RESUMO:
Este estudo qualitativo e de natureza aplicada analisa a composição etária do plantel do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) da Polícia Militar do Paraná e os impactos da inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 – GMS na reposição de cães operacionais. A pesquisa combina análise documental e levantamento de dados institucionais fornecidos pela Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), incluindo informações sobre idade dos cães, projeções de aposentadoria e reposição do efetivo. Complementarmente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com policiais envolvidos na seleção, formação, treinamento e certificação dos cães. Os dados foram analisados por análise de conteúdo, permitindo identificar categorias temáticas sobre limitações da aquisição externa, capacidade de produção própria e estratégias para sustentabilidade do SMC. Os resultados indicam que a produção interna, aliada à aquisição externa, constitui estratégia mista eficiente para garantir a previsibilidade, uniformidade metodológica e manutenção da capacidade operacional do plantel de cães.
Palavras-Chave: cães policiais; formação; compra; criação.
ABSTRACT:
This qualitative, applied study analyzes the age composition of the canine unit of the Paraná Military Police Maintenance System (SMC) and the impacts of the partial non-execution of Contract No. 3555/2025 – GMS on the replacement of operational dogs. The research combines document analysis and an institutional data survey provided by the Independent Canine Operations Company (CIOC), including information on dog ages, retirement projections, and unit replenishment. Additionally, semi-structured interviews with police officers involved in the selection, training, and certification of the dogs were conducted. Data were analyzed using content analysis, allowing the identification of thematic categories regarding limitations of external acquisition, internal production capacity, and strategies for SMC sustainability. Results indicate that internal production, combined with external acquisition, constitutes an effective mixed strategy to ensure predictability, methodological uniformity, and maintenance of the operational capacity of the canine unit.
Keyword: police dogs; training; acquisition; breeding.
1 INTRODUÇÃO
O cão é o mamífero que foi domesticado há mais tempo pelos seres humanos, há evidências de que essa relação surgiu há mais de 100 mil anos. Com o tempo, indivíduos foram sendo selecionados artificialmente pelos seres humanos, optando-se por características físicas, comportamentais e aptidões mais desejadas. Apesar da domesticação, as habilidades sensoriais dos cães foram mantidas e são utilizadas de modo a auxiliar no cumprimento de diversas tarefas dos seres humanos (CALDEIRA, 2018). Na Polícia Militar do Paraná (PMPR), a utilização de cães para o serviço policial iniciou na década de 70 e tem sido aprimorada até os dias atuais. No ano de 1977, através do Decreto Estadual nº 3.373, com regulamentação na Portaria do Comando-Geral nº 903/77, foi criado o Regulamento do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) (ZANCAN, 2018). No início, a principal atividade desenvolvida era a de guarda e proteção, com o passar do tempo o foco passou quase que inteiramente para a utilização das valências olfativas dos cães, sendo que atualmente cerca de 90% do Plantel do SMC atua na detecção de entorpecentes e armas de fogo (HOISER; LOMBA, 2026).
A Portaria do Comando Geral nº 903/1977, sofreu algumas atualizações e hoje o Sistema de Manutenção de Cães é regido pela Portaria nº 751/2015 (PARANÁ, 2015). A portaria estabelece que a coordenação do SMC será de responsabilidade do comandante da Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), Unidade especializada subordinada ao Comando de Missões Especiais da PMPR. A CIOC passou a exercer o papel de difusora da doutrina de emprego dos cães subordinados ao SMC, cabendo ao coordenador do sistema o estabelecimento de normas e quesitos para a certificação dos cães da PMPR.
Hoje, o SMC é formado pela CIOC, por vinte e oito canis setoriais subordinados a Unidades de área e especializadas e quatro binômios destacados em operação através do Projeto K9. No ano de 2025, o SMC teve impacto direto na apreensão de mais de 143 toneladas de entorpecentes, totalizando um prejuízo estimado ao Crime Organizado de cerca dos R$ 522.000.000,00 (quinhentos e vinte e dois milhões de reais), revertendo cerca de R$ 20,00 (vinte reais) em apreensões para cada real investido no Sistema (HOISER; LOMBA, 2026).
O serviço com cães traz por si só a necessidade constante de planejamento para renovação do plantel, seja pelo envelhecimento natural do semovente, seja por baixas inesperadas, naturais quando se lida com qualquer ser vivo. A Portaria nº 751 prevê que os cães do Sistema de Manutenção de Cães podem ser aposentados mediante duas possibilidades: ao atingir seis anos de efetivo serviço na Corporação, ou oito anos de idade (PARANÁ, 2015). Em 2021, a cadete 3º PM Amanda Marques Alves realizou um estudo para estimar o custo total de um cão formado pela então Companhia de Operações com Cães, desde o seu nascimento até a finalização do treinamento aos dezoito meses, chegando ao valor de R$ 57.935,64 (cinquenta e sete mil, novecentos e trinta e cinco reais e sessenta e quatro centavos) (ALVES, 2021). Tal estudo foi utilizado como referência para subsidiar processos de compra de cães no Estado.
Tendo em vista a constante necessidade de reposição dos plantéis de cães de serviço das forças de segurança, ora por envelhecimento dos cães, ora por baixas precoces, o Estado do Paraná realizou o Pregão Eletrônico nº 038/2025 que visava a compra de semoventes caninos para emprego em diversas funções na segurança pública (PARANÁ, 2025). A fim de garantir a viabilidade técnica e econômica do processo licitatório, os 93 cães que se pretendia a compra foram divididos em 11 lotes específicos, com valores máximos e quantidades distintas. Nota-se a preocupação dos elaboradores do edital quanto à improvável capacidade técnica de apenas um fornecedor para o fornecimento de boa parte desses cães. Nesse sentido, é possível observar que dos 11 lotes totais, 4 visavam a compra de cães de faro de entorpecentes, totalizando 62 cães.
O referido pregão eletrônico resultou na contratação da empresa Cão Estável Ltda., que venceu todos os lotes de cães de faro de entorpecentes, através do contrato nº 3555/2025 - GMS e nº 0340/2025 (PARANÁ, 2025). Visando a recomposição do efetivo canino, a substituição de cães com previsão de aposentadoria, bem como a expansão da atuação das operações com cães através do Projeto K9 no ano de 2026, a PMPR estabeleceu para o referido contrato a compra de 19 cães de faro de entorpecentes para a PMPR. O contrato previa um prazo de 180 dias para a apresentação dos cães, os quais deveriam ser testados na data da apresentação e, em caso de aprovação nos primeiros testes, permaneceriam provisoriamente com a corporação. Após um prazo máximo de 60 dias, caso fosse aceito, o cão passaria a integrar o plantel da PMPR (PARANÁ, 2025).
Nas datas das apresentações, foram realizados testes no intuito de avaliar se os cães estariam aptos ou não para o serviço policial. De início, os cães foram levados a ambientes em que a Polícia Militar atua constantemente, sendo montadas pistas com entorpecentes escondidos. Caso o cão obtivesse êxito em encontrar o entorpecente, seriam testadas suas capacidades de ambientação e socialização, bem como a busca por entorpecentes em ambientes com mais distúrbios que pudessem distrair o cão. Caso demonstrasse estar apto nesses testes, o semovente passava a integrar provisoriamente o plantel da CIOC, sendo testado diariamente pela equipe de treino nos mais diversos ambientes pelo prazo de 60 dias.
Foram apresentados mais de 50 cães pela empresa, no entanto, a maioria não atingiu os critérios mínimos estabelecidos nos testes iniciais de detecção em ambiente controlado. Alguns demonstraram extrema reatividade com outros cães e outros foram incapazes de encontrar o odor alvo em locais com maiores distrações. De todos os cães apresentados, sete permaneceram para testes e três foram efetivamente comprados. Assim, a previsão de ampliação das atividades do SMC, com a ativação de oito binômios do Projeto K9 no ano de 2026, foi apenas parcialmente cumprida, tendo em vista que os três cães comprados estão sendo aplicados no projeto. Após a perda do prazo de entrega, considerando a inexecução de grande parte do contrato, a administração pública optou pela rescisão do referido contrato.
A partir de dados fornecidos pela Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), Unidade cujo comandante é o responsável pela coordenação do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) da Polícia Militar do Paraná (PARANÁ, 2025), foi realizada uma análise do perfil etário dos cães empregados na modalidade de faro de entorpecentes. O levantamento identificou um contingente de 106 cães, dos quais 90 encontram-se em atividade operacional e 16 em processo de formação. Os resultados demonstraram um cenário que demanda atenção quanto à renovação do plantel do SMC, uma vez que parcela significativa dos animais se encontra em faixas etárias próximas ao limite de vida útil operacional. Considerando a idade de 8 anos como referência para aposentadoria, verificou-se que 27 cães operacionais atingirão essa condição no prazo aproximado de um ano, o que representa cerca de 30% do efetivo operacional atualmente disponível. Em uma projeção de médio prazo, constatou-se que 41 cães alcançarão a idade de aposentadoria nos próximos três anos, correspondendo a aproximadamente 45,6% dos cães operacionais empregados na atividade de faro de entorpecentes. Tais números evidenciam a necessidade de planejamento contínuo para a reposição dos cães de serviço, de modo a preservar a capacidade operacional do Sistema de Manutenção de Cães.
A dependência exclusiva da aquisição de cães provenientes de fornecedores externos pode gerar vulnerabilidades decorrentes de atrasos contratuais, indisponibilidade de animais aptos ou limitações de mercado, comprometendo a manutenção dos níveis operacionais exigidos pelas atividades de policiamento com cães.
Nesse contexto, o presente estudo tem por objetivo analisar a produção própria de cães desenvolvida pela Companhia Independente de Operações com Cães como alternativa estratégica para a renovação do plantel de semoventes caninos da Polícia Militar do Paraná. Busca-se analisar em que medida a criação, seleção, socialização e formação de cães conduzidas pela própria instituição podem contribuir para a sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães, reduzindo a dependência de fornecedores externos e proporcionando maior previsibilidade no processo de reposição dos animais operacionais.
1.1 Equipe De Treino, Formação E Adestramento
A CIOC, responsável pela difusão da doutrina da Cinotecnia no Paraná (PARANÁ, 2015), mantém permanentemente uma equipe de treino, formação e adestramento de cães. Esses policiais são responsáveis pela manutenção do treinamento dos cães formados, além da formação de filhotes nascidos na Unidade e daqueles incorporados ao plantel (HOISER; LOMBA, 2026). Importante salientar que o turno regular de trabalho desses policiais é destinado quase que integralmente ao cumprimento dessas missões. Os policiais são escolhidos para essa função de acordo com sua experiência na área, capacidade técnica e prática no manejo de cães policiais. A escala dos policiais é confeccionada de modo que de segunda a sábado sempre haja efetivo especializado das 7h às 19h, possibilitando o manejo constante dos cães em formação.
Quando há filhotes em formação, os integrantes da Equipe de treino, formação e adestramento passam a maior parte do serviço no treinamento desses filhotes. O trabalho de ambientação e socialização e sequência predatória em especial, demanda bastante tempo e logística, tendo em vista a necessidade de se treinar nos mais diversos tipos de ambientes operacionais. Segundo Cardoso (2025), a ambientação e socialização são aspectos essenciais para a estabilidade emocional do cão, bem como para a capacidade de operar em cenários dinâmicos.
A análise dos dados fornecidos pela CIOC sobre o efetivo que integra o Sistema de Manutenção de Cães demonstrou que o efetivo médio dos canis setoriais é entre 4 e 5 policiais. Os dois canis setoriais com maior número de policiais têm 9 policiais. Nesse sentido, tendo em vista todas as atribuições do serviço policial com cães, é improvável que mesmo os canis setoriais com mais policiais consigam destinar policiais exclusivamente para a formação e adestramento.
1.2 Seleção e aquisição de cães para o serviço policial
A aquisição de cães para o serviço policial constitui um dos principais desafios enfrentados pelas Unidades cinotécnicas brasileiras. Segundo Cardoso (2025), a oferta limitada de cães funcionalmente aptos, a escassez de criadores especializados em linhagens de trabalho e a dificuldade na seleção de indivíduos com características compatíveis com as exigências operacionais aumentam a complexidade do processo de compra, tornando-o cercado de incertezas. Isso somado ao fato de que muitas instituições possuem pouca experiência na elaboração de processos de contratação específicos para semoventes, muitas vezes resulta na adoção de critérios incompatíveis com a realidade do mercado nacional.
Sob essa perspectiva, o Cardoso (2025) entende que a seleção de cães não deve ser pautada por exigências arbitrárias ou desconexas com as condições efetivamente encontradas entre os fornecedores. As seleções devem ser baseadas em parâmetros técnicos, realistas e operacionalmente relevantes, que possibilitem identificar animais com potencial para o desempenho das funções pretendidas sem inviabilizar a participação de fornecedores aptos. A busca por padrões excessivamente específicos, assim como a aquisição de grandes quantidades de cães num único processo tende a reduzir o número de candidatos disponíveis, podendo comprometer o sucesso da contratação.
Ainda, segundo Cardoso (2025), as Unidades cinotécnicas devem manter um planejamento contínuo de renovação dos plantéis. O autor observa que há diversas Unidades que permanecem longos períodos sem realizar aquisições, o que compromete a reposição gradual dos cães aposentados, causando déficits operacionais. Quando a lacuna entre os processos de aquisição ultrapassa alguns anos, a instituição passa a necessitar de muitos cães em uma mesma compra, aumentando-se a complexidade da seleção e os riscos de insucesso, além de uma maior probabilidade de escolhas inadequadas.
A renovação do plantel deve ser compreendida como um processo permanente e planejado, e não como medida emergencial adotada apenas diante da redução dos cães de serviço disponíveis. Para Cardoso (2025), a manutenção de ciclos regulares de aquisição permite a distribuição da demanda ao longo do tempo, aumentando a possibilidade de incorporação de bons cães para o serviço policial. Além disso, o planejamento contínuo evita compras emergenciais e reduz a pressão sobre o processo de seleção.
O autor ainda chama a atenção para a realidade observada em diversas Organizações Policiais Militares do Brasil, nas quais a aquisição de cães ocorre de forma descontínua e sem regularidade. Isso frequentemente obriga as Unidades a operar com plantéis envelhecidos ou insuficientes, o que compromete a capacidade operacional e dificulta a manutenção dos serviços especializados. Nesse sentido, a reposição periódica, associada à adoção de critérios técnicos adequados para seleção dos indivíduos, constitui elemento fundamental para a sustentabilidade das operações com cães nos Estados.
2 METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza aplicada, com objetivos descritivos e exploratórios, fundamentando-se na análise da composição etária do plantel de cães de detecção de entorpecentes do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) da Polícia Militar do Paraná e nos impactos decorrentes da inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 – GMS na renovação dos semoventes empregados nas atividades policiais. O estudo busca compreender de que forma a criação, seleção, socialização e formação de cães conduzidas pela própria instituição podem contribuir para a sustentabilidade do SMC, reduzindo a dependência de fornecedores externos e proporcionando maior previsibilidade e controle sobre o processo de reposição do plantel operacional.
Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa foi desenvolvida por meio de análise documental e levantamento de dados institucionais fornecidos pela Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), abrangendo informações referentes à idade dos cães integrantes do SMC, projeções de aposentadoria dos semoventes e dados relacionados à reposição do efetivo canino. Complementarmente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com policiais militares da CIOC diretamente envolvidos nas atividades de seleção, formação, treinamento e certificação de cães policiais.
Os dados qualitativos obtidos nas entrevistas foram submetidos à técnica de análise de conteúdo, proposta por Bardin, permitindo a identificação, categorização e interpretação sistemática das informações coletadas. Conforme destacam Valle e Ferreira (2025), a análise de conteúdo constitui importante instrumento metodológico para pesquisas qualitativas, possibilitando a organização e interpretação de dados textuais de forma estruturada, favorecendo a compreensão dos fenômenos investigados. Nesse sentido, as respostas dos entrevistados foram agrupadas em categorias temáticas relacionadas aos motivos da inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025, ao processo de formação de cães na CIOC, à capacidade de formação de cães pela CIOC, ao desempenho operacional dos semoventes e à importância da produção própria como estratégia complementar de reposição do efetivo canino.
A abordagem adotada busca compreender não apenas os dados quantitativos referentes à composição etária do quadro de cães de detecção de entorpecentes, mas também as percepções e experiências dos profissionais diretamente envolvidos na gestão e formação dos cães policiais, permitindo uma análise mais abrangente acerca da sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR e das alternativas disponíveis para a manutenção de sua capacidade operacional.
As entrevistas foram conduzidas por meio de um roteiro semiestruturado composto por 25 perguntas, elaborado com o objetivo de contemplar os aspectos necessários ao alcance dos objetivos da pesquisa. Buscou-se explorar temas relacionados à renovação do plantel, à formação e certificação de cães policiais, à capacidade operacional da CIOC e aos impactos decorrentes da inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 – GMS. Não foi estabelecido limite de tempo para as respostas, permitindo que os entrevistados apresentassem livremente suas percepções, experiências e considerações sobre os temas abordados.
3 PROCESSO DE FORMAÇÃO DE CÃES DE DETECÇÃO NA CIOC
A análise das entrevistas permitiu identificar elevado grau de convergência entre os participantes quanto às etapas que compõem o processo de formação de cães na CIOC. A formação na CIOC é realizada por meio de um programa estruturado de desenvolvimento comportamental e operacional, iniciado ainda antes do nascimento dos filhotes e concluído com a certificação operacional dos animais. O objetivo do processo é produzir cães aptos ao emprego policial, dotados de estabilidade comportamental, elevada motivação para o trabalho e capacidade de atuação em diferentes cenários operacionais. O Programa de Adestramento (PAD) possui etapas bem definidas, com prazos e objetivos a serem alcançados (PARANÁ, 2025).
Figura 1 - Estrutura dos ciclos de treinamento dos cães em formação.
Fonte: Apostila do VII Curso de Cinotecnia Policial Militar-PMPR.
O processo tem início na seleção de matrizes e padreadores, priorizando indivíduos que apresentem características desejáveis para o serviço policial, tais como impulsos elevados de caça e presa, estabilidade emocional, resistência a estímulos ambientais, sociabilidade adequada e histórico funcional satisfatório. Busca-se ainda a utilização de cães provenientes de linhagens de trabalho, aumentando a probabilidade de transmissão de características favoráveis às futuras gerações.
Durante a gestação, a matriz recebe acompanhamento nutricional e veterinário específico, visando garantir condições adequadas para o desenvolvimento dos filhotes. Após o nascimento, inicia-se o programa de desenvolvimento dos cães, dividido em diferentes fases complementares.
3.1 Estímulos neonatais, ambientação e socialização
A primeira etapa consiste na aplicação de protocolos de estimulação neonatal precoce, realizados durante os primeiros dias de vida dos filhotes. Esses estímulos incluem manipulações táteis e posturais controladas, com o objetivo de favorecer o desenvolvimento neurológico e aumentar a capacidade futura de adaptação a situações de estresse e desafios operacionais. Concluída a fase neonatal, dá-se início ao processo de ambientação e socialização, considerado um dos pilares da metodologia adotada pela CIOC. Nessa etapa, os filhotes são gradualmente expostos a diferentes superfícies, obstáculos, ambientes, sons, veículos, pessoas e outros animais.
O objetivo é desenvolver cães confiantes e capazes de atuar em ambientes urbanos e complexos, sem demonstrarem medo, insegurança ou comportamentos de evitação. Paralelamente, são realizados exercícios de busca alimentar em diferentes ambientes, incentivando a utilização do olfato desde os primeiros meses de vida. Essa fase busca ampliar o repertório comportamental dos filhotes e criar uma base sólida para as próximas etapas do treinamento.
Figura 2 - Filhotes sendo ambientados em piso vazado
Fonte: o autor (2026)
3.2 Sequência predatória
Após a consolidação das fases iniciais de socialização e ambientação, o treinamento passa a se concentrar no desenvolvimento da sequência predatória, especialmente nos impulsos de caça e presa. Essa etapa busca fortalecer a motivação do cão para localizar, perseguir e obter uma recompensa. Inicialmente, são utilizados brinquedos apropriados para estimular o interesse e a interação dos filhotes. Com a evolução do treinamento, o brinquedo passa a assumir papel central como reforçador positivo, sendo associado ao sucesso nas atividades propostas. Atualmente, a CIOC utiliza predominantemente o Kong como objeto de recompensa. A alta resistência do material é um dos fatores principais para essa escolha.
Os filhotes realizam exercícios de retriver, nos quais um Kong é arremessado pelo treinador e posteriormente recuperado pelo cão. Nessa fase, é comum a utilização de dois brinquedos idênticos, estratégia que facilita a troca entre objetos e auxilia na introdução do comportamento de soltura do brinquedo sob comando. Frequentemente, uma corda é fixada ao Kong, possibilitando a realização de disputas controladas entre o treinador e o cão, com o objetivo de estimular e fortalecer os impulsos de caça e presa.
Em um segundo momento, o brinquedo continua sendo arremessado, mas o cão é liberado para iniciar a busca após alguns segundos, sob comando. Embora ainda mantenha contato visual com o local onde o objeto foi lançado, o animal já não observa o movimento do brinquedo durante o deslocamento para a recuperação, exigindo maior concentração e memória espacial.
Na terceira fase, o Kong é lançado de forma que o cão perca completamente o contato visual com o objeto durante sua trajetória final. Mesmo ainda possuindo uma noção aproximada da direção do lançamento, a localização do brinquedo passa a depender significativamente da utilização do olfato, marcando a transição gradual da busca visual para a busca olfativa.
Posteriormente, inicia-se a fase de busca totalmente olfativa. O Kong passa a ser previamente escondido em locais acessíveis, sem que o cão acompanhe sua colocação. Dessa forma, a localização do brinquedo depende exclusivamente da identificação do odor do objeto no ambiente. A recompensa ainda é o Kong que está sendo procurado.
Em uma etapa mais avançada, o brinquedo passa a ser ocultado em locais inacessíveis ao cão, impossibilitando seu alcance direto. Nesse momento é introduzido o chamado pagamento indireto, no qual a recompensa é realizada por meio de outro Kong disponibilizado pelo treinador após a localização correta do alvo. A partir dessa fase, o brinquedo utilizado como objeto de busca passa gradativamente a ser fracionado, sendo reduzido progressivamente seu tamanho. O pagamento indireto passa a ser o padrão, também são mantidas as disputas controladas pelo brinquedo como forma de aumentar a persistência do cão pela busca, através dos impulsos desenvolvidos desde as fases iniciais da formação.
Durante a sequência predatória, o cão já passa a buscar pelo brinquedo em diversos ambientes, o que auxiliará na criação de padrões de busca para cada tipo de ambiente, situação essencial na transição de ambientes, quarta fase do ciclo de instruções. Ainda, tendo em vista que a CIOC utiliza o painel para a apresentação dos odores alvo, a dinâmica da busca no painel já é iniciada com o brinquedo ainda nessa fase.O fortalecimento dos impulsos de caça e presa é considerado essencial para a formação de cães de trabalho.
Figura 4 - Disputa pelo Kong
Fonte: o autor (2026)
3.3 Apresentação dos odores-alvo
Com cerca de um ano de idade, os cães que cumpriram os objetivos desejados nas fases anteriores passarão pela apresentação dos odores-alvo que deverão buscar durante sua vida funcional. Nesse momento, espera-se que os cães sejam seguros nos mais diversos ambientes, que consigam manter o foco durante as buscas pelo brinquedo em ambientes com múltiplas distrações e que tenham excelente motivação pelo brinquedo. Como o cão já está habituado ao pagamento indireto em buscas pelo Kong e à dinâmica de busca no painel, espera-se que o cão apresente relativa facilidade nessa fase.
Para entender a dinâmica de apresentação dos odores-alvo realizada na CIOC, faz-se necessário recorrer à explicação de Annunciação (2025) sobre os auxiliares de treinamento, também chamados de “odores de referência”, são substâncias, misturas ou dispositivos utilizados no treinamento de cães de detecção para associar um odor específico a uma recompensa. Nesse sentido, Annunciação (2025) os classifica em três tipos: Materiais Reais, Materiais Sintéticos e Materiais Sorventes. A CIOC utiliza os dois primeiros na formação de seus cães.
Inicialmente são utilizados Materiais Sintéticos para apresentação do odor-alvo. Esses são compostos isolados ou misturas formuladas para reproduzir as características parcial ou integralmente de um odor-alvo, em regra utilizam substâncias que primeiro volatilizam nos entorpecentes. Como se trata de uma busca por um odor novo, a técnica consiste em reforçar positivamente o cão com o brinquedo imediatamente após o cão colocar o focinho no orifício de onde o odor está saindo. Repete-se o procedimento algumas vezes, até que os treinadores percebam que o cão entendeu a dinâmica. Após a percepção de que o cão está buscando o odor alvo, inicia-se a modelagem da indicação passiva no painel. Ao não ser recompensado imediatamente ao chegar na fonte do odor, o cão passa a apresentar outros comportamentos no intuito de receber o Kong. Assim que o cão apresenta o comportamento desejado (sentar-se ou se deitar com o focinho colado à fonte de odor), o treinador a recompensa com o Kong. Repete-se o processo algumas vezes até que a indicação esteja satisfatória.
Posteriormente aos auxiliares de treinamento do tipo material sintético, é realizada a apresentação das substâncias entorpecentes, uma de cada vez. A CIOC dispõe de dois tipos de materiais sintéticos: o Nose, que apresenta assinaturas de odor dos mais diversos tipos de entorpecentes, e materiais que possuem a assinatura de odor de cada droga separadamente. Importante ressaltar que caso o material simule o odor de apenas uma substância entorpecente, essa substância será apresentada logo na sequência seguida de seus derivados. Ou seja, apresenta-se o material que simula a cocaína e logo na sequência a cocaína, seguida do crack. Após, apresenta-se o material sintético da maconha, por exemplo, seguido da maconha e de seus derivados (skunk, haxixe). Outra observação importante é que na CIOC, utilizam-se entorpecentes com alto grau de pureza, analisados em laboratório, o que ajuda a evitar indicações falsas em operações.
No momento em que são apresentados os entorpecentes, espera-se que o cão já realize a indicação passiva satisfatoriamente desde a primeira sessão. Além dos odores-alvo, são posicionados nos outros orifícios materiais que possuem odores similares aos odores alvos, objetivando-se evitar indicações equivocadas em aplicações reais. Quando os cães obtêm resultados satisfatórios na identificação dos odores-alvo, com indicação passiva confiável e sem indicações equivocadas, passa-se à fase de transição para ambientes operacionais.
Figura 5 - Cão apresentando indicação passiva no painel.
Fonte: o autor (2026)
3.4 Transição para ambientes operacionais
Na fase final da formação de cães de detecção, os cães passam a realizar buscas em ambientes reais de atuação policial. De forma geral, nesse momento a condução do cão em formação passa a ser de responsabilidade do condutor, a quem o cão será destinado após a sua formação. Por força da Diretriz nº 016/2022 da PMPR, os cães sem certificação são impossibilitados de operar sem a presença de um cão certificado na equipe, (PARANÁ, 2022). Dessa forma, tendo em vista que o processo de formação do cão de detecção de entorpecentes se encerra com a certificação, nessa fase os cães são empregados em ocorrências reais, como cães secundários, sempre sendo montadas pistas com entorpecentes para que o cão seja treinado nos mais diversos tipos de ambiente.
Além dos treinos em ambiente real e ambiente controlado que permanecem importantes nessa fase, são lapidados os padrões de busca, a resistência física e mental e a precisão das indicações. O vínculo entre o animal e seu futuro condutor passa a ser construído com mais ênfase. É estimulado que o cão seja conduzido tanto com guia, onde se faz necessário, quanto sem guia, ampliando sua autonomia de busca.
Embora todos os cães passem por uma base comum de formação, a definição da especialidade operacional ocorre conforme as características individuais observadas durante o desenvolvimento. Dessa forma, os cães podem ser direcionados para atividades de detecção de entorpecentes, armas, explosivos, busca de pessoas ou proteção, de acordo com suas aptidões específicas. No caso dos dois últimos exemplos, a formação passa a ser específica antes da apresentação de odores-alvo.
Ao final dessa etapa, os cães são submetidos ao processo de certificação operacional. Com o intuito de testar os cães de faro de detecção de entorpecentes e armas de fogo nos principais ambientes operacionais, a certificação abrange quatro provas específicas (HOISER; LOMBA, 2026). Os cães são testados em busca veicular, busca em bagagens, busca em ambientes internos e busca em ambientes externos (PARANÁ, 2022). A aprovação nesses testes representa a conclusão do ciclo de formação e habilita o animal para o serviço operacional junto à Polícia Militar do Paraná.
Figura 6 - Binômio operando em ambiente externo
Fonte: o autor (2026)
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conforme proposto por Valle e Ferreira (2025), a análise de conteúdo possibilita a organização e interpretação sistemática de dados qualitativos por meio da identificação de temas recorrentes e da construção de categorias analíticas que representem os fenômenos investigados. A leitura integral das entrevistas realizadas com 5 policiais militares diretamente envolvidos com a gestão, testes de cães de compra, formação, treinamento e certificação dos cães do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR, permitiu a identificação de núcleos temáticos comuns presentes nos discursos dos participantes.
Considerando os padrões de convergência das respostas dos participantes, bem como os objetivos desta pesquisa, optou-se por organizar os resultados em cinco categorias principais, quais sejam: fatores que levaram à inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 - GMS; limitações da aquisição externa como estratégia exclusiva para renovação do plantel do SMC; fatores associados ao desempenho dos cães nas certificações operacionais; capacidade formativa de cães pela Companhia Independente de Operações com Cães; e possíveis contribuições da produção própria para a sustentabilidade e renovação dos cães de detecção do SMC da PMPR.
A divisão em categorias objetivou reunir percepções semelhantes apresentadas pelos entrevistados, permitindo a análise conjunta dos principais aspectos relacionados à reposição dos cães de serviço, à formação de cães policiais e aos desafios enfrentados pelo Sistema de Manutenção de Cães. A seguir, são discutidos os resultados obtidos em cada uma dessas categorias.
4.1 Inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 - GMS
A análise das entrevistas demonstrou elevado grau de convergência entre as respostas dos participantes quanto aos fatores que contribuíram para a inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025-GMS. De forma geral, os entrevistados atribuíram o insucesso contratual à incapacidade do fornecedor em disponibilizar cães em quantidade e qualidade compatíveis com as exigências estabelecidas pela Administração Pública. Foi amplamente citado o fato de que a empresa contratada foi vencedora em todos os lotes que visavam a compra de cães de detecção de entorpecentes, resultando em importante prejuízo operacional pela inexecução parcial do contrato.
Embora a empresa tenha comprovado capacidade técnica para participação no certame, os entrevistados relataram que os cães apresentados possuíam deficiências relacionadas à seleção genética, ambientação, socialização e preparação para o serviço policial. Ainda que alguns indivíduos com bom potencial para o serviço policial tenham sido apresentados, muitos foram perdidos por não cumprirem o previsto no edital na data da apresentação. Além disso, foram identificados problemas de gestão empresarial e dificuldades na obtenção de novos cães aptos junto ao mercado nacional.
Na opinião dos entrevistados, o mercado brasileiro de cães de trabalho ainda possui limitações para atender contratos de grande porte, especialmente quando envolvem elevado número de animais com requisitos técnicos rigorosos. As opiniões convergem no sentido de que a quantidade elevada de cães que a ser fornecida pela mesma empresa foi fator determinante para o insucesso de um processo longo, bem estruturado e de enorme importância para a Segurança Pública do Paraná.
4.2 Limitações da aquisição externa como estratégia exclusiva para renovação do plantel
Os entrevistados reconheceram a importância da aquisição externa de cães como ferramenta para a renovação do efetivo canino, bem como para a ampliação das atividades do SMC. No entanto, foi consenso entre todos que a dependência exclusiva desse método representa risco à sustentabilidade do sistema. A experiência decorrente do Contrato nº 3555/2025-GMS evidenciou que fatores mercadológicos, limitações de fornecedores e dificuldades relacionadas à disponibilidade de cães aptos podem comprometer significativamente o planejamento institucional. Nesse sentido, foi consenso de que se deve aprimorar os processos de compra de modo a se moldarem à realidade do mercado, sem desistir dessa forma de aquisição.
Os entrevistados citaram como motivos para a manutenção da aquisição de cães prontos a existência de bons cães provenientes de compras no plantel do SMC, inclusive provenientes do contrato mais recente, a economia de recursos públicos e a possibilidade do cão passar a operar quase de imediato. Outro fator citado foi a possibilidade da compra de indivíduos com boa genética e em condições de reprodução, o que poderia auxiliar também na produção própria do SMC. Como forma de adaptar o processo de compra ao mercado e aumentar a probabilidade de execução total de processos de compra vindouros, houve consenso entre os entrevistados de que há a necessidade de se limitar a quantidade de cães fornecidos por cada empresa, de modo que mais fornecedores possam fornecer cães em quantidade compatível com sua capacidade técnica e operacional.
Nesse contexto, ganha relevância a possibilidade do credenciamento, modalidade que possibilita a habilitação prévia de múltiplos fornecedores para futuras contratações, ampliando a competitividade e reduzindo a dependência de um único contratado (SANTOS, 2025). Tal entendimento converge com as manifestações dos entrevistados, que apontaram a concentração do fornecimento em um único prestador como um dos fatores que contribuíram para a inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025. Os participantes defenderam a adoção de um modelo misto, combinando aquisição externa com produção própria de cães pela CIOC, reduzindo vulnerabilidades e aumentando a previsibilidade da reposição do efetivo operacional.
4.3 Fatores associados ao desempenho dos cães nas certificações
A análise das entrevistas evidenciou que os participantes identificam diferenças perceptíveis entre o desempenho dos cães formados pela Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC) e aqueles formados em canis setoriais ou de outras fontes de formação. Embora os entrevistados tenham reconhecido a existência de cães de elevado desempenho em diversas unidades da Polícia Militar do Paraná, observou-se consenso quanto à influência direta da estrutura de treinamento, da disponibilidade de recursos e da continuidade do manejo sobre os resultados obtidos nas certificações operacionais. Foi possível notar que os exemplos de bons cães tanto de compra quanto de canis setoriais se repetiam nas entrevistas. Um dos fatores constantemente citado como sendo a razão de alguns canis setoriais possuírem excelentes cães era a capacidade técnica do cinotécnico responsável pela formação, além de seu comprometimento em de efetivo aplicar a metodologia durante o período de formação.
De forma geral, os entrevistados atribuíram os principais índices de reprovação observados durante as certificações a falhas relacionadas ao processo de formação e manutenção do treinamento. Entre os fatores mais mencionados destacam-se falhas na fase de ambientação e socialização, a falta de condicionamento físico, a apresentação de odores com entorpecentes sem laudo de pureza atestada, a deficiência na continuidade dos exercícios de manutenção e a limitação de tempo disponível para dedicação exclusiva ao trabalho com cães nas Unidades operacionais.
Segundo os participantes, uma das principais diferenças entre a realidade da CIOC e dos canis setoriais está na disponibilidade de efetivo dedicado exclusivamente à atividade cinotécnica. Enquanto na CIOC existe uma equipe voltada especificamente para a formação, treinamento e acompanhamento dos cães, nas Unidades do interior os policiais responsáveis pelos cães em regra acumulam outras atribuições operacionais, além do manejo necessário para alimentação, asseio e higiene dos cães. Tal condição tende a reduzir significativamente a frequência dos treinamentos e limita a capacidade de desenvolvimento técnico dos binômios.
Outro aspecto recorrente nas entrevistas refere-se à importância da continuidade do treinamento ao longo de toda a vida operacional do cão. Os entrevistados ressaltaram que o sucesso em uma certificação não depende exclusivamente da qualidade genética ou da formação inicial do animal, mas também da manutenção constante das habilidades desenvolvidas durante o processo formativo. Nesse contexto, os entrevistados relataram diferenças perceptíveis de desempenho entre cães submetidos a treinamentos frequentes e aqueles com menor regularidade de treinamento.
Além do treinamento, diversos participantes destacaram a relevância do condicionamento físico como elemento determinante para o desempenho nas certificações. Conforme relatado, muitos cães apresentam resultado satisfatório nas primeiras provas da certificação, mas passam a apresentar queda acentuada de rendimento nas pistas finais. Seja pela complexidade das pistas, ou pela falta de pagamento imediato ao indicar o odor alvo, tendo em vista que o condutor do cão não sabe onde estão escondidos os alvos, mas também pelo cansaço físico notável nas etapas finais.
A qualidade e a padronização dos auxiliares de treinamento utilizados durante a fase de apresentação de odores e no treinamento também foram apontadas como fatores relevantes. Alguns entrevistados observaram que muitos cães apresentam dificuldades na identificação de determinados entorpecentes, sobretudo da cocaína, o que pode estar relacionado à utilização de fontes odoríferas com baixo grau de pureza. Nesse sentido, foi ressaltada a importância da utilização de auxiliares de treinamento padronizados, permitindo maior fidelidade entre o treinamento e as situações encontradas tanto nas certificações quanto nas operações reais.
Ainda sobre as certificações, um fator que foi amplamente citado, foi o fato de que várias vezes o cão passa pelo processo de certificação com um condutor diferente do que treina normalmente. Apesar de atualmente não haver vinculação da certificação do cão à sua condução por algum Policial Militar específico, é inegável que uma condução realizada de forma incorreta pode influenciar no resultado da certificação, tendo em vista que é o condutor que sinaliza para a comissão que o cão está indicando em um ponto. Ainda, a leitura de mudanças de comportamento, a capacidade de perceber se o cão está de fato buscando em determinado local tendem a influenciar sensivelmente os resultados obtidos. Foram relatadas situações em que se verificou que cães potencialmente aptos foram reprovados em razão de falhas de condução.
Apesar das dificuldades apontadas, os entrevistados reconheceram que o processo de certificação implementado pela CIOC tem produzido efeitos positivos sobre o Sistema de Manutenção de Cães. Segundo os participantes, a exigência de certificação periódica prevista em Diretriz estimulou o aumento da qualidade dos treinamentos em diversas Unidades, sendo notada uma evolução gradativa do nível técnico dos cães apresentados em cada processo de certificação. Assim, a certificação passou a atuar como mecanismo indutor de aperfeiçoamento constante dos binômios policiais.
4.4 Capacidade de formação de cães pela Companhia Independente de Operações com Cães
A análise das entrevistas permitiu a percepção de que a Companhia Independente de Operações com Cães possui capacidade técnica para realizar a formação de cães de detecção. A metodologia padronizada, equipe especializada e estrutura voltada ao desenvolvimento de cães de trabalho são fatores que possibilitam essa percepção. No entanto, há consenso entre os entrevistados que a capacidade produtiva atual é limitada principalmente por fatores relacionados ao efetivo disponível e à logística necessária para as atividades da formação de cães.
Os participantes relataram que a formação de cães de serviço constitui atividade que demanda elevado investimento de tempo e acompanhamento contínuo dos animais em formação, sendo pertinente a dedicação exclusiva do efetivo incumbido dessa tarefa. Foi frequentemente destacado que o sucesso do processo está ligado à observância rigorosa das fases de ambientação e socialização, sequência predatória, apresentação de odores e transição para ambientes, respeitando-se o desenvolvimento dos cães e exigindo-se acompanhamento diário por profissionais capacitados.
Quanto à composição da equipe de treino, formação e adestramento no processo de formação de cães filhotes, observou-se relativa convergência entre os entrevistados. Ainda que haja pequenas variações nas estimativas apresentadas, a maioria dos entrevistados indicou que uma equipe composta por três a quatro policiais por dia é capaz de conduzir a formação de uma ninhada de aproximadamente seis a dez cães simultaneamente. Para os participantes, essa proporção permite a realização das atividades de manejo, transporte, treinamento, filmagem, registros detalhados e avaliação dos cães sem prejuízo à qualidade do processo de formação.
A análise indica que a disponibilidade de efetivo especializado constitui o principal fator limitador para ampliação da capacidade de produção própria. Dada a complexidade da atividade, que exige observação constante dos animais, identificação de comportamentos indesejáveis, adaptação dos treinos às fases de desenvolvimento, além do registro detalhado da evolução de cada indivíduo, os achados sugerem que a ampliação da capacidade produtiva depende diretamente do aumento do efetivo especializado destinado a essa atividade.
Outro fator apontado como importante obstáculo ao aumento da produção foi a necessidade logística, em especial no que tange a meios de transporte dos cães. O número limitado de veículos adaptados para o transporte de cães gera prejuízos em especial durante as atividades de ambientação e socialização. Considerando que parte significativa do processo de formação ocorre em ambientes externos, sendo necessários deslocamentos para os mais diversos tipos de ambientes operacionais, a disponibilidade de viaturas adaptadas influencia diretamente a capacidade de formação de cães da CIOC.
Além dos fatores citados anteriormente, foi citada pelos entrevistados a necessidade de aprimoramento da estrutura de reprodução. Ressalta-se a necessidade de aquisição de mais matrizes e padreadores com boa linhagem de trabalho, bem como o aperfeiçoamento estrutural da maternidade da CIOC, visando maximizar o aproveitamento das futuras ninhadas.
Apesar das limitações identificadas, os entrevistados entendem que a CIOC possui condições de produzir e formar números significativos de cães operacionais por meio de ninhadas próprias. Estimativas apresentadas indicam capacidade aproximada entre 12 a 20 cães formados a cada dezoito meses, dependendo da disponibilidade do efetivo, da quantidade de ninhadas produzidas e da infraestrutura logística disponível. Tendo em vista os índices de aproveitamento relatados durante as entrevistas, depreende-se que a produção própria apresenta potencial para contribuir de forma relevante para a renovação do plantel do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR.
A análise das entrevistas trouxe ainda a percepção dos entrevistados de que a produção própria proporciona maior controle sobre as etapas do desenvolvimento dos cães. Diferentemente da aquisição de cães já formados, a produção interna permite o acompanhamento desde a seleção das matrizes e padreadores até a certificação operacional, possibilitando intervenções precoces e correções ao longo do desenvolvimento do animal, o que resulta na redução da perda de cães com bom potencial para o serviço. Além disso, essa característica tende a reduzir incertezas relacionadas ao histórico dos cães.
Diante dos dados analisados, verificou-se que a capacidade atual de formação ainda não é suficiente para suprir isoladamente toda a demanda do SMC. Porém, os resultados indicam que a ampliação do efetivo especializado da equipe de treino, formação e adestramento, associada ao fortalecimento da estrutura logística e reprodutiva, possui potencial para elevar de forma significativa a produção de cães de serviço. Nesse cenário, a formação própria apresenta-se como importante ferramenta estratégica para a renovação do plantel, reduzindo a dependência de fornecedores externos e contribuindo para a sustentabilidade do sistema.
4.5 Possíveis contribuições da produção própria para a renovação e sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães
A análise das entrevistas demonstrou que, embora os entrevistados reconheçam a importância da aquisição externa para a reposição e ampliação do efetivo canino do SMC, verificou-se consenso no entendimento de que a dependência exclusiva de fornecedores externos apresenta fator de vulnerabilidade para o sistema, indicando que a experiência da inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025, que resultou na entrega de menos de 20 % da previsão contratual, reforçou a percepção de que a renovação do efetivo de cães de serviço não pode estar condicionada exclusivamente à disponibilidade do mercado. Conforme os entrevistados, os resultados mostram a conveniência da adoção de mecanismos complementares de reposição. Nesse contexto, a produção própria surge como alternativa capaz de proporcionar maior previsibilidade ao planejamento institucional.
Os participantes também destacaram que a formação própria possibilita maior padronização metodológica na formação dos cães de detecção. Uma vez que todos os cães passam pelas etapas de ambientação e socialização, sequência predatória, apresentação de odores e transição para ambientes operacionais, há maior uniformidade nos processos de formação, permitindo que os animais sejam preparados de acordo com os padrões técnicos estabelecidos pela CIOC e pela doutrina institucional da PMPR.
Contudo, as entrevistas também evidenciaram limitações na produção própria, ressaltando-se a necessidade de investimento elevado de tempo, recursos humanos especializados e capacidade logística para execução das atividades de treinamento. Dessa forma, observou-se consenso entre os entrevistados no sentido de que o modelo mais adequado para o Sistema de Manutenção de Cães consiste na adoção de uma estratégia mista, combinando aquisição externa e produção própria. Enquanto a compra de cães prontos é financeiramente mais viável quando bem-sucedida, a formação interna contribui para a redução da dependência do mercado e para o aumento da capacidade de resposta institucional diante de eventuais falhas em processos futuros de aquisição.
Considerando que 41 cães operacionais atingirão a idade de aposentadoria nos próximos três anos, a necessidade de reposição deixa de ser uma hipótese futura e passa a representar uma demanda concreta do Sistema de Manutenção de Cães. Nesse cenário, eventuais falhas em processos de aquisição ou atrasos na formação de novos cães podem gerar impactos diretos sobre a capacidade operacional das unidades policiais.
4.6 Limitações do estudo
Por se tratar de pesquisa de natureza qualitativa, os resultados devem ser interpretados levando-se em consideração as limitações metodológicas inerentes ao estudo. A primeira limitação foi o número de participantes, tendo em vista que se buscou que os profissionais possuíssem ampla experiência na área da cinotecnia policial, bem como estivessem diretamente envolvidos com atividades de formação, testes de cães de compra, treinamento e certificação de cães do Sistema de Manutenção de cães, essa limitação se deu justamente pela especificidade dos critérios para participação. O quantitativo de participantes não permite generalizações estatísticas acerca de todo o Sistema de Manutenção de Cães da PMPR.
Outra limitação relevante está relacionada ao perfil dos entrevistados, pelo fato de todos os participantes integrarem o efetivo da CIOC, Unidade responsável pela difusão da doutrina institucional de emprego de cães na PMPR. Embora haja a vantagem quanto à profundidade técnica das informações obtidas, também pode influenciar as percepções apresentadas, em especial nos temas relacionados à produção própria e à capacidade formativa da Unidade.
Também se destaca como limitação o fato de a pesquisa se concentrar exclusivamente na modalidade de faro de entorpecentes, que representa a modalidade predominante entre os cães empregados pelo SMC. Ainda que diversos aspectos discutidos sejam aplicáveis a outras modalidades de emprego, as conclusões devem ser interpretadas prioritariamente sob o viés da modalidade de detecção de entorpecentes.
Por fim, a presente pesquisa não objetivou a comparação quantitativa entre custos, índices de aproveitamento ou desempenho operacional entre cães adquiridos e aqueles produzidos pela própria instituição. O estudo se concentrou na compreensão das percepções dos especialistas entrevistados e na análise do potencial de produção própria como alternativa para a sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães. Assim, estudos futuros poderão aprofundar a temática por meio de análises econômicas, estatísticas de desempenho e acompanhamento operacional dos cães formados pela CIOC e daqueles com outras formações.
Apesar dessas limitações, entende-se que os achados apresentam relevância científica e institucional, justamente por reunir a percepção de profissionais diretamente envolvidos na gestão e formação de cães policiais, além de abordar tema ainda pouco explorado na literatura nacional. As evidências produzidas contribuem para a compreensão de desafios atuais relacionados à reposição do plantel do Sistema de Manutenção de Cães da Polícia Militar do Paraná e fornecem subsídios para o aprimoramento dos processos de aquisição, formação e gestão de cães de serviço no âmbito da segurança pública.
5 CONCLUSÃO
A renovação do contingente de cães de serviço policial constitui requisito indispensável para a manutenção da capacidade operacional das Unidades cinotécnicas. Dessa forma, o presente trabalho objetivou analisar a produção própria de cães de detecção de entorpecentes desenvolvida pela Companhia Independente de Operações com Cães da PMPR como alternativa estratégica para a renovação do Sistema de Manutenção de Cães, em especial devido ao impacto gerado pela inexecução parcial do Contrato nº 3555/2025 - GMS, que objetivou a aquisição de semoventes caninos para as forças policiais.
Os dados analisados demonstraram que o SMC se encontra em um cenário que demanda planejamento contínuo para assegurar a reposição dos semoventes operacionais. A análise do perfil etário do quadro de cães de detecção de entorpecentes do SMC demonstrou que parcela significativa dos cães de detecção de entorpecentes se encontra próxima da idade de aposentadoria, o que evidencia a necessidade adoção de medidas voltadas à renovação do plantel.
As entrevistas revelaram consenso entre os participantes quanto às limitações observadas no processo de aquisição por meio do Contrato nº 3555/2025 - GMS. Apesar da tentativa da divisão em lotes menores, a contratação pelo menor preço permitiu que um mesmo fornecedor fosse vencedor em todos os lotes de cães de detecção de entorpecentes, o que resultou em uma demanda superior à capacidade técnica do fornecedor. Ainda, ressaltou-se a limitada capacidade de fornecimento de cães de serviço no mercado nacional, dificuldades relacionadas à seleção genética e à formação dos animais, além dos problemas de gestão da empresa contratada. Tais aspectos contribuíram para a inexecução parcial do contrato e reforçaram a percepção de que a aquisição externa, embora necessária, não pode ser o mecanismo exclusivo de renovação do plantel do SMC.
Por outro lado, a pesquisa demonstrou que a CIOC tem uma metodologia estruturada para a formação de cães de serviço, contemplando desde a seleção de matrizes e padreadores até a certificação operacional dos cães de detecção de entorpecentes e armas de fogo. As entrevistas demonstraram que o ciclo PAD que compreende a estimulação neonatal, a ambientação e socialização, o desenvolvimento da sequência predatória, a apresentação dos odores-alvo e a transição controlada para ambientes operacionais é eficaz na formação de cães aptos ao serviço de detecção de entorpecentes.
Verificou-se também que a produção própria oferece vantagens relevantes sob a perspectiva da gestão do plantel. O acompanhamento integral do desenvolvimento dos cães desde o nascimento permite maior controle sobre aspectos genéticos, comportamentais e operacionais, reduzindo incerteza quanto ao histórico dos animais e possibilitando intervenções necessárias ao longo do processo formativo. Além disso, a manutenção de um programa permanente de criação e formação contribui para a previsibilidade da reposição de efetivo, além de reduzir a dependência exclusiva da aquisição externa.
Verificou-se que a capacidade atual de produção própria, embora represente número relevante, não é suficiente para suprir isoladamente toda a demanda do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR. Limitações relacionadas à quantidade de efetivo especializado, à infraestrutura disponível, além de limitações logísticas em especial no que tange ao transporte dos semoventes foram identificadas como fatores que limitam a ampliação da produção interna em larga escala.
Dessa forma, a pesquisa permite inferir que a produção própria pode constituir ferramenta complementar e estratégica para a sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães, sem a pretensão de substituir completamente a aquisição externa. A análise realizada sugere que o modelo mais adequado para a PMPR consiste na adoção de estratégia mista, contemplando aquisições regulares de cães com a manutenção de um programa permanente de criação e formação conduzido pela CIOC.
Sob a perspectiva institucional, o estudo evidencia a necessidade de aperfeiçoamento dos processos de compra de semoventes caninos de detecção de entorpecentes. Nesse cenário, o credenciamento surge como alternativa capaz de mitigar boa parte dos riscos identificados nesta pesquisa, justamente por permitir a contratação de múltiplos fornecedores previamente habilitados, reduzindo o número de semoventes a serem fornecidos por cada empresa em cada rodada. A redução da concentração da demanda em uma única empresa aumenta a probabilidade da execução integral das aquisições planejadas. A adoção dessa modalidade, associada a um programa permanente de reprodução e formação de cães pela CIOC, pode representar importante estratégia para a garantia da renovação contínua do plantel, e para o fortalecimento da sustentabilidade do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR.
Por fim, recomenda-se o aumento do efetivo da Equipe de treino, formação e adestramento da CIOC, além de investimentos em infraestrutura reprodutiva, em logística para transporte de cães, visando à ampliação gradativa da capacidade de produção interna da Unidade. Sugere-se ainda a realização de pesquisas futuras que contemplem temas como a comparação entre cães produzidos pela PMPR e cães adquiridos externamente, analisando aspectos como custo-benefício, índices de aproveitamento, desempenho operacional e longevidade funcional, contribuindo para o aprimoramento de práticas de gestão dos cães empregados no serviço policial e para o desenvolvimento da Cinotecnia Policial Militar no Brasil.
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Polícia Militar do Paraná– Curitiba – Paraná – Brasil. ↑

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