Síndrome dos ovários policísticos e saúde mental: uma revisão integrativa dos principais prejuízos psicoemocionais.
Polycystic ovary syndrome and mental health: an integrative review of the main psycho-emotional impairments.
Maria Eduarda Borges Pereira
Isadora Macêdo Barbosa
Nilson Rodrigo Galvão Marques
Orientadora: Profa. Anna Izabel Alves Santos Cangussu
RESUMO
Introdução: A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma das endocrinopatias mais prevalentes em mulheres em idade reprodutiva. Para além dos aspectos ginecológicos e metabólicos, compromete a saúde mental e a qualidade de vida, associando-se a ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades na imagem corporal e na infertilidade. Justificativa: Apesar dos avanços científicos, ainda há lacunas na compreensão dos impactos emocionais e psicossociais da SOP, sendo essencial uma análise crítica que favoreça práticas clínicas mais humanizadas. Problema de Pesquisa: De que maneira os desequilíbrios hormonais e os fatores psicossociais associados à SOP contribuem para o desenvolvimento de quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima em mulheres? Objetivos: Investigar os principais prejuízos emocionais relacionados à SOP e discutir estratégias integrativas que envolvam abordagem médica, psicológica e mudanças no estilo de vida. Metodologia: Revisão de literatura narrativa em bases nacionais e internacionais, com recorte temporal de 2020 a 2025, incluindo estudos em português, inglês e espanhol. Resultados Esperados: Evidenciar a relação entre desequilíbrios hormonais e sofrimento psíquico, além do impacto de fatores sociais, como estigma e infertilidade. Prevê-se destacar a eficácia de intervenções multidisciplinares na promoção da qualidade de vida e adesão terapêutica.
Palavras-chave: Síndrome dos Ovários Policísticos. Saúde Mental. Impactos emocionais. Infertilidade.
ABSTRACT
Introduction: Polycystic Ovary Syndrome (PCOS) is one of the most prevalent endocrinopathies in women of reproductive age. Beyond gynecological and metabolic aspects, it affects mental health and quality of life, being associated with anxiety, depression, low self-esteem, body image issues, and infertility. Justification: Despite scientific advances, there are still gaps in understanding the emotional and psychosocial impacts of PCOS, highlighting the need for more humanized clinical approaches. Research problem: How do hormonal imbalances and psychosocial factors linked to PCOS contribute to the development of anxiety, depression, low self-esteem, and emotional distress in women? Objectives: To investigate the main emotional impairments associated with PCOS and to discuss integrative strategies combining medical care, psychological support, and lifestyle changes. Methodology: Narrative literature review based on national and international databases, covering studies published from 2020 to 2025 in Portuguese, English, and Spanish. Expected Results: To demonstrate the association between hormonal imbalance and psychological distress, as well as the influence of social stigma and infertility. It is expected to emphasize the role of multidisciplinary interventions in improving quality of life and treatment adherence.
Keywords: Polycystic Ovary Syndrome. Mental Health. Emotional Disorders.
Infertility.
1. INTRODUÇÃO
A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma das condições endócrinas mais prevalentes em mulheres em idade reprodutiva, caracterizando-se por alterações hormonais, ciclos menstruais irregulares e manifestações clínicas como acne, hirsutismo, obesidade e infertilidade. Embora frequentemente abordada sob a ótica metabólica e ginecológica, a SOP repercute de maneira ampla na vida das mulheres, afetando não apenas a saúde física, mas também dimensões emocionais, sociais e psicológicas (Outa; Werner; Morbach, 2024).
Esses impactos, que incluem desde dificuldades relacionadas à autoimagem até o enfrentamento de estigmas sociais e familiares, contribuem para um sofrimento que vai além dos sintomas clínicos. A qualidade de vida das mulheres com SOP, portanto, não pode ser compreendida apenas pela presença dos sinais físicos, mas deve ser analisada à luz dos prejuízos psicoemocionais que acompanham a síndrome (Agnol et al., 2024).
Nesse sentido, compreender os fatores que intensificam esse sofrimento, como a infertilidade, o estigma social e a falta de informação, é essencial para a construção de estratégias de cuidado mais eficazes. Este trabalho tem como objetivo investigar os principais prejuízos à saúde mental associados à SOP, explorando a interação entre fatores biológicos e psicossociais, e discutindo propostas terapêuticas integrativas que favoreçam um cuidado mais humanizado e integral às mulheres acometidas.
2. JUSTIFICATIVA
A SOP é reconhecida como um dos distúrbios endócrinos mais prevalentes entre mulheres em idade reprodutiva, gerando repercussões que transcendem os aspectos físicos, impactando diretamente a saúde mental e a qualidade de vida. No entanto, apesar dos avanços no entendimento clínico e metabólico da doença, observa-se uma carência significativa de discussões aprofundadas sobre os prejuízos emocionais e psicossociais inerentes à SOP, tanto na prática profissional quanto na produção acadêmica.
Neste sentido, considerando essa lacuna, este trabalho, elaborado sob a forma de revisão de literatura, torna-se de grande relevância, visto que possibilitará a consolidação de conhecimentos teóricos atualizados acerca dos principais impactos da SOP sobre a saúde mental. Ao reunir, analisar e discutir os achados presentes na literatura científica, será possível proporcionar uma compreensão mais ampla, crítica e fundamentada sobre a temática, favorecendo a disseminação de informações consistentes e acessíveis aos profissionais da saúde, estudantes e à sociedade.
Do ponto de vista teórico, o desenvolvimento deste estudo permitirá não apenas a organização e sistematização do conhecimento existente, mas também contribuirá para a clarificação de conceitos, resolução de pontos obscuros e fortalecimento das discussões sobre a interface entre os desequilíbrios hormonais da SOP e os transtornos emocionais associados. Além disso, viabiliza uma análise que pode direcionar futuras pesquisas, bem como reflexões sobre a necessidade de práticas clínicas mais integrativas e humanizadas.
A importância deste tema, tanto em âmbito geral quanto para os casos particulares, reside no fato de que os impactos emocionais da SOP são frequentemente negligenciados, gerando sofrimento psíquico que repercute na adesão ao tratamento, na qualidade de vida e no bem-estar das mulheres acometidas. Portanto, ao promover uma discussão qualificada e baseada em evidências disponíveis na literatura, este trabalho poderá auxiliar na conscientização de profissionais da saúde sobre a necessidade de uma abordagem mais ampla, que contemple não apenas os aspectos biológicos, mas também os determinantes psicossociais da síndrome.
3. PROBLEMA DE PESQUISA
Diante dos impactos físicos e emocionais da SOP, de que maneira os desequilíbrios hormonais e os fatores psicossociais associados à SOP contribuem para o desenvolvimento de quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e sofrimento psíquico em mulheres?
4. HIPÓTESES
H1: Os desequilíbrios hormonais característicos da SOP, especialmente o hiperandrogenismo e a resistência à insulina, estão diretamente associados ao aumento da prevalência de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, nas mulheres acometidas, conforme evidenciado na literatura científica.
H2: Fatores psicossociais, como estigmatização social, insatisfação com a imagem corporal e dificuldades relacionadas à infertilidade, contribuem significativamente para o agravamento do sofrimento emocional e da baixa autoestima em mulheres com SOP.
H3: Estratégias terapêuticas que associam acompanhamento psicológico, intervenções médicas e educação em saúde promovem melhores desfechos na saúde mental e na qualidade de vida das mulheres com SOP, em comparação com abordagens centradas exclusivamente no controle dos sintomas físicos.
5. OBJETIVOS
5.1. OBJETIVO GERAL
- Entender os principais prejuízos à saúde mental inerentes a SOP.
5.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Avaliar o efeito da irregularidade menstrual e da infertilidade na saúde emocional das pacientes com SOP.
- Examinar o papel do estigma social e da desinformação sobre a SOP no desenvolvimento ou sofrimento psíquico
- Discutir estratégias terapêuticas para minimizar os impactos da SOP na saúde mental, incluindo abordagens médicas, psicológicas e mudanças no estilo de vida.
6. REFERENCIAL TEÓRICO
A Síndrome dos Ovários Policísticos configura-se como uma das endocrinopatias mais prevalentes em mulheres em idade reprodutiva e, apesar de seu reconhecimento clínico e metabólico, seus efeitos sobre a saúde mental têm recebido atenção crescente. A literatura recente aponta que a compreensão dessa síndrome deve ir além do viés fisiopatológico, incorporando a análise dos impactos emocionais, sociais e psicológicos que acompanham o diagnóstico (Outa; Werner; Morbach, 2024).
Do ponto de vista biológico, as alterações hormonais, sobretudo o hiperandrogenismo e a resistência à insulina, estão diretamente associadas a mudanças na neurotransmissão cerebral. Evidências indicam que tais desequilíbrios afetam a regulação de serotonina e dopamina, neurotransmissores fundamentais para a modulação do humor, favorecendo o surgimento de ansiedade e depressão. Esse vínculo entre o eixo endócrino e a saúde mental revela que a SOP deve ser entendida como uma condição de caráter sistêmico (Miranda et al., 2025).
Lessa et al. (2024) destacam que a desregulação do eixo hipotálamo-hipófisegonadal, comum em mulheres com SOP, contribui para a inflamação crônica de baixo grau. Esse ambiente inflamatório potencializa a vulnerabilidade a transtornos psíquicos, o que reforça a necessidade de se considerar o contexto neuroendócrino no entendimento do sofrimento emocional desses pacientes. Assim, o adoecimento mental não se restringe a um efeito secundário da condição, mas se apresenta como parte intrínseca de sua manifestação clínica.
Para além dos mecanismos fisiológicos, os impactos psicossociais desempenham papel significativo no agravamento do sofrimento. A presença de manifestações como acne, obesidade, hirsutismo e alopecia frequentemente compromete a autoestima e a percepção da feminilidade, levando as mulheres a experimentar sentimentos de inadequação social. Essas alterações estéticas tornam-se um fator de estigmatização, intensificando a exclusão e o isolamento social (Agnol et al., 2024).
Silva, Oliveira e Brasil (2024) ressaltam que o estigma associado às características físicas da SOP pode desencadear quadros de ansiedade social, nos quais a mulher evita interações e situações públicas por medo do julgamento. Esse fenômeno não apenas prejudica a saúde mental, mas também limita a inserção plena em ambientes acadêmicos e profissionais, gerando repercussões na qualidade de vida.
Outro ponto amplamente discutido na literatura é o comprometimento da sexualidade. Bacarat e Rezende (2023) observaram que as alterações corporais e a infertilidade associada à SOP repercutem negativamente na vida sexual das mulheres, interferindo na satisfação íntima e no relacionamento conjugal. A disfunção sexual emerge, portanto, como mais um fator que retroalimenta o sofrimento emocional.
A infertilidade, especificamente, figura como um dos aspectos mais debilitantes. Vieira et al. (2023) demonstram que mulheres com SOP que enfrentam dificuldades reprodutivas relatam maior prevalência de sentimentos de frustração, culpa e perda de identidade. Em contextos socioculturais onde a maternidade é valorizada como parte essencial da feminilidade, essa limitação pode intensificar o sofrimento, perpetuando estados depressivos.
A pressão social sobre a maternidade não apenas acentua a angústia individual, como também compromete as relações familiares e afetivas. Muitas mulheres relatam conflitos conjugais e percepção de rejeição diante da dificuldade em engravidar, tornando a SOP não apenas um desafio individual, mas também um fator de tensão nas dinâmicas interpessoais (Bacarat; Rezende, 2023).
Diversos estudos apontam ainda para a associação entre SOP e o desenvolvimento de transtornos alimentares. Linhares et al. (2024) identificaram que mulheres com SOP apresentam maior risco de desenvolver compulsão alimentar e bulimia, possivelmente em decorrência da insatisfação corporal e do impacto metabólico da síndrome. Esse comportamento alimentar disfuncional agrava tanto os sintomas físicos quanto os psicológicos, configurando um ciclo de difícil rompimento.
A adolescência representa um período crítico para a manifestação desses impactos. Nunes et al. (2025) observam que adolescentes diagnosticadas com SOP apresentam maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos, associados à dificuldade de aceitação da autoimagem. O diagnóstico precoce, nesse sentido, pode ser uma fonte de sofrimento se não acompanhado de suporte psicológico adequado.
Além disso, Miranda et al. (2025) ressalta que os transtornos emocionais relacionados à SOP reduzem significativamente a adesão ao tratamento. A baixa autoestima e a desesperança quanto à eficácia terapêutica fazem com que muitas mulheres abandonem estratégias de manejo, prejudicando o controle dos sintomas metabólicos e perpetuando o quadro clínico.
A qualidade de vida das pacientes com SOP, portanto, é comprometida em múltiplas dimensões. Agnol et al. (2024) evidenciam que a síndrome não afeta apenas a saúde física, mas repercute em aspectos sociais, profissionais e afetivos, criando uma sobreposição de desafios que se refletem no bem-estar global das mulheres.
Nesse contexto, o manejo clínico centrado exclusivamente nos sintomas físicos mostra-se insuficiente. Oliveira et al. (2024) defendem a necessidade de abordagens integradas, que associem acompanhamento ginecológico, suporte psicológico e orientação nutricional, de modo a contemplar a complexidade da síndrome.
Nunes et al. (2025) reforçam que intervenções multiprofissionais, com foco em apoio psicológico e práticas de autocuidado, demonstram maior eficácia na redução dos sintomas ansiosos e depressivos. A atuação interdisciplinar, portanto, não deve ser considerada complementar, mas parte essencial do tratamento.
Por fim, é fundamental reconhecer que os prejuízos psicoemocionais da SOP não constituem apenas um efeito colateral da doença, mas são parte constitutiva da experiência das mulheres acometidas. O avanço da literatura nessa área contribui para romper com perspectivas reducionistas e reforça a importância de práticas clínicas humanizadas, que considerem a paciente em sua integralidade biológica, psicológica e social (Oliveira et al., 2024).
7. METODOLOGIA
7.1. DESENHO DO ESTUDO
Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa e descritiva, realizada sob o formato de revisão de literatura narrativa. Esse tipo de estudo busca reunir, analisar criticamente e sintetizar evidências científicas já publicadas sobre determinado tema, permitindo uma compreensão das interações entre a Síndrome dos Ovários Policísticos e seus impactos na saúde mental das mulheres.
7.2. LOCAL E PERÍODO DE REALIZAÇÃO DO ESTUDO
O estudo foi desenvolvido no âmbito acadêmico, por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados eletrônicas nacionais e internacionais. O processo de busca, seleção e análise dos artigos foi realizado entre os meses de março e abril de 2026.
7.3. POPULAÇÃO E AMOSTRA
A população-alvo corresponde à produção científica disponível que aborde a SOP e suas repercussões psicossociais e emocionais. A amostra foi composta por artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais publicados entre 2020 e 2025, selecionados de acordo com os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos.
7.4. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Foram incluídos estudos publicados em português, inglês ou espanhol; disponíveis integralmente nas bases de dados; que abordem a relação entre SOP e saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, autoestima, imagem corporal, estigma social e infertilidade.
7.5. CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Foram excluídos artigos duplicados, estudos que tratem exclusivamente de aspectos fisiológicos da SOP sem interface com a saúde mental, além de publicações em formato de cartas, editoriais ou resumos de eventos científicos sem texto completo disponível.
7.6. VARIÁVEIS
As variáveis de interesse compreendem:
- Biológicas: presença de hiperandrogenismo, resistência insulínica, irregularidade menstrual, infertilidade.
- Psicossociais: autoestima, imagem corporal, estigmatização social, qualidade de vida.
- Emocionais: prevalência de ansiedade, depressão e outros transtornos psíquicos relatados em mulheres com SOP.
7.7. INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS, ESTRATÉGIAS DE APLICAÇÃO, ANÁLISE E APRESENTAÇÃO DOS DADOS
A coleta foi realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico, utilizando combinações dos descritores em português e inglês:
“Síndrome dos Ovários Policísticos”, “saúde mental”, “ansiedade”, “depressão”,
“qualidade de vida” e “infertilidade”.
A análise foi conduzida de forma qualitativa, por meio da leitura crítica e interpretação dos conteúdos, organizando os achados em eixos temáticos: (i) impactos biológicos e hormonais na saúde mental; (ii) aspectos psicossociais e estigma; (iii) repercussões emocionais da infertilidade; e (iv) estratégias terapêuticas integrativas.
Os resultados foram apresentados em forma de quadros comparativos, síntese narrativa e discussão crítica, de acordo com os objetivos propostos.
Fonte: Elaborado pelos autores com base no fluxograma PRISMA 2020.
8. ASPECTOS ÉTICOS
Por se tratar de uma revisão de literatura com uso exclusivo de dados secundários de domínio público, este estudo não necessitou de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
9. RISCOS E BENEFÍCIOS
Os riscos desta pesquisa restringem-se à possibilidade de viés de seleção e interpretação dos dados, que será minimizada mediante a utilização de critérios claros de inclusão/exclusão e a leitura crítica da literatura.
Entre os benefícios, destaca-se a contribuição para o campo acadêmico e para a prática em saúde, ao oferecer uma análise atualizada e integrada sobre os impactos psicossociais e emocionais da SOP. Espera-se que os achados possam subsidiar novas pesquisas e incentivar uma abordagem clínica mais humanizada, contemplando não apenas os aspectos fisiológicos, mas também os determinantes psicossociais dessa condição.
10. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Quadro 1 – Caracterização e análise dos estudos sobre os impactos da Síndrome dos Ovários Policísticos na saúde mental
Autores | Tipo de produção / Ano | Delineamento do estudo | Objetivos | Metodologia | Principais resultados |
|---|---|---|---|---|---|
AGNOL, T. L. D. et al. | Artigo, 2024 | Revisão sistemática | Revisar os impactos psicológicos da SOP e suas comorbidades | Busca em PubMed, Scopus e Google Scholar (2009-2024); 25 estudos; análise qualitativa por eixos | Depressão (4060%) e ansiedade (34-57%); estigma e imagem corporal agravam sintomas; TCC e suporte multidisciplinar melhoram desfechos |
BARACAT, M. C.; REZENDE, G. P. | Capítulo de livro, 2023 | Revisão narrativa | Avaliar qualidade de vida e função sexual | Revisão baseada em diretrizes clínicas (FEBRASGO) | Prejuízo na função sexual, autoestima e relações conjugais, especialmente associado à infertilidade |
DEWANI, D.; KARWADE , P.; MAHAJAN, K. | Artigo, 2023 | Revisão narrativa | Explorar aspectos psicossociais da SOP | Síntese de literatura clínica e psicossocial | Ansiedade (2839%) e depressão (11-25%); impacto do estigma, infertilidade e imagem corporal; necessidade de cuidado centrado no paciente |
LESSA, D. S. et al. | Artigo, 2024 | Revisão integrativa | Identificar a incidência de transtornos mentais na SOP | Revisão integrativa (Scopus, PubMed, SciELO); últimos 6 anos; idiomas múltiplos | Maior prevalência de ansiedade e depressão, sobretudo nos fenótipos A e B; influência de autoimagem, sobrepeso e fatores socioculturais; impacto relevante na qualidade de vida mental |
LINHARES , I. L. M. et al. | Artigo, 2024 | Revisão integrativa | Analisar relação entre SOP, saúde mental e qualidade de vida | Revisão de estudos clínicos e epidemiológicos | SOP associada a transtornos de humor; TCC, exercício físico e eletroacupuntura reduzem ansiedade e depressão |
MIRANDA, A. L. A. et al. | Artigo, 2025 | Revisão narrativa | Investigar ansiedade e depressão em mulheres com SOP | Revisão (2020- 2024) em PubMed e BVS | Associação entre hiperandrogenismo, resistência insulínica e depressão; até 72% com disfunção sexual; adolescentes mais vulneráveis |
|---|---|---|---|---|---|
NUNES, R. et al. | Artigo, 2025 | Revisão sistemática | Avaliar impacto de dieta e exercício na saúde mental | Revisão Cochrane/PRISM A; 7 ECRs; n=612; intervenções de 10 semanas a 5 meses | Exercício e dieta melhoram saúde mental; evidência limitada por viés metodológico |
OUTA, C. T.; WERNER, P. C. G.; MORBACH , S. R. | Artigo, 2024 | Revisão narrativa | Analisar impactos hormonais e psicossociais da SOP | Revisão (20102024) em BVS, PePSIC e SciELO | SOP associada a ansiedade, depressão e baixa autoestima; sintomas físicos impactam imagem corporal e relações sociais |
OLIVEIRA, F. I. D. R. et al. | Artigo, 2024 | Revisão narrativa | Discutir aspectos clínicos, etiológicos e terapêuticos da SOP | Revisão em BVS, PubMed, CAPES e SciELO | Condição multifatorial; associação com depressão e ansiedade; necessidade de abordagem individualizada e multidisciplinar |
SILVA, T. S.; OLIVEIRA, M. D. P.; BRASIL, L. G. | Artigo, 2024 | Estudo descritivo | Compreender o impacto global da SOP na vida das mulheres | Análise descritiva com base clínica e literatura | SOP impacta saúde mental, autoestima e qualidade de vida; associação com ansiedade, depressão e disfunção sexual; importância de abordagem holística |
VIEIRA, E. P. et al. | Artigo, 2023 | Estudo observacional | Avaliar percepção da imagem corporal em mulheres com SOP | Aplicação do Body Shape Questionnaire; mulheres 18-49 anos; análise por teste t de Student | 70% das mulheres com SOP apresentaram insatisfação corporal vs. 15% no grupo controle; forte associação com sofrimento psicológico |
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos estudos incluídos na revisão (2023–2025).
A análise dos estudos incluídos evidencia que a relação entre a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) e a saúde mental não se estabelece de maneira linear, mas resulta da interação dinâmica entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Embora haja consenso quanto à maior prevalência de ansiedade e depressão em mulheres com SOP, os estudos divergem quanto à magnitude dessa associação e aos principais mecanismos envolvidos, indicando a complexidade do fenômeno.
Os achados quantitativos variam consideravelmente entre os estudos, com prevalências de depressão e ansiedade oscilando em faixas amplas. Enquanto Agnol et al. (2024) e Dewani et al. (2023) apontam índices elevados, Miranda et al. (2025) sugere que essa associação pode ser modulada por fatores como idade, gravidade clínica e contexto social. Essa variabilidade sugere que a SOP, isoladamente, não explica o adoecimento psíquico, sendo necessário considerar elementos contextuais e individuais na interpretação dos resultados.
Nesse sentido, observa-se que os fatores psicossociais apresentam maior consistência explicativa do que os fatores estritamente biológicos. Embora alterações hormonais sejam frequentemente citadas como base fisiopatológica, os estudos indicam que aspectos como estigmatização, percepção da doença e insatisfação corporal exercem papel mais direto na experiência subjetiva de sofrimento. Evidências como as de Vieira et al. (2023), que demonstram elevada insatisfação corporal em mulheres com SOP, reforçam que a autoimagem constitui um mediador central entre a condição clínica e os desfechos em saúde mental.
Além disso, a forma como a mulher interpreta e vivencia o diagnóstico emerge como um fator determinante. Lessa et al. (2024) destacam que a percepção subjetiva da gravidade da doença e a capacidade de enfrentamento influenciam significativamente a intensidade dos sintomas emocionais. Esse achado desloca o foco de uma visão puramente biomédica para uma abordagem centrada na experiência do paciente, sugerindo que intervenções devem considerar não apenas o controle clínico, mas também o suporte psicossocial.
Outro ponto relevante refere-se ao impacto relacional da SOP. Os estudos indicam que os prejuízos não se restringem ao indivíduo, mas se estendem às relações afetivas e sociais. A associação entre SOP, disfunção sexual e conflitos conjugais, apontada por Baracat e Rezende (2023) e Miranda et al. (2025), evidencia que o sofrimento psíquico pode ser amplificado por dificuldades na vida íntima, configurando um ciclo de retroalimentação entre sintomas físicos e emocionais.
No que diz respeito às estratégias terapêuticas, há convergência quanto à superioridade de abordagens integradas. No entanto, os estudos analisados apresentam limitações importantes, especialmente relacionadas ao desenho metodológico. A predominância de revisões de literatura e o número reduzido de ensaios clínicos robustos, como observado por Nunes et al. (2025), restringem a força das evidências disponíveis. Ainda assim, há indicativos consistentes de que intervenções combinadas, incluindo suporte psicológico, mudanças no estilo de vida e tratamento clínico, promovem melhores desfechos em comparação a abordagens isoladas.
Adicionalmente, observa-se uma lacuna importante na literatura no que se refere à padronização de instrumentos de avaliação em saúde mental e à análise longitudinal dos impactos da SOP. A maioria dos estudos apresenta caráter transversal, o que limita a compreensão da evolução dos sintomas ao longo do tempo e a identificação de relações causais mais robustas.
Dessa forma, a principal contribuição dos achados não reside apenas na confirmação da associação entre SOP e sofrimento psíquico, mas na compreensão de que esse sofrimento é multifatorial e mediado por aspectos subjetivos e sociais. Isso implica a necessidade de reorientação das práticas clínicas, que devem incorporar, de forma sistemática, a avaliação da saúde mental e o suporte psicossocial como componentes essenciais do cuidado.
Por fim, os resultados reforçam que a abordagem da SOP deve ultrapassar o modelo biomédico tradicional, adotando uma perspectiva integral e centrada na paciente. Tal direcionamento não apenas favorece melhores desfechos clínicos, mas também contribui para a redução do impacto psicossocial da síndrome, promovendo maior qualidade de vida às mulheres acometidas.
11. CONCLUSÃO
Diante da análise crítica da literatura, conclui-se que a Síndrome dos Ovários Policísticos configura-se como uma condição de natureza multifatorial cuja repercussão ultrapassa os limites do comprometimento orgânico, alcançando de forma significativa a esfera psíquica e social das mulheres. A evidência disponível demonstra que o sofrimento emocional associado à SOP não pode ser atribuído a um único fator, mas resulta da interação complexa entre alterações neuroendócrinas, construções socioculturais e experiências subjetivas relacionadas ao corpo, à fertilidade e à identidade feminina.
Nesse contexto, torna-se inequívoco que a compreensão da SOP exige a superação de abordagens reducionistas, sendo imprescindível a incorporação de uma perspectiva ampliada, centrada na integralidade do cuidado. A análise dos achados sustenta que intervenções efetivas dependem da articulação entre diferentes dimensões do tratamento, com destaque para a integração entre assistência médica, suporte psicológico e estratégias educativas.
Adicionalmente, observa-se a necessidade de avanço científico, especialmente por meio de estudos longitudinais e metodologicamente robustos, capazes de aprofundar a compreensão das relações causais e da evolução dos impactos psicoemocionais ao longo do tempo. Tal lacuna evidencia que, embora haja consenso quanto à relevância do tema, ainda há limitações que restringem a consolidação de evidências mais consistentes.
Por fim, reforça-se que o enfrentamento dos impactos da SOP demanda não apenas intervenções clínicas qualificadas, mas também mudanças na forma como a condição é percebida socialmente e abordada nos serviços de saúde. A incorporação sistemática da saúde mental no manejo da síndrome representa um elemento estratégico para a promoção do bem-estar e da qualidade de vida, consolidando um modelo de cuidado mais resolutivo, humanizado e alinhado às demandas reais das mulheres acometidas.
REFERÊNCIAS
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