Cuidado odontológico na gestação: fatores associados e o papel do cirurgião dentista – revisão de literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Introdução: O pré-natal odontológico constitui uma importante estratégia de atenção à saúde da gestante, visando à promoção da saúde bucal. Objetivo: Analisar e discutir os fatores associados à prestação de cuidados odontológicos às gestantes, bem como o papel do cirurgião-dentista na assistência pré-natal. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada na base de dados LILACS, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025, utilizando-se os descritores em inglês “Oral Health”, “Pregnant Women" e “Dental Prenatal. A seleção dos estudos considerou critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, de acordo com a temática proposta.

Palavras-chave: Pré-natal odontológico. Gestantes. Saúde bucal.

Abstract:

Introduction: Dental prenatal care is an important strategy in maternal healthcare aimed at promoting oral health during pregnancy. Objective: To analyze and discuss the factors associated with the provision of dental care to pregnant women, as well as the role of the dentist in prenatal care. Methodology: This study is an integrative literature review conducted using the LILACS database through the Virtual Health Library (VHL). Studies published between 2020 and 2025 were included, using the English descriptors “Oral Health,” “Pregnant Women,” and “Prenatal Dental Care.” The selection of studies was based on previously established inclusion and exclusion criteria, according to the proposed topic.

Keywords: Prenatal dental care. Pregnant women. Oral health

INTRODUÇÃO

O período gestacional é caracterizado por intensas alterações que impactam o bem-estar e a saúde da mulher, sejam elas de natureza fisiológica, hormonal, comportamental ou psicológica (Saliba et al., 2019). Ao serem consideradas integrantes de um grupo prioritário no Sistema Único de Saúde (SUS), a atenção à gestante deve ser conduzida por uma equipe de saúde multiprofissional. Nesse contexto de multidisciplinaridade, o cirurgião-dentista assume papel essencial no acompanhamento integral da gestante, especialmente a partir da implementação da Rede Cegonha — política pública que teve por objetivo estruturar a atenção à saúde materno-infantil no Brasil (Pittner e Bonassina, 2016).

Devido ao desequilíbrio metabólico decorrente das alterações hormonais — em especial pelo aumento nos níveis de progesterona e estrogênio —, observa-se um cenário favorável ao surgimento ou agravamento de problemas bucais (Sachelari et al., 2025). Entre esses agravos, destacam-se a cárie dentária e as doenças periodontais. Embora essas sejam as condições mais frequentemente relatadas na literatura, é fundamental salientar-se a outras alterações que acometem a cavidade oral, como xerostomia, erosão dentária, sialorréia, halitose e modificações na mucosa oral (Degasperi, Dias e Ceranto, 2021).

Assim, torna-se evidente a importância da realização do pré-natal odontológico desde o primeiro trimestre gestacional, a fim de garantir assistência integral à saúde da gestante (Ruela, Mattos e Escobar, 2022).

O Pré-Natal Odontológico (PNO) constitui uma demanda já implementada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), abrangendo ações como levantamento de atividade de doenças bucais, prevenção de enfermidades, promoção de saúde materno-infantil e educação em saúde bucal (BRASIL, 2002). Mais recentemente, o Governo Federal, por meio da Portaria nº 2.97920, de 12 de novembro de 2019, instituiu um indicador relacionado à proporção de gestantes com atendimento odontológico no âmbito do Programa Previne Brasil. Esse indicador, cujo cumprimento é necessário para o repasse de recursos financeiros, tem como objetivo fortalecer o vínculo entre as equipes de saúde e as gestantes, além de incentivar a realização do pré-natal odontológico (Brasil, 2019).

Apesar dos avanços nas políticas públicas direcionadas à saúde materno-infantil, estudos recentes indicam que a participação das gestantes em atendimentos odontológicos ainda é baixa, variando entre 20% e 40% no Brasil (Wagner et al., 2021; Martinelli et al., 2020).

Esse cenário pode ser explicado por diversos fatores que influenciam o comportamento das gestantes, como grau de escolaridade, renda familiar, dificuldades de acesso e mobilidade, desinformação, medo e ansiedade. Além disso, também pode refletir a insegurança dos profissionais quanto à realização do atendimento odontológico durante a gestação (Ruela, Mattos e Escobar, 2022).

Diante disso, observa-se a carência de estudos que abordem esses fatores de forma integrada aos fatores determinantes de adesão ao pré-natal odontológico e que analisem a atuação do cirurgião-dentista nesse processo, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (Saliba et al., 2019).

Logo, justifica-se a realização deste estudo pela necessidade de compreender de forma integralizada os determinantes que implicam na oferta do acompanhamento odontológico e na adesão das gestantes à este, a fim de colaborar para a formulação de intervenções mais eficazes que ampliem e encorajem a participação das gestantes no pré-natal odontológico. Assim, o objetivo do presente estudo é abordar aspectos individuais, sociais e estruturais que interferem na adesão das gestantes ao pré-natal odontológico, além de discutir a atuação do cirurgião-dentista nesse processo, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Gestação e repercussões na saúde bucal

Durante a gestação, o organismo materno sofre adaptações essenciais para receber o feto e garantir o seu desenvolvimento de maneira adequada. Alterações hormonais, metabólicas e imunológicas, próprias desse período, repercutem na saúde sistêmica e oral da gestante (Pegoraro et. al, 2021). Nesse sentido, a gravidez se apresenta como um período de maior suscetibilidade a alterações locais e sistêmicas, em que ocorre a combinação entre fatores fisiológicos e comportamentais que contribuem para o aparecimento ou o agravamento de problemas bucais (Lugato, Flório e Souza, 2023).

Do ponto de vista hormonal, o aumento nos níveis de progesterona e estrogênio alteram a queratinização e a proliferação de células epiteliais dos tecidos periodontais e a permeabilidade dos vasos sanguíneos destes tecidos (Barroso, 2024). Além disso, elevados níveis hormonais estão associados a um aumento significativo na proliferação de bactérias periodontopatogênicas, como Porphyromonas gingivalis e Prevotella intermedia (Castro et. al, 2025). Essas alterações significativas na microbiota oral predispõem as gestantes à respostas inflamatórias gengivais intensificadas, maiores riscos de periodontite grave, gengivite gravídica, bolsas periodontais mais profundas e perdas ósseas (Jácome et al., 2024).

Considerando o potencial de agravamento das condições periodontais observado na gestação, a literatura atual enfatiza a relação entre essas alterações e desfechos obstétricos, tais como parto prematuro, baixo peso ao nascer, restrição de crescimento intrauterino, pré-eclâmpsia e aborto espontâneo (Sampaio et al., 2021; Santos, 2023; Sá et al., 2025).

Essas complicações, quando somadas ao estado inflamatório instaurado pelas doenças periodontais e à possível disseminação dos microrganismos periodontopatogênicos para os tecidos materno-fetais, desencadeiam respostas imunológicas exacerbadas, capazes de induzir mecanismos fisiopatológicos envolvidos na indução do trabalho de parto (Godoi et al., 2025)

Paralelamente às alterações periodontais, observam-se fatores locais que contribuem para uma maior susceptibilidade das gestantes à cárie e à lesões erosivas (Barroso, 2024). Entre esses fatores, citam-se a diminuição do pH bucal (ocasionada pelos episódios de náuseas e vômitos), queda da capacidade tampão da saliva (importante fator na desmineralização dentária), alterações nos hábitos alimentares (devido a adoção de dietas com maior potencial cariogênico) e controle insuficiente do biofilme dentário (Simões et al., 2022).

Para além dessas condições, a literatura destaca outras manifestações bucais que refletem os efeitos combinados de mudanças hormonais, metabólicas e comportamentais, tais como xerostomia, erosão dentária e granuloma gravídico (Santos, 2023; Costa et al., 2023; Barbosa e Vieira, 2025).

A xerostomia, definida como a diminuição do fluxo salivar, tende a ser associada a alterações no pH salivar e na capacidade tampão da saliva, reduzindo o seu papel protetor e podendo intensificar a sensação de mau hálito (Castro et. al, 2025). A erosão dentária, por sua vez, está relacionada à ação de ácidos intrínsecos — ácido gastroesofágico regurgitado — ou extrínsecos — provenientes da alimentação — sob o esmalte, o que contribui para a perda gradativa do tecido e para a hipersensibilidade dentária (Brasil, 2022). O granuloma gravídico é caracterizado como uma hiperplasia bem vascularizada, com aspecto exofítico e de superfície granulosa. Ainda que se trate de uma lesão benigna e indolor, pode interferir na mastigação e dificultar a higiene oral, sobretudo quando localizado em áreas de trauma recorrente e suscetível à infecção secundária (Costa et. al, 2023).

2.2 Pré-natal odontológico na Atenção Primária à Saúde

Diante das alterações orais recorrentes no período gestacional, o Ministério da Saúde (2021) reforça a importância do pré-natal odontológico na Atenção Primária, destacando o cirurgião-dentista como parte da equipe multiprofissional responsável pela promoção da saúde materno-infantil. Nesse contexto, o pré-natal odontológico possibilita a identificação precoce de alterações bucais, o monitoramento de condições já existentes, a adoção de medidas preventivas e a orientação quanto aos cuidados em saúde, sendo uma etapa essencial no cuidado integral à gestante (Brasil, 2021).

Apesar da evidente importância e dos benefícios do pré-natal odontológico, a sua efetiva adesão e o sucesso nos serviços de Atenção Primária dependem de diversos fatores que extrapolam a oferta do serviço. Nesse sentido, diversos fatores funcionam como barreiras significativas que influenciam diretamente a busca por esse cuidado, tais como o nível de conhecimento, os mitos e as crenças da própria gestante, sentimentos de medo ou ansiedade, escolaridade, influência familiar e condição socioeconômica (Oliveira et al., 2021).

A literatura aponta consistentemente uma relação direta entre o conhecimento materno e o comportamento de saúde, o que pode ocasionar desfechos desfavoráveis devido a diagnósticos tardios (Costa et al., 2023). O mesmo estudo destaca que a ausência de diálogos entre os demais profissionais da saúde e os seus pacientes implica diretamente na presença ou na ausência de assistência odontológica durante a gestação, levando à dissonância de informações, em que crenças como “o tratamento pode levar a consequências negativas” sejam disseminadas.

Logo, é dever do cirurgião-dentista e da equipe multiprofissional reforçar ações de natureza educativo-preventivas acerca do pré-natal odontológico, colaborando para maior adesão dos pacientes (Simões et al., 2022). Além disso, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) preconiza como outro dever do cirurgião-dentista realizar atividades de educação com outros membros da equipe, visando a integração das ações de saúde para maior efetividade de trabalho e ampliação da perspectiva multidisciplinar (Brasil., 2017).

2.3 Políticas públicas e diretrizes acerca do pré-natal odontológico

A Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB) reforça a importância da inserção de ações coletivas e do atendimento individual voltados à saúde bucal da gestante desde o início do pré-natal, com o propósito de promover educação em saúde bucal e prevenir possíveis complicações durante a gravidez.

Dessa forma, a PNSB orienta o encaminhamento da gestante para uma consulta odontológica logo no início do acompanhamento pré-natal, momento em que devem ser realizados os exame de tecidos moles, a identificação de riscos à saúde bucal, o diagnóstico de lesões de cárie e a avaliação da necessidade de tratamento. Além disso, recomenda-se a oferta de orientações sobre hábitos alimentares adequados e práticas de higiene bucal (Brasil, 2004).

Ademais, considerando que a mãe apresenta importante papel nos padrões de comportamento desenvolvidos durante a infância, deve-se orientá-las quanto aos cuidados de higiene bucal do seu bebê, tornando-as um meio fundamental para a introdução de bons hábitos desde o início da vida da criança (Brasil, 2004).

Durante as últimas décadas, diversas outras ações governamentais têm sido implementadas para fomentar a oferta de cuidados odontológicos para gestantes no Sistema Único de Saúde (Barroso et al., 2024). Entre essas iniciativas, destaca-se a fundação da Rede Cegonha, em 2011, a qual reúne um conjunto de ações voltadas à garantia de um atendimento seguro, humanizado e de qualidade às gestantes. Além disso, a Rede Cegonha oferece assistência familiar e pré-natal, acompanhando a mulher desde a gestação até os dois primeiros anos de vida da criança (Brasil, 2011).

O Ministério da Saúde também reafirma a importância da assistência odontológica às mulheres grávidas no Caderno de Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco, ratificando o papel do cirurgião-dentista em orientar quanto aos hábitos de higiene bucal, a importância da realização do pré-natal, a conscientização acerca dos fatores de risco e de vulnerabilidade associados à saúde bucal (Ministério da Saúde, 2013).

Posteriormente, em 2014, foi adicionada uma página destinada à consulta odontológica na Caderneta da Gestante do SUS, possibilitando a inclusão dos dados referentes ao atendimento odontológico durante o período pré-natal (Barroso et al., 2024). Somado a isso, o Planifica SUS, em atividade desde 2018, surge como uma estratégia de consolidação da Atenção Primária à Saúde e reforça a necessidade de acolhimento multiprofissional da gestante na atenção básica (Consensus, 2016).

Em 2019, o Ministério da Saúde implementou o programa Previne Brasil, um manual do financiamento da atenção primária à saúde. Entre seus componentes, o programa incluiu indicadores de desempenho voltados às ações de saúde da mulher no âmbito do pré-natal, à saúde da criança e à condições crônicas. Dentre os indicadores apresentados, a saúde bucal de mulheres grávidas estava inclusa em “Proporção de gestantes com atendimento odontológico realizado”, que estabelecia a necessidade de, no mínimo, uma consulta odontológica durante o período gestacional, visando estimular o cuidado em saúde bucal como etapa essencial do pré-natal (Brasil, 2019)

Diante do exposto, observa-se que mesmo diante de numerosas políticas públicas de fomento ao pré-natal odontológico, contemplando desde a organização da atenção primária até a definição de indicadores de desempenho, a literatura tem evidenciado que a atenção à saúde bucal da gestante ainda necessita ser ampliada (Souza et al., 2021). Esse cenário evidencia a existência de desafios relacionados à implementação efetiva e o acesso ao PNO, reforçando a importância de estudos que analisem a atenção odontológica à gestante, bem como os fatores que influenciam sua realização no contexto da atenção básica.

METODOLOGIA

O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo foi identificar e analisar os fatores associados à prestação de cuidados odontológicos às gestantes, bem como o papel do cirurgião-dentista nesse contexto.

Foram incluídos estudos disponíveis na íntegra, publicados entre os anos de 2020 e 2025, nos idiomas português e inglês, e que abordassem diretamente a temática proposta. Foram excluídos artigos em outros idiomas, fora do recorte temporal estabelecido, incompletos, duplicados ou que não apresentassem relação direta com o tema. Também foram desconsideradas pesquisas realizadas fora do contexto latino-americano.

A busca dos artigos foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS Brasil), utilizando-se a base de dados LILACS, que reúne publicações científicas da América Latina e do Caribe. Foram empregados os descritores “Oral Health”, “Pregnant” e “Dental Prenatal”, combinados pelo operador booleano “AND”, com o intuito de refinar os resultados e garantir maior especificidade na busca. A pesquisa foi conduzida por três pesquisadores, de forma independente, no mês de outubro de 2025.

O processo de seleção dos estudos ocorreu em duas etapas: Leitura dos títulos e resumos para triagem inicial e identificação da relevância temática e leitura completa dos textos elegíveis para confirmação dos critérios de inclusão. A leitura, organização e seleção dos artigos foram realizadas com o apoio dos aplicativos Planilhas Google e Google Drive, de modo a facilitar o registro e a análise dos dados.

Os dados extraídos dos estudos selecionados foram organizados em planilha eletrônica contendo as seguintes variáveis: título do artigo, autores, ano de publicação, tipo de estudo e objetivos.

DISCUSSÃO

A análise da literatura demonstrou um contraste evidente em relação à adesão aos serviços de saúde: apesar do vínculo regular das gestantes com o pré-natal médico, observa-se uma adesão limitada ao pré-natal odontológico, constantemente iniciado de forma tardia. Em um estudo realizado por Mendes e seus colaboradores (2025), a maioria das gestantes assistidas pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de um município da região Sul brasileira buscou atendimento odontológico apenas no último trimestre gestacional. Paralelamente, achados semelhantes foram apontados por uma pesquisa realizada em um município da região Sudeste, no qual somente 40% das gestantes realizaram ao menos uma consulta durante a gestação, majoritariamente no terceiro trimestre (Castro et al., 2025).

Dados demográficos analisados por um estudo a nível nacional reforçam a baixa adesão ao pré-natal odontológico. Em 2019, a proporção média de gestantes com atendimento odontológico foi de 19,45%. Adicionalmente, constatou-se que metade dos municípios brasileiros com menor estrutura assistencial e menor articulação entre equipes de Atenção Básica e Saúde Bucal apresentaram valores abaixo dessa média (inferior a 15%), o que reforça a influência da organização dos serviços na cobertura do atendimento odontológico à gestante (Santos et al., 2023).

A procura tardia pelo atendimento odontológico na gestação é evidenciada em diversos estudos, o que reflete fragilidades na atuação do cirurgião-dentista, como também na falta de encaminhamentos por parte da equipe multiprofissional, que inclui médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde. Em uma pesquisa qualitativa, observaram-se relatos de gestantes que afirmaram nunca ter recebido esclarecimentos sobre a importância do pré-natal odontológico, mesmo estando em atendimento frequente nas UBS (Ponte et al., 2023). Outros resultados revelaram que, apesar das gestantes demonstraram reconhecer a importância do pré-natal odontológico, elas não compreendem sua necessidade prática, atribuindo sua ausência a crenças, mitos e carência de orientação multiprofissional (Galvin et. al, 2021; Costa et al., 2023; Lugato, Florio e Souza, 2024; Barbosa e Vieira, 2025).

Dessa forma, a ausência de orientações adequadas por parte dos profissionais da saúde sobre a necessidade do cuidado odontológico favorece concepções equivocadas sobre o tratamento odontológico na gestação que afeta a adesão ao PNO. Essa relação foi demonstrada no estudo realizado por Stein e pesquisadores (2022), no qual as gestantes que concordaram que a gravidez causava inevitavelmente prejuízo aos dentes foram cinco vezes mais propensas a não procurar acompanhamento odontológico. Como consequência, tem-se uma adesão limitada movida pela falta de orientações, resultando na falta de acompanhamento ou na procura tardia, muitas vezes, com foco curativo.

Conforme orienta a PNAB, cabe ao cirurgião-dentista desenvolver ações de atenção em saúde bucal nos níveis de promoção, prevenção e tratamento (Brasil, 2017). Entretanto, observa-se a predominância da esfera curativa em diversos estudos realizados. Pesquisas distintas apontaram que o atendimento odontológico foi buscado, majoritariamente, diante de queixas como dor ou sensibilidade, havendo necessidade de procedimentos mais invasivos, como restaurações, tratamento periodontal, tratamento endodôntico ou extrações, e não como medida preventiva integrada ao pré-natal (Esposti et al.,2020; Oliveira et al., 2021, Galvan et al.,2021; Ponte et al., 2023; Barbosa e Vieira, 2025).

Essa relação também é demonstrada por um estudo elaborado por Mendes e seus colaboradores (2025). Neste, dos 72% das gestantes que faziam o uso dos serviços odontológicos, somente 21,8% o buscaram para atendimentos preventivos, o que contribui significativamente para que o cuidado seja percebido como um fator secundário e somente acionado quando há extrema necessidade. É importante ressaltar que, além de comprometer o potencial preventivo do PNO, a procura tardia compromete a oportunidade de identificar, de maneira precoce, as alterações orais que poderiam ser manejadas de forma mais efetiva durante a gestação (Simões et. al, 2021; Martinelli et al., 2025).

Desse modo, as práticas preventivas e de promoção de saúde, especialmente com ênfase em higiene oral e dieta adequada, tornam-se essenciais durante o pré-natal odontológico, pois estimulam a adesão contínua das gestantes e promovem impactos positivos na saúde materno-infantil.

Diversos estudos apresentaram convergências no que se refere às práticas de higiene bucal adotadas pelas gestantes. Apesar da escovação diária ser frequentemente relatada como uma prática consolidada entre as gestantes (Jácome et al., 2024; Castro et al., 2025), pesquisas em diferentes contextos identificaram baixa adesão ao uso do fio dental, comprometendo a efetividade de uma higiene adequada (Oliveira et al., 2021; Santos et al., 2021; Ponte et al., 2023). Nessa perspectiva, é importante salientar-se que, no estudo desenvolvido por Godoi e colaboradores (2025), as gestantes que relataram usar fio dental uma vez ao dia ou menos apresentaram 1,8 vezes mais chances de ter infecção bucal em comparação com aquelas que relataram usar duas vezes ao dia ou mais.

Em relação aos hábitos alimentares, também foram encontrados padrões alimentares similares entre os resultados dos estudos. Alguns trabalhos demonstraram maior consumo de alimentos açucarados e ultraprocessados durante a gestação (Santos et al., 2021; Godoi et al., 2025), o que, associado à higiene insatisfatória também descrita por outros estudos, aumenta o risco de desenvolvimento de cáries e doenças periodontais. Além disso, evidências mostradas pelo trabalho de Araújo e colaboradores (2025) apresentaram a relação entre sobrepeso materno, dieta rica em açúcar e risco aumentado de doenças crônicas bucais nas crianças, o que realça ainda mais o papel fundamental dos cirurgiões-dentistas na educação oral e nutricional, prevenindo agravos na gestação e, a longo prazo, na infância.

De modo recorrente, os achados de diferentes estudos convergem ao apontar as alterações periodontais e a cárie dentária como as condições bucais mais prevalentes entre as gestantes. No que se refere às alterações periodontais, destacam-se a regularidade de sangramentos e inflamações gengivais, cálculo dentário e periodontites, corroborando com um padrão inflamatório associado a mudanças hormonais da gravidez e à higiene insatisfatória já amplamente explicados pela literatura (Santos et al., 2021; Costa e Silva, 2020; Maciel et al., 2023; Lugato, Flório e Souza, 2024). Além disso, a cárie dentária foi um dos achados mais discutidos, tendo em vista a dor e a sensibilidade associadas à procura odontológica pontual e focada na urgência (Mendes et al., 2025; Oliveira et al., 2021; Godoi et al., 2025).

Embora a necessidade clínica seja evidente, a continuidade do cuidado depende de fatores que favorecem a adesão, extrapolando a mera implementação de políticas públicas. Relações dialógicas claras e a qualidade e quantidade da informação disseminada são fatores que surgem como elementos fundamentais para que a paciente reconheça a importância do tratamento e supere obstáculos pessoais ou logísticos. Tais elementos são preconizados pela PNSB, porém, ainda sim, se vê um desfalque no conhecimento ofertado. Em um estudo feito por Costa (2023) realizado em um Hospital Maternidade no interior cearense com gestantes e puérperas, foi possível observar que a maior parte das participantes reconhecem a necessidade do acompanhamento odontológico durante o período gestacional, mesmo que não saibam explicar o porquê.

Em decorrência dessas falas, elas mostraram não ter recebido informação nenhuma acerca do pré-natal odontológico. Nesse mesmo estudo, a maioria das participantes relatou ter receio quanto ao atendimento devido a medos e mitos que estão intimamente conectados com a falta de diálogo entre a equipe de saúde e o usuário. A presença de mitos como barreira para a assistência odontológica também foi apontada em gestantes no município de São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro, com 66,2% das mulheres entrevistadas relatando que possuem pelo menos um mito ou tabu quanto ao atendimento odontológico na gestação. Tais dados refletem o cenário nacional atual, em que se tem uma defasagem da disseminação de conhecimento em regiões geográficas opostas.

Em um estudo realizado por Simões (2022) em Itacoatiara no Amazonas, foi possível observar resultados semelhantes. Neste, das 146 gestantes participantes da pesquisa, 67,81% não conheciam o pré-natal odontológico, sendo que 31,51% se encontravam no último trimestre gestacional, 91,78% das participantes relataram não ter participado de ações de educação em saúde, sendo 46,58% gestantes que se encontravam no terceiro trimestre. Além disso, 75,34% das participantes relataram não fazer pré-natal odontológico, resultado semelhante ao estudo de Teixeira (2021) em que 76,5% não fizeram nenhum tipo de acompanhamento odontológico durante a gestação. Ainda, de acordo com Teixeira, 94,1% das entrevistadas jamais receberam orientações de saúde bucal por outros profissionais da Unidade de Saúde da Família durante o pré-natal e a parcela restante recebeu orientações apenas por parte do profissional de enfermagem.

Diante desses resultados, nota-se que o desempenho primordial da Atenção Primária à Saúde de ser a porta de entrada ao Serviço Único de Saúde não vem sendo executado de forma plena afetando diretamente no diagnóstico precoce, disseminação e a longo prazo na diminuição de indicadores negativos de saúde bucal. De acordo com os dados tais resultados são decorrentes da falta de comunicação profissional-paciente e na falha da realização de ações sócio educativas.

O pré-natal odontológico, quando ofertado de maneira íntegra e individualizada, é capaz de produzir impactos positivos na saúde materno-fetal. Pesquisas demonstram que a intervenção e orientação odontológica durante a gestação esteve associada à adoção de melhores práticas de higiene e à redução dos fatores de risco em saúde bucal, com maior número de gestantes reclassificadas, após as intervenções educativas, como baixo risco

(Sampaio et al., 2021; Castro et al., 2025). Em concordância, o estudo desenvolvido por Jácome e colaboradores (2024), através de formulários aplicados antes e após a intervenção odontológica, demonstrou que o PNO contribuiu para ampliar o entendimento das gestantes sobre saúde bucal, o que estimulou as gestantes a adotarem práticas mais saudáveis. De modo geral, os achados reforçam que o acompanhamento odontológico durante a gestação consolida práticas preventivas, melhora indicadores clínicos e fortalece a autonomia da gestante no cuidado com sua saúde bucal (Jácome et al., 2024).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura analisada evidencia a relevância da atuação do cirurgião-dentista na oferta integrada, preventiva e educativa do pré-natal odontológico às gestantes, destacando seus impactos positivos na promoção da saúde materno-infantil. Entre os agravos mais frequentemente relatados, sobressaem as doenças periodontais e a cárie dentária, que apresentam elevada prevalência e potencial para comprometer a saúde bucal materna, configurando-se como importantes desafios para a efetivação do cuidado integral à gestante.

Observa-se que a adesão ao pré-natal odontológico ainda é limitada e, frequentemente, ocorre de forma tardia, mesmo entre gestantes que realizam acompanhamento pré-natal regular. Essa baixa adesão está associada a fragilidades nas orientações fornecidas pelos profissionais de saúde, à insuficiente integração entre as equipes multiprofissionais e à persistência de mitos e concepções equivocadas acerca da segurança do tratamento odontológico durante a gestação.

Diante desse cenário, destaca-se a necessidade de estudos longitudinais e interventivos que avaliem estratégias voltadas à integração das equipes de saúde e investiguem a efetividade de ações preventivas e educativas capazes de ampliar a adesão ao pré-natal odontológico e qualificar a assistência prestada às gestantes.

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  1. Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Estadual da Paraíba Campus Campina Grande e-mail: milany.silva@aluno.uepb.edu.br

  2. Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Estadual da Paraíba Campus Campina Grande e-mail: bianca.becher@aluno.uepb.edu.br

  3. Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Estadual da Paraíba Campus Campina Grande. e-mail: ana.sarah@aluno.uepb.edu.br

  4. Docente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Estadual da Paraíba Campus Campina Grande. e-mail: profcarmen@servidor.uepb.edu.br

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