Contribuições da psicomotricidade para a inclusão e o desenvolvimento cognitivo de alunos com dislexia.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

A educação inclusiva tem se consolidado como um dos principais desafios da contemporaneidade, especialmente no que se refere ao atendimento de estudantes com dificuldades específicas de aprendizagem, como a dislexia. Caracterizada por alterações no processamento fonológico, a dislexia compromete habilidades de leitura e escrita, impactando o desempenho acadêmico e o desenvolvimento emocional dos estudantes. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar as contribuições da psicomotricidade para a inclusão e o desenvolvimento cognitivo de alunos com dislexia no ambiente escolar. A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa e de caráter exploratório, fundamentando-se em autores como Wallon, Vygotsky e Le Boulch, além de estudos contemporâneos sobre psicomotricidade e transtornos de aprendizagem. Os resultados evidenciam que a psicomotricidade, ao integrar corpo, movimento e cognição, contribui significativamente para o desenvolvimento de habilidades essenciais à alfabetização, como lateralidade, orientação espaço-temporal e coordenação motora. Além disso, destaca-se seu papel no fortalecimento da autoestima e na promoção de práticas pedagógicas mais inclusivas, ao possibilitar abordagens multissensoriais e mediadas. Conclui-se que a psicomotricidade constitui uma ferramenta pedagógica relevante para a inclusão escolar, favorecendo o desenvolvimento integral do estudante com dislexia e ampliando as possibilidades de ensino no contexto educacional.

Palavras-chave: Dislexia; Psicomotricidade; Inclusão Escolar; Processo de Aprendizagem; Desenvolvimento Cognitivo.

ABSTRACT:

Inclusive education has emerged as one of the major challenges of our time, particularly with regard to supporting students with specific learning difficulties, such as dyslexia. Characterized by impairments in phonological processing, dyslexia affects reading and writing skills, impacting students’ academic performance and emotional development. In this context, the present study aims to analyze the contributions of psychomotor skills to the inclusion and cognitive development of students with dyslexia in the school environment. The research is characterized as bibliographic, with a qualitative approach and an exploratory nature, drawing on authors such as Wallon, Vygotsky, and Le Boulch, as well as contemporary studies on psychomotor skills and learning disorders. The results show that psychomotor skills, by integrating body, movement, and cognition, contribute significantly to the development of skills essential for literacy, such as handedness, spatial-temporal orientation, and motor coordination. Furthermore, its role in strengthening self-esteem and promoting more inclusive pedagogical practices is highlighted, as it enables multisensory and mediated approaches. It is concluded that psychomotor skills constitute a relevant pedagogical tool for school inclusion, fostering the holistic development of students with dyslexia and expanding teaching possibilities in the educational context.

Keywords: Dyslexia; Psychomotor skills; School inclusion; Learning process; Cognitive development.

INTRODUÇÃO

A educação contemporânea tem sido desafiada a responder, de forma cada vez mais efetiva, às demandas da inclusão escolar, especialmente no que se refere ao atendimento de estudantes com dificuldades específicas de aprendizagem, como a dislexia. Caracterizada por dificuldades no processamento da leitura e da escrita, a dislexia impacta não apenas o desempenho acadêmico, mas também aspectos emocionais e sociais do estudante, exigindo práticas pedagógicas que considerem suas particularidades. Trata-se de um transtorno de aprendizagem que envolve dificuldades persistentes na leitura e na escrita, sem comprometimento intelectual global.

Conforme aponta Ferreira (2011), as barreiras impostas pela dislexia ultrapassam aspectos cognitivos, afetando diretamente o desempenho escolar e o desenvolvimento pessoal da criança. Estudantes com dislexia podem apresentar leitura lenta e hesitante, trocas ou inversões de letras, além de dificuldades na ortografia e na compreensão textual. Em muitos casos, observam-se atrasos na fala, vocabulário reduzido e dificuldades na organização do pensamento. Quando não identificada precocemente ou quando não há intervenções adequadas, a dislexia pode ocasionar baixa autoestima, frustração e dificuldades de socialização, podendo levar à exclusão escolar. Essa compreensão dialoga com Vygotsky (1998), ao evidenciar que as dificuldades de aprendizagem não se desenvolvem de forma isolada, mas estão diretamente relacionadas às interações sociais e às mediações pedagógicas presentes no ambiente escolar.

Nesse contexto, a escola desempenha papel fundamental tanto na identificação precoce quanto no apoio pedagógico aos estudantes com dislexia. Para além do diagnóstico, é imprescindível a implementação de estratégias que respeitem o ritmo de aprendizagem de cada aluno, promovendo um ambiente verdadeiramente inclusivo. A literatura, conforme destaca Monteiro (2021), evidencia que práticas pedagógicas inovadoras e adaptadas são essenciais para enfrentar os desafios decorrentes desse transtorno, perspectiva que se aproxima da concepção de Mantoan (2015), ao defender práticas que rompam com modelos homogêneos de ensino e valorizem a diversidade.

A inclusão escolar, por sua vez, ultrapassa a simples inserção do aluno no espaço físico da escola. Trata-se da construção de uma pedagogia que reconheça as diferenças como constitutivas do processo educativo, valorizando as potencialidades dos estudantes. Nesse cenário, a psicomotricidade emerge como uma importante aliada no processo de inclusão escolar, ao compreender o desenvolvimento humano de forma integrada, articulando aspectos motores, cognitivos e afetivos. Segundo Le Boulch (1988), o movimento constitui elemento estruturante da aprendizagem, sendo fundamental para a organização do esquema corporal, da orientação espacial e temporal e das funções perceptivas, diretamente relacionadas ao processo de alfabetização. Essa perspectiva dialoga com Wallon (1986), que considera o movimento como expressão integrada das dimensões afetiva e cognitiva no desenvolvimento infantil.

Sob essa perspectiva, Wallon (1986) destaca a indissociabilidade entre emoção, movimento e cognição, defendendo que o desenvolvimento infantil ocorre de maneira integrada e dinâmica. Tal compreensão reforça a relevância das práticas psicomotoras no contexto escolar, especialmente para estudantes com dislexia, uma vez que contribuem para o fortalecimento das bases da aprendizagem. Adicionalmente, Vygotsky (1998) enfatiza que o desenvolvimento cognitivo é mediado pelas interações sociais e pelas experiências vivenciadas no ambiente escolar.

Assim, a inserção de atividades psicomotoras como estratégia pedagógica amplia as possibilidades de mediação do professor, favorecendo a construção do conhecimento de forma significativa e inclusiva. Evidencia-se, portanto, a convergência entre os referenciais teóricos ao reconhecerem o corpo, o movimento e a interação como elementos centrais no desenvolvimento da aprendizagem.

Diante disso, observa-se que a dislexia, além de representar um desafio para o processo de ensino e aprendizagem, exige a reflexão sobre metodologias capazes de minimizar suas implicações. Nesse sentido, as atividades psicomotoras configuram-se como uma abordagem promissora, ao oferecer suporte pedagógico alinhado às necessidades desses estudantes. Assim, este estudo busca responder à seguinte questão norteadora: qual é o papel da psicomotricidade na inclusão e no processo de aprendizagem de estudantes com dislexia no contexto escolar?

Para a realização desta pesquisa, adotou-se uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório, por meio de revisão bibliográfica. A investigação fundamenta-se na análise de produções científicas relacionadas à inclusão, dislexia, aprendizagem e psicomotricidade. O referencial teórico baseia-se, principalmente, nas contribuições de Wallon (1986), Le Boulch (1988) e Vygotsky (1998), cuja escolha se justifica pela compreensão integrada entre movimento, afetividade e cognição no desenvolvimento humano.

Dessa forma, o estudo tem como objetivo analisar as contribuições da psicomotricidade para a inclusão e o desenvolvimento cognitivo de estudantes com dislexia. Inicialmente, serão discutidos os fundamentos teóricos da psicomotricidade; em seguida, serão abordadas a dislexia e suas características; e, por fim, será analisado o papel da psicomotricidade como ferramenta pedagógica no processo de aprendizagem. Busca-se, assim, compreender como práticas corporais podem potencializar a aprendizagem, promover a autonomia e garantir a participação efetiva desses estudantes no contexto educacional, reafirmando o compromisso com uma educação inclusiva e de qualidade.

2. DISLEXIA: EVOLUÇÃO CONCEITUAL, CARACTERÍSTICAS E IMPACTOS NA APRENDIZAGEM

2.1 O que é Dislexia

A dislexia é compreendida como um transtorno do neurodesenvolvimento de origem congênita, decorrente de interações complexas entre fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais. O termo, derivado do grego, associa o prefixo dys (dificuldade ou falha) ao radical lexia (linguagem), indicando uma alteração específica na forma como o cérebro processa os sons da fala e os símbolos gráficos da linguagem escrita. Essa condição compromete habilidades fundamentais, como a fluência leitora, a decodificação de palavras, a ortografia e a compreensão textual, manifestando-se mesmo em indivíduos com inteligência preservada, idade cronológica compatível e acesso adequado à escolarização (MOUSINHO, 2017).

Do ponto de vista clínico e educacional, a dislexia caracteriza-se por dificuldades persistentes na leitura e na escrita, mesmo quando o ensino ofertado é considerado adequado. Conforme aponta Geschwind (apud MUSZKAT; RIZZUTTI, 2012), trata-se de uma condição específica que não pode ser atribuída a déficits sensoriais, emocionais ou a falhas no processo de ensino. Essa compreensão é corroborada por documentos internacionais, como o DSM-5 (2014), e por instituições como a Associação Internacional de Dislexia, que reforçam o caráter neurobiológico do transtorno e sua especificidade no campo das dificuldades de aprendizagem.

Além das dificuldades diretamente relacionadas à leitura e à escrita, a dislexia pode afetar outras dimensões do desenvolvimento, como a memória de trabalho, a organização temporal, a atenção sustentada e a coordenação visomotora. Tais dificuldades repercutem significativamente no desempenho acadêmico, especialmente em atividades que exigem rapidez e precisão. Ademais, os impactos da dislexia ultrapassam o campo cognitivo, alcançando também a esfera emocional e social do estudante, sendo frequentes os sentimentos de frustração, insegurança e baixa autoestima, sobretudo quando não há compreensão e apoio adequados no ambiente escolar (RODRIGUES; CIASCA, 2016).

Historicamente, a compreensão da dislexia passou por importantes transformações. No século XIX, o transtorno foi inicialmente associado à “afasia”, sendo posteriormente denominado “cegueira verbal” (MORGAN, 1896 apud MATSCHUCK, 2020). No início do século XX, estudos como os de Orton (1925 apud MATSCHUCK, 2020) passaram a relacionar dislexia à disfunções cerebrais de origem congênita. A partir da década de 1960, surgiram abordagens que enfatizavam aspectos psicológicos e comportamentais. Atualmente, a dislexia é compreendida como um transtorno do neurodesenvolvimento com base científica consolidada, sendo classificada em diferentes tipos, como dislexia fonológica, superficial, profunda e mista (CIASCA, 2016).

Entre as explicações mais aceitas na atualidade, destaca-se o déficit no processamento fonológico, considerado o principal fator associado à dislexia. Esse déficit compromete a capacidade de reconhecer, segmentar e manipular os sons da fala, interferindo diretamente na aprendizagem do sistema alfabético. Dessa forma, o estudante apresenta dificuldades na correspondência entre grafemas e fonemas, o que prejudica a automatização da leitura e da escrita (FERREIRA, 2011).

2.2 Impactos na aprendizagem

Os sinais da dislexia podem manifestar-se desde a primeira infância, especialmente no desenvolvimento da linguagem oral. Atrasos na fala, dificuldades na percepção e discriminação de sons e limitações no vocabulário são indicativos que podem anteceder dificuldades futuras no processo de alfabetização. No entanto, o diagnóstico costuma ocorrer apenas nos anos iniciais do ensino fundamental, quando as demandas relacionadas à leitura e à escrita se tornam mais evidentes. Na prática pedagógica, o estudante com dislexia pode apresentar leitura lenta e fragmentada, trocas e inversões de letras, omissões de sílabas, dificuldades na compreensão textual e desorganização na escrita. É importante ressaltar que tais dificuldades não estão associadas à falta de esforço ou interesse, mas sim a uma forma distinta de funcionamento cerebral. Nesse sentido, a compreensão da dislexia deve romper com visões reducionistas e preconceituosas, que frequentemente rotulam o estudante como desatento ou incapaz (RODRIGUES; CIASCA, 2016).

Outro aspecto relevante refere-se à plasticidade cerebral, que evidencia a capacidade do cérebro de reorganizar-se a partir de estímulos adequados. Conforme aponta Dehaene (2012 apud MATSCHUCK, 2020), intervenções pedagógicas estruturadas, especialmente aquelas voltadas ao desenvolvimento da consciência fonológica, podem promover avanços significativos no desempenho acadêmico de estudantes com dislexia. Estratégias que envolvem jogos, atividades lúdicas e abordagens multissensoriais têm se mostrado eficazes na superação das dificuldades e na promoção da aprendizagem.

No contexto brasileiro, o reconhecimento da dislexia no campo educacional tem avançado gradativamente, acompanhando os movimentos mais amplos de inclusão. A Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabeleceram princípios fundamentais de equidade e acesso à educação. Mais recentemente, a Lei nº 14.254/2021 representou um marco importante ao determinar a obrigatoriedade da identificação precoce e do acompanhamento de estudantes com dislexia, reforçando o compromisso com uma

educação inclusiva.

Entretanto, apesar dos avanços legais, ainda persistem desafios significativos na efetivação desses direitos no cotidiano escolar. A ausência histórica da dislexia como público-alvo prioritário da educação especial contribuiu para lacunas na formação docente e na implementação de práticas pedagógicas adequadas. Nesse sentido, torna-se imprescindível fortalecer políticas públicas, investir na formação continuada de professores e ampliar o uso de estratégias pedagógicas que atendam às especificidades desses estudantes.

Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de abordagens educacionais que considerem o desenvolvimento integral do aluno, contemplando aspectos cognitivos, emocionais e motores. Nesse contexto, a psicomotricidade destaca-se como uma estratégia pedagógica relevante, ao integrar corpo e mente no processo de aprendizagem, contribuindo de forma significativa para a inclusão e o desenvolvimento de estudantes com dislexia.

3. OS PRINCÍPIOS TEÓRICOS E PRÁTICOS DA PSICOMOTRICIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR

3.1 Concepções teóricas da Psicomotricidade

A psicomotricidade consolidou-se como uma área transdisciplinar que investiga as relações entre corpo, mente e emoções ao longo do desenvolvimento humano. Diferentemente de abordagens que compreendem o movimento apenas sob a perspectiva biológica ou mecânica, a psicomotricidade entende que toda ação motora envolve dimensões psíquicas, às quais o movimento está intrinsecamente ligado ao fazer, ao pensar e ao sentir (LE BOULCH, 1988; WALLON, 1986).

No plano teórico, esse campo evoluiu de uma concepção funcional, centrada no treino de habilidades isoladas, para uma abordagem relacional e integrada. Tal mudança fundamenta-se em estudos clássicos de autores como LAPIERRE e AUCOUTURIER (1984), sendo reforçada por FURINI e SELAU (2010), que defendem que o desenvolvimento ocorre por meio da interação contínua entre funções motoras e o universo emocional da criança.

Nessa perspectiva, o desenvolvimento humano acontece a partir da relação dinâmica entre movimento e afetividade. A criança aprende ao explorar o espaço, manipular objetos e interagir com o outro, evidenciando que o conhecimento é construído a partir da experiência corporal. Assim, a psicomotricidade deve ser compreendida como uma abordagem educacional que favorece o desenvolvimento integral do estudante, cabendo ao educador atuar como mediador desse processo, respeitando as singularidades de cada sujeito (FURINI; SELAU, 2010; VYGOTSKY, 1998).

No âmbito prático, essa abordagem se concretiza principalmente por meio de jogos, brincadeiras e atividades lúdicas, que valorizam a espontaneidade e a expressão corporal. Ao priorizar o lúdico, a escola possibilita que o estudante desenvolva consciência de suas capacidades, respeitando seu ritmo de aprendizagem. Conforme apontam GIBELLI (2014) e MONTEIRO (2021), tais práticas contribuem para o fortalecimento da autonomia e para a valorização das potencialidades individuais.

Além disso, atividades que envolvem deslocamentos, coordenação motora e orientação espacial favorecem o desenvolvimento de habilidades fundamentais à aprendizagem, como atenção, organização e percepção espaço-temporal (LE BOULCH, 1988; FONSECA, 2010). Nesse sentido, a psicomotricidade configura-se como um importante recurso pedagógico para a promoção de práticas inclusivas.

Por fim, a integração dessas ações no cotidiano escolar, conforme destacam FREITAS, LOPES e SÁ (2023), contribui para a construção de um ambiente educacional mais equitativo, no qual o movimento é compreendido como uma linguagem acessível a todos. Diante dessa compreensão da psicomotricidade como base estruturante do desenvolvimento humano, torna-se pertinente analisar sua aplicação específica no atendimento a estudantes com dificuldades de aprendizagem, como a dislexia.

3.2 A psicomotricidade como ferramenta pedagógica para a inclusão de estudantes com dislexia

A inclusão de estudantes com dislexia no contexto escolar demanda a adoção de práticas pedagógicas que considerem o desenvolvimento integral do sujeito, articulando dimensões cognitivas, motoras, emocionais e sociais. Nesse cenário, a psicomotricidade destaca-se como uma abordagem pedagógica relevante, uma vez que compreende o corpo como mediador fundamental da aprendizagem, possibilitando a construção do conhecimento por meio da ação, da experiência e da interação com o meio (LE BOULCH, 1988; WALLON, 1986).

A dislexia, caracterizada por dificuldades no processamento fonológico e na automatização da leitura e da escrita, não se limita a aspectos linguísticos, envolvendo também déficits relacionados à organização espaço-temporal, à coordenação motora e à integração perceptivo-motora (SNOWLING, 2013; CAPELLINI; GERMANO, 2014). Dessa forma, torna-se evidente a necessidade de intervenções que atuem nessas bases estruturais da aprendizagem. É nesse ponto que a psicomotricidade se apresenta como uma estratégia pedagógica eficaz, ao promover o desenvolvimento dessas habilidades de maneira integrada e significativa.

Sob a perspectiva psicomotora, o processo de aprendizagem é compreendido como resultado da interação entre corpo, movimento e cognição. Conforme Le Boulch (1988), o domínio do esquema corporal constitui condição essencial para a aquisição de competências mais complexas, como a leitura e a escrita. A organização do corpo no espaço, a lateralidade e a orientação temporal são elementos fundamentais para que o estudante compreenda a direção da escrita, a sequência dos símbolos e a estrutura do texto. Nesse sentido, a psicomotricidade contribui diretamente para o desenvolvimento de habilidades básicas necessárias à alfabetização. Atividades que trabalham a lateralidade, por exemplo, auxiliam na distinção entre direita e esquerda, aspecto essencial para a orientação da leitura. Já exercícios que estimulam a coordenação visomotora favorecem a organização espacial da escrita, contribuindo para a legibilidade e para a estruturação gráfica das palavras (OLIVEIRA, 2013).

Além das contribuições no campo cognitivo, a psicomotricidade exerce papel significativo no desenvolvimento emocional do estudante com dislexia. Muitas vezes, esses alunos vivenciam situações de fracasso escolar que impactam negativamente sua autoestima e motivação. As atividades psicomotoras, especialmente quando desenvolvidas em contextos lúdicos, proporcionam experiências de sucesso, fortalecendo a autoconfiança e promovendo uma relação mais positiva com o processo de aprendizagem (FONSECA, 2010).

Sob a ótica de Wallon (1986), o desenvolvimento humano ocorre de forma integrada, sendo impossível dissociar emoção, movimento e cognição. Essa perspectiva reforça a importância da psicomotricidade como prática pedagógica inclusiva, uma vez que considera o estudante em sua totalidade. Ao favorecer a expressão corporal e a vivência do movimento, cria-se um ambiente mais acolhedor e menos centrado no erro, o que é especialmente importante para alunos com dificuldades de aprendizagem.

Ademais, a abordagem psicomotora dialoga diretamente com a teoria sociocultural de Vygotsky (1998), ao enfatizar o papel da mediação e da interação social no desenvolvimento das funções psicológicas superiores. O professor, ao propor atividades psicomotoras, atua como mediador do conhecimento, criando situações em que o estudante pode avançar em sua zona de desenvolvimento proximal. Nesse contexto, o movimento torna-se uma linguagem alternativa que possibilita a construção do conhecimento de forma concreta e significativa.

Outro aspecto relevante refere-se ao caráter multissensorial das práticas psicomotoras. Ao integrar diferentes canais perceptivos — visual, auditivo e cinestésico — , essas atividades favorecem a aprendizagem de estudantes com dislexia, que frequentemente apresentam dificuldades em abordagens exclusivamente baseadas na linguagem escrita (SHAYWITZ, 2006). Estratégias como jogos rítmicos, atividades com música, uso do corpo para representar letras e sílabas e circuitos motores ampliam as possibilidades de aprendizagem, tornando o processo mais acessível e eficaz.

No contexto escolar, a aplicação da psicomotricidade pode ocorrer por meio de atividades planejadas que articulem objetivos pedagógicos e desenvolvimento

motor. Circuitos psicomotores, jogos simbólicos, atividades de equilíbrio, coordenação e ritmo são exemplos de práticas que podem ser incorporadas ao cotidiano da sala de aula. Tais estratégias contribuem não apenas para o desenvolvimento das habilidades motoras, mas também para o aprimoramento de funções cognitivas como atenção, memória, organização e planejamento (LE BOULCH, 1988; FONSECA, 2010).

Dessa forma, a psicomotricidade configura-se como uma ferramenta pedagógica essencial para a inclusão de estudantes com dislexia, ao atuar nas bases estruturais da aprendizagem e promover o desenvolvimento integral do sujeito. Ao reconhecer o corpo como elemento central no processo educativo, amplia-se a compreensão de ensino, tornando-o mais inclusivo, significativo e alinhado às necessidades dos estudantes. Assim, consolida-se como uma estratégia pedagógica potente para a promoção de práticas educativas mais acessíveis e integradoras.

4. DISLEXIA E PSICOMOTRICIDADE NA PRÁTICA: INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS NO CONTEXTO ESCOLAR

A atuação pedagógica junto a estudantes com dislexia requer práticas intencionais, sistemáticas e adaptadas às suas necessidades específicas, sem desconsiderar suas potencialidades (FERREIRA, 2011). Nesse contexto, o professor desempenha papel fundamental tanto na identificação das dificuldades quanto na implementação de estratégias que favoreçam a aprendizagem. Conforme destacam RODRIGUES e CIASCA (2016), a intervenção pedagógica deve ser contínua e fundamentada em metodologias diversificadas, que considerem as diferentes formas de aprender.

Nesse sentido, a psicomotricidade apresenta-se como uma importante aliada, ao integrar corpo e aprendizagem de maneira significativa. Dificuldades comuns na dislexia, como inversões de letras, desorganização espacial e lentidão na leitura, podem ser trabalhadas por meio de atividades psicomotoras que desenvolvem lateralidade, coordenação e orientação espaço-temporal (LE BOULCH, 1988). Estratégias como jogos corporais, atividades visomotoras e práticas rítmicas favorecem não apenas o desenvolvimento motor, mas também aspectos relacionados à consciência fonológica e à organização da escrita.

Além disso, o uso de circuitos psicomotores contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como atenção, memória e planejamento, essenciais ao processo de alfabetização (FONSECA, 2010). Tais práticas tornam o aprendizado mais concreto, dinâmico e acessível ao estudante, especialmente quando associadas a abordagens multissensoriais.

Outro aspecto relevante refere-se ao impacto emocional dessas intervenções. Conforme WALLON (1986), o desenvolvimento humano é indissociável das dimensões afetivas, cognitivas e motoras. Assim, ao participar de atividades psicomotoras, o estudante com dislexia tende a desenvolver maior autoconfiança, reduzindo sentimentos de frustração e favorecendo sua participação ativa no ambiente escolar.

Dessa forma, a psicomotricidade, quando integrada ao planejamento pedagógico, contribui significativamente para a inclusão e o desenvolvimento global do estudante. Ao utilizar o corpo como mediador do conhecimento, o professor amplia suas possibilidades de ensino, promovendo práticas mais inclusivas, significativas e eficazes (MANTOAN, 2015; VYGOTSKY, 1998).

Guia Prático de Intervenção Pedagógica e Psicomotricidade na Dislexia

Dimensão

Estratégias e

Atividades

Objetivos

Pedagógicos

Referencial Teórico

Lateralidade

Jogos de comando corporal (direita/esquerda)

.

Orientação correta da leitura e da escrita; evitar inversão de letras.

Le Boulch (1988):

Organização corporal para símbolos gráficos.

Coordenação

Visomotora

Traçados, recortes e

manipulação de objetos.

Organização da escrita no espaço do papel; precisão no traçado.

Rodrigues e Ciasca (2016):

Práticas multissensoriais.

Consciência Fonológica

Ritmo, música, palmas e

repetição de sílabas.

Articulação entre movimento e percepção sonora.

Vygotsky (1998): Integração de experiências sensoriais e sociais.

Organização Espaço-Temporal

Circuitos psicomotores

(percurso de obstáculos).

Desenvolvimento

da atenção; memória e sequência lógica.

Rodrigues e Ciasca (2016):

Intervenção contínua e sistemática.

Aspecto Socioemocional

Atividades lúdicas e integradoras.

Redução da frustração;aumento da autoconfiança e inclusão.

Wallon (1986): Integração

entre

emoção, movimento e cognição.

Guia elaborado pelas autoras deste trabalho

O guia se destaca por oferecer ao professor um direcionamento claro e organizado, facilitando a aplicação de estratégias psicomotoras no dia a dia da sala de aula. Ao apresentar atividades associadas a objetivos pedagógicos e fundamentação teórica, ele contribui para que a prática docente deixe de ser improvisada e passe a ser intencional e planejada, atendendo às necessidades específicas dos estudantes com dislexia.

Outro ponto positivo é que o guia possibilita a integração entre teoria e prática, algo que muitas vezes é uma dificuldade na educação. O professor não apenas compreende o porquê das atividades, mas também como aplicá-las, o que favorece intervenções mais eficazes e alinhadas ao desenvolvimento cognitivo, motor e emocional dos alunos.

Além disso, o guia promove uma abordagem inclusiva e acessível, pois suas propostas podem ser adaptadas para diferentes contextos e para todos os estudantes, não apenas aqueles com dislexia. Isso contribui para a construção de um ambiente mais equitativo, onde as diferenças são respeitadas e valorizadas.

Por fim, sua utilização favorece o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais dinâmicas, lúdicas e significativas, aumentando o engajamento dos alunos e fortalecendo sua autoestima. Dessa forma, o guia não apenas auxilia no processo de aprendizagem, mas também contribui para a permanência e participação ativa dos estudantes no ambiente escolar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida ao longo deste estudo permitiu compreender, de forma mais consistente, a importância da psicomotricidade no processo de inclusão e no desenvolvimento cognitivo de estudantes com dislexia, evidenciando que essa abordagem ultrapassa a condição de recurso complementar, configurando-se como elemento fundamental da prática pedagógica inclusiva.

No que se refere à compreensão da dislexia, observou-se que, apesar dos avanços nos estudos científicos e nos marcos legais, ainda persiste uma distância significativa entre o conhecimento teórico e sua efetivação no contexto escolar. As dificuldades relacionadas ao processamento fonológico, à organização espaçotemporal e à coordenação motora, discutidas ao longo deste estudo, nem sempre são devidamente identificadas ou trabalhadas pelos professores. Tal cenário revela fragilidades no acompanhamento pedagógico desses estudantes, frequentemente marcado pela ausência de intervenções planejadas e pela predominância de metodologias tradicionais, que não contemplam suas especificidades.

Ao analisar os fundamentos da psicomotricidade, verificou-se que essa abordagem compreende o desenvolvimento infantil de forma integrada, articulando corpo, emoção e cognição. Essa perspectiva rompe com práticas pedagógicas fragmentadas e valoriza o movimento e a experiência corporal como bases da aprendizagem. Contudo, apesar de sua relevância teórica e prática, a psicomotricidade ainda é pouco explorada no cotidiano escolar, sendo, muitas vezes, aplicada de forma desarticulada dos objetivos pedagógicos. A articulação entre os referenciais teóricos de Wallon, Le Boulch e Vygotsky, bem como de autores contemporâneos, reforça a compreensão de que o desenvolvimento humano ocorre de maneira integrada, sendo o movimento uma linguagem primordial no processo de aprendizagem. Para estudantes com dislexia, cujas dificuldades extrapolam o campo linguístico, a psicomotricidade configura-se como uma abordagem indispensável, capaz de superar limitações do ensino tradicional centrado exclusivamente na linguagem escrita.

No que se refere à aplicação prática, a análise evidenciou que as atividades psicomotoras contribuem significativamente para o desenvolvimento de habilidades essenciais à alfabetização, como lateralidade, consciência fonológica, coordenação motora e organização espaço-temporal. Ademais, tais práticas favorecem o desenvolvimento emocional dos estudantes, promovendo autoestima, autoconfiança e maior engajamento nas atividades escolares.

O Guia Prático de Intervenção elaborado demonstra a viabilidade da implementação dessas práticas no cotidiano escolar, ao oferecer ao professor um repertório sistematizado de atividades que atendem às especificidades do transtorno e às necessidades dos estudantes de modo geral. Quando incorporadas ao planejamento pedagógico, essas estratégias transformam desafios em oportunidades de aprendizagem significativas.

Entretanto, ao analisar criticamente a realidade educacional, observa-se uma lacuna na forma como a escola lida com as dificuldades de aprendizagem, especialmente no caso da dislexia. A permanência de práticas pedagógicas padronizadas, que desconsideram as diferenças individuais, contribui para processos de exclusão no interior da própria sala de aula. Soma-se a isso a insuficiência de formação continuada dos professores e a ausência de políticas públicas que integrem a psicomotricidade ao currículo escolar.

Dessa forma, compreende-se que a efetivação da educação inclusiva para estudantes com dislexia exige a superação de práticas tradicionais fragmentadas, demandando abordagens pedagógicas integradoras que considerem a totalidade do sujeito. Nesse contexto, a psicomotricidade não se configura apenas como recurso auxiliar, mas como elemento estruturante de uma pedagogia da diferença, comprometida com a equidade educacional. Diante disso, defende-se que a psicomotricidade deve ser reconhecida como uma ferramenta pedagógica essencial no processo de ensino e aprendizagem, especialmente no atendimento a estudantes com dislexia. Ao integrar diferentes dimensões do desenvolvimento humano, apresenta-se como uma estratégia eficaz para a promoção de uma educação mais inclusiva, significativa e acessível.

Assim, torna-se necessário investir na formação docente, na reorganização das práticas pedagógicas e na inserção sistemática de atividades psicomotoras no cotidiano escolar. Tais ações contribuem não apenas para o desenvolvimento dos estudantes com dislexia, mas também para a construção de uma escola mais justa, em consonância com os princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que asseguram o direito à educação de qualidade para todos, pautada na equidade, no respeito às diferenças e na garantia de acesso, permanência e sucesso escolar.

Por fim, reafirma-se que a psicomotricidade contribui de forma significativa para o desenvolvimento cognitivo e emocional de estudantes com dislexia, constituindo-se como um caminho promissor para a inclusão escolar. Recomenda-se, para pesquisas futuras, a realização de estudos empíricos que investiguem os efeitos longitudinais dessas intervenções, bem como o aprofundamento na formação docente para a implementação de práticas psicomotoras. Torna-se igualmente imprescindível o fortalecimento de políticas públicas que assegurem recursos e capacitação para a efetivação dessas estratégias nas redes de ensino, consolidando o compromisso com uma educação verdadeiramente inclusiva e de qualidade para todos os estudantes.

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  1. Graduanda do Curso de Pedagogia da Universidade de Vassouras, campus Saquarema, Rio de Janeiro,

    Brasil. elainefreitas1589@gmail.com

  2. Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( UERJ). flavianecoutinhoamericano@gmail.com

  3. Graduanda do Curso de Pedagogia da Universidade de Vassouras, campus Saquarema, Rio de Janeiro,

    Brasil. ninalive2009@gmail.com

  4. Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciência, Tecnologia Inclusão (PGCTIn)- Universidade Federal Fluminense - UFF, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. tainaramatschuck@gmail.com

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