Abstract
This article investigates the territorialities of Umbanda through the lenses of Cultural Geography and the Geography of Religions, articulating the concepts of sacred space, territory, and memory to understand the terreiro as an expression of cultural resistance in the face of urban marginalization and religious intolerance. This is a qualitative study based on a systematized bibliographic review. It argues that Umbanda terreiros present specific territorialities that, beyond their liturgical dimension, function as places of memory, spaces of social inclusion, and points of resistance against the erasure of African and Indigenous-rooted cultures from the Brazilian urban landscape. The analysis reveals that the struggle over the terreiro's space is intrinsically linked to the fight for the right to the city and for the recognition of Afro-Brazilian cultural heritage.
Keywords: Umbanda; Territoriality; Sacred Space; Place of Memory; Cultural Resistance.
Resumen
Este artículo investiga las territorialidades de la Umbanda desde la Geografía Cultural y la Geografía de las Religiones, articulando los conceptos de espacio sagrado, territorio y memoria para comprender el terreiro como una expresión de resistencia cultural frente a los procesos de marginalización urbana e intolerancia religiosa. Se trata de una investigación cualitativa, basada en una revisión bibliográfica sistematizada. Se sostiene que los terreiros de Umbanda presentan territorialidades específicas que, más allá de su dimensión litúrgica, actúan como lugares de memoria, espacios de acogida social y puntos de resistencia ante la invisibilización de las culturas de matriz africana e indígena en el paisaje urbano brasileño. El análisis evidencia que la disputa por el espacio del terreiro está intrínsecamente ligada a la lucha por el derecho a la ciudad y por el reconocimiento del patrimonio cultural afrobrasileño.
Palabras clave: Umbanda; Territorialidad; Espacio Sagrado; Lugar de Memoria; Resistencia Cultural.
- 1. Introdução
A Umbanda, religião genuinamente brasileira que emerge do encontro entre matrizes culturais africanas, indígenas, católicas e kardecistas no início do século XX, constitui um dos segmentos socioculturais mais significativos na configuração territorial do país. Apesar de sua importância histórica e simbólica, os locais de culto umbandista têm sido historicamente marcados pela marginalização espacial, segregação urbana e ataques motivados pela intolerância religiosa. Cruz (2024) destaca que essa intolerância reflete, essencialmente, o racismo estrutural presente na sociedade brasileira, mais do que simples divergências teológicas.
Compreender as territorialidades da Umbanda sob o olhar da Geografia exige uma abordagem que articule as dimensões materiais e simbólicas do espaço. O terreiro ultrapassa sua condição de espaço físico onde se realiza os rituais: é concebido como espaço sagrado, caracterizado pela comunicação com o mundo espiritual; funciona ainda como um lugar de memória, fundamental para a preservação e transmissão dos saberes ancestrais; além disso, constitui um território de resistência cultural, no qual comunidades historicamente marginalizadas reivindicam seu direito à existência e à ocupação no ambiente urbano [ELÍADE, 1993]. Meira, Amorim e Carmo (2014, p. 154) reforçam a ideia de que o terreiro de Umbanda é um espaço que preserva uma memória e atua como patrimônio de memória, em que o material sustenta o imaterial. Assim, o terreiro possui um duplo sentido: é espaço material, repleto de patrimônio físico e cultural, e também detentor de simbolismo por meio das tradições orais. Esta investigação se orienta por uma tríade analítica: a territorialidade litúrgica e a organização do espaço sagrado; o terreiro enquanto lugar de memória e patrimônio imaterial; e a dimensão política da territorialidade umbandista como resistência cultural e luta pelo direito à cidade.
- 2. Territorialidade Litúrgica: O Espaço Sagrado no Terreiro
A Geografia das Religiões oferece ferramentas teóricas essenciais para compreender as territorialidades da Umbanda. Inspirado pela fenomenologia do sagrado, Eliade (1993) concebe o espaço sagrado como uma ruptura na continuidade do espaço profano, um locus privilegiado de manifestação do divino. O terreiro pode ser compreendido como uma hierofania, pois representa um espaço com características qualitativas singulares, onde se estabelecem relações integradas entre a dimensão material e a espiritual, permitindo a manifestação direta do sagrado no cotidiano das comunidades umbandistas ( (MEIRA, et al. 2014). O espaço sagrado no terreiro reúne elementos materiais do ritual — como velas, defumadores e cachimbos — com a própria manifestação do divino. Nesse sentido, a Umbanda se particulariza por permitir uma comunicação direta com o sagrado, sem intermediações.
Barros (2008) entende os terreiros afro-brasileiros como espaços sociais, míticos e simbólicos, onde a natureza e sua fidelidade se unem para vivenciar uma realidade distinta imposta pelo cotidiano ou pela sociedade. Embora inseridos na malha urbana, os terreiros também se apresentam como espaços apartados, configurando uma verdadeira 'topografia do sagrado', onde elementos litúrgicos tais como congás, assentamentos dos orixás e guias, áreas designadas a passe e descarrego, bem como locais de oferendas em zonas naturais como matas, são organizados em consonância com orais e simbolismos ancestrais (SILVA, 2012). O terreiro se põe como um espaço de conexão com o sagrado, carregado de simbolismos ancestrais que possibilitam a reconexão do sujeito com sua origem. Tal configuração supera a racionalidade típica dos espaços urbanos, revelando uma territorialidade singular que ultrapassa os limites físicos do terreiro. Por meio de práticas ritualísticas, como as ofertas realizadas em encruzilhadas, praias e matas, constrói-se uma territorialidade simbólica que, mesmo efêmera, desempenha papel fundamental para a afirmação do sagrado e a continuidade das tradições religiosas (BARROS, 2008).
- 3. O Terreiro como Lugar de Memória e Patrimônio Imaterial
Uma categoria de lugar de memória, conforme delineada por Nora (1993), refere-se a espaços onde se cristaliza a memória coletiva diante do risco de desaparecimento, respondendo às transformações históricas e à fragmentação identitária contemporânea. Meira, Amorim e Carmo (2014) Aplicar essa categoria aos terreiros, considerando-os:
- Materiais — espaços físicos para realização dos rituais;
- Funcionais — garantidores da transmissão de saberes;
- Simbólicos — expressivos de identidades e pertencimentos sociais.
Os cultos aos pretos-velhos e caboclos nas cerimônias umbandistas articulam uma reelaboração contínua de memórias traumáticas e uma resistência simbólica ao apagamento histórico dos africanos escravizados e dos povos indígenas originários. Silva Et al. (2021) destacam que o culto a esses espíritos, nas religiões afro-brasileiras, configura-se como forma de resistir e preservar identidades e narrativas historicamente marginalizadas. Embora o reconhecimento dos terreiros enquanto patrimônio cultural imaterial por meio de tombamentos e políticas públicas represente avanços recentes, ainda persiste pressão imobiliária e episódios de intolerância religiosa que colocam esses espaços em risco constante.
- 4. Territorialidade como Resistência: A Dimensão Política do Espaço Sagrado
A territorialidade da Umbanda possui uma dimensão política central, configurando o terreiro como locus de disputa e afirmação identitária. A presença das religiões de matriz africana nas cidades brasileiras têm sido marcada historicamente por processos persistentes de repressão e criminalização formal e informal. Conforme Silva (2012), a legislação aplicada nos séculos XIX e XX contribuiu para a construção de uma “geografia da clandestinidade”, visível até hoje na concentração dos terreiros em áreas periféricas, um reflexo da marginalização socioespacial dessas comunidades e das limitações impostas sobre seus espaços de culto.
Barros (2008) ressalta que os terreiros afro-brasileiros são espaços onde se articulam discursos subalternos e onde se trava um confronto histórico de narrativas. Com o crescimento das tendências neopentecostais, intensificaram-se os conflitos em torno das religiões afro-brasileiras, manifestados tanto por ataques simbólicos quanto físicos direcionados aos terreiros. Essa escalada de tensão reflete um embate que ultrapassa o campo religioso e se insere no domínio da disputa por legitimidade e controle cultural das narrativas urbanas. Pierucci, citado por Cruz (2024), aponta que essa demonização dos orixás se sustenta no medo das pessoas, revelando o racismo religioso como um mecanismo eficiente de controle e exclusão territorial.
O conceito de direito à cidade, proposto por Lefebvre (1991), amplia a análise ao situar a luta pelos espaços — incluindo os terreiros — como parte do acesso pleno e da participação na vida urbana, reconhecendo os espaços sagrados como direitos fundamentais para a diversidade cultural.
- 5. Metodologia
Este estudo empregou uma abordagem qualitativa fundamentada na realização de uma revisão bibliográfica sistematizada, cuja seleção privilegiada de obras teóricas e empíricas pertinentes às dimensões geográficas, culturais e políticas da Umbanda. Foram priorizadas fontes originais e recentes, acessadas em bases acadêmicas reconhecidas, como SciELO, repositórios institucionais e catálogos especializados.
A metodologia adotada contempla uma análise crítica criteriosa dos textos selecionados, com ênfase em conceitos-chave como espaço sagrado, lugar de memória, resistência cultural e direito à cidade. Essa análise visa integrar e articular esses elementos para construir uma compreensão aprofundada da territorialidade umbandista. A fundamentação teórica foi orientada por referências clássicas da fenomenologia da religião (Eliade, 1993), da teoria social urbana (Lefebvre, 1991), bem como por investigações contemporâneas sobre as religiões afro-brasileiras no contexto sociocultural urbano brasileiro.
A atenção rigorosa à origem, consistência e atualidade das informações garantiu a confiabilidade dos dados, evitando extrapolações que não estejam amparadas pela literatura especializada.
- 6. Considerações Finais
A análise das diversas territorialidades da Umbanda no contexto dos espaços urbanos brasileiros evidencia a complexidade intrínseca às relações entre espaço, prática religiosa e dinâmicas de poder. Os terreiros configuram-se como espaços multifacetados, combinando dimensões sagradas e cosmológicas, funções de preservação e transmissão cultural, além de atuarem como territórios políticos fundamentais de resistência contra as estruturas racistas e a intolerância religiosa presente na sociedade.
A contínua invisibilidade e marginalização dos terreiros na paisagem urbana resultou de processos históricos de segregação e repressão institucional, alguns desdobramentos atuais. Reconhecer a Umbanda como uma manifestação cultural viva, com territórios legítimos, implica afirmar o direito à diversidade cultural e à ocupação equitativa do espaço urbano.
Esse estudo enfatiza o papel fundamental da Geografia na compreensão das lutas sociais e das formas de resistência que destacam para a configuração territorial brasileira, ressaltando ainda a urgência na implementação de políticas públicas que protejam e valorizem os espaços sagrados das religiões afro-brasileiras enquanto patrimônio cultural imaterial.
- Referências Bibliográficas
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