Raciocínio clínico do enfermeiro no reconhecimento precoce da sepse: impactos na sobrevida do paciente
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: A sepse é uma síndrome potencialmente fatal caracterizada por disfunção orgânica causada por uma resposta desregulada do organismo frente a uma infecção. Considerada um importante problema de saúde pública, apresenta elevada incidência e altos índices de mortalidade, principalmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Nesse cenário, o reconhecimento precoce torna-se essencial para melhorar o prognóstico dos pacientes, destacando-se a atuação do enfermeiro, profissional que permanece continuamente à beira do leito e frequentemente é o primeiro a identificar sinais de deterioração clínica. Objetivo: Investigar, por meio de revisão integrativa da literatura, como o raciocínio clínico do enfermeiro contribui para o reconhecimento precoce da sepse em pacientes hospitalizados e quais são os impactos desse processo na sobrevivência, mortalidade e tempo de internação. Método: Tratase de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e LILACS PLUS, utilizando descritores relacionados à sepse, enfermagem, diagnóstico precoce e raciocínio clínico, combinados por operadores booleanos. Foram incluídos estudos primários publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra. Resultados: Foram selecionados seis estudos brasileiros com diferentes delineamentos metodológicos, incluindo revisões, estudos observacionais e relatos de experiência. Os resultados evidenciaram que o raciocínio clínico do enfermeiro, associado à utilização de protocolos assistenciais, escalas de alerta precoce e sistemas informatizados, favorece a identificação rápida da sepse, reduz o tempo para início da antibioticoterapia e contribui para a diminuição da mortalidade hospitalar. Observou-se ainda que ferramentas tecnológicas, como alertas eletrônicos e algoritmos de inteligência artificial, potencializam a tomada de decisão clínica e fortalecem o protagonismo da enfermagem no cuidado ao paciente crítico. Conclusão: O enfermeiro desempenha papel central no reconhecimento precoce da sepse, sendo fundamental a implementação de protocolos gerenciados, capacitação contínua das equipes e incorporação de tecnologias de apoio à decisão clínica para qualificar a assistência e melhorar os desfechos dos pacientes hospitalizados.

Palavras-chave: Sepse; Raciocínio clínico; Enfermagem; Reconhecimento precoce; Sobrevida do paciente.

ABSTRACT

Introduction: Sepsis is a potentially life-threatening syndrome characterized by organ dysfunction caused by a dysregulated response of the body to infection. Considered a major public health problem, it presents high incidence and mortality rates, especially in Intensive Care Units (ICUs). In this context, early recognition is essential to improve patient prognosis, highlighting the role of nurses, who remain continuously at the bedside and are often the first professionals to identify signs of clinical deterioration. Objective: To investigate, through an integrative literature review, how nurses' clinical reasoning contributes to the early recognition of sepsis in hospitalized patients and the impacts of this process on survival, mortality, and length of hospital stay. Method: This is an integrative literature review conducted in the Virtual Health Library (BVS) and LILACS PLUS databases, using descriptors related to sepsis, nursing, early diagnosis, and clinical reasoning combined with Boolean operators. Primary studies published between 2015 and 2025, in Portuguese, English, and Spanish, available in full text, were included. Results: Six Brazilian studies with different methodological designs were selected, including reviews, observational studies, and experience reports. The findings showed that nurses' clinical reasoning, associated with the use of care protocols, early warning scores, and computerized systems, favors the rapid identification of sepsis, reduces the time to antibiotic therapy initiation, and contributes to decreased hospital mortality. Technological tools such as electronic alerts and artificial intelligence algorithms were also found to enhance clinical decision-making and strengthen the role of nursing in the care of critically ill patients. Conclusion: Nurses play a central role in the early recognition of sepsis, making the implementation of managed protocols, continuous staff training, and incorporation of clinical decision-support technologies essential to improve care quality and patient outcomes.

Keywords: Sepsis; Clinical reasoning; Nursing; Early recognition; Patient survival.

RESUMEN

Introducción: La sepsis es un síndrome potencialmente mortal caracterizado por disfunción orgánica causada por una respuesta desregulada del organismo ante una infección. Considerado un importante problema de salud pública, presenta alta incidencia y elevadas tasas de mortalidad, especialmente en Unidades de Cuidados Intensivos (UCI). En este contexto, el reconocimiento precoz es esencial para mejorar el pronóstico de los pacientes, destacándose el papel del enfermero, profesional que permanece continuamente junto a la cabecera del paciente y es frecuentemente el primero en identificar signos de deterioro clínico. Objetivo: Investigar, mediante una revisión integradora de la literatura, cómo el razonamiento clínico del enfermero contribuye al reconocimiento precoz de la sepsis en pacientes hospitalizados y cuáles son los impactos de este proceso en la supervivencia, la mortalidad y el tiempo de hospitalización. Método: Se trata de una revisión integradora de la literatura realizada en las bases de datos Biblioteca Virtual en Salud (BVS) y LILACS PLUS, utilizando descriptores relacionados con sepsis, enfermería, diagnóstico precoz y razonamiento clínico, combinados mediante operadores booleanos. Se incluyeron estudios primarios publicados entre 2015 y 2025, en portugués, inglés y español, disponibles en texto completo. Resultados: Se seleccionaron seis estudios brasileños con diferentes diseños metodológicos, incluyendo revisiones, estudios observacionales e informes de experiencia. Los resultados evidenciaron que el razonamiento clínico del enfermero, asociado al uso de protocolos asistenciales, escalas de alerta temprana y sistemas informatizados, favorece la identificación rápida de la sepsis, reduce el tiempo para el inicio de la antibioticoterapia y contribuye a la disminución de la mortalidad hospitalaria. Se observó también que herramientas tecnológicas, como alertas electrónicas y algoritmos de inteligencia artificial, potencian la toma de decisiones clínicas y fortalecen el protagonismo de la enfermería en el cuidado del paciente crítico. Conclusión: El enfermero desempeña un papel central en el reconocimiento precoz de la sepsis, siendo fundamental la implementación de protocolos gestionados, la capacitación continua de los equipos y la incorporación de tecnologías de apoyo a la decisión clínica para mejorar la asistencia y los resultados de los pacientes hospitalizados.

Palabras clave: Sepsis; Razonamiento clínico; Enfermería; Reconocimiento precoz; Supervivencia del paciente.

1 INTRODUÇÃO

A sepse representa uma disfunção orgânica com risco de vida, causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infecção. Caracterizada por uma complexa interação entre o agente infeccioso e o sistema imune do paciente, sua progressão pode levar rapidamente a choque séptico, falência de múltiplos órgãos e, consequentemente, à morte. A identificação precoce e a intervenção imediata são cruciais para mitigar seus desfechos adversos, tornando-a um dos maiores desafios na prática clínica contemporânea, especialmente em ambientes de cuidados intensivos (ILAS, 2022).

No Brasil, um estudo conduzido pelo Instituto Latino-Americano para Estudos da SEPSE (ILAS), publicado em agosto de 2017 na revista The Lancet, mostrou prevalência de sepse e choque séptico em 30% dos leitos de UTI em adultos, com taxa de mortalidade hospitalar próxima de 55%, sendo a principal causa de óbito em unidades de terapia intensiva. Esses dados evidenciam a sepse como problema de saúde pública de grande magnitude, sobrecarregando os sistemas de saúde e gerando custos significativos (MACHADO et al., 2017).

Dentre os focos infecciosos que originam a sepse, estudos obtidos através do ILAS destacam a pneumonia, responsável por cerca de 50% das ocorrências. Entre as complicações mais frequentes está o choque séptico, caracterizado por hipotensão persistente mesmo após adequada reposição volêmica, levando à hipoperfusão tecidual e risco elevado de falência de órgãos. A falência múltipla de órgãos é outra consequência crítica, envolvendo disfunções renais, hepáticas, cardíacas e respiratórias, que requerem suporte intensivo e estão associadas a taxas elevadas de mortalidade hospitalar (COREN-SP, 2022).

O diagnóstico da sepse baseia-se em combinação de avaliação clínica e exames laboratoriais e de imagem. Entre os exames recomendados destacam-se hemocultura para identificação do agente etiológico, gasometria arterial para avaliação do lactato e do pH sanguíneo, hemograma completo, função renal e hepática, coagulograma, radiografias de tórax, além de exames microbiológicos de fluidos corporais. Esses exames permitem monitorar a evolução da doença, orientar a terapia antimicrobiana e avaliar a gravidade do paciente por meio de escores prognósticos, como o SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) (CORENSP, 2022; ILAS, 2022).

O atendimento ao paciente com sepse deve ser conduzido de forma rápida e organizada, seguindo protocolos clínicos padronizados conhecidos como bundles. O Instituto LatinoAmericano de Sepse (ILAS) orienta que o manejo inicial seja realizado nas primeiras seis horas após a suspeita ou confirmação do diagnóstico. Nas primeiras horas, é fundamental identificar precocemente os sinais de gravidade e iniciar o tratamento de forma imediata, com mensuração dos níveis séricos de lactato, coleta de hemocultura antes da administração de antibióticos, início precoce da antibioticoterapia de amplo espectro e reposição volêmica com soluções cristalóides (ILAS, 2022).

O ILAS e o COREN-SP enfatizam que a enfermagem tem papel essencial nesses protocolos, sendo frequentemente a primeira a reconhecer sinais clínicos de sepse, tais como hipotensão, taquicardia, alteração do nível de consciência, febre ou hipotermia. O Processo de Enfermagem (PE), estruturado em cinco etapas interdependentes — coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação — oferece uma abordagem sistemática que sustenta o raciocínio clínico e o pensamento crítico do enfermeiro, permitindo que intervenções baseadas em evidências sejam aplicadas de maneira segura e eficaz (COREN-SP, 2022; ILAS, 2022).

Diante desse cenário, o presente estudo propõe-se a realizar uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de sintetizar o conhecimento disponível sobre o raciocínio clínico do enfermeiro no reconhecimento precoce da sepse e seus impactos na sobrevivência do paciente, fornecendo uma base sólida para futuras pesquisas e para a melhoria da prática profissional.

2 OBJETIVOS

2.1 Objetivo Geral

Investigar, por meio de revisão integrativa da literatura, como o raciocínio clínico do enfermeiro contribui para o reconhecimento precoce da sepse em pacientes adultos hospitalizados e quais são os impactos desse reconhecimento na sobrevivência, taxa de mortalidade e tempo de internação.

2.2 Objetivos Específicos

  • Identificar e analisar, na literatura científica, os sinais clínicos, critérios diagnósticos e sintomas utilizados por enfermeiros no reconhecimento precoce da sepse.
  • Mapear protocolos, escalas e instrumentos validados aplicados em ambiente hospitalar que auxiliem o enfermeiro na identificação precoce da sepse.
  • Verificar barreiras e facilitadores relatados na literatura para a utilização efetiva do raciocínio clínico pelo enfermeiro no reconhecimento precoce da sepse, considerando aspectos institucionais, formação profissional e recursos disponíveis.
  • Propor recomendações para a prática de enfermagem, baseadas nas evidências encontradas, visando a melhoria da sobrevivência e redução da mortalidade de pacientes com sepse.

3 MÉTODO

3.1 Tipo de Estudo

Este trabalho foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, abordagem metodológica que permite a síntese de resultados de estudos primários, tanto quantitativos quanto qualitativos, sobre um tema específico (WHITTEMORE; KNAFL, 2005; SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010). A revisão integrativa possibilita a identificação de lacunas no conhecimento, a análise crítica das evidências existentes e a integração de diferentes perspectivas sobre o tema, contribuindo para o avanço da ciência e a fundamentação de intervenções eficazes.

3.2 Etapas da Revisão

A condução desta revisão integrativa seguiu rigoroso processo metodológico, adaptado das diretrizes propostas por Ganong (1987) e atualizadas por Whittemore e Knafl (2005), e alinhado com as normativas da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e os princípios do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (PRISMA). As etapas foram organizadas conforme proposto por Sousa et al. (2017) e apresentadas no Quadro 1.

Quadro 1 – Etapas da Revisão Integrativa

Fonte: Adaptado de Sousa et al. (2017)

3.3 Identificação do Tema e Formulação da Questão Norteadora

O tema central desta revisão é o raciocínio clínico do enfermeiro no reconhecimento precoce da sepse e seus impactos na sobrevivência do paciente. A questão norteadora, formulada no formato PICO (População, Intervenção, Comparação, Outcomes), foi: "Como o raciocínio clínico do enfermeiro contribui para o reconhecimento precoce da sepse no ambiente hospitalar e quais são os impactos desse processo na sobrevida dos pacientes?" A aplicação da estratégia PICO está organizada no Quadro 2.

Quadro 2 – Aplicação da estratégia PICO

Fonte: Elaborado pelos autores (2025)

3.4 Definição dos Descritores e Estratégia de Busca

Para assegurar busca abrangente e sistemática, foram utilizados Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), vocabulários controlados e padronizados essenciais para a recuperação de informações em bases de dados de saúde. A combinação desses descritores com operadores booleanos (AND, OR) possibilitou refinar a busca e maximizar a recuperação de artigos relevantes, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 – Cruzamento realizado nas bases de dados

Fonte: Elaborado pelos autores (2025)

3.5 Bases de Dados

As buscas foram realizadas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e no LILACS PLUS.

A Tabela 2 apresenta o resultado dos estudos encontrados.

Tabela 2 – Resultado de estudos encontrados na busca

Fonte: Elaborado pelos autores (2025)

3.6 Critérios de Inclusão e Exclusão

Critérios de Inclusão: artigos publicados nos últimos dez anos (2015–2025); disponíveis na íntegra; nos idiomas português, inglês e espanhol; estudos primários (quantitativos ou qualitativos) que abordam diretamente o raciocínio clínico do enfermeiro, o reconhecimento precoce da sepse ou o impacto na sobrevida/mortalidade de pacientes (WHITTEMORE; KNAFL, 2005; SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010).

Critérios de Exclusão: teses, dissertações, livros, capítulos de livros, editoriais, cartas ao editor, resumos de congressos e revisões de literatura já publicadas; estudos que não relacionam diretamente a atuação do enfermeiro, a sepse e a sobrevivência do paciente; relatos de casos isolados.

3.7 Processo de Seleção dos Estudos

O processo de seleção dos estudos foi realizado em duas fases, seguindo as recomendações do fluxograma PRISMA para revisões integrativas. Na primeira fase, os artigos identificados foram avaliados a partir de seus títulos e resumos por dois revisores independentes. Na segunda fase, os estudos pré-selecionados foram submetidos à leitura completa e análise detalhada para confirmar sua relevância. Em caso de discordância entre os revisores, um terceiro revisor foi consultado.

3.8 Extração, Organização e Análise dos Dados

Após a seleção final dos estudos, foi elaborado instrumento padronizado para a extração dos dados, incluindo: autor(es) e ano de publicação; país de publicação; objetivo do estudo; desenho metodológico; população e amostra; principais achados; e conclusões dos autores. Os dados foram organizados em quadros sinópticos e analisados de forma descritiva e crítica, agrupando os resultados por similaridade temática e metodológica (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010; WHITTEMORE; KNAFL, 2005).

3.9 Aspectos Éticos

Considerando que esta revisão integrativa se baseia na análise de dados secundários disponíveis em domínio público, não há necessidade de submissão ao Comitê de Ética em

Pesquisa, conforme estabelecido pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Foram rigorosamente observados os princípios éticos da pesquisa científica, incluindo a citação adequada de todas as fontes consultadas, o respeito aos direitos autorais e a fidedignidade das informações apresentadas (BRASIL, 2016).

4 RESULTADOS

Foram identificadas 425 publicações, sendo 398 localizadas na BVS e 27 no LILACS PLUS. Realizou-se refinamento para exclusão dos estudos publicados fora do período de 2015 a 2025 (n = 178), dos estudos não disponíveis na íntegra gratuitamente (n = 45), dos estudos fora dos idiomas estipulados (n = 34) e dos duplicados (n = 42). Após a leitura dos títulos e resumos, foram pré-selecionados 55 estudos (50 da BVS e 5 do LILACS PLUS). Destes, 40 foram excluídos por não satisfazerem os critérios de inclusão. Procedeu-se à leitura completa de 20 estudos da BVS, dos quais 13 foram excluídos, resultando em seis estudos incluídos na síntese final, todos oriundos da BVS.

Os seis estudos incluídos são todos de origem brasileira, publicados dentro do recorte temporal de 2015 a 2025, com heterogeneidade metodológica: revisão de escopo, revisão integrativa, estudo de coorte observacional, pesquisa exploratória, relato de experiência e estudo quantitativo comparativo. Os níveis de evidência variam entre Nível III e Nível VI, com publicações em periódicos nacionais de referência. O Quadro 3 apresenta os aspectos gerais dos estudos incluídos e os Quadros 4 a 9 detalham a síntese de cada estudo.

Quadro 3 – Aspectos gerais dos estudos incluídos nesta revisão

Fonte: Elaborado pelos autores (2026)

Fonte: Adaptado de Henrique et al. (2023)

Fonte: Adaptado de Antunes et al. (2021)

Fonte: Adaptado de Westphal et al. (2018)

Fonte: Adaptado de Ramalho Neto et al. (2015)

Fonte: Adaptado de Gonçalves et al. (2020)

Fonte: Adaptado de Amaro et al. (2019)

5 DISCUSSÃO

Os achados desta revisão integrativa convergem para uma resposta clara à questão norteadora: o raciocínio clínico estruturado do enfermeiro, quando apoiado por protocolos assistenciais, ferramentas de alerta e tecnologias digitais, é determinante para a identificação precoce da sepse e para a melhora dos desfechos clínicos dos pacientes hospitalizados.

O estudo de Henrique et al. (2023) demonstrou que a implantação de protocolos baseados nos modelos da Surviving Sepsis Campaign (SSC) é capaz de impulsionar a adesão da equipe de enfermagem às recomendações clínicas, resultando em redução da mortalidade e melhora dos indicadores de qualidade do cuidado: aumento da adesão ao tempo mínimo recomendado para coleta de exames e hemocultura, otimização da administração de antimicrobianos e redução do tempo de internação em UTI. Esses dados evidenciam que o enfermeiro, ao utilizar protocolos sistematizados como instrumento de raciocínio clínico, tornase agente ativo na prevenção da progressão da sepse para estágios mais graves.

Corroborando esses achados, Antunes et al. (2021) identificaram dez elementos essenciais para a construção de protocolos clínicos de detecção precoce da sepse em urgência e emergência, destacando-se a triagem e abertura do protocolo pelo próprio enfermeiro, o treinamento continuado das equipes, o uso de alertas eletrônicos, a aplicação dos critérios da SRIS e de escores de alerta precoce como o REETS e o SOFA, além da comunicação multiprofissional. Esse estudo reforça que o raciocínio clínico do enfermeiro se estrutura a partir de um conjunto de instrumentos padronizados dentro de contexto organizacional que valoriza a tomada de decisão assertiva.

O papel dos sistemas eletrônicos de alerta como suporte ao raciocínio clínico do enfermeiro foi amplamente demonstrado por Westphal et al. (2018), em estudo observacional de coorte conduzido ao longo de dez anos. Os resultados revelaram redução progressiva e significativa do tempo entre triagem e diagnóstico: de 19 horas e 20 minutos com vigilância manual, para 2 horas e 10 minutos com alerta eletrônico via telefônica, chegando a apenas 1 hora quando o alerta foi enviado diretamente ao celular do enfermeiro. Paralelamente, observou-se redução da mortalidade hospitalar de 50% para valores abaixo de 25% nos últimos anos do estudo.

No plano das concepções e do conhecimento profissional, Ramalho Neto et al. (2015) evidenciaram que enfermeiros de UTI possuem conhecimento compatível com as diretrizes da SSC para o reconhecimento dos sinais clínicos da sepse, e que suas atitudes profissionais — coleta de culturas, monitoramento de antibióticos, controle de sinais vitais, hidratação venosa, oxigenoterapia e uso de vasopressores — entrelaçam-se diretamente com os bundles preconizados. Ressalta-se, contudo, que o estudo aponta dinâmica ainda incipiente nas atitudes assistenciais, sugerindo a necessidade de educação permanente para consolidar práticas seguras baseadas em evidências.

A inovação tecnológica como extensão do raciocínio clínico foi explorada por Gonçalves et al. (2020), cujo relato demonstrou que o algoritmo de Inteligência Artificial (IA) Robô Laura®, baseado em Machine Learning e fundamentado nos parâmetros do MEWS, identificou em tempo real pacientes em risco de sepse, agilizando a tomada de decisão clínica. Os profissionais relataram maior satisfação profissional, protagonismo no cuidado e redução do tempo de processamento de informações. Esse achado demonstra que a IA não substitui o raciocínio clínico do enfermeiro, mas o potencializa, fornecendo dados precisos e oportunos para decisões mais rápidas e seguras.

Amaro et al. (2019) avaliaram os registros clínicos antes e depois da implantação de sistema informatizado de alertas para deterioração clínica, encontrando redução significativa no número de óbitos (p = 0,0134), aumento no tempo de internação — interpretado como reflexo de sobrevida maior — e incremento na média de verificação de sinais vitais por paciente (p < 0,001). Os autores destacam que o sucesso desse tipo de tecnologia depende do engajamento dos profissionais nos registros eletrônicos e de mudanças culturais e organizacionais.

Analisando os seis estudos em conjunto, observa-se que todos convergem para o mesmo eixo central: o raciocínio clínico do enfermeiro, quando estruturado por protocolos assistenciais validados, suportado por ferramentas de alerta e potencializado por tecnologias digitais, impacta diretamente na identificação precoce da sepse e, consequentemente, na sobrevida do paciente. Entre os facilitadores destacam-se: existência de protocolos institucionais baseados em evidências, capacitação contínua, uso de escores validados como SOFA, qSOFA e MEWS, e integração de sistemas eletrônicos de alerta. Entre as barreiras identificam-se: alta demanda de trabalho, resistência à incorporação de novas tecnologias, limitações de infraestrutura e lacunas na formação profissional. A heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos reflete a diversidade de abordagens, mas também aponta para a necessidade de estudos com maior rigor metodológico, como ensaios clínicos controlados e meta-análises.

6 CONCLUSÃO

Os resultados desta revisão evidenciaram que a atuação sistematizada do enfermeiro, aliada à implementação de protocolos gerenciados, ao uso de escores de alerta precoce como o qSOFA, o MEWS e o SOFA, à comunicação multiprofissional e à adesão às recomendações da Campanha de Sobrevivência à Sepse, são elementos fundamentais para o reconhecimento oportuno da síndrome e para a redução da mortalidade.

No que se refere às tecnologias de apoio à decisão clínica, os estudos sobre sistemas eletrônicos de alerta e algoritmos de inteligência artificial demonstraram que a incorporação dessas ferramentas ao processo de trabalho da enfermagem reduz significativamente o tempo entre a triagem e o diagnóstico e entre o diagnóstico e o início da antibioticoterapia. Contudo, o sucesso dessas tecnologias mostrou-se dependente do engajamento dos profissionais nos registros eletrônicos e de mudanças culturais e organizacionais nos serviços de saúde.

Como limitações, destacam-se o número reduzido de estudos sobre a temática especificamente nos serviços de urgência e emergência brasileiros, a predominância de publicações nacionais e o caráter observacional e descritivo de parte das pesquisas analisadas. Para estudos futuros, recomenda-se a realização de pesquisas multicêntricas que avaliem a implementação e os desfechos de sistemas eletrônicos de alerta em hospitais públicos brasileiros, bem como investigações sobre o impacto da inteligência artificial na tomada de decisão clínica da enfermagem em serviços de média e baixa complexidade.

O enfermeiro, como profissional que permanece continuamente ao lado do paciente crítico, ocupa posição central e insubstituível nesse processo. A construção e implementação de protocolos gerenciados pela enfermagem, combinadas às inovações tecnológicas e ao fortalecimento da educação permanente, representam caminhos promissores para a redução da mortalidade por sepse e para o avanço da qualidade do cuidado em todo o sistema de saúde.

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  1. Bacharela em Enfermagem; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: rbccamily@gmail.com

  2. Bacharela em Enfermagem; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: camilamatheus158@gmail.com

  3. Bacharela em Enfermagem; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: vieira.giovanna2001@gmail.com

  4. Bacharela em Enfermagem; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: kaiquef174@gmail.com

  5. Bacharela em Enfermagem; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: silvasabrina378@gmail.com

  6. Doutor em Ciências; Instituição de formação: Universidade Paulista (UNIP); Endereço institucional: Rua Antônio Macedo, 505, Parque São Jorge – SP, CEP: 03087-010; E-mail: adriano.chaves2@docente.unip.br

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Copyright (c) 2026 Rebeca Camily Ribeiro Alves Paixão, Camila Melo Matheus, Giovanna Vieira dos Santos, Kaique Correia de Souza, Sabrina da Silva Bomfim, Adriano Aparecido Bezerra Chaves (Autor)

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