O processo de seleção ocorreu em etapas sucessivas: triagem preliminar por título e resumo, leitura integral dos trabalhos pertinentes e síntese crítica interpretativa, organizada em torno de eixos analíticos: procedimentos operacionais institucionais, contextos rotineiros de risco, barreiras de manuseio seguro e aderência institucional. Quanto ao fluxo de seleção, a busca inicial nas bases resultou em 47 registros. Após a remoção de 9 duplicatas, 38 trabalhos foram submetidos à triagem por título e resumo, dos quais 21 foram excluídos por ausência de aderência temática direta. Procedeu-se, então, à leitura integral dos 17 trabalhos remanescentes, dos quais 13 foram excluídos por aderência apenas tangencial ao objeto, restando 4 estudos no corpus analítico final, aos quais se somaram as 6 fontes documentais institucionais da PMPA. O quantitativo reduzido de estudos no corpus final reflete a escassez de produção científica específica sobre o objeto, justamente uma das lacunas que esta revisão busca evidenciar.
Quadro 1 – Caracterização do corpus analítico
Fonte: elaborado pelos autores (2026).
Optou-se por não adotar protocolo de revisão sistemática formal, como o PRISMA, em razão da natureza exploratória do estudo e da escassez de produção nacional sobre o tema, privilegiando-se a profundidade interpretativa e a contextualização dos achados à realidade da PMPA.
4 Resultados e Discussão
No plano institucional, a Polícia Militar do Pará dispõe de instrumentos normativos que materializam boa parte das barreiras descritas pela literatura. Os Procedimentos Operacionais Padrão de manutenção de armamento detalham, etapa a etapa, a desmontagem e montagem de primeiro escalão da Carabina Tática Taurus .40 e da Pistola Taurus .40 modelo 940, bem como a inspeção e a manutenção desses equipamentos (PARÁ, 2020a; PARÁ, 2020b; PARÁ, 2020c; PARÁ, 2020d; PARÁ, 2020e). Todos esses procedimentos condicionam a execução das tarefas à realização em local seguro, definido como aquele em que o policial pode manusear a arma sem oferecer risco a terceiros, dotado de anteparo frontal, livre de obstáculos que possibilitem ricochete e com circulação controlada de pessoas. Os mesmos documentos enumeram os locais considerados inseguros, como recintos com movimentação descontrolada de pessoas, ambientes que favoreçam transfixação ou ricochete do projétil e locais com presença de crianças e demais terceiros não envolvidos na atividade.
O Manual de Armamento e Tiro da PMPA, por sua vez, declara expressamente como propósito padronizar condutas com armas de fogo e garantir a segurança dos operadores, de seus companheiros de serviço e da população, reconhecendo, ainda, a necessidade de atualização contínua das metodologias de ensino do tiro diante da evolução do conhecimento científico (PARÁ, 2026). Esse arcabouço normativo demonstra que a corporação reconhece, no plano doutrinário, o manuseio rotineiro, e não apenas o confronto, como contexto de risco a ser regulado.
4.1 Os contextos rotineiros como locus prioritário da prevenção
O primeiro achado consistente é o de que a prevenção de disparos não intencionais deve concentrar-se nos contextos rotineiros de manuseio. A análise de centenas de casos reais por O’Neill, O’Neill e Lewinski (2017) e por O’Neill et al. (2018) demonstrou que a maioria dos eventos ocorre em situações de baixa ameaça, durante o saque, a guarda, a limpeza ou o transporte da arma, e que tarefas pouco familiares, como a troca da arma de mão ou o uso de coldres não habituais, concentram parcela expressiva dos casos. Esse padrão impõe uma reorientação do esforço preventivo: não basta preparar o policial para o confronto; é preciso disciplinar o manuseio cotidiano, que é onde os eventos efetivamente se concentram.
Essa conclusão dialoga diretamente com a estrutura dos procedimentos institucionais da PMPA, que normatizam exatamente as tarefas rotineiras de desmontagem, inspeção e manutenção (PARÁ, 2020a; PARÁ, 2020b; PARÁ, 2020c; PARÁ, 2020d; PARÁ, 2020e). Ao detalhar cada etapa dessas operações e ao condicioná-las à realização em local seguro, a corporação reconhece, na prática, que o risco não se restringe ao emprego da arma em ocorrência, mas se estende a todo o ciclo de manuseio do equipamento.
4.2 As barreiras de manuseio seguro e sua redundância
O segundo eixo sistematiza as barreiras de manuseio seguro descritas pela literatura, que operam de forma redundante: a falha de uma barreira tende a ser contida pelas demais. A indexação do dedo fora do guarda-mato é apontada como a barreira primária, pois atua diretamente sobre o acionamento do gatilho (O’NEILL et al., 2018). Contudo, a literatura adverte que essa regra é mais frágil do que parece, uma vez que o contato com o gatilho pode ocorrer sem consciência do operador, sobretudo sob esforço muscular, sobressalto ou perda de equilíbrio, conforme evidenciado pelos estudos com sensores de força retomados por O’Neill et al. (2018). Esse dado é decisivo, pois demonstra que a mera instrução verbal sobre indexação é insuficiente: é necessário treinamento repetido até a automatização do gesto, de modo que a indexação resiste à degradação imposta pelo estresse.
A disciplina de controle de cano funciona como barreira secundária e, em muitos casos, decisiva: ao garantir que a arma esteja sempre apontada para direção segura, converte um eventual disparo não intencional em incidente sem vítimas. O controle das condições de carregamento, por sua vez, opera como barreira de base, reduzindo a própria possibilidade de que um acionamento inadvertido resulte em disparo. A combinação dessas três barreiras, indexação, controle de cano e condição de carregamento, constitui o núcleo da prevenção e explica por que a violação isolada de uma delas raramente produz, sozinha, dano grave.
Importa destacar que a literatura é cética quanto à substituição dessas barreiras comportamentais por soluções exclusivamente tecnológicas. Embora o desenho ergonômico do armamento, dos coldres e dos sistemas de segurança seja relevante, e Stroshine, Jettner e Brandl (2023) reconheçam a parcela de eventos associada à interação entre arma e operador, a predominância do fator humano indica que nenhuma tecnologia dispensa a observância disciplinada dos procedimentos de manuseio. A prevenção, portanto, é primordialmente uma questão de comportamento treinado e de protocolo, e não de equipamento.
4.3 Aderência dos procedimentos da PMPA às evidências
O terceiro eixo examina a aderência dos procedimentos institucionais da PMPA às barreiras descritas pela literatura, revelando convergência significativa. Os Procedimentos Operacionais Padrão de manutenção determinam, como medida de segurança inicial, o descarregamento da arma, o desmuniciamento do carregador e a confirmação do descarregamento, de forma visual e, no caso da pistola, também tátil, antes de qualquer intervenção sobre o equipamento (PARÁ, 2020a; PARÁ, 2020b; PARÁ, 2020c). Esses passos materializam precisamente o controle das condições de carregamento que a literatura identifica como barreira de base, incidindo sobre as tarefas rotineiras de manuseio apontadas como contexto de maior risco.
Os procedimentos da corporação incorporam, ainda, advertências específicas sobre riscos físicos do manuseio. O Procedimento Operacional Padrão relativo à carabina recomenda, por exemplo, a inspeção apenas visual da câmara, em razão da sensibilidade do retém do ferrolho, sob risco de lesão na mão caso se tente a inspeção física (PARÁ, 2020a). Essa advertência dialoga diretamente com a categoria de tarefas rotineiras e de coativação muscular identificadas por O’Neill, O’Neill e Lewinski (2017) como antecedentes de eventos não intencionais, demonstrando que a doutrina local antecipa, em pontos relevantes, preocupações consolidadas pela literatura internacional.
A definição institucional de local seguro e a enumeração dos locais inseguros (PARÁ, 2020a; PARÁ, 2020b) cumprem função análoga à da disciplina de controle de cano: ao exigir anteparo frontal, ausência de condições de ricochete e circulação controlada de pessoas, a norma busca garantir que, mesmo na hipótese de um disparo não intencional durante o manuseio, o projétil não atinja terceiros. Há, portanto, correspondência estrutural entre as barreiras científicas e os dispositivos normativos da PMPA.
A despeito dessa convergência, a revisão identifica espaços de aprimoramento. Em primeiro lugar, a literatura enfatiza que a eficácia das barreiras depende de treinamento periódico que automatize os gestos seguros, especialmente a indexação do dedo, de modo que resistam à degradação sob estresse; a simples existência da norma não assegura sua incorporação motora. Em segundo lugar, a ausência de um sistema padronizado de registro e análise de disparos não intencionais, lacuna já assinalada no plano nacional por Maia et al. (2021), impede que a corporação conheça seu próprio perfil de risco e direcione intervenções com precisão. A adoção de instrumentos estruturados de registro, nos moldes da taxonomia ABC proposta por O’Neill, O’Neill e Lewinski (2017) e por O’Neill et al. (2018), constitui o passo mais imediato para transformar eventos isolados em dados analisáveis e, assim, qualificar a política preventiva.
4.4 Proposta de instrumento de registro baseado na taxonomia ABC
Como decorrência da convergência identificada e da lacuna de registro apontada, propõe-se um instrumento padronizado de notificação de disparos não intencionais aplicável à PMPA, estruturado em três blocos. O primeiro bloco classifica o antecedente situacional do evento conforme as seis classes da taxonomia (tarefa rotineira de manuseio; contato com objeto externo; coativação muscular involuntária; tarefa pouco familiar; reação de sobressalto; condição médica preexistente). O segundo bloco descreve o comportamento de manuseio no instante do evento, registrando o estado das três barreiras críticas — indexação do dedo fora do guarda-mato, direção do cano e condição de carregamento. O terceiro bloco registra a consequência, distinguindo eventos sem dano de eventos com lesão ou dano material. A adoção desse instrumento permitiria à corporação conhecer seu próprio perfil de risco, direcionar o treinamento periódico para os antecedentes mais frequentes e avaliar, ao longo do tempo, o impacto das medidas preventivas — transformando a atual convergência normativa em política de prevenção orientada por dados.
5 Conclusão
A revisão bibliográfica demonstrou que os disparos não intencionais com arma de fogo no contexto policial militar são predominantemente eventos relacionados ao manuseio rotineiro e ao fator humano, e não decorrentes de falhas mecânicas ou restritos a situações de confronto. As barreiras preventivas mais relevantes identificadas foram a indexação do dedo fora do guarda-mato, o controle da direção do cano e o controle das condições de carregamento, que atuam de forma complementar e dependem da adoção disciplinada de procedimentos padronizados e de treinamento contínuo.
A análise evidenciou ainda que a Polícia Militar do Pará possui um arcabouço normativo alinhado às evidências científicas disponíveis, especialmente por meio de seus Procedimentos Operacionais Padrão de manutenção e do Manual de Armamento e Tiro, os quais incorporam medidas essenciais de segurança no manuseio de armamento. Essa convergência entre doutrina institucional e literatura especializada representa um importante ativo para a prevenção de incidentes envolvendo armas de fogo.
Entretanto, o estudo identificou lacunas relevantes, como a ausência de sistemas padronizados de registro e análise de disparos não intencionais e a escassez de pesquisas empíricas nacionais sobre o tema. Nesse sentido, recomenda-se a implementação de instrumentos de registro baseados na taxonomia antecedente-comportamento-consequência (ABC), bem como a realização de estudos que permitam mensurar a incidência desses eventos e avaliar o impacto do treinamento periódico de manuseio seguro. Dessa forma, será possível fortalecer a cultura de segurança institucional e aprimorar as estratégias de preservação da vida de policiais e da população.
Referências
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3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Licenciado em Pedagogia e Especialista em Cidadania e Segurança Pública – Santarém – Pará – Brasil. ORCID: https://orcid.org/ 0009-0002-0343-697X. E-mail: cbpmrduarte@gmail.com ↑
3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Analista de Sistemas – Santarém – Pará – Brasil. ORCID: https://orcid.org/ 0009-0001-4402-9345 ↑
3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Tecnólogo em Segurança Pública e Especialista em Gestão e Inteligência em Segurança Pública – Santarém – Pará – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5741-5148 ↑
3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Tecnólogo em Segurança Pública e Especialista em Segurança Pública e Privada – Santarém – Pará – Brasil. ORCID: https://orcid.org/ 0009-0001-2525-9831 ↑

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