A enfermagem e os desafios na humanização do atendimento no ciclo gravídico-puerperal
Nursing and its challenges in humanizing care during the pregnancy and postpartum period
Fabrícia de Almeida Araújo Medeiros[1]
Vaneza Marques da Silva[2]
Vanessa Souza da Nóbrega[3]
Sandra Godoi de Passos[4]
RESUMO
Objetivo: Investigar produções científicas relacionadas à violência obstétrica publicadas entre os anos de 2019 e 2025, buscando compreender os principais desafios enfrentados pela enfermagem na assistência prestada à mulher durante o período gravídico-puerperal.
Método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, composta por estudos publicados entre 2019 e 2025, realizada nas bases de dados SciELO e periódicos científicos da área de enfermagem e saúde coletiva. Os descritores desta pesquisa dizem respeito à “Humanização” e “Violência Obstétrica”. Preliminarmente, foram localizados 40 estudos, dos quais 20 atenderam aos padrões de inclusão e 15 formaram a amostra final da revisão. A seleção realizada está de acordo com as normas do PRISMA.
Resultados: A análise dos estudos evidenciou que a violência obstétrica é uma situação real, existente no cotidiano da assistência à mulher, problema evidenciado de desrespeito, intervenções dispensáveis, violência verbal e impactos no autocuidado da mulher. Foi possível observar que o papel e a atenção da enfermagem é necessária na promoção do cuidado acolhedor, desde o pré-natal até o puerpério. Entretanto, fatores como sobrecarga de trabalho, escassez de recursos materiais e fragilidades na capacitação profissional dificultam a implementação de uma assistência qualificada. Além disso, aspectos sociais e econômicos influenciam diretamente a qualidade do atendimento ofertado às mulheres. Estratégias voltadas à educação em saúde, fortalecimento do vínculo profissional gestante e atualização permanente dos profissionais contribuem para reduzir práticas abusivas e melhorar a assistência obstétrica.
Conclusão: A violência obstétrica representa um importante problema de saúde pública e reforça a necessidade de fortalecimento das práticas assistenciais voltadas ao respeito, acolhimento e garantia dos direitos das mulheres. A enfermagem promove uma assistência segura e ética, baseada em evidências reais.
Palavras-chave: humanização; enfermagem; violência obstétrica.
ABSTRACT
Objective: To investigate scientific publications related to obstetric violence published between 2019 and 2025, seeking to understand the main challenges faced by nursing in the care provided to women during the pregnancy-puerperal period.
Method: This is an integrative literature review composed of studies published between 2019 and 2025, carried out in the SciELO database and scientific journals in the fields of nursing and public health. The descriptors used in this research refer to “Humanization” and “Obstetric Violence”. Initially, 40 studies were identified, of which 20 met the inclusion criteria and 15 formed the final sample of the review. The selection process was conducted according to PRISMA guidelines.
Results: The analysis of the studies showed that obstetric violence is a real situation present in daily women’s healthcare, characterized by disrespect, unnecessary interventions, verbal violence, and impacts on women’s self-care. It was observed that the role and attention of nursing are essential in promoting welcoming care, from prenatal care to the puerperium. However, factors such as work overload, lack of material resources, and weaknesses in professional training hinder the implementation of qualified care. In addition, social and economic aspects directly influence the quality of care offered to women. Strategies focused on health education, strengthening the professional pregnant woman bond, and continuous professional updating contribute to reducing abusive practices and improving obstetric care.
Conclusion: Obstetric violence represents an important public health problem and reinforces the need to strengthen healthcare practices focused on respect, welcoming, and guaranteeing women’s rights. Nursing promotes safe and ethical care guided by real evidence.
Keywords: humanization; nursing; obstetric violence.
1. INTRODUÇÃO
O ciclo gravídico-puerperal compreende as fases da gestação, parto e puerpério, sendo marcado por alterações biológicas, psicológicas e sociais que influenciam diretamente a saúde da mulher (3,10,11). Nesse contexto, torna-se necessária uma assistência integral, acolhedora e fundamentada em evidências científicas, visando garantir segurança e qualidade no atendimento prestado às gestantes (3,6,10).
O acompanhamento pré-natal possui papel fundamental na promoção da saúde materno infantil e na prevenção de complicações obstétricas, favorecendo a identificação precoce de riscos e contribuindo para um parto mais seguro (3,6,11). Além disso, a atuação da enfermagem durante o período gestacional fortalece o vínculo entre profissional e paciente, promovendo acolhimento, orientação e suporte emocional à mulher (6,7,11,14).
Após o parto, a mulher enfrenta mudanças físicas, emocionais e familiares relacionadas à recuperação puerperal e aos cuidados com o recém-nascido, necessitando de acompanhamento contínuo e assistência qualificada (6,11,14). A ausência de assistência adequada durante esse período pode ocasionar agravos à saúde materna e neonatal, reforçando a importância da enfermagem na prevenção de complicações e promoção do cuidado integral (7,11,12).
Apesar dos avanços nas políticas públicas voltadas à assistência obstétrica, a violência obstétrica ainda permanece presente nos serviços de saúde, manifestando-se por meio de práticas abusivas, desrespeito à autonomia feminina, violência verbal e intervenções desnecessárias durante o parto e nascimento (1,5,10,11). Essas práticas comprometem a experiência da mulher e podem gerar impactos físicos e emocionais duradouros (1,5,15).
Nesse cenário, a enfermagem desempenha função essencial na construção de práticas assistenciais mais seguras e centradas nas necessidades da mulher, promovendo escuta qualificada, respeito e fortalecimento da autonomia feminina (6,7,11,14).
O objetivo geral desta pesquisa consistiu em investigar produções científicas relacionadas à violência obstétrica publicadas entre os anos de 2019 e 2025, buscando compreender os principais desafios enfrentados pela enfermagem na assistência prestada à mulher durante o período gravídico-puerperal (1,5,7,11). Os objetivos específicos incluem compreender as práticas de enfermagem desenvolvidas durante o ciclo gravídico-puerperal e analisar a produção científica relacionada à violência obstétrica e à assistência de enfermagem (6,7,11).
2. JUSTIFICATIVA
A relevância deste estudo está relacionada à necessidade de compreender os desafios enfrentados pelas mulheres durante a assistência obstétrica, especialmente diante da persistência de situações de desrespeito, negligência e violência obstétrica nos serviços de saúde (1,5,10,11).
A enfermagem possui importante responsabilidade na promoção de uma assistência segura, ética e centrada nas necessidades da mulher, atuando desde o pré-natal até o período pós-parto (3,6,7,11). Dessa forma, torna-se fundamental discutir estratégias voltadas à melhoria da assistência obstétrica e ao fortalecimento das práticas baseadas em evidências científicas.
Além disso, a escuta das mulheres e a análise das experiências relacionadas ao parto possibilitam maior compreensão sobre as fragilidades existentes nos serviços de saúde e contribuem para o desenvolvimento de práticas mais acolhedoras e respeitosas (6,7,11).
A pesquisa também contribui para a atualização científica da enfermagem, fortalecendo o conhecimento teórico relacionado à assistência obstétrica e incentivando reflexões sobre a necessidade de qualificação profissional contínua (6,7,11,14).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir e sintetizar resultados de pesquisas sobre determinada temática, possibilitando análise ampla do conhecimento científico disponível.
O estudo seguiu seis etapas metodológicas: identificação do tema e elaboração da questão de pesquisa; definição dos critérios de inclusão e exclusão; seleção dos estudos; categorização dos artigos; análise e interpretação dos resultados; e apresentação da síntese do conhecimento produzido. O levantamento bibliográfico foi realizado em abril de 2026 nas bases de dados SciELO e periódicos científicos da área de enfermagem e saúde coletiva. A categorização dos estudos se deu por meio dos seguintes termos, disponibilizados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Humanização”, “Violência Obstétrica” e “Enfermagem”, com o uso do operador AND para integração dos descritores. Os critérios de inclusão foram: artigos completos publicados em língua portuguesa entre os anos de 2019 e 2025 e estudos relacionados à assistência de enfermagem no contexto da violência obstétrica. Foram excluídos artigos duplicados, resumos, publicações anteriores a 2019 e estudos que não abordavam diretamente a temática pesquisada. O levantamento das informações bibliográficas originou a identificação de 40 trabalhos científicos. Findo o processo de triagem, construído a partir de critérios previamente delimitados e da averiguação completa do corpus dos estudos, 15 artigos foram definidos para constituir a amostra conclusiva da pesquisa. O processo de seleção dos estudos foi organizado conforme as diretrizes PRISMA e apresentado em fluxograma. Mediante a utilização de dados de pesquisas já publicadas, não houve necessidade de análise ética pelo Comitê de Ética em Pesquisa, em consonância com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os artigos selecionados demonstraram a permanência de condutas inadequadas nos serviços obstétricos, caracterizadas por intervenções excessivas, falhas na comunicação profissional e redução da autonomia da mulher no processo parturitivo (1,5,10,11,15). A ausência de acolhimento e empatia durante a assistência obstétrica compromete a qualidade do atendimento oferecido às gestantes, favorecendo experiências negativas relacionadas ao parto e ao nascimento (1,4,5,10). Além disso, fatores sociais, econômicos e estruturais contribuem para aumentar a vulnerabilidade das mulheres atendidas nos serviços de saúde (4,9,10).
Os estudos também evidenciaram que a enfermagem desempenha papel fundamental na promoção de práticas assistenciais mais seguras e centradas nas necessidades da mulher, atuando desde o pré-natal até o puerpério (6,7,11,14). Entretanto, jornadas prolongadas de trabalho, escassez de recursos materiais e fragilidades na capacitação profissional dificultam a implementação de uma assistência qualificada e baseada em evidências científicas (6,7,11).
Fragilidades na educação em saúde e na atualização profissional favorecem a manutenção de práticas intervencionistas desnecessárias e dificultam o reconhecimento da violência obstétrica nos serviços de saúde (5,10,11). Além disso, o modelo assistencial centrado na medicalização do parto ainda influencia diretamente as condutas adotadas durante a assistência obstétrica (10,11,12).
Os resultados demonstram que estratégias voltadas à educação em saúde, fortalecimento do vínculo entre profissionais e gestantes e promoção da autonomia feminina contribuem para reduzir práticas abusivas e melhorar a qualidade da assistência ofertada às mulheres (6,7,11,14). Políticas públicas relacionadas à assistência obstétrica também contribuem para redução de intervenções desnecessárias e fortalecimento do cuidado centrado na mulher (10,11,12). Contudo, limitações estruturais e ausência de capacitação contínua ainda representam desafios significativos para os profissionais de enfermagem (6,7,11).
TABELA 1 – Síntese dos artigos incluídos na revisão integrativa (n=15)
Fonte: Dados da pesquisa (2026).
5. CONCLUSÃO
A violência obstétrica permanece como importante problema de saúde pública, evidenciando fragilidades relacionadas à assistência prestada às mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal.
Os estudos analisados demonstraram que práticas desrespeitosas, intervenções desnecessárias e limitação da autonomia feminina ainda estão presentes nos serviços de saúde, comprometendo a qualidade da assistência obstétrica (1,5,10,11,15).
Observou-se que a enfermagem possui papel essencial na promoção de práticas assistenciais mais seguras, éticas e centradas nas necessidades da mulher, contribuindo para fortalecimento do acolhimento, educação em saúde e respeito aos direitos femininos (6,7,11,14).
Entretanto, desafios relacionados à sobrecarga de trabalho, limitações estruturais e fragilidades na qualificação profissional dificultam a implementação de uma assistência obstétrica integral e baseada em evidências científicas (6,7,11).
Conclui-se que o fortalecimento das políticas públicas voltadas à assistência obstétrica, associado à capacitação contínua dos profissionais de enfermagem, é fundamental para redução da violência obstétrica e melhoria da qualidade do atendimento ofertado às mulheres durante a gestação, parto e puerpério.
6. LIMITAÇÕES DA PESQUISA
Algumas limitações são apresentadas nesta pesquisa; todavia, trata-se de uma revisão integrativa da literatura fundamentada em estudos publicados entre 2019 e 2025. A investigação foi realizada em bases de dados específicas e em artigos disponíveis na língua portuguesa, o que pode ter delimitado a identificação de outras evidências pertinentes publicadas em diferentes idiomas ou indexadas em outras bases bibliográficas. De igual forma, a pluralidade metodológica dos estudos selecionados pode ter afetado o cotejo dos resultados encontrados.
7. RECOMENDAÇÕES PARA PESQUISAS FUTURAS
Recomenda-se que futuras pesquisas consolidem a investigação relativa à violência obstétrica e à humanização da assistência durante o ciclo gravídico-puerperal, abrangendo estudos de campo com gestantes, puérperas e equipes de saúde. Considera-se pertinente também a condução de pesquisas que examinem o êxito de programas de capacitação profissional, diretrizes de educação em saúde e políticas públicas concentradas no decréscimo da violência obstétrica e na otimização da assistência humanizada de enfermagem.
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