o impacto do comportamento alimentar e do letramento em saúde, evidenciando que a simples oferta do medicamento no posto de saúde não é suficiente para garantir o controle da glicemia. O Quadro 1 apresenta a síntese dos principais estudos que fundamentam esta análise.
Quadro 1 – Síntese dos artigos selecionados para a discussão.
Autor(es) e Ano | Título do Artigo | Objetivo Principal | Principais Resultados / Conclusão |
|---|---|---|---|
Nogueira et al. (2020) | Intervenções farmacêuticas no diabetes mellitus tipo 2... | Analisar o impacto clínico das intervenções farmacêuticas no controle do DM2. | O acompanhamento farmacoterapêutico promove a otimização da terapia e a redução significativa da hemoglobina glicada (HbA1c). |
Padilha; Filho (2022) | A importância do cuidado farmacêutico na prevenção... | Destacar a relevância da atuação clínica do farmacêutico no cuidado ao paciente diabético. | A educação em saúde e o cuidado contínuo pelo farmacêutico previnem complicações e aumentam expressivamente a adesão ao tratamento. |
Silva; Ferreira (2022) | A importância da atenção farmacêutica aos pacientes... | Revisar o papel do farmacêutico na orientação sobre o uso de medicamentos orais. | A orientação profissional adequada mitiga o abandono do tratamento causado por efeitos adversos e falhas na compreensão da posologia. |
Nunes et al. (2021) | Atitudes para o autocuidado em diabetes mellitus tipo 2... | Avaliar as atitudes de pacientes em relação ao autocuidado na rede básica. | Identificou-se que atitudes positivas para o autocuidado estão correlacionadas ao melhor manejo da doença. |
|---|---|---|---|
Dias et al. (2017) | Comportamentos de pacientes com diabetes tipo 2... | Analisar os comportamentos de autocuidado em pacientes diabéticos. | A adesão ao tratamento não medicamentoso (dieta e exercício) é a barreira mais difícil de ser superada pelos pacientes. |
Sampaio et al. (2015) | Letramento em saúde de diabéticos tipo 2... | Avaliar a associação entre o letramento em saúde e o controle da glicemia. | O baixo letramento em saúde está diretamente ligado a dificuldades no autocuidado e a piores índices de controle glicêmico. |
McLellan et al. (2007) | Diabetes mellitus do tipo 2, síndrome metabólica... | Avaliar o impacto das mudanças de hábitos na síndrome metabólica e no diabetes. | A modificação do estilo de vida é a base indispensável para o controle glicêmico. |
Lyra et al. (2006) | Prevenção do diabetes mellitus tipo 2 | Identificar as principais estratégias para a prevenção primária da doença. | Intervenções no estilo de vida são mais eficazes que o uso isolado de metformina na prevenção do DM2. |
Péres et al. (2006) | Comportamento alimentar em mulheres portadoras... | Investigar os fatores que influenciam o comportamento alimentar e a adesão. | A adesão é dificultada por fatores emocionais, barreiras socioeconômicas e falta de compreensão da doença. |
Araújo et al. (2000) | Tratamento do diabetes mellitus do tipo 2... | Revisar as opções terapêuticas disponíveis para o controle do DM2. | O tratamento deve ser individualizado e as novas opções farmacológicas |
auxiliam na redução da resistência insulínica. |
Fonte: Elaborado pela autora (2026).
A análise da literatura selecionada revelou que a dificuldade de adesão à farmacoterapia por pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) na Atenção Básica está intrinsecamente ligada a fatores comportamentais, socioeconômicos e à própria complexidade dos tratamentos prescritos. Autores como Péres et al. (2006) e Sampaio et al. (2015) já destacavam, respectivamente, o impacto do comportamento alimentar e do letramento em saúde, evidenciando que a simples oferta do medicamento no posto de saúde não é suficiente para garantir o controle da glicemia.
Ao confrontar os achados da literatura, observa-se que as barreiras para a adesão são multifatoriais e muitas vezes se sobrepõem. Enquanto Péres et al. (2006) enfatizam que fatores emocionais e de enfrentamento da doença dificultam a mudança de hábitos alimentares, Sampaio et al. (2015) demonstram que o baixo letramento em saúde — ou seja, a dificuldade do paciente em compreender informações médicas básicas — é o principal entrave para o autocuidado. Ambas as visões se complementam na prática diária da Atenção Básica: o paciente frequentemente abandona o tratamento não apenas por desmotivação, mas também porque não entende as prescrições ou a gravidade silenciosa de sua condição (Silva; Ferreira, 2022).
Ademais, a complexidade farmacológica agrava consideravelmente esse cenário. A ocorrência de efeitos adversos, como os frequentes distúrbios gastrointestinais causados pelo uso da metformina, somada à polifarmácia — que é comum em pacientes com outras comorbidades, como hipertensão — gera confusão e desconforto físico, levando ao abandono da terapia. As questões econômicas e a dificuldade de deslocamento até as Unidades Básicas de Saúde (UBS) também representam barreiras significativas, que distanciam o paciente da equipe multiprofissional e comprometem a manutenção dos níveis glicêmicos adequados.
Diante desses desafios estruturais e comportamentais, a literatura evidencia que o farmacêutico exerce um papel transformador na Atenção Básica. Padilha e Filho (2022) argumentam que a inserção ativa do cuidado farmacêutico é imprescindível não apenas para a prevenção de complicações, mas para a reeducação do paciente. Em contraste com a visão limitante do farmacêutico como mero dispensador de caixas, o acompanhamento clínico contínuo permite intervenções práticas fundamentais. A orientação adequada sobre a tomada de medicamentos junto às refeições para evitar desconfortos gástricos ou a explicação clara sobre os riscos de picos de hipoglicemia são ações que promovem a adesão imediata.
Nogueira et al. (2020) corroboram essa premissa ao demonstrarem, por meio de revisões sistemáticas, que as intervenções farmacêuticas diretas, como a simplificação de esquemas terapêuticos e o monitoramento rigoroso, resultam na melhora dos indicadores clínicos, reduzindo significativamente os índices de hemoglobina glicada (HbA1c). Dessa forma, o farmacêutico atua como um facilitador que traduz o linguajar técnico para a realidade do usuário do SUS, organizando os horários da medicação e desmistificando medos. Quando o paciente compreende como o fármaco atua no seu organismo, ele adquire autonomia e torna-se protagonista do seu próprio autocuidado, o que se reflete diretamente na otimização dos recursos públicos pela redução das internações hospitalares.
3 CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que as barreiras para a adesão ao tratamento do Diabetes Mellitus tipo 2 na Atenção Básica vão muito além do simples fornecimento de medicamentos. Fatores como o baixo letramento em saúde, limitações socioeconômicas e os efeitos adversos associados à polifarmácia são determinantes para o abandono terapêutico e o consequente descontrole glicêmico.
Nesse contexto, a pesquisa demonstrou que o farmacêutico exerce um papel indispensável e estratégico no âmbito da Estratégia Saúde da Família (ESF). Ao atuar ativamente na educação em saúde, no acompanhamento farmacoterapêutico e na simplificação dos esquemas posológicos, esse profissional deixa de ser um mero dispensador para se tornar um agente clínico transformador. A intervenção farmacêutica não apenas minimiza os problemas relacionados aos medicamentos, mas também empodera o paciente, traduzindo informações técnicas em práticas acessíveis de autocuidado.
Conclui-se, portanto, que a integração efetiva da assistência farmacêutica nas equipes multiprofissionais da Atenção Básica é fundamental. Essa inserção otimiza os resultados clínicos, melhora a qualidade de vida dos pacientes e contribui diretamente para a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da redução de internações decorrentes de complicações sistêmicas evitáveis.
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