Relação entre transtorno dismórfico corporal e o uso indiscriminado dos agonistas de GLP-1
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Objetivo: Este estudo tem como objetivo analisar, à luz da literatura científica, a possível relação entre o transtorno dismórfico corporal e o uso indiscriminado de agonistas do receptor de GLP-1 para fins estéticos, investigando os impactos à saúde dos pacientes decorrentes do abuso dessas medicações.Método: Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, de natureza descritiva e exploratória. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS. Foram incluídos artigos originais e de revisão publicados nos últimos 10 anos, nos idiomas português, inglês e espanhol, excluindo-se trabalhos com falhas metodológicas e aqueles que não abordassem a intersecção entre saúde mental e o uso das medicações em análise.Resultados: Foram selecionados 15 artigos, publicados entre 2019 e 2025. Os achados revelam uma intersecção significativa entre o uso estético off-label de agonistas de GLP-1, a influência das redes sociais sobre os padrões de beleza e as vulnerabilidades psiquiátricas associadas à distorção da imagem corporal. As evidências sugerem que o uso não supervisionado desses fármacos pode intensificar sintomas dismórficos, especialmente em jovens com histórico psiquiátrico prévio.Conclusão: O uso indiscriminado de agonistas do receptor de GLP-1 para fins cosméticos representa um relevante risco à saúde pública, especialmente para indivíduos com transtorno dismórfico corporal. A ausência de diretrizes clínicas específicas e de protocolos de rastreio psiquiátrico reforça a necessidade urgente de medidas regulatórias, abordagens multidisciplinares e mais pesquisas sobre essa temática emergente.

Descriptores: Trastorno Dismórfico Corporal; Agonistas de Receptores de GLP-1; Uso Off-Label; Imagem Corporal; Estética; Perda de Peso; Fármacos e Antiobesidade.

ABSTRACT

Objective: This study aimed to analyze, based on scientific literature, the possible relationship between body dysmorphic disorder and the indiscriminate use of GLP-1 receptor agonists for aesthetic purposes, investigating the health impacts associated with the misuse of these medications. Method: This is an integrative literature review of descriptive and exploratory nature. The bibliographic search was conducted in PubMed, SciELO, and LILACS databases. Original and review articles published in the last 10 years, in Portuguese, English, and Spanish, were included. Studies with methodological flaws or that did not address the intersection between mental health and the use of GLP1 agonists were excluded.Results: Fifteen articles were selected for analysis, published between 2019 and 2025. The findings reveal a significant intersection between the offlabel aesthetic use of GLP-1 agonists, social media influence on beauty standards, and psychiatric vulnerabilities associated with body image distortion. Evidence suggests that unsupervised use of these drugs may intensify dysmorphic symptoms, particularly in young individuals with prior psychiatric history.Conclusion: The indiscriminate use of GLP-1 receptor agonists for cosmetic purposes represents a significant public health risk, especially for individuals with body dysmorphic disorder. The absence of specific clinical guidelines and psychiatric screening protocols highlights the urgent need for regulatory measures, multidisciplinary approaches, and further research on this emerging topic.

Keywords: Body Dysmorphic Disorder; Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists; Off-Label Use; Body Image; Esthetics; Weight Loss; Anti-Obesity Agents.

INTRODUÇÃO

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é uma condição psiquiátrica grave, considerada uma preocupação de saúde pública. Caracteriza-se pela preocupação excessiva com falhas ou defeitos mínimos na aparência física, que geralmente não são detectáveis ou são irrelevantes para outras pessoas, mas que geram sofrimento significativo e danos à saúde das pessoas afetadas (Nicewicz; Torrico; Boutrouille, 2024). Essa condição é frequentemente subdiagnosticada, porém carrega altos índices de morbidade e de disfunções psicossociais, sendo o isolamento social e a depressão algumas de suas principais consequências (Fang; Hofmann, 2021). O TDC está fortemente relacionado às pressões estéticas contemporâneas, amplificadas pelo uso das redes sociais, que disseminam padrões de beleza inatingíveis e contribuem continuamente para a insatisfação corporal (Trichas; Janniger; Schwartz, 2025). Somam-se a isso fatores intrínsecos, principalmente de ordem psicológica como ansiedade, depressão e baixa autoestima, que atuam como desencadeadores da disfunção dismórfica. Como consequência, as pessoas afetadas representam uma parcela significativa dos pacientes que buscam procedimentos estéticos, dermatológicos e de cirurgia plástica, com o objetivo de se adequar a padrões socialmente impostos (Kaleeny; Janis, 2024).

Paralelamente ao TDC, nos últimos anos foram desenvolvidos e popularizados os medicamentos agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), como a semaglutida e a liraglutida (Krug et al., 2025). Esses fármacos foram originalmente criados para o controle e o manejo do Diabetes Mellitus tipo 2 e da Obesidade. Em termos farmacológicos, atuam no retardo do esvaziamento gástrico e na modulação das vias centrais de recompensa no sistema nervoso central, resultando na supressão do apetite e na consequente perda de peso acelerada. Contudo, o rápido sucesso metabólico dessas medicações gerou um consumo desenfreado por automedicação e uso off-label isto é, em indicações não contempladas pela bula (Ferreira et al., 2025).

O consumo excessivo dos agonistas de GLP-1 em contextos de vulnerabilidade psiquiátrica configura uma correlação perigosa, que inclui pacientes com Transtorno Dismórfico Corporal (National Eating Disorders Association, 2025). A supressão do apetite, aliada à transformação corporal em curtos intervalos de tempo, tem o potencial de promover comportamentos patológicos de controle rígido do peso e de restrição alimentar, enquanto princípios de saúde como prática de atividade física, sono regular e alimentação equilibrada são negligenciados, intensificando progressivamente os sintomas de dismorfia (Szymanski et al., 2025; Krug et al., 2025).

Publicações recentes passaram a estimar e avaliar os riscos dessa prática para a saúde física e mental. Evidenciou-se que o uso estético desses fármacos por indivíduos sem indicação médica expõe os pacientes a graves efeitos colaterais e complicações gastrointestinais, além de contribuir para a escassez do medicamento para aqueles com indicação clínica legítima (Ferreira et al., 2025). Observou-se ainda que o uso de agonistas de GLP-1 pode estar associado ao agravamento de episódios de TDC, especialmente em indivíduos jovens com histórico de depressão ou distúrbios de imagem corporal (Szymanski et al., 2025).

Destarte, evidencia-se a ausência de diretrizes específicas acerca do uso de fármacos endocrinológicos em pacientes psiquiátricos com transtornos dismórficos corporais, bem como a escassez de literatura que correlacione o TDC e os possíveis impactos psicossociais decorrentes do uso indiscriminado dessas medicações para fins estéticos. Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar a possível relação entre o Transtorno Dismórfico Corporal e o uso de agonistas do receptor de GLP-1 para fins estéticos, investigando o perfil de risco psiquiátrico, o comportamento clínico das distorções de autoimagem e a urgência de controle em saúde pública.

1 METODOLOGIA

1.1 Tipo de estudo

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva e exploratória. Com o intuito de conferir rigor metodológico à investigação, o estudo foi estruturado a partir de uma pergunta norteadora baseada na estratégia PICO (População: indivíduos portadores do Transtorno Dismórfico Corporal ou de transtornos de distorção da autoimagem; Interesse: uso indiscriminado de agonistas de GLP-1; Contexto: finalidades estéticas e emagrecimento rápido). A partir dessas variáveis, definiu-se o seguinte questionamento: "Quais são os principais impactos psicossociais e os riscos associados ao uso indiscriminado de agonistas de GLP-1 para fins estéticos em pacientes com Transtorno Dismórfico Corporal?"

1.2 Etapas da pesquisa

O desenvolvimento deste estudo está estruturado em cinco etapas fundamentais. Inicialmente, identificou-se a problemática a ser investigada e definiram-se os objetivos da pesquisa. A segunda etapa consistiu na busca de artigos científicos em plataformas digitais, identificando estudos com relação direta entre o uso desequilibrado de medicação emagrecedora e distúrbios de insatisfação corporal. A terceira etapa envolveu a avaliação e seleção dos trabalhos mais relevantes, priorizando publicações em periódicos indexados nas áreas de psiquiatria, endocrinologia e farmacologia. A quarta etapa compreendeu a extração e o tabelamento dos dados dos artigos selecionados, incluindo resultados e impactos clínicos. Por fim, a quinta etapa abrangeu a síntese, a discussão e a apresentação dos resultados obtidos.

1.3 Critérios de Inclusão e Exclusão

1.3.1 Critérios de Inclusão

Serão incluídos artigos científicos publicados em periódicos submetidos à revisão por pares que investiguem desfechos psiquiátricos, comportamentos de risco ou perfis epidemiológicos relacionados ao uso de terapias baseadas em GLP-1 para fins exclusivamente estéticos. Será aplicado um recorte temporal para publicações dos últimos 10 anos, englobando textos nos idiomas português, inglês e espanhol. Exceções temporais serão admitidas apenas para estudos teóricos com sólida fundamentação acerca da fisiopatologia da doença em análise.

1.3.2 Critérios de Exclusão

Serão excluídos artigos sem relação direta com o tema principal, bem como estudos focados exclusivamente no uso endócrino e metabólico padrão dessas medicações, sem abordar implicações relacionadas à imagem corporal ou ao uso estético. Também serão descartados editoriais, cartas ao leitor, resumos de congressos e artigos com rigor metodológico insuficiente.

1.4 Instrumentos e procedimentos

O levantamento bibliográfico foi realizado de forma sistematizada nas plataformas PubMed, SciELO e LILACS. A estratégia de busca empregou cruzamentos com os operadores booleanos AND e OR, associados a descritores controlados do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e do MeSH (Medical Subject Headings). Os descritores utilizados foram: Body Dysmorphic Disorders; Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists; Off-Label Use; Body Image; Esthetics; Weight Loss; Anti-Obesity Agents. A seleção dos estudos ocorreu mediante leitura de títulos e resumos em uma primeira triagem, seguida da leitura na íntegra dos textos que atenderam aos critérios de inclusão, conduzida por revisores de forma independente.

1.5 Análise dos dados

Os dados extraídos dos artigos incluídos na revisão final foram catalogados em instrumento de coleta próprio, contemplando variáveis como: título, autores, ano de publicação, delineamento do estudo, tamanho da amostra e principais desfechos. A análise foi de natureza qualitativa, promovendo a integração e a interpretação crítica das evidências levantadas.

1.6 Aspectos éticos

Por se tratar de um estudo de revisão baseado na coleta, síntese e análise de dados secundários oriundos de publicações científicas de domínio público, o presente projeto dispensa submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). O estudo foi conduzido com rigoroso respeito aos direitos autorais, em conformidade com a Resolução n.º 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

2 RESULTADOS

Ao término da busca e seleção, foram incluídos 15 artigos na etapa final de análise, todos atendendo rigorosamente aos critérios de elegibilidade. Os trabalhos foram publicados entre 2019 e 2025, com pico de publicações a partir de 2023, o que evidencia o caráter emergente da problemática relacionada ao uso off-label de agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida. Os delineamentos metodológicos variaram predominantemente entre revisões sistemáticas e integrativas e estudos observacionais. Três eixos temáticos centrais emergiram da análise: (1) a relação entre TDC e uso estético de GLP-1; (2) a influência das redes sociais na disseminação do uso sem prescrição; e (3) os riscos clínicos e de saúde pública associados ao uso indiscriminado dessas medicações.

No que diz respeito ao primeiro eixo, Krug et al. (2025) demonstraram, por meio de revisão sistemática com meta-análise, que os agonistas de GLP-1 apresentam potencial para reduzir episódios de compulsão alimentar, porém podem intensificar padrões restritivos em pacientes com vulnerabilidade psiquiátrica prévia. Esse achado é corroborado por Szymanski et al. (2025), que identificaram agravamento de sintomas dismórficos em jovens com histórico de depressão e distúrbios da imagem corporal submetidos ao uso desses fármacos sem rastreio psiquiátrico. Kaleeny e Janis (2024) acrescentam que pacientes com TDC constituem um grupo de alto risco para o uso de intervenções estéticas em geral, incluindo medicações para perda de peso, por apresentarem expectativas irrealistas e insatisfação crônica com os resultados obtidos.

Em relação ao segundo eixo, Han et al. (2023) identificaram, por meio de análise de tendências do Google, um crescimento exponencial de buscas pelo termo "Ozempic cosmético" a partir de 2022, sobretudo entre jovens adultos nos Estados Unidos. Esse fenômeno foi ampliado pelo conteúdo publicado em plataformas digitais: Basch et al. (2023) analisaram mais de mil vídeos sob a hashtag #Ozempic no TikTok e constataram que a grande maioria dos conteúdos era de caráter positivo, sem apresentar alertas médicos. Paralelamente, Fong et al. (2024) identificaram, em análise de postagens no Reddit, que usuários minimizavam os riscos do medicamento e associavam seu uso a questões de imagem corporal e identidade, padrão que se mostrou ainda mais expressivo entre adolescentes (Peyyety et al., 2025).

Quanto ao terceiro eixo, Ferreira et al. (2025) sistematizaram as complicações clínicas do uso off-label de semaglutida, destacando eventos adversos gastrointestinais graves e a contribuição desse fenômeno para a escassez do medicamento para pacientes com indicação metabólica legítima — cenário documentado por Mahase (2024) em alerta publicado no British Medical Journal. Turnock et al. (2025) acrescentaram uma dimensão adicional ao problema ao identificar a comercialização ilícita de semaglutida em mercados digitais internacionais, com produtos falsificados e sem controle sanitário, elevando ainda mais os riscos de saúde para consumidores que buscam o medicamento por canais não oficiais. Por fim, Raubenheimer et al. (2024) demonstraram, por meio de análise infodemiológica global, que a demanda por semaglutida está diretamente correlacionada à exposição midiática, sendo proporcionalmente maior em países de alta renda.

A Tabela 1 apresenta a caracterização detalhada de todos os estudos selecionados para esta revisão, descrevendo os autores, o delineamento metodológico e os principais desfechos relacionados ao tema.

Tabela 1 – Caracterização dos estudos selecionados sobre o uso de agonistas de GLP-1 e impactos na imagem corporal. Bases de dados virtuais, 2019–2025.

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

3 DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão integrativa evidenciam uma intersecção clínica e epidemiológica relevante entre o Transtorno Dismórfico Corporal e o uso indiscriminado de agonistas do receptor de GLP-1 para fins estéticos. Esse cenário é amplificado por fatores estruturais e socioculturais, em especial o papel das redes sociais , que convergem para um quadro de risco psiquiátrico ainda insuficientemente abordado na literatura especializada (Trichas; Janniger; Schwartz, 2025; Basch et al., 2023).

O TDC, por sua natureza, predispõe os indivíduos afetados a uma busca compulsiva por transformações corporais, frequentemente sem satisfação duradoura com os resultados obtidos (Fang; Hofmann, 2021). Nesse contexto, os agonistas de GLP-1 representam um recurso aparentemente acessível e eficaz para a perda de peso rápida, tornando-se atrativos para esse público vulnerável. Contudo, conforme demonstrado por Krug et al. (2025) e Szymanski et al. (2025), a supressão farmacológica do apetite, dissociada de acompanhamento multiprofissional, pode reforçar comportamentos alimentares restritivos e intensificar a distorção da autoimagem, criando um ciclo de retroalimentação entre o uso do fármaco e o agravamento da psicopatologia de base.

A influência das mídias digitais merece atenção especial nessa análise. Plataformas como TikTok e Reddit funcionam como vetores de desinformação médica, ao apresentar o uso cosmético de GLP-1 de forma glamourizada e descontextualizada dos riscos reais (Basch et al., 2023; Fong et al., 2024). Essa dinâmica é particularmente preocupante entre adolescentes e jovens adultos, população que apresenta maior vulnerabilidade à construção de ideais corporais distorcidos e menor capacidade crítica frente a conteúdos não mediados por profissionais de saúde (Peyyety et al., 2025; Han et al., 2023). A Organização Mundial da Saúde e entidades regulatórias europeias já sinalizaram a urgência de mecanismos de controle sobre esse tipo de comunicação em saúde no ambiente digital (Mahase, 2024).

Do ponto de vista clínico, o uso de agonistas de GLP-1 sem indicação formal expõe os pacientes a um espectro amplo de complicações, incluindo náuseas, vômitos, pancreatite aguda, gastroparesia e alterações hidroeletrolíticas, com maior gravidade em indivíduos que já apresentam restrição alimentar voluntária (Ferreira et al., 2025). Em populações com TDC, a sobreposição desses efeitos adversos físicos com a vulnerabilidade psicológica preexistente pode precipitar ou agravar quadros depressivos, ansiosos e de transtornos alimentares associados (NEDA, 2025; Szymanski et al., 2025). A dimensão da crise de abastecimento, documentada por Mahase (2024) e reforçada por Turnock et al. (2025), adiciona uma camada de injustiça sanitária ao cenário: pacientes com Diabetes Mellitus tipo 2 e Obesidade grave para os quais o medicamento possui indicação formal têm seu acesso comprometido pelo consumo estético irresponsável.

Cabe destacar que a literatura ainda é escassa no que se refere a ensaios clínicos que avaliem especificamente os desfechos psiquiátricos do uso de GLP-1 em pacientes com TDC diagnosticado. A maioria dos estudos disponíveis aborda essa relação de forma indireta, por meio de revisões ou análises epidemiológicas populacionais, o que limita a força das inferências causais. Essa lacuna reforça a necessidade de estudos prospectivos e controlados que avaliem o impacto dessas medicações em populações psiquiátricas, bem como o desenvolvimento de protocolos de triagem obrigatória para transtornos da imagem corporal antes da prescrição de agonistas de GLP-1 para fins de perda de peso (Kaleeny; Janis, 2024; Radkhah et al., 2025).

Outrossim, a comercialização ilícita de semaglutida em plataformas digitais internacionais, conforme documentado por Turnock et al. (2025), representa um desafio adicional às estratégias regulatórias, pois permite o acesso ao fármaco fora de qualquer supervisão médica. Esse fenômeno é retroalimentado pela demanda gerada pelas redes sociais e pela percepção, errônea, de que se trata de um medicamento seguro para uso cosmético generalizado. A articulação entre vigilância sanitária, plataformas digitais e educação em saúde surge, portanto, como eixo estruturante de qualquer política pública eficaz nesse campo.

Em suma, os achados desta revisão convergem para a necessidade de uma abordagem integrada que contemple dimensões clínicas, psiquiátricas, regulatórias e comunicacionais. A interface entre o TDC e o uso não supervisionado de agonistas de GLP-1 configura um problema de saúde pública emergente que demanda respostas imediatas e coordenadas por parte de gestores, profissionais de saúde e agências regulatórias.

4 CONCLUSÃO

Esta revisão integrativa evidenciou que o uso indiscriminado de agonistas do receptor de GLP-1 para fins estéticos representa um risco clínico e psiquiátrico significativo, especialmente para indivíduos portadores de Transtorno Dismórfico Corporal. A análise dos 15 estudos selecionados demonstrou que a intersecção entre a vulnerabilidade psicológica característica do TDC, a supressão farmacológica do apetite e a influência das redes sociais cria um ambiente propício ao agravamento de sintomas dismórficos, ao desenvolvimento de comportamentos alimentares patológicos e à exposição a complicações físicas graves, em especial nas populações jovens.

A disseminação do uso off-label dessas medicações, potencializada por conteúdos digitais desinformados e pela oferta ilícita em mercados online, agrava o cenário ao comprometer o acesso de pacientes com indicação clínica legítima e ao contornar os mecanismos de supervisão médica. Nesse contexto, fica evidente a necessidade urgente de protocolos de triagem psiquiátrica padronizados antes da prescrição de agonistas de GLP-1, bem como de diretrizes específicas que orientem o manejo desses fármacos em populações com transtornos da imagem corporal.

Do ponto de vista da saúde pública, os resultados apontam para a importância de ações regulatórias coordenadas entre agências sanitárias, plataformas digitais e conselhos profissionais de saúde, visando à contenção da desinformação e ao uso responsável dessas medicações. Ademais, reforça-se a necessidade de investimento em estudos prospectivos e controlados que avaliem os desfechos psiquiátricos específicos do uso de agonistas de GLP-1 em pacientes com TDC, a fim de preencher as lacunas científicas identificadas nesta revisão e subsidiar a elaboração de políticas clínicas fundamentadas em evidências robustas.

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