RESUMO:
Os cuidados paliativos constituem uma abordagem assistencial voltada à promoção da qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças ameaçadoras da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento. Este estudo teve como objetivo compreender as percepções e experiências dos profissionais da Rede Pública de Saúde de Porto Nacional – TO em relação à prática dos cuidados paliativos. Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa, realizada com 26 profissionais de saúde atuantes em diferentes serviços da rede pública municipal. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário estruturado, e os dados foram analisados por estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas. Os resultados evidenciaram predominância de profissionais do sexo feminino, com maior tempo de atuação na área da saúde e vinculados principalmente ao ambiente hospitalar. Observou-se que a maioria dos participantes não possuía capacitação específica em cuidados paliativos e classificou seu conhecimento sobre a temática como básico. Embora os profissionais reconheçam a importância dessa abordagem e relatem vivências compatíveis com seus princípios, foram identificadas dificuldades relacionadas à ausência de protocolos institucionais, insuficiência de equipes multiprofissionais e carência de capacitação continuada. Conclui-se que o fortalecimento da educação permanente e da organização dos serviços é fundamental para a consolidação dos cuidados paliativos na rede pública de saúde.
PALAVRAS-CHAVE: Cuidados Paliativos, Educação Permanente, Profissionais da Saúde.
ABSTRACT:
Specific palliative care is a care approach focused on promoting the quality of life of patients and families facing life-threatening illnesses, through the prevention and relief of suffering. This study aimed to understand the perceptions and experiences of professionals in the Public Health Network of Porto Nacional – TO regarding the practice of palliative care. This is an exploratory and descriptive study, with a quantitative approach, conducted with 26 health professionals working in different services of the municipal public network. Data collection occurred through a structured survey, and the data were analyzed using descriptive statistics, employing absolute and relative frequencies. The results showed a predominance of female professionals, with longer experience in the health field and mainly linked to the hospital environment. It should be noted that most participants did not have specific training in palliative care and classified their knowledge on the subject as basic. Although professionals recognize the importance of this approach and relate experiences compatible with its principles, difficulties were identified related to the absence of institutional protocols, insufficient multidisciplinary teams, and a lack of continuing education. It is concluded that strengthening continuing education and the organization of services is fundamental for the consolidation of palliative care in the public health system.
KEYWORDS: Palliative Care, Continuing Education, Healthcare Professionals.
1 INTRODUÇÃO
Em princípio, de acordo com Santana e De Oliveira (2025), aproximadamente 625 mil brasileiros necessitam de cuidados paliativos, entretanto, até 2022 existiam apenas 234 serviços especializados no país, dos quais 41,8% estavam concentrados na região Sudeste. Por conseguinte, esse cenário evidencia um descompasso entre a crescente demanda assistencial e a capacidade de oferta dos serviços, realidade que tende a se intensificar em decorrência do envelhecimento populacional e do aumento da prevalência de doenças crônicas e condições ameaçadoras da vida.
Sob tal óptica, os cuidados paliativos constituem uma abordagem voltada à prevenção e ao alívio do sofrimento, buscando promover qualidade de vida a pacientes e familiares diante de condições clínicas que comprometem a continuidade da vida. Contudo, De Almeida Medeiros et al. (2024) observam que essa assistência ainda permanece fortemente associada ao contexto oncológico e à terminalidade, o que restringe sua inserção precoce e limita seu potencial de atuação nos diferentes níveis de atenção à saúde. Desse modo, tal compreensão contrasta com a proposta contemporânea dos cuidados paliativos, que preconiza sua integração desde o diagnóstico de doenças crônicas progressivas.
Somando-se a isso, na tentativa de ampliar o acesso a essa assistência, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos, considerada por Santana e De Oliveira (2025) um marco para a organização do cuidado no Sistema Único de Saúde. Apesar desse avanço, Garcia e Isidoro (2024) ressaltam que a efetivação da política depende de investimentos em infraestrutura, qualificação profissional e fortalecimento das redes assistenciais, aspectos que ainda representam desafios para a consolidação dos cuidados paliativos no contexto brasileiro.
As dificuldades relacionadas à formação dos profissionais também constituem um dos principais entraves para a expansão dessa abordagem. Vianna et al. (2026) destacam que a incorporação formal dos cuidados paliativos nas Diretrizes Curriculares Nacionais ocorreu apenas recentemente, enquanto Magalhães et al. (2024) identificaram que competências relacionadas à comunicação, terminalidade e suporte emocional frequentemente são desenvolvidas durante a prática profissional. De forma semelhante, Alves e Oliveira (2022) relatam que muitos trabalhadores da saúde reconhecem a importância dos cuidados paliativos, mas referem preparo insuficiente para atuar diante das demandas impostas por esse tipo de assistência.
Além das lacunas formativas, a literatura descreve desafios relacionados à organização dos serviços e às condições de trabalho das equipes de saúde. Silva et al. (2022) apontam dificuldades envolvendo a operacionalização do trabalho multiprofissional, limitações na comunicação e fragilidades na rede assistencial, enquanto Cetolin et al. (2025) destacam a ausência de protocolos institucionais e o impacto emocional vivenciado pelos profissionais diante de situações de sofrimento, finitude e morte. Esses aspectos reforçam a necessidade de compreender como os cuidados paliativos são percebidos e experienciados pelos trabalhadores inseridos nos serviços públicos de saúde.
Considerando os desafios relacionados à formação profissional, à organização dos serviços e à implementação dos cuidados paliativos no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), torna-se relevante investigar como essa abordagem é compreendida e vivenciada pelos profissionais responsáveis por sua operacionalização. Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo compreender as percepções e experiências dos profissionais da Rede Pública de Saúde do município de Porto Nacional – TO em relação à prática dos cuidados paliativos.
2 REVISÃO DA LITERATURA
Os cuidados paliativos constituem uma abordagem assistencial voltada à promoção da qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças ameaçadoras da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento físico, psicológico, social e espiritual. Segundo Alves e Oliveira (2022), essa modalidade de cuidado busca oferecer assistência integral e humanizada, priorizando o conforto e a dignidade da pessoa adoecida. Nas últimas décadas, o tema ganhou relevância em razão do envelhecimento populacional, do aumento das doenças crônicas não transmissíveis e da crescente necessidade de reorganização dos serviços de saúde para atender demandas relacionadas à terminalidade da vida (SANTANA; OLIVEIRA, 2025).
A Organização Mundial da Saúde reconhece os cuidados paliativos como componente essencial dos sistemas de saúde e defende sua oferta em todos os níveis de atenção. De acordo com Pozzada, Santos e Santos (2022), essa abordagem ultrapassa o controle de sintomas, abrangendo o cuidado integral ao paciente e à família. Entretanto, apesar dos avanços observados internacionalmente, ainda persistem desafios relacionados à capacitação profissional, à organização dos serviços e à implementação efetiva dessa assistência (GUERRA et al., 2024; CETOLIN et al., 2025).
No Brasil, o desenvolvimento dos cuidados paliativos ocorreu de forma gradual, acompanhando as transformações epidemiológicas e demográficas observadas nas últimas décadas. Garcia e Isidoro (2024) destacam que a recente instituição da Política Nacional de Cuidados Paliativos representa um marco importante para a consolidação dessa assistência no Sistema Único de Saúde. Apesar disso, Santana e Oliveira (2025) ressaltam que a oferta de serviços ainda permanece insuficiente diante da demanda crescente, especialmente nos níveis primários de atenção. Nesse contexto, a integração dos cuidados paliativos à Rede Pública de Saúde mostra-se fundamental para garantir assistência humanizada, contínua e centrada nas necessidades dos pacientes e familiares.
Diversos estudos evidenciam que o conhecimento dos profissionais de saúde acerca dos cuidados paliativos ainda é heterogêneo. Alves e Oliveira (2022) observaram que muitos profissionais associam essa prática exclusivamente ao período final de vida, desconsiderando sua aplicabilidade desde o diagnóstico de doenças crônicas progressivas e potencialmente ameaçadoras à vida. Essa compreensão limitada pode atrasar a identificação das necessidades dos pacientes e comprometer a adoção de estratégias voltadas à promoção da qualidade de vida (CETOLIN et al., 2025).
A formação profissional é apontada como um dos principais desafios para a expansão e qualificação dos cuidados paliativos. Segundo Vianna et al. (2026), a inclusão formal desse conteúdo nas Diretrizes Curriculares Nacionais representa um avanço importante, porém ainda insuficiente para suprir as demandas da prática assistencial. Alves e Oliveira (2022) acrescentam que a formação acadêmica frequentemente privilegia o modelo biomédico voltado para a cura, deixando lacunas importantes relacionadas ao manejo da terminalidade, da comunicação de más notícias e do suporte emocional aos pacientes e familiares.
Outro aspecto amplamente discutido na literatura refere-se à comunicação em saúde. Para Silva et al. (2022), a comunicação eficaz constitui um dos pilares dos cuidados paliativos, pois favorece o fortalecimento do vínculo terapêutico, o compartilhamento de decisões e o respeito à autonomia dos pacientes. No entanto, Guerra et al. (2024) identificaram que muitos profissionais relatam insegurança e dificuldades na abordagem de temas sensíveis, como prognóstico, sofrimento e finitude da vida.
Além das limitações formativas, fatores organizacionais também interferem na implementação dos cuidados paliativos. Estudos demonstram que a ausência de protocolos assistenciais, a fragilidade das redes de apoio e a insuficiência de equipes multiprofissionais capacitadas dificultam a continuidade e a integralidade do cuidado (SILVA et al., 2022; CETOLIN et al., 2025). Nesse cenário, a educação permanente em saúde surge como estratégia fundamental para o desenvolvimento de competências profissionais e para o fortalecimento das práticas assistenciais voltadas à paliação.
A atuação multiprofissional é considerada elemento indispensável para a efetividade dos cuidados paliativos. Segundo Silva et al. (2022), médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e demais profissionais devem atuar de forma integrada para contemplar as múltiplas necessidades dos pacientes e familiares. De maneira semelhante, Pozzada, Santos e Santos (2022) enfatizam que o trabalho interdisciplinar contribui para uma assistência mais humanizada, favorecendo não apenas o controle dos sintomas, mas também o acolhimento emocional e social durante o processo de adoecimento e finitude.
Diante desse cenário, torna-se relevante investigar as percepções e experiências dos profissionais da Rede Pública de Saúde sobre os cuidados paliativos. Compreender as dificuldades enfrentadas, os conhecimentos adquiridos e as necessidades de capacitação poderá subsidiar ações de educação permanente, fortalecimento institucional e aprimoramento das políticas públicas voltadas à assistência paliativa. Além disso, os resultados poderão contribuir para ampliar o acesso da população aos cuidados paliativos e fortalecer a implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos no âmbito do Sistema Único de Saúde (GARCIA; ISIDORO, 2024; VIANNA et al., 2026).
Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, de abordagem quantitativa, desenvolvida com profissionais da Rede Pública de Saúde (RPS) do município de Porto Nacional, Tocantins. Esse delineamento foi adotado por possibilitar a caracterização das percepções, conhecimentos e experiências dos participantes em relação aos cuidados paliativos, por meio da análise de dados obtidos em campo.
O estudo foi realizado em unidades pertencentes à Rede Pública de Saúde do município de Porto Nacional – TO. Participaram da pesquisa profissionais atuantes nos diferentes serviços da rede, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros trabalhadores da área da saúde. A amostra foi definida por conveniência, de forma não probabilística, considerando a disponibilidade e o interesse dos profissionais em participar do estudo.
Foram incluídos profissionais em exercício na Rede Pública de Saúde de Porto Nacional – TO, que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos profissionais que se encontravam afastados de suas atividades laborais por motivo de férias, licença ou qualquer outro impedimento durante o período de coleta de dados, bem como aqueles que não concordaram em participar da pesquisa.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado pelos pesquisadores com base na literatura científica sobre cuidados paliativos e submetido à apreciação de profissionais da área para adequação do conteúdo. O instrumento foi composto por questões objetivas de múltipla escolha, organizadas em quatro eixos temáticos: perfil sociodemográfico e profissional, conhecimento sobre cuidados paliativos, experiências relacionadas à prática assistencial e percepções sobre dificuldades e necessidades de capacitação. A aplicação ocorreu presencialmente nas unidades de saúde, utilizando formulário digital disponibilizado por meio da plataforma Google Forms®, conforme a disponibilidade dos participantes.
As variáveis investigadas contemplaram características sociodemográficas e profissionais, como idade, sexo, categoria profissional, tempo de atuação e local de trabalho, além de aspectos relacionados à formação, conhecimento, experiência prática e percepção de preparo para atuação em cuidados paliativos. Os dados coletados foram organizados em planilhas do Microsoft Excel 2019® e submetidos à análise estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas. Os resultados foram apresentados por meio de tabelas e gráficos, permitindo a visualização e interpretação dos dados obtidos.
A pesquisa foi conduzida em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa sob parecer nº 8.363.124 e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 96149025.0.0000.8075, garantindo-se aos participantes o anonimato, a confidencialidade das informações e a participação voluntária durante todas as etapas da pesquisa.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Perfil sociodemográfico e profissional da amostra
Participaram deste estudo 26 profissionais atuantes na Rede Pública de Saúde (RPS) do município de Porto Nacional - Tocantins. A caracterização sociodemográfica e profissional da amostra está detalhada na Tabela 1.
Tabela 1 – Perfil sociodemográfico e profissional dos participantes da pesquisa (N=26)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
A composição da amostra revelou predominância do sexo feminino, maior concentração de profissionais entre 36 e 45 anos e participação expressiva de médicos e enfermeiros. Também se identificou maior frequência de profissionais com mais de 10 anos de atuação na saúde e vinculados, principalmente, ao ambiente hospitalar.
A predominância feminina observada neste estudo acompanha a configuração frequentemente encontrada nos serviços de saúde brasileiros, especialmente em profissões relacionadas ao cuidado contínuo e à assistência direta ao paciente. Castro (2023) destaca que as mulheres representam a maioria dos profissionais da área da saúde, fenômeno relacionado ao processo de feminização das profissões, sobretudo em áreas historicamente associadas ao cuidado.
Esse perfil profissional também permite compreender parte das experiências relatadas ao longo da pesquisa. A presença significativa de trabalhadores com maior tempo de atuação sugere contato prévio com situações de terminalidade e acompanhamento de pacientes em adoecimento avançado. Contudo, Vianna et al. (2025) destacam que experiência assistencial prolongada não garante, necessariamente, preparo específico para atuação paliativista, sobretudo diante das lacunas ainda existentes na formação profissional sobre a temática.
Além disso, a predominância de participantes vinculados ao Hospital Regional de Porto Nacional indica que a vivência dos cuidados paliativos permanece fortemente associada ao contexto hospitalar. Desse modo, esta característica aproxima-se das discussões apresentadas por Santana e Oliveira (2026), que relacionam a assistência paliativista brasileira à permanência de um modelo hospitalocêntrico, no qual o cuidado ainda é frequentemente direcionado às situações de agravamento clínico e terminalidade, em detrimento da inserção precoce dos cuidados paliativos nos demais níveis de atenção à saúde.
4.2 Formação, conhecimento teórico e percepção de importância
Considerando o perfil profissional identificado, investigou-se o nível de formação e conhecimento dos participantes acerca dos cuidados paliativos. Verificou-se que a maior parte dos profissionais não possuía treinamento ou capacitação específica na área, conforme apresentado no Gráfico 1.
Gráfico 1 – Formação em cuidados paliativos entre os profissionais participantes (N=26)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
A baixa proporção de profissionais capacitados sugere que os cuidados paliativos ainda ocupam espaço limitado nos processos de formação e educação permanente em saúde. Santana e De Oliveira (2026) relacionam essa realidade à inserção insuficiente da temática paliativista nos currículos da área da saúde e à dificuldade de consolidação de estratégias institucionais voltadas à qualificação profissional. Nesse contexto, muitos trabalhadores desenvolvem conhecimentos sobre terminalidade e manejo paliativo principalmente a partir da prática cotidiana, sem preparo técnico estruturado.
Essa limitação também se refletiu na autoavaliação do conhecimento dos participantes. Predominou a classificação do conhecimento como “Básico”, sem registros de domínio considerado “Avançado”, conforme demonstrado na Figura 1b.
Figura 1b – Autoavaliação do nível de conhecimento sobre cuidados paliativos (N=26)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
A percepção de conhecimento predominantemente básico aproxima-se das discussões apresentadas por Dos Santos (2025), ao destacar que muitas capacitações em cuidados paliativos permanecem excessivamente conceituais e pouco integradas às demandas reais dos serviços de saúde. De maneira semelhante, Magalhães et al. (2024) observam que competências relacionadas à comunicação, terminalidade e suporte emocional costumam ser desenvolvidas durante a vivência profissional, e não de forma sistematizada na formação acadêmica.
Adicionalmente, mais da metade dos participantes relatou conhecer apenas superficialmente os protocolos e diretrizes do Ministério da Saúde relacionados aos cuidados paliativos. De Almeida Medeiros et al. (2024) associam essa limitação à dificuldade de operacionalização das políticas públicas voltadas à assistência paliativista, especialmente em serviços que ainda apresentam fragilidades organizacionais e ausência de educação permanente.
Apesar dessas limitações, os participantes atribuíram elevada importância aos cuidados paliativos no contexto da assistência em saúde. Esse contraste revela que, embora exista reconhecimento da relevância da abordagem paliativista, persistem lacunas relacionadas ao preparo técnico e à instrumentalização prática para sua implementação qualificada. Nesse sentido, Vianna et al. (2025) ressaltam que a consolidação dos cuidados paliativos depende não apenas da sensibilização dos profissionais, mas também do fortalecimento da formação específica e da integração da temática aos diferentes níveis de atenção à saúde.
4.3 Vivência prática e sentimento de preparo
Após a análise do conhecimento teórico dos participantes, buscou-se compreender como esses profissionais experienciam os cuidados paliativos na prática assistencial cotidiana. A maior parte dos participantes afirmou que os cuidados paliativos devem ser iniciados desde o diagnóstico de doenças crônicas graves, demonstrando compreensão alinhada à perspectiva contemporânea da assistência paliativista. Ainda assim, parte dos profissionais associou essa abordagem exclusivamente à impossibilidade terapêutica ou ao fim da vida, indicando permanência de concepções centradas na terminalidade e no modelo curativista tradicional, aspecto também discutido por Vianna et al. (2025).
No cotidiano assistencial, destacaram-se ações relacionadas ao apoio emocional ao paciente e à família, controle da dor e sintomas, cuidados no fim da vida, encaminhamento multiprofissional e comunicação sobre prognóstico, conforme apresentado no Gráfico 2.
Gráfico 2 – Prevalência das ações de cuidados paliativos realizadas pelos profissionais na rotina de trabalho (N=2)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
Nota: A soma dos valores percentuais ultrapassa 100%, visto que a referida questão permitia múltiplas respostas, refletindo a concomitância de ações realizadas por um mesmo profissional
A recorrência dessas práticas demonstra que os participantes já incorporam elementos fundamentais dos cuidados paliativos à rotina assistencial, sobretudo no manejo do sofrimento físico e emocional. Guerra et al. (2024) destacam que o cuidado paliativista exige atuação voltada não apenas ao controle clínico, mas também à comunicação qualificada, acolhimento e redução do sofrimento psicossocial. Essa perspectiva também aparece em Cetolin et al. (2025), ao relacionarem o acompanhamento de pacientes em terminalidade à necessidade de preparo emocional das equipes de saúde diante de situações de sofrimento, luto e finitude.
Entretanto, embora os profissionais relatam participação frequente em ações paliativistas, predominou a percepção de preparo apenas intermediário para atuação nessa área. Esse cenário sugere distanciamento entre experiência prática e segurança técnico-profissional, indicando que a vivência cotidiana nem sempre é acompanhada de formação específica ou suporte institucional adequado. Silva et al. (2022) descrevem realidade semelhante ao identificarem que muitos profissionais atuam em cuidados paliativos sem qualificação sistematizada, condição frequentemente associada à insegurança, desgaste emocional e dificuldades na condução da terminalidade. De maneira complementar, Pozzada, Santos e Santos (2022) ressaltam que a ausência de apoio técnico e emocional tende a intensificar sentimentos de impotência frente às demandas do cuidado paliativo.
4.4 Barreiras enfrentadas e perspectivas de melhoria
A partir das experiências práticas e da percepção de preparo relatadas pelos participantes, tornou-se necessário identificar os principais fatores que dificultam a implementação dos cuidados paliativos nos serviços de saúde. Entre as barreiras mais mencionadas destacam-se a ausência de protocolos institucionais, a falta de capacitação específica e a insuficiência de equipe multiprofissional, conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2 – Principais barreiras encontradas pelos profissionais na aplicação dos cuidados paliativos (N=26)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
Nota: A soma dos valores percentuais ultrapassa 100%, pois os participantes puderam assinalar até duas opções.
A frequência dessas barreiras indica que as dificuldades relacionadas aos cuidados paliativos não se restringem apenas ao preparo individual dos profissionais, envolvendo também limitações estruturais presentes nos próprios serviços de saúde. Silva et al. (2022) relacionam a fragilidade da assistência paliativista à deficiência na formação técnica, ausência de protocolos padronizados e dificuldades de integração multiprofissional. De maneira semelhante, Garcia e Isidoro (2024) destacam que a falta de diretrizes institucionais compromete a continuidade do cuidado e dificulta a consolidação dos cuidados paliativos como prática integrada ao SUS.
Além das limitações organizacionais, a sobrecarga de trabalho apareceu como fator relevante entre os participantes. Alves e Oliveira (2022) associam esse cenário ao acúmulo de demandas assistenciais e à insuficiência de recursos humanos, condições que podem comprometer tanto a qualidade da assistência quanto o acompanhamento integral de pacientes em cuidados paliativos.
Ao serem questionados sobre aspectos considerados importantes para aprimoramento da prática profissional, os participantes destacaram principalmente apoio psicológico, fortalecimento da atuação multiprofissional e qualificação no manejo da dor e sintomas. Essa percepção reforça que a assistência paliativista exige não apenas competências clínicas, mas também suporte emocional aos profissionais envolvidos no cuidado. Cetolin et al. (2025) observam que a convivência frequente com sofrimento, terminalidade e morte tende a gerar desgaste emocional significativo, especialmente em contextos marcados por pouca capacitação e apoio institucional limitado.
Em relação às estratégias para melhoria da assistência, a capacitação contínua foi apontada como principal necessidade pelos participantes, seguida pela ampliação das equipes multiprofissionais.
Gráfico 3 – Principais necessidades apontadas para melhoria dos cuidados paliativos nas unidades de saúde (N=26)
Fonte: Dados da pesquisa, 2026.
Esse cenário reforça a importância da educação permanente como ferramenta para fortalecimento dos cuidados paliativos nos serviços públicos de saúde. De Almeida Júnior et al. (2024) defendem que a qualificação contínua das equipes favorece maior segurança profissional, padronização das condutas e ampliação da assistência integral ao paciente e à família.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo possibilitou compreender as percepções e experiências de profissionais da Rede Pública de Saúde de Porto Nacional – TO acerca dos cuidados paliativos. Os resultados evidenciaram que, embora os participantes reconheçam amplamente a importância dessa abordagem e já desenvolvam práticas compatíveis com os princípios paliativistas, persistem fragilidades relacionadas à formação específica, ao domínio teórico e à segurança profissional para atuação nessas situações. Além disso, observou-se que muitos profissionais ainda associam os cuidados paliativos predominantemente ao contexto hospitalar e à terminalidade, refletindo características do modelo assistencial historicamente centrado no cuidado curativista.
As dificuldades relatadas pelos participantes demonstraram que os desafios relacionados aos cuidados paliativos ultrapassam o preparo individual dos profissionais, envolvendo também limitações estruturais dos serviços de saúde, como ausência de protocolos institucionais, insuficiência de equipes multiprofissionais e carência de capacitação continuada. Somado a isso, aspectos relacionados ao desgaste emocional e à necessidade de suporte psicológico reforçam a complexidade da assistência paliativista e a importância de estratégias institucionais voltadas ao fortalecimento das equipes de saúde.
Dessa forma, conclui-se que a consolidação dos cuidados paliativos na Rede Pública de Saúde de Porto Nacional – TO depende do fortalecimento da educação permanente, da ampliação da atuação multiprofissional e da integração dessa abordagem nos diferentes níveis de atenção à saúde. Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para o desenvolvimento de estratégias de qualificação profissional e para o fortalecimento de práticas assistenciais mais humanizadas, integrais e centradas na dignidade do paciente e de sua família.
REFERÊNCIAS
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Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-2419-0969 ↑
Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-1041-1714 ↑
Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-9702-0356 ↑
Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7434-6444 ↑
Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6608-9998 ↑
Afya Porto Nacional – Porto Nacional – Tocantins – Brasil. ↑

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