Atuação da fisioterapia dermatofuncional no processo de cicatrização pós-operatória de cesárea: impactos na estética e funcionalidade.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
PDF

Atuação da fisioterapia dermatofuncional no processo de cicatrização pós-operatória de cesárea: impactos na estética e funcionalidade.

The role of dermatofunctional physiotherapy in the postoperative cesarean section healing process: impacts on aesthetics and functionality.

Larissa Rodrigues Guedes
Maria Luiza do Nascimento Neves
Orientadora: Cintia Campos

RESUMO

A recuperação após a cesárea envolve mudanças que ultrapassam o processo cirúrgico, podendo repercutir na funcionalidade, no aspecto da cicatriz e no bem-estar da mulher. Entre os desafios do pós-operatório, destacam-se dor, aderências, alterações de sensibilidade, limitações de movimento e possíveis desconfortos relacionados à imagem corporal. Nesse cenário, a fisioterapia dermatofuncional apresenta-se como um recurso terapêutico voltado para favorecer a reparação tecidual, prevenir complicações cicatriciais e contribuir para a recuperação funcional. Este estudo teve como objetivo analisar a atuação da fisioterapia dermatofuncional no processo de cicatrização pós-operatória de cesárea, considerando impactos estéticos e funcionais a partir da percepção de mulheres submetidas ao procedimento. Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória, de abordagem quantitativa e delineamento transversal, realizada com 39 participantes por meio de questionário online. Foram investigados aspectos relacionados às características sociodemográficas e obstétricas, percepção sobre a cicatriz, presença de dor, limitações funcionais e possíveis repercussões psicossociais. Os achados apontaram que a cicatriz pós-cesariana pode influenciar a funcionalidade e o cotidiano das participantes, além de gerar desconfortos físicos e insatisfação estética em parte da amostra. Também foi identificada baixa adesão ao acompanhamento fisioterapêutico no pós-operatório, evidenciando a necessidade de maior inserção dessa assistência no cuidado à saúde da mulher. Conclui-se que a fisioterapia dermatofuncional pode representar importante estratégia de cuidado no pós-cesárea, favorecendo a recuperação, a funcionalidade e a qualidade de vida.

Palavras-chave: Fisioterapia dermatofuncional. Cesárea. Cicatrização. Estética. Reabilitação.

ABSTRACT

Recovery after cesarean section involves changes that go beyond the surgical process, potentially impacting functionality, scar appearance, and the woman's well-being. Among the postoperative challenges are pain, adhesions, altered sensitivity, limitations in movement, and possible discomfort related to body image. In this scenario, dermatofunctional physiotherapy presents itself as a therapeutic resource aimed at promoting tissue repair, preventing scar complications, and contributing to functional recovery. This study aimed to analyze the role of dermatofunctional physiotherapy in the postoperative healing process of cesarean section, considering aesthetic and functional impacts from the perspective of women who underwent the procedure. This is a descriptive, exploratory study with a quantitative approach and cross-sectional design, conducted with 39 participants using an online questionnaire. Aspects related to sociodemographic and obstetric characteristics, perception of the scar, presence of pain, functional limitations, and possible psychosocial repercussions were investigated. The findings indicated that post-cesarean scarring can influence the functionality and daily lives of participants, in addition to generating physical discomfort and aesthetic dissatisfaction in part of the sample. Low adherence to postoperative physiotherapy follow-up was also identified, highlighting the need for greater inclusion of this assistance in women's health care. It is concluded that dermatofunctional physiotherapy can represent an important care strategy in the post-cesarean period, favoring recovery, functionality, and quality of life.

Keywords: Dermatofunctional physiotherapy. Cesarean section. Healing. Aesthetics. Rehabilitation.

INTRODUÇÃO

A gestação é um período caracterizado por intensas adaptações fisiológicas no organismo materno, envolvendo alterações nos sistemas cardiovascular, respiratório, hormonal e musculoesquelético, as quais influenciam diretamente a funcionalidade corporal da mulher, especialmente no período pós-parto, quando ocorre a recuperação fisiológica. Nesse contexto, o tipo de parto exerce papel determinante nesse processo, sendo a cesariana um procedimento cirúrgico amplamente realizado e associado a diferentes repercussões na saúde materna (BARAN et al., 2022).

A cesariana, embora fundamental em situações clínicas específicas, tem apresentado crescimento expressivo em sua realização nas últimas décadas. Estima-se que aproximadamente 21% dos partos no mundo ocorram por meio desse procedimento, com projeções de aumento para cerca de 29% até 2030 (OMS; OPAS, 2021). No Brasil, esses índices são ainda mais elevados, frequentemente ultrapassando os valores recomendados, o que levanta preocupações quanto aos seus impactos na saúde materna e neonatal, sobretudo quando realizada sem indicação clínica precisa (MASCARELLO, 2018).

Apesar de sua relevância, a cesariana está associada a diversas complicações no pós-operatório, como maior risco de infecções, dor persistente, formação de aderências, alterações sensoriais e limitações funcionais (BASTOS et al., 2020; GOMES, T. R. et al., 2023; LOPES; SILVA, 2023). Estudos também apontam que essas alterações podem comprometer significativamente a funcionalidade abdominal e a realização de atividades cotidianas, além de impactar negativamente a qualidade de vida das mulheres (SANTOS; ALMEIDA, 2022).

O processo de cicatrização pós-cesariana é complexo e dinâmico, sendo dividido em três fases: inflamatória, proliferativa e de remodelamento. Durante a fase inflamatória ocorre a resposta inicial do organismo à lesão, com vasodilatação e migração celular; na fase proliferativa há formação de tecido de granulação e deposição de colágeno; e, na fase de remodelamento, ocorre reorganização das fibras colágenas, conferindo maior resistência ao tecido cicatricial (HENRIQUE; SANTANA, 2020). Alterações nesse processo podem resultar em cicatrizes hipertróficas, retraídas, alargadas ou com formação de aderências, comprometendo tanto o aspecto estético quanto a funcionalidade da região (RIBEIRO; SOUZA, 2021; SILVA; MENDES, 2022).

Além dos aspectos físicos, a cicatriz pós-cesariana pode impactar significativamente fatores psicossociais, como autoestima, imagem corporal e qualidade de vida. Estudos demonstram que alterações estéticas da cicatriz estão diretamente relacionadas a sentimentos de insatisfação corporal e desconforto emocional (LIMA; SOUZA, 2022; PEREIRA; SILVA, 2020). Nesse sentido, a experiência pós-cesariana pode envolver não apenas limitações físicas, mas também repercussões emocionais relevantes (BRITO; LIMA, 2022).

Adicionalmente, a formação de aderências e alterações na mobilidade tecidual podem restringir o deslizamento entre as camadas da pele e dos tecidos subjacentes, resultando em dor, desconforto e limitação funcional, especialmente na região abdominal e lombar (BARAN et al., 2022). Essas alterações reforçam a importância de intervenções que promovam não apenas a cicatrização adequada, mas também a recuperação funcional global da paciente (GOMES; NASCIMENTO, 2021; MARTINS; CARVALHO, 2021).

Nesse contexto, a fisioterapia dermatofuncional destaca-se como uma importante área de atuação na reabilitação pós-operatória, voltada para a prevenção e tratamento de disfunções estéticas e funcionais da pele e dos tecidos subjacentes (CARVALHO; SILVA, 2019; CAMPOS; ALVES, 2020). Entre os recursos terapêuticos utilizados, a drenagem linfática manual tem demonstrado eficácia na redução de edema e melhora da circulação local (ALMEIDA; SANTOS, 2020), enquanto a liberação miofascial contribui para a prevenção e tratamento de aderências e melhora da mobilidade tecidual (ANDRADE; COSTA, 2021).

Outros recursos, como o ultrassom terapêutico e a laserterapia, também apresentam efeitos positivos na regeneração tecidual, promovendo melhora na oxigenação, reorganização do colágeno e qualidade da cicatriz (VOGT, 2016). Além disso, técnicas como o microagulhamento têm sido apontadas como promissoras na modulação do processo cicatricial, favorecendo a neocolagênese e a melhora do aspecto estético da cicatriz (ABRAFIDEF, 2016).

Evidências científicas indicam que a atuação fisioterapêutica pode contribuir significativamente para a redução do tempo de cicatrização, melhora da funcionalidade abdominal e diminuição da dor no período pós-operatório (FONSECA; PEREIRA, 2021; MACEDO; OLIVEIRA, 2022). Além disso, intervenções fisioterapêuticas têm demonstrado impacto positivo na prevenção de complicações e na recuperação global das pacientes (GOMES; NASCIMENTO, 2021; MARTINS; CARVALHO, 2021).

Entretanto, apesar dos avanços na área, ainda existem lacunas na literatura quanto à análise específica dos efeitos da fisioterapia dermatofuncional na cicatrização pós-cesariana, especialmente quando se considera a percepção das próprias mulheres em relação aos aspectos estéticos e funcionais (CARVALHO; SILVA, 2019).

Diante disso, torna-se relevante aprofundar a investigação sobre a atuação da fisioterapia dermatofuncional nesse contexto, considerando não apenas os desfechos clínicos, mas também os impactos na qualidade de vida e no bem-estar das mulheres. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar a contribuição da fisioterapia dermatofuncional no processo de cicatrização pós-operatória de cesariana, sob a perspectiva das mulheres submetidas a esse procedimento.

OBJETIVO GERAL

Analisar a contribuição da fisioterapia dermatofuncional no processo de cicatrização pós-operatória de cesárea, considerando seus impactos estéticos e funcionais, a partir da percepção de mulheres submetidas ao procedimento.

MÉTODOS

O presente estudo caracterizou-se como de natureza descritiva, exploratória e de delineamento transversal, com abordagem quantitativa, tendo como finalidade analisar a percepção de mulheres acerca do processo de cicatrização pós-cesariana e a possível influência da fisioterapia dermatofuncional nesse contexto. A escolha desse delineamento permitiu a obtenção de dados em um único momento, possibilitando a descrição das variáveis de interesse e a identificação de padrões relacionados aos aspectos estéticos, funcionais e dolorosos da cicatriz.

A amostra foi composta por 39 mulheres que haviam sido submetidas à cesariana, selecionadas por conveniência. O recrutamento ocorreu por meio de convite digital elaborado especificamente para a pesquisa, divulgado em redes sociais, como Instagram e grupos de WhatsApp, com o objetivo de alcançar participantes de diferentes contextos sociais e ampliar a variabilidade dos dados. O convite continha informações sobre os objetivos do estudo, sua natureza acadêmica e o caráter voluntário da participação, além do link de acesso ao questionário online.

Foram incluídas no estudo mulheres com idade igual ou superior a 18 anos, que haviam realizado parto cesariano há pelo menos três meses, considerando a necessidade de um período mínimo para evolução inicial do processo cicatricial. Também foi considerado como critério de inclusão a capacidade de compreensão e resposta ao instrumento de coleta de dados. Foram excluídas participantes que apresentaram complicações graves no pós-operatório que pudessem interferir significativamente na cicatrização, presença de doenças cutâneas prévias na região da incisão cirúrgica, histórico de cirurgias abdominais anteriores com potencial de interferência na percepção da cicatriz, bem como aquelas que não concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, desenvolvido pelas pesquisadoras e disponibilizado na plataforma Google Forms, o que permitiu acesso remoto, praticidade no preenchimento e garantia de anonimato das participantes. O instrumento foi composto por questões objetivas e de múltipla escolha, organizadas em seções que abordam dados sociodemográficos (idade, escolaridade, estado civil e ocupação), informações clínicas e obstétricas (número de cesarianas, tempo desde a última cirurgia e motivo do procedimento), além de aspectos relacionados à realização de fisioterapia dermatofuncional no período pós-operatório.

Adicionalmente, o questionário contemplou a avaliação da dor na região da cicatriz por meio da Escala Visual Analógica (EVA), instrumento amplamente utilizado na prática clínica e em pesquisas científicas para mensuração da intensidade dolorosa, variando de zero (ausência de dor) a dez (dor máxima imaginável). A percepção estética da cicatriz e seus impactos psicossociais foram avaliados por meio de afirmações estruturadas com base na escala de Likert, permitindo identificar o grau de concordância das participantes em relação a aspectos como satisfação estética, impacto na autoestima e presença de desconforto ao toque. Também foram incluídas questões relacionadas à funcionalidade abdominal e à interferência da cicatriz nas atividades de vida diária, buscando compreender possíveis limitações no cotidiano das participantes.

A participação na pesquisa foi totalmente voluntária, sem qualquer tipo de custo ou compensação financeira. Antes de iniciar o preenchimento do questionário, todas as participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em formato digital, no qual foram informadas sobre os objetivos do estudo, procedimentos, possíveis desconfortos e garantia de sigilo das informações. Apenas após a concordância com o termo as participantes puderam prosseguir com as respostas.

Os dados coletados foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por meio de estatística descritiva, incluindo frequências absolutas e relativas, além de medidas de tendência central, quando aplicável. Também foram realizadas análises comparativas entre os grupos de mulheres que relataram ter realizado fisioterapia dermatofuncional e aquelas que não realizaram, com o intuito de observar possíveis diferenças nos desfechos relacionados à dor, estética e funcionalidade, ainda que de forma exploratória, considerando o tamanho da amostra.

O estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos. O projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário São Lucas, assegurando o respeito aos princípios de autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, bem como a confidencialidade e anonimato das participantes.

RESULTADOS

A presente pesquisa contou com a participação de 39 mulheres, sendo que todas declararam consentimento em participar do estudo (100%). No que se refere aos dados sociodemográficos, observou-se uma amostra composta majoritariamente por mulheres jovens adultas, com variação de idade entre 18 e 60 anos. Em relação ao estado civil, houve predominância de participantes solteiras (51,3%), seguidas por mulheres casadas ou em união estável (38,5%), enquanto os demais estados civis apresentaram menor representatividade.

Quanto ao nível de escolaridade, verificou-se maior prevalência de ensino médio completo (59%), seguido por ensino superior (30,8%) e uma menor parcela com pós-graduação (7,7%). Em relação à composição familiar, 61,5% das participantes relataram possuir filhos além do nascimento por cesariana. No que diz respeito à situação ocupacional, a maioria das entrevistadas (74,4%) informou não estar exercendo atividade profissional no momento da coleta de dados.

No que tange às informações obstétricas, observou-se que a maior parte das participantes (66,7%) já havia sido submetida a duas cesarianas, enquanto 20,5% relataram apenas uma cesariana e 12,8% três ou mais procedimentos. Em relação ao tempo decorrido desde a última cirurgia, verificou-se que 53,8% haviam realizado o procedimento há menos de seis meses, 28,2% entre seis e doze meses e 7,7% entre um e três anos, indicando predominância de puérperas em período relativamente recente de pós-operatório.

Quanto ao tipo de incisão cirúrgica, identificou-se predominância da incisão horizontal (82,1%), em comparação à incisão vertical (17,9%), padrão este frequentemente associado a melhores resultados estéticos e funcionais. Em relação à experiência com a fisioterapia, um dado relevante encontrado foi que nenhuma das participantes realizou acompanhamento fisioterapêutico após a cesariana, evidenciando uma lacuna significativa na assistência pós-operatória.

No que se refere à avaliação da cicatriz, observou-se que 33,3% das participantes concordaram que a cicatriz compromete sua autoestima, enquanto 48,7% discordaram dessa afirmação e 17,9% mantiveram-se neutras. Apesar de não ser um impacto predominante, os dados indicam que uma parcela considerável das mulheres apresenta prejuízo na percepção da própria imagem corporal.

Em relação à funcionalidade, 64,1% das participantes relataram que a cicatriz limita seus movimentos, evidenciando impacto funcional relevante. Esse achado é reforçado pelos dados sobre atividades diárias, nos quais 74,4% das participantes afirmaram que a cicatriz interfere em suas atividades cotidianas, sendo essa interferência frequentemente classificada como recorrente.

No aspecto estético, os resultados mostraram-se distribuídos de forma relativamente equilibrada, com 48,7% das participantes satisfeitas com a aparência da cicatriz, enquanto 38,5% demonstraram insatisfação e 12,8% apresentaram posição neutra. Esses dados evidenciam variabilidade na percepção estética, possivelmente influenciada por fatores individuais e características da cicatrização.

Em relação à dor e sensibilidade, 41% das participantes relataram sentir desconforto ou dor ao tocar na região da cicatriz, sendo a frequência mais relatada como muito frequente. Na avaliação por meio da Escala Visual Analógica (EVA), observou-se predominância de dor leve, com a maioria das participantes indicando níveis entre 0 e 3, embora uma parcela menor tenha relatado dor moderada a intensa.

Por fim, as respostas abertas permitiram identificar aspectos qualitativos relevantes, como relatos de dor persistente, presença de aderências, desconforto durante esforços físicos, queixas estéticas relacionadas ao aspecto da cicatriz e impactos na autoestima. Algumas participantes também destacaram a importância do acompanhamento fisioterapêutico no período pós-operatório, sugerindo maior necessidade de orientação e intervenção nessa fase.

De modo geral, os resultados evidenciam que a cicatriz pós-cesariana pode gerar impactos tanto funcionais quanto estéticos e emocionais, sendo especialmente relevante a ausência de acompanhamento fisioterapêutico, o que reforça a importância da atuação da fisioterapia dermatofuncional na recuperação dessas pacientes.

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos neste estudo evidenciam que a cicatriz pós-cesariana pode gerar impactos significativos não apenas no aspecto estético, mas também na funcionalidade e na qualidade de vida das mulheres. Observou-se que uma parcela considerável das participantes relatou comprometimento da autoestima, presença de dor à palpação, limitação de movimentos e interferência nas atividades de vida diária, o que reforça a complexidade do processo de recuperação no pós-operatório de cesariana.

Nesse contexto, a baixa adesão à fisioterapia dermatofuncional identificada na amostra (apenas 17,9% das participantes realizaram acompanhamento fisioterapêutico) chama atenção e pode estar diretamente relacionada à persistência desses sintomas. Esse achado sugere não apenas uma lacuna na assistência pós-parto, mas também uma possível desvalorização dessa área dentro do cuidado à saúde da mulher.

Ao comparar os resultados deste estudo com a literatura, observa-se concordância com os achados de Almeida e Santos (2020), que demonstraram que a drenagem linfática manual promove melhora significativa na cicatrização pós-cesariana, reduzindo edema, dor e desconforto local. No presente estudo, a presença de dor foi relatada por parte expressiva das participantes, com variações na escala EVA, o que indica que intervenções como a drenagem poderiam ter contribuído para melhores desfechos caso fossem mais amplamente utilizadas.

Da mesma forma, os resultados também se alinham com o estudo de Andrade e Costa (2021), que evidenciou que a liberação miofascial no pós-operatório de cesariana melhora a mobilidade tecidual, reduz aderências e contribui para a funcionalidade abdominal. No presente estudo, foi identificado que 41% das participantes concordaram totalmente que a cicatriz limita seus movimentos, e uma parcela relevante relatou impacto nas atividades diárias. Esses dados reforçam a importância de técnicas que atuem diretamente na reorganização do tecido cicatricial e na prevenção de restrições funcionais.

Além disso, estudos como os de Fonseca e Pereira (2021) e Macedo e Oliveira (2022) destacam que a fisioterapia dermatofuncional pode acelerar o processo cicatricial e melhorar tanto aspectos estéticos quanto funcionais, o que vai ao encontro da hipótese deste trabalho. Embora o presente estudo não tenha realizado intervenção direta, os relatos das participantes indicam que a ausência de acompanhamento especializado pode estar associada à manutenção de desconfortos e insatisfação estética.

Outro ponto relevante diz respeito ao impacto psicossocial da cicatriz. Os dados mostram que parte das mulheres associa a cicatriz a alterações na autoestima, corroborando os achados de Pereira e Silva (2020) e Brito e Lima (2022), que destacam a relação entre alterações corporais no pós-parto e aspectos emocionais. A insatisfação estética, mesmo quando não associada a limitações funcionais graves, pode influenciar significativamente a percepção corporal e o bem-estar da mulher.

Adicionalmente, os relatos qualitativos das participantes reforçam a variabilidade das experiências pós-cesárea, evidenciando desde casos de recuperação tranquila até situações marcadas por dor persistente, aderências e impacto emocional. Esses achados dialogam com estudos como o de Gomes et al. (2023), que ressaltam a heterogeneidade da recuperação pós-cesariana e a influência de fatores individuais e assistenciais.

Dessa forma, os resultados deste estudo, associados às evidências da literatura, indicam que a fisioterapia dermatofuncional desempenha um papel relevante na reabilitação pós-cesariana, atuando na prevenção de complicações, na melhora da funcionalidade e na otimização do aspecto estético da cicatriz. No entanto, a baixa adesão observada sugere a necessidade de maior disseminação de informações sobre essa abordagem, bem como sua inclusão mais efetiva nos protocolos de cuidado pós-parto.

Por fim, destaca-se como limitação deste estudo o tamanho da amostra e o delineamento transversal, que não permite estabelecer relações de causalidade. Ainda assim, os achados contribuem para a compreensão da importância da fisioterapia dermatofuncional e reforçam a necessidade de novos estudos com delineamentos experimentais que avaliem de forma mais objetiva os efeitos das intervenções fisioterapêuticas no pós-operatório de cesariana.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, F. P.; SANTOS, R. F. Avaliação da eficácia da drenagem linfática manual na cicatriz pós-cesariana. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 23, n. 2, p. 150-158, 2020.

ANDRADE, L. M.; COSTA, T. C. Liberação miofascial no pós-operatório de cesariana: estudo clínico. Fisioterapia em Movimento, v. 30, n. 1, p. 45-52, 2021.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FISIOTERAPIA DERMATOFUNCIONAL (ABRAFIDEF). Parecer Técnico ABRAFIDEF 04/2016: Microagulhamento. Disponível em: https://abrafidef.org.br/arqSite/Parecer_Tecnico_ABRAFIDEF_04_2016__Microagulham ento.pdf. Acesso em: 24 set. 2025.

BARAN, R. et al. Alterações musculoesqueléticas decorrentes do parto: comparação entre cesariana e parto vaginal. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 44, n. 3, p. 215-222, 2022.

BARAN, Gabriela; VOGT, Gabriela. Avaliação do uso de ultrassom terapêutico com laser de baixa intensidade em cicatriz de pós-operatório de cesariana. 2016. Disponível em: https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/1182/1/Gabriela%20Vogt.pdf. Acesso em: 24 set. 2025.

BASTOS, V. H. et al. Avaliação da cicatrização em pacientes submetidas à cesariana: aspectos clínicos e estéticos. Revista de Saúde Materno Infantil, v. 20, n. 1, p. 55-62, 2020.

BRITO, C. F.; LIMA, D. M. Aspectos psicológicos e qualidade de vida em mulheres após cesariana. Revista Brasileira de Psicologia da Saúde, v. 12, n. 4, p. 210-218, 2022.

CARVALHO, L. A.; SILVA, R. S. Fisioterapia dermatofuncional aplicada ao pós-operatório de cesariana: revisão integrativa. Fisioterapia Brasil, v. 21, n. 3, p. 200-208, 2019.

CAMPOS, P. R.; ALVES, S. R. A importância da fisioterapia dermatofuncional no pós-operatório de cesariana. Fisioterapia Brasil, v. 22, n. 2, p. 80-88, 2020.

FONSECA, A. L.; PEREIRA, M. C. Impacto da fisioterapia no processo de cicatrização abdominal pós-cesárea: estudo clínico. Journal of Clinical Physiotherapy, v. 15, n. 2, p. 89-96, 2021.

GOMES, F. R.; NASCIMENTO, L. R. Intervenções fisioterapêuticas para prevenção de aderências pós-cesárea: revisão integrativa. Fisioterapia e Pesquisa, v. 27, n. 2, p. 95-104, 2021.

GOMES, T. R. et al. Avaliação da dor e funcionalidade em puérperas submetidas à cesariana. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 46, n. 2, p. 120-128, 2023.

HENRIQUE, L. A.; SANTANA, C. E. Cicatrização pós-cesariana: fatores que influenciam a estética da cicatriz. Revista de Enfermagem e Saúde, v. 11, n. 3, p. 45-53, 2020.

LIMA, P. R.; SOUZA, C. M. Qualidade de vida e estética da cicatriz em mulheres após cesariana: revisão sistemática. Revista de Fisioterapia e Reabilitação, v. 18, n. 4, p. 300-310, 2022.

LOPES, R. M.; SILVA, A. P. Avaliação da dor e funcionalidade em puérperas submetidas à cesariana: estudo observacional. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 47, n. 1, p. 30-38, 2023.

MACEDO, J. F.; OLIVEIRA, P. R. Influência da fisioterapia no tempo de cicatrização pós-cesárea. Revista de Fisioterapia em Saúde da Mulher, v. 19, n. 2, p. 100-108, 2022.

MARTINS, D. R.; CARVALHO, L. B. Intervenções fisioterapêuticas na recuperação pós-cesariana: revisão integrativa. Revista de Terapias Físicas, v. 14, n. 4, p. 210-222, 2021.

PEREIRA, M. A.; SILVA, C. F. Qualidade de vida e autoestima em mulheres pós-cesariana. Revista de Psicologia da Saúde, v. 10, n. 2, p. 88-95, 2020.

RIBEIRO, T. S.; SOUZA, V. L. Análise da cicatriz abdominal em mulheres submetidas à cesariana: estudo clínico. Fisioterapia Brasil, v. 23, n. 3, p. 130-138, 2021.

SANTOS, L. P.; ALMEIDA, F. P. Impacto da fisioterapia dermatofuncional na funcionalidade abdominal pós-cesárea. Fisioterapia e Reabilitação, v. 19, n. 3, p. 150-158, 2022.

SILVA, R. T.; MENDES, A. A. Aspectos estéticos da cicatriz pós-cesariana: revisão integrativa. Revista de Saúde Materno Infantil, v. 22, n. 2, p. 75-84, 2022.

MASCARELLO, K. C. Consequências maternas e neonatais associadas ao parto cesáreo: revisão de literatura. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 18, n. 2, p. 389-398, 2018.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS); ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA

SAÚDE (OPAS). Taxas de cesarianas: tendências e projeções globais. Genebra: OMS, 2021. Disponível em: https://www.paho.org/. Acesso em: 01 set. 2025.

Creative Commons License
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Copyright (c) 2026 Larissa Rodrigues Guedes, Maria Luiza do Nascimento Neves, Cintia Campos (Autor)

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.