Descompasso entre oferta e demanda de trabalho no município de Linhares/ES: análise dos fatores de rotatividade e qualificação profissional (2025-2026)
Mismatch between labor supply and demand in the municipality of Linhares, Espírito Santo: an analysis of workforce turnover and professional qualification factors (2025–2026)
Enzo Lima Souza[1]
Julya Piana Meca[2]
Vasconcelos Zuqui[3]
Ivan Meloti Capucho[4]
Reofran Pereira Dos Santos[5]
RESUMO
A dinâmica recente do mercado de trabalho em Linhares/ES revela um cenário marcado, simultaneamente, pela ampliação do emprego formal e pela permanência de dificuldades relacionadas ao preenchimento e à manutenção de trabalhadores em determinadas ocupações. Diante desse contexto, o presente artigo busca compreender os fatores que explicam o descompasso entre a oferta de vagas e a efetiva inserção da mão de obra no município. Parte-se do entendimento de que esse fenômeno não se restringe à disponibilidade numérica de trabalhadores, mas envolve elementos associados à qualificação profissional, à atratividade das vagas ofertadas e às mudanças nas formas de inserção produtiva. Para tanto, desenvolveu-se uma pesquisa exploratória e descritiva, de abordagem qualitativa, sustentada por revisão bibliográfica e análise documental de dados provenientes do Novo CAGED, IBGE, SEBRAE, IJSN e DIEESE, com foco no período de janeiro de 2025 a janeiro de 2026. A análise foi conduzida a partir de discussões sobre empregabilidade, desemprego estrutural, rotatividade laboral, Teoria do Capital Humano e Teoria dos Mercados de Trabalho Segmentados. Os resultados apontam que o caso linharense expressa um desencontro entre as demandas do mercado e as condições concretas de inserção e permanência dos trabalhadores, evidenciado pela coexistência entre vagas abertas, alta movimentação laboral e crescimento de alternativas ao emprego formal, como o Microempreendedor Individual (MEI). Conclui-se que a compreensão desse quadro exige uma leitura articulada entre formação da força de trabalho, qualidade das oportunidades oferecidas e estratégias adotadas pelos trabalhadores para garantir permanência ocupacional e geração de renda.
Palavras-chave: Mercado de trabalho; Qualificação profissional; Rotatividade laboral; Microempreendedor Individual; Linhares/ES.
ABSTRACT
The recent dynamics of the labor market in Linhares, Espírito Santo, reveal a scenario marked simultaneously by the expansion of formal employment and by the persistence of difficulties related to filling positions and retaining workers in certain occupations. In this context, this article seeks to understand the factors that explain the mismatch between job supply and the effective insertion of labor in the municipality. The study is based on the understanding that this phenomenon is not limited to the numerical availability of workers, but also involves elements related to professional qualification, the attractiveness of the jobs offered, and changes in forms of productive insertion. To this end, an exploratory and descriptive study with a qualitative approach was conducted, supported by bibliographic review and documentary analysis of data from Novo CAGED, IBGE, SEBRAE, IJSN, and DIEESE, focusing on the period from January 2025 to January 2026. The analysis was guided by discussions on employability, structural unemployment, labor turnover, Human Capital Theory, and Segmented Labor Market Theory. The results indicate that the case of Linhares reflects a mismatch between labor market demands and the actual conditions for workers’ insertion and permanence, evidenced by the coexistence of open vacancies, high labor turnover, and the growth of alternatives to formal employment, such as the Individual Microentrepreneur (MEI). It is concluded that understanding this situation requires an integrated perspective on workforce qualification, the quality of the opportunities offered, and the strategies adopted by workers to ensure occupational permanence and income generation.
Keywords: labor market; professional qualification; labor turnover; individual microentrepreneur; Linhares/ES.
1. INTRODUÇÃO
O mercado de trabalho contemporâneo passa por transformações estruturais decorrentes da reestruturação produtiva, dos avanços tecnológicos e da diversificação das relações laborais. No ecossistema empresarial, essas mudanças alteram drasticamente a dinâmica entre a oferta e a demanda de mão de obra. Para compreender a amplitude desse fenômeno, faz-se necessário analisar o cenário socioeconômico a partir de uma perspectiva macroeconômica, afunilando os indicadores estruturais do panorama nacional até a realidade específica do município, foco deste estudo.
No cenário macroeconômico, o Brasil apresenta-se como uma nação de proporções continentais e com uma força de trabalho expressiva. De acordo com as estimativas oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira atingiu o montante de 213,4 milhões de habitantes (IBGE, 2025). Esse contingente populacional reflete um mercado interno robusto, mas também impõe desafios complexos no que tange à absorção de mão de obra e à qualificação profissional. O mercado de trabalho formal brasileiro tem buscado caminhos de recuperação e expansão, convivendo paralelamente com a ascensão expressiva de novas modalidades de ocupação legal, tais como o Microempreendedor Individual (MEI), que em nível nacional já ultrapassa a marca de 15,7 milhões de registros ativos (ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO, 2025). Esse dado indica que uma parcela significativa da população economicamente ativa tem migrado do regime tradicional de contratação formal para o empreendedorismo por conta própria, modificando as bases da oferta de trabalho para as organizações convencionais.
Ao estreitar a análise para o nível regional, o Estado do Espírito Santo consolida-se como um dos entes federativos de grande relevância logística e econômica no cenário nacional. Caracterizado por uma economia historicamente ligada ao comércio exterior, à indústria extrativa e à siderurgia, o território capixaba tem passado por um forte processo de descentralização econômica e atração de novos complexos industriais e de serviços em suas microrregiões (A GAZETA, 2024). Essa dinâmica estadual exige dos municípios uma infraestrutura capaz de acompanhar os investimentos privados e uma constante movimentação na geração de empregos com carteira assinada, conforme monitorado pelas plataformas oficiais do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (BRASIL, 2026). Contudo, a distribuição geográfica dessas oportunidades e a qualificação setorial exigida pelo parque produtivo capixaba geram assimetrias regionais latentes na alocação de profissionais.
No nível microeconômico, inserido nesse vetor de crescimento do Espírito Santo, o município de Linhares desponta como um polo estratégico altamente atrativo para investimentos industriais, comerciais e agroindustriais (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025). Com uma população estimada pelo IBGE em 183.797 habitantes, o município tornou-se um centro urbano receptor de fluxos migratórios motivados pela promessa de empregabilidade e expansão socioeconômica (IBGE,2026).
Contudo, é precisamente no ápice desse acelerado desenvolvimento econômico que emerge a contradição que alicerça a problemática desta pesquisa. Apesar dos saldos positivos de emprego e do avanço nos investimentos privados em Linhares, as organizações locais enfrentam sérias barreiras no recrutamento de pessoal, resultando na persistência de vagas em aberto que não encontram preenchimento imediato. Esse paradoxo local ganha contornos ainda mais complexos quando confrontado com as novas configurações do mercado de trabalho municipal, caracterizado pela presença expressiva de 13.860 cadastros ativos de Microempreendedores Individuais (MEI), o que representa mais de 50% das empresas ativas da cidade (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025). Diante deste panorama, este artigo busca responder à seguinte problemática: como um município com expressivo crescimento econômico e geração de empregos enfrenta dificuldades na alocação de trabalhadores em determinadas vagas? Para tanto, faz-se imperioso investigar se este descompasso decorre de um desalinhamento estrutural entre as exigências técnicas e comportamentais impostas pelas empresas e o perfil de qualificação da mão de obra disponível, ou se é acentuado pela incompatibilidade de expectativas financeiras e contratuais frente ao crescimento de alternativas autônomas como o microempreendedorismo individual na região de Linhares.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A análise das relações de trabalho em um determinado território exige, inicialmente, a compreensão do contexto econômico e social no qual essas relações estão inseridas. As características históricas, geográficas e produtivas de um município influenciam diretamente sua capacidade de gerar empregos, atrair investimentos e desenvolver oportunidades profissionais. Dessa forma, compreender a trajetória de desenvolvimento de Linhares torna-se fundamental para analisar os fatores que contribuem para a dinâmica do mercado de trabalho local e para os desafios relacionados à contratação de mão de obra. Localizado na região norte do Estado do Espírito Santo, o município de Linhares consolidou-se como um dos principais centros econômicos do estado. Sua formação histórica remonta ao início do século XIX, tendo como marco o ano de 1833. Entretanto, sua trajetória político-administrativa passou por diferentes transformações, incluindo períodos de reorganização territorial, até sua emancipação definitiva em 31 de dezembro de 1943, quando se consolidou como município autônomo. A partir desse período, Linhares iniciou um processo mais estruturado de expansão urbana e organização econômica, fortemente associado à sua localização estratégica e à disponibilidade de recursos naturais (IBGE, 2024; PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
Nas décadas seguintes, a economia municipal passou a se estruturar em uma matriz produtiva baseada na forte integração entre o meio rural e o espaço urbano. O setor primário desempenhou papel central nesse processo, com destaque para a agropecuária, que impulsionou a formação econômica local. Inicialmente, o município se destacou pelo ciclo do cacau e, posteriormente, consolidou-se com culturas de grande relevância econômica, como café conilon, mamão e pimenta-do-reino. Essa base agrícola contribuiu significativamente para a geração de renda, formação de cadeias produtivas e desenvolvimento de atividades complementares relacionadas ao comércio, transporte e beneficiamento de produtos (INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES, 2015; PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2018; PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2022).
Esse acúmulo de capital oriundo do setor agrícola possibilitou a transição gradual do município para um processo de modernização econômica, marcado pela expansão industrial e pela diversificação produtiva a partir da segunda metade do século XX. Nesse contexto, Linhares passou a atrair empreendimentos industriais de diferentes segmentos, impulsionando a reconfiguração de sua estrutura econômica e urbana (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
Um marco importante nesse processo de transformação foi a inclusão do município na área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em 1998, por meio da Lei nº 9.690. Essa inserção ampliou a competitividade regional de Linhares, favorecendo a atração de investimentos privados por meio de incentivos fiscais e condições diferenciadas para instalação de empresas (BRASIL, 1998). Esse cenário contribuiu para a consolidação de um ambiente favorável à industrialização, resultando na instalação de grandes corporações nacionais e internacionais em seu território, o que impactou diretamente a geração de empregos e a dinamização da economia local (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
A partir desse processo de industrialização, o município passou a vivenciar uma intensificação da diversificação econômica, com o fortalecimento simultâneo dos setores industrial, comercial, logístico e de serviços. Empresas de diferentes segmentos passaram a compor o cenário econômico local, promovendo maior complexidade produtiva e ampliando a oferta de oportunidades de trabalho. Essa diversificação também contribuiu para a consolidação de Linhares como um polo regional de influência, atraindo trabalhadores, consumidores e investimentos de municípios vizinhos (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
Além do setor industrial, o setor de serviços passou a desempenhar papel central na economia local, acompanhando o crescimento populacional e a expansão das atividades empresariais. O comércio, os serviços administrativos, educacionais, financeiros e de atendimento contribuíram para a ampliação da estrutura urbana e para o aumento da circulação econômica no município. De forma complementar, o setor logístico também ganhou relevância estratégica, uma vez que a localização geográfica de Linhares favorece o escoamento da produção e a integração com outras regiões do estado e do país (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025; IBGE, 2024).
A presença de uma estrutura produtiva diversificada, aliada à localização estratégica, contribui para a competitividade econômica do município e para sua capacidade de atração de novos empreendimentos. Conforme informações institucionais, fatores como disponibilidade territorial, infraestrutura e condições favoráveis de investimento têm sido determinantes para o fortalecimento do ambiente econômico local (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
O crescimento econômico observado em Linhares também provocou mudanças significativas na dinâmica urbana e populacional. A expansão das atividades produtivas favoreceu o aumento da urbanização e o deslocamento de pessoas em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida. Esse processo ampliou a demanda por infraestrutura urbana, serviços públicos e qualificação profissional, exigindo maior planejamento para acompanhar o ritmo de desenvolvimento do município (IBGE, 2024; PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
3. CONCEITOS FUNDAMENTAIS E DINÂMICAS DO MERCADO DE TRABALHO
O entendimento das barreiras de alocação de mão de obra em contextos econômicos dinâmicos exige a articulação entre mercado de trabalho, empregabilidade e qualificação profissional. Esse ecossistema, formado pelas relações entre a oferta de trabalhadores e a demanda das organizações, é marcado por constantes transformações e desequilíbrios. Conforme assinala Chiavenato (2014), mesmo cenários de crescimento econômico e ampliação da oferta de postos não garantem, por si sós, o equilíbrio entre vagas e trabalhadores, uma vez que podem persistir desajustes entre o perfil requerido pelas empresas e as competências efetivamente disponíveis na força de trabalho. Essa assimetria se intensifica em contextos de reestruturação produtiva, incorporação tecnológica e reorganização ocupacional, nos quais a adaptabilidade do trabalhador passa a ser uma exigência central (POCHMANN, 2001).
Nessa perspectiva, o aumento quantitativo do número de vagas não assegura automaticamente sua ocupação, pois o processo de contratação passa a ser mediado por barreiras qualitativas. É nesse ponto que se insere o conceito de empregabilidade, entendido como a capacidade do indivíduo de ingressar, permanecer e se desenvolver no mundo do trabalho a partir do conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que mobiliza. No centro desse debate está a qualificação profissional. Segundo Pastore (2000), o avanço tecnológico e a crescente competitividade entre as empresas elevaram o rigor dos processos de recrutamento, transformando a capacitação técnica em elemento decisivo para a inserção ocupacional. Ao mesmo tempo, Chiavenato (2014) destaca que a empregabilidade contemporânea não se restringe ao domínio técnico, abrangendo também competências comportamentais, como flexibilidade, proatividade, resiliência e capacidade de adaptação. Em complemento, Fleury e Fleury (2001) ressaltam que a competência profissional não se resume ao acúmulo de conhecimentos formais, mas envolve a habilidade de mobilizar saberes e atitudes de forma eficaz diante das demandas concretas do trabalho. Assim, em mercados que exigem perfis cada vez mais multifacetados, a insuficiência de qualificação técnica e comportamental contribui diretamente para a permanência de vagas abertas e para a fragilidade da inserção profissional.
3.1 Teoria do Capital Humano e o descompasso da qualificação, inserção e retenção profissional
A análise desse cenário pode ser aprofundada pela Teoria do Capital Humano, formulada por Theodore Schultz e desenvolvida por Gary Becker. Em linhas gerais, essa perspectiva sustenta que educação, qualificação profissional, treinamento e desenvolvimento de competências constituem investimentos capazes de elevar a produtividade do trabalhador, ampliar sua empregabilidade e favorecer sua adaptação às transformações do sistema produtivo (SCHULTZ, 1961; BECKER, 1993). Sob essa ótica, a força de trabalho não deve ser compreendida apenas em termos quantitativos, isto é, pelo número de pessoas disponíveis para trabalhar, mas também em função da qualidade das competências acumuladas e de sua compatibilidade com as exigências do mercado.
No contexto contemporâneo, marcado por modernização produtiva, digitalização e aumento da competitividade, a Teoria do Capital Humano ajuda a explicar por que a mera existência de trabalhadores disponíveis não garante o preenchimento das vagas. À medida que os setores econômicos se tornam mais exigentes em termos técnicos e organizacionais, cresce a demanda por trabalhadores aptos a operar novos processos, utilizar ferramentas específicas, adaptar-se a mudanças e sustentar níveis mais elevados de produtividade. Quando a mão de obra local não recebe investimento suficiente em formação e atualização, estabelece-se um descompasso qualitativo entre o perfil do trabalhador disponível e o perfil requerido pelas empresas. Schultz (1961) já apontava que o investimento em capital humano constitui elemento essencial do desenvolvimento econômico, enquanto Becker (1993) demonstrou que a formação e o treinamento repercutem diretamente sobre produtividade, renda e capacidade de adaptação ocupacional.
No caso de Linhares, essa teoria é particularmente útil porque permite interpretar não apenas as dificuldades de ingresso nas vagas, mas também os obstáculos à permanência dos trabalhadores nos postos formais. O capital humano influencia tanto a contratação quanto a retenção. Em contextos de modernização econômica, trabalhadores com menor acesso à capacitação formal e ao treinamento contínuo tendem a encontrar mais dificuldades para acompanhar o ritmo operacional, responder às exigências técnicas da função e sustentar o desempenho esperado pelas organizações. Como consequência, podem ocorrer desligamentos precoces, dificuldades de adaptação ao cargo, sensação de inadequação e maior vulnerabilidade à rotatividade. Nessa leitura, o gargalo da qualificação em Linhares não se limita à falta de candidatos aptos a ocupar determinadas vagas, mas abrange também a insuficiência de capital humano para garantir vínculos mais estáveis e sustentáveis ao longo do tempo.
Essa discussão se articula ao conceito de desemprego estrutural, entendido como a incompatibilidade entre as competências detidas pelos trabalhadores e as exigências técnicas impostas pelo mercado em decorrência de transformações de longo prazo na estrutura produtiva. Na visão de Pochmann (2001), esse fenômeno se intensifica quando mudanças tecnológicas e organizacionais alteram o perfil das ocupações, tornam funções obsoletas e elevam o padrão de qualificação exigido. Antunes (2009), por sua vez, observa que a busca empresarial por produtividade e flexibilidade ampliou a exigência por trabalhadores multifuncionais, capazes de responder rapidamente a novas rotinas, ritmos e modelos de gestão. O desemprego estrutural evidencia, portanto, que a simples existência de postos de trabalho não é suficiente para resolver os problemas de inserção ocupacional, pois a efetiva ocupação e permanência nessas vagas depende da adequação qualitativa da mão de obra disponível.
Em municípios marcados por dinamismo econômico e expansão setorial, como Linhares, essa lógica se torna ainda mais visível. A ampliação da atividade industrial, comercial e de serviços eleva a demanda por trabalhadores, mas também intensifica as exigências técnicas e comportamentais requeridas pelas empresas. Desse modo, o crescimento do emprego formal pode coexistir com dificuldades de recrutamento, desligamentos recorrentes e reabertura frequente de postos, especialmente quando o ritmo de qualificação da força de trabalho não acompanha a velocidade da transformação produtiva local.
Outro aspecto importante é que o desemprego estrutural se manifesta também por meio da rotatividade laboral (turnover). Em cenários de transformação produtiva acelerada, a dificuldade de compatibilizar o perfil do trabalhador com o perfil da vaga pode gerar contratações instáveis, desligamentos precoces e reabertura constante de postos, alimentando um ciclo de admissões e demissões que fragiliza a estabilidade do mercado de trabalho. Nessa direção, o turnover deixa de ser apenas um indicador de gestão de pessoas e passa a expressar um sintoma de desalinhamento estrutural entre formação profissional, exigências empresariais e condições concretas de permanência nas ocupações. Estudos do DIEESE (2024) mostram que a rotatividade no mercado de trabalho brasileiro se relaciona tanto às estratégias empresariais de contratação e desligamento quanto à fragilidade dos vínculos, à baixa perspectiva de permanência e à inadequação entre o perfil ocupacional e as condições efetivamente ofertadas.
O terceiro elemento definidor desse paradoxo consiste no desalinhamento entre oferta e demanda de trabalho, caracterizado pela divergência entre as características das vagas oferecidas e as expectativas, necessidades e condições reais dos trabalhadores. Esse fenômeno projeta-se sobre dimensões como remuneração, jornada, benefícios, estabilidade, possibilidade de crescimento e qualidade das condições de trabalho. Conforme Antunes (2009), a flexibilização das relações de trabalho intensificou esse descompasso, pois, ao mesmo tempo em que as empresas elevaram suas exigências em nome da produtividade, as contrapartidas oferecidas nem sempre acompanharam esse movimento, resultando, muitas vezes, em precarização e arrocho salarial. Pastore (2000) acrescenta que, quando as oportunidades disponíveis deixam de ser percebidas como atrativas ou financeiramente viáveis, os trabalhadores tendem a rejeitá-las ou abandoná-las rapidamente, contribuindo para a permanência de vagas abertas e para a intensificação da rotatividade.
3.2 Teoria dos Mercados de Trabalho Segmentados e a rotatividade no mercado linharense
Outro referencial teórico importante para compreender a realidade de Linhares é a Teoria dos Mercados de Trabalho Segmentados, desenvolvida por Peter Doeringer e Michael Piore. Essa abordagem rompe com a ideia de que o mercado de trabalho opera de forma homogênea e equilibrada, sustentando, em vez disso, que ele é composto por segmentos distintos, marcados por diferentes níveis de remuneração, estabilidade, proteção, exigência e possibilidade de ascensão profissional (DOERINGER; PIORE, 1971). Em termos analíticos, a literatura distingue dois grandes segmentos: o mercado primário e o mercado secundário.
O mercado primário reúne ocupações mais valorizadas, associadas a melhores salários, maior estabilidade, benefícios, possibilidade de crescimento e condições de trabalho mais atrativas. Já o mercado secundário concentra postos mais vulneráveis, caracterizados por baixa remuneração, alta rotatividade, menor proteção, pouca perspectiva de carreira, exigências rígidas associadas a contrapartidas limitadas e, muitas vezes, condições de trabalho menos satisfatórias (DOERINGER; PIORE, 1971).
Nessa perspectiva, a permanência ou evasão do trabalhador não depende apenas da existência da vaga, mas da qualidade da inserção ocupacional que lhe é oferecida. A aplicação dessa teoria ao caso de Linhares é especialmente relevante para interpretar o elevado volume de admissões e desligamentos registrado no período analisado. Embora o município apresente saldo positivo de geração de empregos, os dados do Novo CAGED indicam forte proximidade entre contratações e demissões, evidenciando um padrão de intensa rotatividade laboral. Esse comportamento sugere que parcela importante das vagas abertas pode estar concentrada em ocupações com características típicas do mercado secundário, sobretudo em segmentos de grande absorção de mão de obra, como comércio e serviços. Nesses setores, é recorrente a presença de funções com salários iniciais modestos, jornadas extensas, exigência de disponibilidade imediata, baixa previsibilidade de progressão profissional e reduzido poder de retenção dos trabalhadores.
Sob essa ótica, a alta rotatividade observada em Linhares deixa de ser compreendida apenas como um problema de “falta de interesse” dos trabalhadores e passa a ser interpretada como expressão de uma estrutura ocupacional segmentada. Quando as vagas se concentram em postos pouco atrativos, a tendência é que parte da força de trabalho aceite essas ocupações apenas de maneira transitória, abandonando-as diante de oportunidades consideradas mais vantajosas, de expectativas frustradas ou da percepção de baixa valorização. Isso ajuda a explicar por que o município consegue contratar em volume elevado, mas encontra dificuldades para estabilizar e reter trabalhadores em determinadas posições. A segmentação, portanto, afeta não apenas a entrada no emprego, mas a qualidade da permanência e a durabilidade dos vínculos estabelecidos.
Essa teoria também oferece uma chave interpretativa importante para o crescimento do Microempreendedor Individual (MEI) em Linhares. Em vez de ser compreendido apenas como manifestação de vocação empreendedora espontânea, o avanço do MEI pode ser lido, ao menos em parte, como resposta à baixa atratividade de postos inseridos no mercado secundário. Para muitos trabalhadores, a formalização como microempreendedor representa uma tentativa de escapar de vínculos percebidos como pouco vantajosos, buscando maior autonomia, flexibilidade, possibilidade de organizar a própria jornada e, em alguns casos, ampliar a renda. Assim, a migração para o trabalho autônomo não significa necessariamente afastamento do trabalho, mas reconfiguração da forma de inserção produtiva diante das limitações do emprego formal tradicional em determinados segmentos.
Dessa forma, a Teoria dos Mercados de Trabalho Segmentados reforça a interpretação de que o descompasso do mercado de trabalho linharense não decorre exclusivamente de insuficiência de mão de obra, mas também da natureza das oportunidades ofertadas. O problema envolve, simultaneamente, a qualificação do trabalhador e a qualidade das vagas disponíveis. Em um ambiente econômico de forte dinamismo, o equilíbrio do mercado de trabalho depende tanto da formação de capital humano quanto da capacidade das organizações de oferecer condições laborais compatíveis com expectativas de permanência, valorização e desenvolvimento profissional.
Diante desse cenário, a expansão do empreendedorismo individual, a intensificação da rotatividade laboral e a persistência de vagas de difícil retenção ajudam a desenhar o paradoxo observado em Linhares: um município economicamente dinâmico, com geração expressiva de empregos formais, mas também marcado por dificuldades de preenchimento e permanência em parte dessas ocupações. Nesse contexto, capital humano, desemprego estrutural e segmentação do mercado de trabalho deixam de ser apenas categorias abstratas e passam a constituir chaves interpretativas fundamentais para compreender as barreiras concretas à consolidação do desenvolvimento regional.
4. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e análise documental. Conforme Gil (2008), a pesquisa exploratória busca proporcionar maior familiaridade com o problema investigado, favorecendo a formulação de interpretações mais consistentes sobre fenômenos ainda pouco sistematizados, enquanto o caráter descritivo permite observar, registrar e analisar as características de determinado fenômeno social e suas relações. Nesse sentido, o estudo procura compreender os fatores que explicam o descompasso entre a expansão do mercado de trabalho formal e a dificuldade de preenchimento e retenção de trabalhadores em Linhares/ES, articulando variáveis relacionadas à qualificação profissional, à rotatividade laboral, à atratividade das vagas e ao crescimento do microempreendedorismo individual.
No que se refere aos procedimentos técnicos, a pesquisa bibliográfica foi estruturada a partir do levantamento, leitura e sistematização de 7 obras centrais de natureza teórica e acadêmica, entre livros e artigos científicos, voltados à discussão de mercado de trabalho, empregabilidade, qualificação profissional, competências, desemprego estrutural, rotatividade laboral e transformações nas relações de trabalho. Compuseram esse eixo autores como Antunes (2009), Chiavenato (2014), Fleury e Fleury (2001), Gil (2008), Milkovich e Boudreau (2000), Pastore (2000) e Pochmann (2001). Além desse núcleo bibliográfico, o referencial teórico foi ampliado com as contribuições de Schultz (1961) e Becker (1993), no âmbito da Teoria do Capital Humano, e de Doeringer e Piore (1971), no âmbito da Teoria dos Mercados de Trabalho Segmentados, incorporadas com a finalidade de aprofundar a interpretação do gargalo de qualificação, das dificuldades de retenção e da baixa atratividade de parte das ocupações formais em Linhares. De forma complementar, a pesquisa documental apoiou-se na análise de 11 documentos e bases estatísticas/institucionais, selecionados por sua relevância para a caracterização do mercado de trabalho em escala nacional, estadual e municipal. No eixo da empregabilidade formal, foram utilizados os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo CAGED), especialmente os relatórios “Estatísticas Mensais do Emprego Formal” e a “Série Histórica Ampla por Municípios”, ambos com recorte principal para o período de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (BRASIL, 2026). Esses documentos permitiram identificar admissões, desligamentos, saldo de empregos formais e comportamento da rotatividade no município de Linhares, constituindo a principal base empírica para a análise da dinâmica local do mercado de trabalho.
Para a caracterização demográfica e socioeconômica do município, foram consultados materiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), incluindo o portal Cidades e Estados: Linhares (ES), as estimativas populacionais mais recentes e os dados referentes ao Produto Interno Bruto dos Municípios, com recorte para Linhares (IBGE, 2025; IBGE 2026). Esses materiais foram utilizados para contextualizar o porte populacional do município, sua relevância econômica no Espírito Santo e o ambiente de expansão produtiva em que se insere o problema investigado.
No plano regional, a investigação incorporou documentos do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), especialmente estudos voltados à dinâmica do mercado de trabalho formal e ao desempenho econômico dos municípios capixabas (IJSN, 2025; IJSN, 2026). Esses relatórios foram importantes para situar Linhares no contexto econômico e ocupacional do Espírito Santo, permitindo observar o desempenho do município em comparação com outras regiões do estado e compreender a centralidade de sua economia na geração de empregos e atração de investimentos.
Também foram mobilizados documentos do DIEESE e do SEBRAE, por contribuírem diretamente para a interpretação de dois fenômenos centrais da pesquisa: a rotatividade laboral e o crescimento do empreendedorismo individual. Do DIEESE, utilizou-se o estudo “Rotatividade no mercado de trabalho brasileiro: características e tendências” (DIEESE, 2024), que ofereceu suporte analítico para compreender o turnover como expressão de vínculos instáveis, desajustes entre trabalhador e vaga e limitações das condições de permanência no emprego formal. Do SEBRAE, foi utilizado o “Perfil Socioeconômico de Linhares – ES” (SEBRAE, 2025), empregado para mapear a presença do Microempreendedor Individual no município e sua relevância como alternativa de inserção produtiva diante das transformações do mercado de trabalho local.
Além das fontes estatísticas e institucionais centrais, a pesquisa recorreu a materiais complementares de contextualização, como publicações da Prefeitura Municipal de Linhares, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e reportagens de veículos jornalísticos. Essas fontes não constituíram a base principal da análise empírica, mas foram utilizadas para complementar a contextualização do dinamismo econômico local, dos investimentos anunciados para o município e da expansão do empreendedorismo individual, funcionando como apoio interpretativo às evidências extraídas das bases oficiais.
Quanto ao recorte temporal, a análise concentrou-se prioritariamente no intervalo de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, por corresponder ao período mais diretamente contemplado pelos relatórios do Novo CAGED utilizados no estudo e por permitir uma leitura recente do comportamento do mercado de trabalho formal em Linhares. A escolha desse recorte teve como objetivo captar a dinâmica contemporânea de admissões, desligamentos, saldo de empregos e expansão do empreendedorismo, articulando-a ao contexto recente de crescimento econômico municipal.
Do ponto de vista analítico, os dados foram interpretados de forma qualitativa, mediante leitura comparativa entre o referencial teórico e os documentos estatísticos e institucionais consultados. Assim, não se buscou apenas descrever números absolutos de emprego, desligamento ou formalização via MEI, mas compreender os sentidos sociais e econômicos desses indicadores à luz de categorias como capital humano, desemprego estrutural, mercados de trabalho segmentados, rotatividade laboral, empregabilidade e atratividade das vagas. Essa articulação entre teoria e evidências documentais permitiu interpretar o caso de Linhares para além da constatação de que há vagas disponíveis, demonstrando que o descompasso local decorre da interação entre expansão econômica, exigências crescentes de qualificação, limitações de retenção da mão de obra e reconfiguração das formas de inserção produtiva. Por fim, ressalta-se que a opção pela pesquisa bibliográfica e documental mostrou-se adequada aos objetivos do estudo, uma vez que permitiu reunir, sistematizar e interpretar diferentes tipos de evidência sobre o mercado de trabalho de Linhares sem recorrer, neste momento, a levantamento de campo com trabalhadores ou empregadores. Ainda assim, reconhece-se que entrevistas, questionários e estudos de caso poderão, em pesquisas futuras, aprofundar a compreensão das motivações subjetivas que levam trabalhadores a recusar vagas, pedir desligamento ou optar pelo MEI como estratégia de inserção econômica.
5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O presente estudo tem como objetivo analisar o contexto do mercado de trabalho do município de Linhares, Espírito Santo, o qual vem apresentando significativo crescimento econômico ao longo dos últimos anos. Esse desenvolvimento é evidenciado, sobretudo, pela expansão do setor industrial e pelo interesse crescente de empresas em se instalar na região, impulsionado por sua localização estratégica e potencial logístico (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025).
Nesse cenário, Linhares se destaca como um polo atrativo para investimentos, com a presença de importantes empreendimentos industriais e agroindustriais, além da diversificação de atividades econômicas no município (PREFEITURA MUNICIPAL DE LINHARES, 2025). Ademais, o município de Linhares figura estrategicamente como o principal vetor de desenvolvimento socioeconômico da Região Metropolitana Expandida Norte do Espírito Santo. De acordo com as estimativas e dados consolidados pelos órgãos oficiais de estatística, a localidade consolida-se atualmente como a quinta maior economia do território capixaba (INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES, 2025). O Produto Interno Bruto (PIB) nominal do município situa-se no patamar de R$ 10 bilhões, o que equivale a uma participação aproximada de 4,31% na composição do valor adicionado total da riqueza do Estado (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2025).
Conforme análise dos dados divulgados pelo CAGED (2026), o estado do Espírito Santo apresentou um acúmulo de 624.492 postos de empregos criados no período compreendido entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, ajuntamento do acúmulo de 607.864 desligamentos, gerando um saldo positivo da criação de 16.628 novos postos de empregos criados. Na tabela abaixo estão apresentadas as variações ocorridas em cada mês do período compreendido.
Gráfico 1 - Admissões, desligamentos e saldo no Espírito Santo ( Janeiro 2025 - Janeiro 2026)
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).
A análise da movimentação do mercado de trabalho formal no Espírito Santo, fundamentada nos microdados do Novo CAGED, revela uma distribuição geográfica descentralizada na geração de postos de trabalho de carteira assinada, evidenciando uma forte concorrência entre o eixo metropolitano da Grande Vitória e os polos de desenvolvimento do interior. No acumulado de doze meses (variância de janeiro de 2025 a janeiro de 2026), o município de Linhares consolida-se na 5ª posição geral do ranking de empregabilidade do estado no que tange ao estoque de novas vagas remanescentes. O município opera como o principal polo retentor de empregos da porção Norte do Espírito Santo, respondendo por uma fatia estratégica do estoque de vínculos ativos criados e mantidos fora do núcleo da capital. Esse dinamismo é liderado em saldo absoluto pelo município de Aracruz, enquanto os motores tradicionais da Região Metropolitana — representados por Serra, Vitória e Vila Velha — sustentam o volume bruto estadual por meio do dinamismo dos setores de Serviços, Comércio de bens e Construção Civil. A correlação entre o volume de contratações brutas, desligamentos e o fator demográfico dessas principais forças econômicas encontra-se detalhada na Tabela 1.
Tabela 1 -Correlação entre admissões, desligamentos e saldo acumulado de empregos formais nos principais municípios analisados.
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).
Os dados estruturados na Tabela 1 evidenciam o paradoxo que alicerça esta investigação. Sob a ótica estritamente quantitativa de Admissões Totais (Geração Bruta), Linhares supera cidades de maior porte populacional e se posiciona como a 5ª maior força contratante do Estado. Ao analisar a eficiência de retenção de postos através do Saldo Líquido, o município mantém-se na 5ª posição. Esse fenômeno quantifica o alto índice de rotatividade (turnover) e reflete diretamente o descompasso discutido na literatura de Antunes (2009) e Pochmann (2001).
Para compreender o panorama do descompasso no mercado de trabalho de Linhares–ES, faz-se necessário, inicialmente, quantificar a relação entre a escala demográfica e a dinâmica de empregabilidade local. De acordo com os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população estimada do município atingiu o patamar de 183.797 habitantes, inserida em um contexto nacional de 213,4 milhões de pessoas. Esse contingente demográfico atua diretamente como força de trabalho potencial (oferta), atraída pelo acelerado desenvolvimento socioeconômico da região.
No que tange à movimentação do mercado formalizado via regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), os dados consolidados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), obtidos por meio do cruzamento histórico entre o consolidado de 2025 e os indicadores iniciais de 2026, apontam que o município registrou um volume expressivo de 41.011 admissões frente a 39.706 desligamentos no período compreendido entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Essa dinâmica resultou em um saldo positivo geral de 1.305 postos de trabalho com carteira assinada. O gráfico abaixo ilustra a variação entres os meses do período compreendido, podendo, assim, identificarmos que os meses que mais obtiveram criação de postos de trabalho foram maio e setembro, já o que apresentou a menor taxa de admissões foi o mês de novembro.
Gráfico 2 - Admissões, desligamentos e saldo em Linhares ( Janeiro 2025 - Janeiro 2026)
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED).
Além disso, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram o crescimento populacional do município, que apresentou aumento significativo nos últimos anos, reflexo direto da atração de investimentos e da geração de oportunidades econômicas (IBGE, 2023; JORNAL TERRAL, 2023). Para além dos números globais, a análise detalhada por segmento econômico revela a real configuração da demanda e da retenção de mão de obra no município, conforme estruturado na Tabela 2.
Tabela 2 – Distribuição Setorial de Admissões em Linhares–ES (Janeiro 2025 - Janeiro
2026)
Fonte: Dados compilados e adaptados do Novo CAGED/Ministério do Trabalho e Emprego (2026).
Os dados apresentados na Tabela 2 demonstram que o setor de Serviços lidera de forma isolada a absorção de mão de obra formal e a geração de novas vagas, com 11.125 contratações e o maior saldo positivo do período (857 postos). Na sequência, a Indústria (10.326 admissões) e o Comércio (10.316 admissões) apresentam volumes de contratação bastante robustos e equivalentes, evidenciando o perfil comercial e fabril do município. No entanto, o saldo da Indústria (38 postos) revela uma proximidade crítica entre contratações e demissões, comportamento também observado de forma negativa no setor da Agropecuária, que fechou o período com um saldo deficitário de -75 postos.
Esse cenário de forte movimentação, impulsionado pela expansão industrial e fortalecimento das cadeias produtivas locais, valida as perspectivas de Pochmann (2001) sobre a reestruturação produtiva. Segundo o autor, transformações estruturais na economia alteram o funcionamento do mercado de trabalho, exigindo competências cada vez mais específicas à medida que os setores se modernizam. É exatamente no ápice dessa pujança quantitativa que o paradoxo se materializa localmente: apesar do cenário favorável de contratações, observa se que as organizações linharenses enfrentam dificuldades para reter os colaboradores em determinadas vagas, evidenciando a existência de um descompasso entre a oferta de empregos e o perfil da mão de obra disponível.
Esse fenômeno revela que a disponibilidade de vagas e o alto volume de contratações não garantem a estabilização do mercado, estando diretamente associados ao gargalo da qualificação profissional. As transformações econômicas e produtivas alteraram significativamente as exigências, elevando a necessidade de capacitação técnica e adaptação às novas demandas organizacionais. Muitas organizações passaram a exigir competências técnicas e comportamentais mais específicas, especialmente em setores industriais e administrativos. Assim, trabalhadores que não possuem formação adequada ou experiência compatível tendem a enfrentar maiores dificuldades de inserção profissional sustentável. Conforme destaca Chiavenato (2014), características comportamentais (soft skills) como proatividade, comprometimento, flexibilidade e capacidade de adaptação tornaram-se diferenciais competitivos fundamentais. Desse modo, a empregabilidade contemporânea passou a depender não apenas da escolaridade formal, mas também do conjunto de competências socioemocionais desenvolvidas pelos indivíduos.
Para além da barreira de qualificações, as evidências locais demonstram que o descompasso em Linhares é fortemente impactado pela alta rotatividade laboral (turnover).
A rotatividade laboral, globalmente denominada como turnover, conceitua-se como o fluxo contínuo de entrada e saída de funcionários em uma organização dentro de um período determinado, compreendendo tanto os desligamentos voluntários quanto os involuntários. No contexto de um mercado de trabalho aquecido e em plena expansão industrial, como o observado no município de Linhares, o turnover deixa de ser um mero indicador de Recursos Humanos e passa a refletir um sintoma macroeconômico de desalinhamento estrutural. Esse fenômeno evidencia, por um lado, a insatisfação ou a busca ativa dos trabalhadores por melhores condições, remunerações e autonomia (alimentando também a migração para o empreendedorismo autônomo), e, por outro, a colisão frontal de expectativas entre as competências que as empresas exigem e as contrapartidas e atrativos que estão dispostas a oferecer. Assim, uma alta taxa de rotatividade sinaliza que a robustez quantitativa na geração de empregos não se traduz, necessariamente, em estabilidade socioeconômica ou em eficiência de retenção de talentos no ecossistema local.
Ao analisar o expressivo volume de 39.706 desligamentos diante de 41.011 admissões ao longo de treze meses, nota-se uma proximidade numérica que indica um mercado altamente volátil. Essa dinâmica reflete a tendência nacional mapeada pelo DIEESE (2024), na qual o mercado brasileiro vivencia altas taxas de rotatividade motivadas pela incompatibilidade mútua entre empresas e empregados. Esse fluxo contínuo de dispensas e contratações relaciona-se intimamente às expectativas dos trabalhadores em relação às condições oferecidas pelas corporações. Fatores como baixas remunerações iniciais, jornadas de trabalho extensas, exigência de experiência prévia rigorosa e pouca perspectiva de crescimento profissional contribuem diretamente para a recusa ou abandono rápido de determinadas oportunidades formais.
Segundo Antunes (2009), as transformações nas relações laborais intensificaram os processos de flexibilização e precarização, influenciando a disposição do trabalhador em submeter-se a determinados regimes de contratação. Assim, muitas vagas permanecem ociosas ou reabrem repetidamente não pela ausência absoluta de candidatos, mas pela colisão frontal entre as expectativas das organizações e as necessidades de qualidade de vida e subsistência dos trabalhadores.
Essa rejeição ou volatilidade nas condições tradicionais da carteira assinada é potencializada pela emergência e consolidação de novas formas de trabalho em escala global e nacional. Com a expansão do acesso à internet e a aceleração de modelos de prestação de serviços digitais e flexíveis, as fronteiras geográficas do emprego se dilatam, permitindo que profissionais busquem inserção fora do mercado físico local. Paralelamente a essa transformação estrutural, constata-se a crescente ascensão do Microempreendedor Individual (MEI) no Brasil como uma rota alternativa de geração de renda e autonomia laboral. Instituído em 2008 pelo governo federal para permitir a formalização de trabalhadores autônomos, o regime do MEI expandiu-se de forma acelerada, atingindo a marca histórica de mais de 15,7 milhões de brasileiros com CNPJ ativo.
Essa tendência macroeconômica reflete-se com precisão na realidade de Linhares que, conforme mapeado pelos dados oficiais do Observatório Sebrae (SEBRAE, 2025), registrou a marca histórica de 13.860 cadastros MEI ativos ao final de 2025. Esse contingente expressivo de microempreendedores representa a maior fatia do ecossistema empresarial ativo do município, como pode ser observado no gráfico abaixo.
Gráfico 02 - Distribuição de Empresas Ativas por Porte em Linhares–ES
Fonte: SEBRAE (2025).
De acordo com as análises institucionais do Sebrae, esse crescimento vertiginoso reflete diretamente as mudanças estruturais no mercado de trabalho e o suporte logístico descentralizado oferecido pelas ações da Sala do Empreendedor local, que facilita orientações gerenciais, regularizações fiscais e acesso a microcrédito. A expansão desse fenômeno — com forte aderência em bairros populosos como o Interlagos — indica que uma parcela significativa da força de trabalho linharense está optando estrategicamente pela migração rumo ao empreendedorismo independente como alternativa de subsistência e fuga da rigidez ou do arrocho do regime celetista tradicional.
Dessa forma, os dados e informações analisados permitem compreender que as dificuldades de preenchimento e retenção de vagas em Linhares não decorrem da falta de postos de trabalho, mas sim de um conjunto de fatores estruturais relacionados à qualificação profissional, às exigências crescentes das organizações, às condições de atratividade oferecidas pelas empresas e à expansão das alternativas autônomas de trabalho. O cenário observado no município evidencia, portanto, a necessidade urgente de uma maior aproximação articulada entre o poder público, as instituições de ensino profissionalizante e o setor empresarial, visando promover políticas de qualificação alinhadas às demandas tecnológicas reais do mercado e, simultaneamente, estimular a melhoria das contrapartidas laborais oferecidas pelas empresas, mitigando de forma sustentável o desalinhamento entre oferta e demanda de trabalho na região.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar os fatores que contribuem para o descompasso entre a oferta de trabalho e a mão de obra disponível no município de Linhares/ES, considerando o contexto de expressivo crescimento econômico e expansão da geração de empregos formais observado nos últimos anos. Por meio de uma abordagem integrada que uniu a pesquisa bibliográfica à análise documental de dados secundários, foi possível compreender que o fenômeno investigado transcende a visão simplista de mera escassez de trabalhadores, revelando-se como um reflexo de transformações estruturais profundas no mercado de trabalho contemporâneo.
Os resultados obtidos revelam que Linhares/ES apresenta um cenário econômico altamente favorável e diversificado, impulsionado pela atração de investimentos, fortalecimento do comércio, expansão fabril e consolidação do setor de serviços — este último destacando-se como o principal vetor de absorção laboral formalizado. Contudo, a análise empírica dos dados consolidados do Novo CAGED expôs o coração do paradoxo local: a ocorrência de 41.011 admissões contrapostas ao expressivo volume de 39.706 desligamentos. Essa proximidade numérica evidencia que o mercado linharense enfrenta um severo problema de rotatividade laboral (turnover). O descompasso, portanto, manifesta-se em uma dinâmica na qual as vagas são continuamente geradas, mas as organizações enfrentam dificuldades crônicas para preencher e, sobretudo, reter o capital humano nesses postos.
A investigação permitiu categorizar esse desalinhamento em duas frentes centrais. A primeira refere-se ao gargalo da qualificação profissional, onde a reestruturação produtiva das indústrias e empresas locais passou a exigir competências técnicas e características comportamentais (soft skills) extremamente específicas, penalizando trabalhadores sem acesso à capacitação adequada. A segunda frente, de natureza socioeconômica, expõe uma colisão frontal de expectativas: salários iniciais defasados, jornadas extensas e condições laborais rígidas têm motivado a recusa ou o abandono rápido das oportunidades tradicionais sob o regime celetista.
Essa insatisfação com o modelo tradicional de emprego formalizado conecta-se diretamente com outra importante descoberta deste estudo: o fenômeno da migração para a autonomia produtiva. Os dados oficiais do Observatório Sebrae demonstraram que Linhares atingiu a marca histórica de 13.860 cadastros de Microempreendedores Individuais (MEI) ativos. A expressiva expansão desse contingente, fortemente descentralizada em bairros populosos como o Interlagos, comprova que a força de trabalho local se mantém ativa e produtiva, mas tem optado estrategicamente pelo empreendedorismo independente e pela prestação de serviços flexíveis como rota de fuga do arrocho ou da precarização laboral.
Diante desse panorama, conclui-se que o crescimento econômico e a abertura quantitativa de vagas, isoladamente, não são garantias de equilíbrio ou bem-estar no mercado de trabalho. Para mitigar o descompasso e reter talentos na região, torna-se imperativo transcender as ações isoladas e desenvolver estratégias conjuntas. Recomenda-se a articulação urgente entre o poder público municipal, as instituições de ensino profissionalizante e o setor corporativo, focando não apenas na formulação de políticas públicas de qualificação alinhadas às demandas tecnológicas reais, mas também na conscientização das organizações sobre a necessidade de aprimorar suas contrapartidas laborais, oferecendo salários mais atrativos, planos de carreira e qualidade de vida. Somente através da adequação mútua entre as exigências corporativas e as necessidades de subsistência e valorização do trabalhador será possível promover o desenvolvimento econômico sustentável e socialmente justo no município de Linhares/ES.
Como desdobramento das reflexões propostas e visando o aprofundamento científico da temática, sugerem-se caminhos e diretrizes para a realização de pesquisas futuras na região. Em primeiro lugar, recomenda-se o desenvolvimento de um estudo focado na transição de carreira rumo à autonomia, aplicando investigações qualitativas e quantitativas diretamente junto ao contingente de microempreendedores individuais linharenses. O objetivo central seria mapear se a migração em massa para o regime de MEI ocorre por fatores de necessidade e contingência do desemprego, ou se configura uma escolha estratégica motivada por expectativas de maior flexibilidade e rentabilidade financeira frente ao emprego formal convencional. Adicionalmente, mostra-se oportuna a realização de estudos de caso dedicados a diagnosticar o clima organizacional, as políticas de benefícios e as médias salariais praticadas pelas indústrias e empresas do setor de serviços locais. Essa abordagem permitiria decifrar com maior precisão os fatores internos corporativos que alimentam as altas taxas de rotatividade laboral (turnover) evidenciadas neste trabalho.
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Graduanda, Faculdade de Ensino Superior de Linhares (FACELI), Linhares-ES. E-mail: julyapiana28@gmail.com ↑
Mestre em Administração, Comunicação e Educação. Universidade São Marcos –SP. Faculdade de Ensino Superior de Linhares (FACELI). Av. Presidente Costa e Silva, 177, Novo Horizonte, Linhares – ES. E-mail: vasconcelos.zuqui@faceli.edu.br . ↑
Mestre em Engenharia Mecânica, graduação em Física e Matemática. Professor da Faculdade de Ensino Superior de Linhares (FACELI), Linhares-ES.Email: ivan.capucho@faceli.edu.br . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8122-5791 ↑
Mestre em Administração, Comunicação e Educação. Professor da Faculdade de Ensino Superior de Linhares
(FACELI), Linhares-ES. Email: reofran@gmail.com . LATTES: http://lattes.cnpq.br/9040353503133395 ↑

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