A afetividade do professor e sua contribuição para o processo de adaptação da criança na Educação Infantil
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo:

O período de adaptação da criança pequena à creche exige uma acolhida mais afetuosa por parte dos professores porque o choro e o estranhamento a pessoas novas e ambiente diferente é desgastante para ela, que se sente muito insegura nesse momento. Este artigo, fruto de uma dissertação de Mestrado em Educação, surgiu do problema de pesquisa: como a afetividade do professor pode contribuir com o processo de adaptação da criança pequena no Núcleo de Educação Infantil Sementes do Amanhã de Balneário Camboriú-SC? O estudo se deu no decorrer do ano de 2024, tendo como objetivo geral construir um projeto de capacitação para os professores desta creche que contribua com o processo de adaptação da criança pequena de maneira afetiva. A abordagem utilizou a metodologia qualitativa e pesquisa exploratória com estudo de campo. O estudo foi fundamentado por autores do ramo da Pedagogia, resultando num projeto de capacitação para os professores que foi realizado após toda a investigação e realização da pesquisa. Concluiu-se, assim, que a atenção à afetividade e ao processo de adaptação das crianças à creche não é apenas uma questão pedagógica, mas um aspecto central no desenvolvimento saudável e feliz da infância.

Palavras-chave: criança pequena; adaptação; afetividade.

Abstract:

The adaptation period of a young child to daycare requires a more affectionate welcome from teachers because the child is estranged from people and an environment different from the one they are used to, and feels very insecure at that moment. This article, derived from a Master's dissertation in Education, arose from the research problem concerning affection and how it can contribute to the adaptation process of young children at the Municipal Early Childhood Education Center Sementes do Amanhã in Balneário Camboriú-SC. The study was conducted during the year 2024, with the objective of generally building a training project for the teachers of this daycare that would contribute to the adaptation process of young children in an affective way. The approach used qualitative methodology and exploratory research with a field study. The study was based on authors in the field of Pedagogy, resulted in a training project for teachers that was carried out after the entire investigation and completion of the research. It was concluded, therefore, that attention to affection and the adaptation process of children to daycare is not merely a pedagogical issue, but a central aspect in the healthy and happy development of childhood.

Keywords: young child; adaptation; affection.

Introdução

A adaptação das crianças à creche é um processo que vai além do simples ajuste a uma nova rotina: ela está diretamente relacionada à criação de vínculos significativos com os educadores. Estudos mostram que crianças que se sentem emocionalmente seguras e acolhidas apresentam maior motivação e engajamento nas atividades propostas, o que resulta em um processo de aprendizagem mais eficaz. Com a familiarização e adaptação à creche, as crianças chegam a outro patamar, conseguindo se socializar com professores e com as demais crianças e passam a se desenvolver amplamente, tendo uma aprendizagem tranquila e segura em um ambiente que as acolhe.

Um ambiente escolar baseado na afetividade não é vantajoso apenas para as crianças. Quando os professores são capacitados para cultivar essas relações, cria-se um ciclo virtuoso que envolve pais, cuidadores e toda a comunidade escolar. Isso fortalece a comunicação entre todos e contribui para um ambiente mais colaborativo, no qual todos se sentem acolhidos, seguros e parte de um objetivo comum.

A adaptação das crianças à creche é um processo delicado, e o suporte emocional e pedagógico dos educadores faz toda a diferença para que as crianças e suas famílias enfrentem essa transição de maneira mais segura e menos dolorosa possível.

A Criança, a Infância e a Adaptação à Educação Infantil

Ao longo deste trabalho, foi possível traçar uma reflexão sobre a evolução do conceito de infância, que era inexistente em tempos anteriores, pois não se dava atenção à primeira infância como hoje fazemos. Philippe Ariès (1986) aponta que até o final do século XVII há a ausência de um sentimento de infância. As crianças viviam misturadas aos adultos e os ajudavam. A educação delas, no entanto, ficava restrita a essa aprendizagem. Sua passagem pela família e pela sociedade era considerada muito breve e insignificante para que lhe fosse destinado mais tempo e apego. A valorização da infância é algo bem mais recente, construída ao longo dos últimos séculos, graças às transformações sociais que foram ocorrendo.

Junto com o progresso social vieram novas demandas, que exigiam novas alternativas para algumas situações, como as mulheres que abandonavam suas crianças, muitas mulheres entrando no mercado de trabalho e a necessidade de ter quem cuidasse de suas crianças. Estes foram fatores que contribuíram para que as instituições para cuidados com as crianças fossem criadas, e assim começava esse movimento que dura até os dias atuais, de deixar as crianças sob os cuidados de uma instituição enquanto seus pais trabalham. A princípio isso as salvava do abandono da família, mas hoje as resguarda e contribui para sua educação e desenvolvimento. Elas são sujeitos de direitos garantidos pela Constituição Federal e diversas outras leis, haja visto que isso precisou ser imposto dessa forma para assegurar que teriam seu lugar e visibilidade na sociedade.

É claro que houve uma significativa evolução das instituições, antes somente assistencialistas, preocupadas exclusivamente com cuidados mais físicos, até chegar aos modelos educacionais que temos hoje, que se preocupam com o desenvolvimento global da criança. Travassos (2021, p. 33) cita: “percebemos a importância de se cuidar da primeira infância, com cuidados, amor, estímulo e interação para que assim a criança aproveite todo o seu potencial”.

Porém, os desafios que as crianças enfrentam no processo de adaptação à creche são os mesmos e talvez sempre serão, uma vez que a criança que vive com sua família em sua casa, de repente se depara com um ambiente novo e com pessoas estranhas com as quais terá que conviver diariamente. No início isso causa um impacto muito grande e cada criança tem um tempo diferente para se ajustar a essas mudanças. Até mesmo a família precisa se adequar e isso nem sempre é fácil para ambos os lados. “Assim, deverão receber atenção individual quando começam a frequentar a creche e/ou a pré-escola. Também suas famílias precisam, igualmente, receber atenção personalizada para ganhar confiança e familiaridade com a instituição no período de adaptação” (Füllgraf e Wiggers, 2013, p. 100).

As crianças não têm a regulação emocional que nós adultos temos, não sabem falar sobre o que sentem como nós o fazemos e se expressam com choro quando algo nelas se desestabiliza. Ao chegar na creche, esse ambiente estranho, o choro é a primeira reação delas. Muitas se agarram às mães, não querendo soltá-las, e entra em cena então o professor de educação infantil que, com seu jeito cativante e afetuoso, vai conquistando essa criança e, consequentemente, essa família e, com o passar de alguns dias, tudo vai se harmonizando. Pavão (2003, p. 16) diz: “compreender as emoções, que se configuram em uma das manifestações do comportamento humano, constitui um dos grandes objetivos daqueles que trabalham com pessoas, com educação e que vivem numa coletividade”.

Algumas crianças nunca se separaram dos pais em momento anterior, enquanto outras estão acostumadas a dormir e ficar algum tempo em vários outros ambientes além da própria casa. Isso leva algumas a terem maior desprendimento ao verem-se longe dos pais, outras nem tanto. Cada uma é um ser único e apresenta uma reação diferente ao chegar a um ambiente novo. Como dar conta de suas particularidades? Não por mágica o professor conquista seus alunos, mas com afeto, especialmente na educação infantil, pois ali a afetividade é necessária, por meio de toque, afagos, palavras dóceis. Antunes (2012, p. 130) enfatiza: “é importante para a criança o afeto, afago, o abraço e outras ações que possam, em lugar de palavras que ainda não compreendem, caracterizar a linguagem do amor.”

O papel da afetividade nesse contexto é indispensável para que traga segurança às crianças que estão ali fragilizadas, se sentindo inseguras por estarem afastadas das pessoas que conhecem e, por não terem ainda o controle de suas emoções desenvolvido, necessitam de um alicerce. “Henri Wallon destaca que a afetividade é central na construção do conhecimento e da pessoa. O desamparo biológico que caracteriza os dois primeiros anos da vida humana, em razão das precárias condições de maturidade orgânica, determina um longo período de absoluta dependência da criança dos cuidados de um adulto para poder sobreviver. Isso torna a emotividade a força que garante a mobilização do adulto para atender suas necessidades” (Gratiot-Alfandéry, 2010, p. 37).

Essa interação entre as crianças e adultos é muito benéfica a todos, haja visto que a criança pequena é totalmente dependente do adulto e se espelha nele, em suas atitudes. “No âmbito da educação infantil, a inter-relação professor/aluno em geral e com cada um em particular é constante, gerada a todo tempo seja em sala de aula, no pátio ou em passeios, e é em função dessa proximidade afetiva entre eles que se dá a interação com os objetos e a construção de um conhecimento altamente envolvente” (Souza, 2023, p. 296). Por isso o ser afável é importante, não somente na creche, como também é na família, pois ambas devem estar alinhadas para o pleno desenvolvimento da criança. Nesse sentido, uma não tem maior responsabilidade do que a outra, já que ambas devem ser parceiras, aliadas em prol dessa criança.

Metodologia e Resultados

As observações realizadas na creche Sementes do Amanhã em Balneário Camboriú-SC durante a pesquisa, reforçaram a importância da afetividade como um elemento central na adaptação das crianças, validando os estudos teóricos que indicam que o vínculo emocional entre educadores e crianças é determinante para uma transição mais tranquila. O estudo nessa creche se deu no decorrer do ano de 2024, utilizando a abordagem da metodologia qualitativa e pesquisa exploratória com estudo de campo. Segundo Lösch, Rambo e Ferreira (2023, p. 3): “esse tipo de investigação busca respostas para questionamentos e dedica-se a identificar e compreender fatos/acontecimentos da educação que precisam ser explorados”. O objetivo geral da pesquisa foi construir um projeto de capacitação para os professores desta instituição que contribua com o processo de adaptação da criança pequena de maneira afetiva.

Com base nos desafios identificados durante o percurso da pesquisa, a implementação de um curso de capacitação para os professores se mostra como uma iniciativa muito positiva e benéfica a todos os envolvidos. Uma formação contínua focada na afetividade e nos processos de adaptação permitirá que os educadores aprimorem suas práticas e ofereçam um ambiente mais acolhedor para as crianças. Para o professor é um momento desafiador encontrar-se em meio a dezenas de crianças chorando por se separar dos pais e, tanto para a família quanto para a criança, é um momento bastante inseguro, uma vez que lidam com o novo, desconhecido até então, e as emoções transbordam naturalmente.

A teoria orienta a aplicação prática do conhecimento, ajudando a entender por que certas práticas funcionam e fornece um quadro para adaptá-las a diferentes situações. É por isso que estudar e conhecer as teorias para ter um panorama de como agir da forma mais pedagógica possível é o que se espera do professor. Existem situações que podem ser inesperadas, uma vez que trabalhamos com seres humanos e cada um possui suas atitudes e valores, podendo agir de formas que nem imaginamos, porém, mesmo num momento que exija um improviso inesperado, o professor melhor qualificado saberá a decisão mais adequada a tomar para sanar conflitos ou situações fortuitas, sejam elas quais forem. De acordo com Borges e Souza (2002, p. 32), “imaginar que o sucesso de um processo de adaptação se resume a ter ausência de choro é banalizar uma situação que não termina em si mesma”. Não é somente pelo choro que a criança se expressa, mas por toda uma linguagem corporal que possui.

A creche desempenha um papel fundamental no desenvolvimento integral das crianças, indo além de um simples espaço de cuidado. Ela deve ser vista como um ambiente onde as crianças encontram apoio emocional, social e cognitivo. A capacitação dos professores em afetividade é crucial para que esse espaço seja realmente acolhedor e promova o desenvolvimento pleno da criança.

Verificando o perfil dos professores atuantes nessa creche, percebeu-se que são profissionais dedicados, com anos de atuação na profissão e que a maioria trabalha no mesmo local há um certo tempo. Talvez tenham que desenvolver uma proposta pedagógica ou agregar ao Projeto Político Pedagógico da instituição alguma iniciativa voltada a esse processo de adaptação das crianças, algo tão presente no cotidiano, mas, ao mesmo tempo, pouco embasado nos documentos oficiais da instituição.

Apesar disso, percebeu-se que todos os professores se empenham para que o processo de adaptação das crianças à creche se dê da forma mais tranquila e branda quanto seja possível. A observação em campo permitiu perceber que cada professor age da sua maneira, encarando a afetividade de formas diferentes, porém todas positivas e, por fazerem parte do todo, eles se complementam. As maneiras sutis que os profissionais encontram para amenizar o doloroso processo pelo qual a criança está passando e envolvê-la naquele momento, ajuda a deixar um pouco de lado a dor de ter se separado da família.

Esse processo também exige do professor mais paciência e competências mais dinâmicas para utilizar uma gama de estratégias que sejam efetivas, muitas vezes tendo que alternar de uma para outra muito depressa, dependendo de como a criança evolui no seu processo de adaptação. Cada criança é única em seu processo, com diferentes necessidades emocionais e tempos de resposta ao novo ambiente. “Por isso, o acolhimento é tão potente na construção dessa relação. Por meio dele, comunicamos à nossa criança que ela tem o apego garantido seja qual for o sentimento que ela precise expressar.” (Eigenmann, M. 2022, p. 126)

A investigação de toda essa pesquisa e sua posterior análise propuseram uma influência de melhorias de programas ou projetos adaptados à instituição a respeito da adaptação das crianças de maneira afetiva. Esse projeto de capacitação foi pensado para proporcionar aos professores não só o conhecimento teórico, mas também ferramentas práticas que possam ser aplicadas no cotidiano escolar. Um cuidadoso levantamento de informações foi realizado ali para identificar quais são as principais dificuldades encontradas pelos professores durante o processo de adaptação das crianças, feito por meio de conversas com tais especialistas, questionários respondidos por eles, observações em campo para coleta de informações e uma escuta atenta aos anseios do grupo para entender quais seriam as melhores abordagens. A troca de experiências entre os educadores também enriquece todo esse processo, pois uma ideia nova de algum deles pode agregar à prática de outro, e é importante haver esse momento de escuta e compartilhamento também.

Espera-se que, com a capacitação adequada, os professores possam se tornar mais sensíveis às necessidades emocionais das crianças durante o processo de adaptação, promovendo uma experiência mais positiva. Além disso, sugere-se que futuras pesquisas explorem a eficácia dessas capacitações, acompanhando seus impactos a médio e longo prazo. Conclui-se, assim, que a atenção à afetividade e ao processo de adaptação das crianças à creche não é apenas uma questão pedagógica, mas um aspecto central no desenvolvimento saudável e feliz da infância.

Referências

ANTUNES, C. Educação Infantil: prioridade imprescindível. Vozes. 2012.

ARIÈS, P. História social da criança e da família. Guanabara. 1986.

BORGES, M. F. S. T. SOUZA, R. C. de (org.). A práxis na formação de educadores de educação infantil. Rio de Janeiro: DP & A. 2002.

EIGENMANN, M. A raiva não educa: a calma educa. Astral Cultural. 2022.

GRATIOT-ALFANDÉRY, H. Henri Wallon. Massangana. 2010.

LÖSCH, S., RAMBO, C. A., FERREIRA, J. de L. A pesquisa exploratória na abordagem qualitativa em educação. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 18, n. 00, 2023. e023141. e-ISSN: 1982-5587. DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v18i00.17958

PAVÃO, S. M. O. Competência Emocional: Um enfoque reflexivo para a prática pedagógica. 2003. Disponível em:

https://www.tdx.cat/bitstream/handle/10803/5022/smop1de1.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

TRAVASSOS, L. M. M. Olhares para o processo de adaptação na Educação Infantil. RJ. 2021. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/17276/1/LTravassos.pdf.

FÜLLGRAF, J. WIGGERS, V. Educação Infantil: projetos e práticas pedagógicas. Liber Livro. 2013.

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