Adolescentes em contextos de vulnerabilidade socioeconômica na era das redes sociais
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO:
Este artigo tem como objetivo analisar a experiência de adolescentes inseridos em contextos de vulnerabilidade socioeconômica na era das redes sociais, investigando como as desigualdades sociais influenciam os processos de pertencimento, construção identitária, reconhecimento social e saúde mental. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa, fundamentada em estudos contemporâneos das áreas da Psicologia do Desenvolvimento, Ciências da Educação, Sociologia e Saúde Mental, com destaque para autores como Steinberg (2017), Twenge (2018), Haidt (2024), Foulkes (2024) e Galinsky (2024), além de pesquisas recentes sobre adolescência e mídias digitais. Os resultados indicam que as redes sociais desempenham um papel ambivalente na vida dos adolescentes socialmente vulneráveis. Embora ampliem o acesso à informação, à expressão pessoal e às redes de sociabilidade, também intensificam processos de comparação social, exposição às desigualdades econômicas e sentimentos de exclusão, inadequação e desesperança. Observou-se ainda que a vulnerabilidade socioeconômica pode potencializar os impactos negativos associados à busca por reconhecimento e pertencimento no ambiente digital. Conclui-se que a compreensão da experiência adolescente nas redes sociais exige considerar as desigualdades estruturais que atravessam a vida dos jovens, de modo a promover estratégias educacionais, sociais e políticas voltadas para a inclusão, o desenvolvimento humano e o bem-estar psicológico.

Palavras-chave: Adolescência. Vulnerabilidade socioeconômica. Redes sociais.

ABSTRACT: This article sought to analyze the experiences of adolescents living in socioeconomically vulnerable contexts in the age of social media, investigating the impacts of social inequality on development, belonging, identity construction, and mental health. The study was conducted through a qualitative bibliographic review based on contemporary research in Developmental Psychology, Educational Sciences, Sociology, and Mental Health, drawing particularly on the works of Steinberg (2017), Twenge (2018), Haidt (2024), Foulkes (2024), Galinsky (2024), and recent studies on adolescence and digital media. The findings indicate that social media simultaneously expands opportunities and challenges for socially vulnerable adolescents. On the one hand, digital platforms facilitate access to information, learning opportunities, self-expression, and broader social networks. On the other hand, they intensify processes of social comparison, exposure to economic inequalities, and feelings of exclusion, inadequacy, and hopelessness. The study also found that socioeconomic vulnerability may amplify the negative effects associated with the search for social recognition and belonging in digital environments. It is concluded that understanding adolescent experiences on social media requires consideration of the structural inequalities that shape young people's lives, promoting educational, social, and public policy strategies aimed at fostering inclusion, human development, and psychological well-being.

Keywords: Adolescence. Socioeconomic Vulnerability. Social Media.

1 Introdução

As redes sociais digitais transformaram profundamente a experiência adolescente nas primeiras décadas do século XXI. Harrison (2025) observa que as mídias digitais ocupam hoje uma posição central na vida cotidiana dos jovens, influenciando comunicação, socialização, entretenimento e acesso à informação. Plataformas como Instagram, TikTok, YouTube, Snapchat e WhatsApp passaram a ocupar posição central nos processos de socialização, comunicação, entretenimento e construção da identidade juvenil. Para a geração que atualmente ingressa na adolescência, a conectividade permanente não constitui uma novidade tecnológica, mas uma característica ordinária da vida cotidiana. Os adolescentes que completam treze anos em 2026 nasceram aproximadamente em 2013, quando smartphones, internet móvel e redes sociais já estavam amplamente disseminados. Em consequência, cresceram em um ambiente no qual curtidas, seguidores, compartilhamentos e conteúdos digitais já integravam as formas habituais de interação social.

Essa transformação tecnológica produziu oportunidades importantes de acesso à informação, ampliação das redes de relacionamento e participação em comunidades antes inacessíveis. Lee et al. (2025) argumentam que os efeitos das redes sociais não são uniformemente positivos ou negativos, dependendo das características dos usuários, dos contextos de utilização e das formas específicas de engajamento com as plataformas. Entretanto, a expansão das plataformas digitais não eliminou as desigualdades sociais que caracterizam as sociedades contemporâneas.

Pelo contrário, diversos estudos sugerem que as redes sociais passaram a constituir espaços nos quais diferenças econômicas, culturais e simbólicas são constantemente observadas, comparadas e avaliadas.

A adolescência é um período particularmente sensível a essas dinâmicas. Conforme demonstram Steinberg (2017) e Foulkes (2024), a busca por pertencimento, reconhecimento e status social ocupa posição central nessa etapa do desenvolvimento humano. Os adolescentes dedicam grande atenção à forma como são percebidos pelos pares e tendem a atribuir elevado valor à aceitação grupal. Em contextos digitais, essa necessidade de reconhecimento passa a ser mediada por plataformas que tornam visíveis estilos de vida, padrões de consumo, experiências de lazer, viagens, aparência física e diversos outros indicadores de status social.

Nesse cenário, a condição socioeconômica assume relevância crescente. Se anteriormente muitos adolescentes comparavam suas vidas principalmente com as de colegas próximos, hoje estão expostos diariamente a conteúdos produzidos por influenciadores, celebridades e indivíduos pertencentes a diferentes contextos sociais e econômicos. A comparação social deixa de ocorrer apenas em ambientes locais e passa a acontecer em escala global. Como consequência, adolescentes inseridos em contextos de vulnerabilidade econômica podem experimentar de maneira particularmente intensa sentimentos relacionados à exclusão, inadequação ou privação relativa.

Twenge (2018) observa que as redes sociais transformaram profundamente as formas pelas quais os jovens percebem a si mesmos e aos outros. A exposição contínua a conteúdos cuidadosamente selecionados e editados favorece processos de comparação social que podem influenciar autoestima, satisfação com a vida e bem-estar psicológico. Embora tais processos afetem adolescentes de diferentes origens sociais, seus impactos podem assumir características específicas quando vividos em contextos marcados pela desigualdade econômica.

A literatura contemporânea também demonstra que a pobreza não pode ser compreendida apenas como ausência de recursos financeiros. Ela envolve igualmente limitações relacionadas ao acesso a oportunidades educacionais, culturais, tecnológicas e sociais. Nesse sentido, adolescentes inseridos em contextos socioeconômicos desfavorecidos frequentemente enfrentam desafios adicionais relacionados à construção da identidade, à participação social e às perspectivas de futuro. As redes sociais tornam essas diferenças mais visíveis ao colocar lado a lado experiências de vida profundamente desiguais.

Ao mesmo tempo, seria equivocado compreender as plataformas digitais apenas como espaços de reprodução da exclusão social. Para muitos adolescentes provenientes de contextos economicamente vulneráveis, às redes sociais oferecem acesso a informações, oportunidades de aprendizagem, formas de expressão pessoal e comunidades de apoio que dificilmente estariam disponíveis em seus ambientes imediatos. As plataformas digitais podem ampliar horizontes, favorecer o desenvolvimento de competências e criar possibilidades de participação social anteriormente inexistentes.

Essa ambivalência constitui o ponto central deste estudo. As redes sociais podem funcionar simultaneamente como espaços de inclusão e exclusão, pertencimento e comparação, oportunidade e frustração. Seus efeitos dependem não apenas das características das plataformas, mas também das condições sociais nas quais os adolescentes vivem e desenvolvem suas relações.

Diante desse contexto, o presente artigo tem como objetivo compreender como as desigualdades socioeconômicas atravessam a experiência digital dos adolescentes, investigando as potencialidades e os riscos das redes sociais para os processos de socialização, construção identitária, reconhecimento social e saúde mental. Parte-se da hipótese de que as plataformas digitais, embora ampliem oportunidades de acesso à informação e interação social, também podem intensificar experiências de exclusão, comparação social e sofrimento psicológico entre adolescentes inseridos em contextos de vulnerabilidade socioeconômica.


2 Revisão da Literatura

2.1 Adolescência, desigualdade e busca por pertencimento

A adolescência constitui um período marcado pela crescente importância das relações sociais e pela intensificação da busca por pertencimento. À medida que os jovens se afastam gradualmente da dependência infantil e ampliam sua participação nos grupos de pares, a aceitação social passa a ocupar posição central em suas experiências cotidianas. A necessidade de ser reconhecido, valorizado e incluído não representa uma característica acidental dessa etapa da vida, mas uma dimensão fundamental do próprio processo de desenvolvimento humano. Ehrenreich (2022) demonstra que as relações com os pares constituem um dos principais contextos de desenvolvimento psicossocial na adolescência, influenciando identidade, autoestima e pertencimento.

Steinberg (2017) observa que a adolescência é caracterizada por profundas transformações cognitivas, emocionais e sociais que tornam os jovens particularmente sensíveis à opinião dos pares. A autoestima, a percepção de competência e a construção da identidade passam a depender, em grande medida, das experiências vividas nos grupos sociais dos quais o adolescente participa. Morita et al. (2022) observam que a construção identitária adolescente ocorre por meio de processos simultâneos de exploração e consolidação do self, cada vez mais mediados por ambientes digitais. Embora a influência dos pares esteja presente em diferentes momentos da vida, ela assume intensidade singular durante a adolescência, quando o reconhecimento social adquire valor especialmente elevado.

Nesse contexto, a condição socioeconômica não pode ser considerada um fator secundário. Os grupos adolescentes não se organizam apenas em torno de afinidades pessoais ou interesses compartilhados. Eles também refletem desigualdades presentes na sociedade mais ampla. Recursos econômicos, acesso a oportunidades, estilos de consumo, aparência, vestuário e formas de lazer frequentemente desempenham papel importante nos processos de inclusão e exclusão social vividos pelos jovens.

Foulkes (2024) destaca que a adolescência é profundamente marcada pela construção de hierarquias sociais e pela disputa por status dentro dos grupos de pares. Popularidade, prestígio e reconhecimento constituem elementos centrais da vida social adolescente. Embora essas dinâmicas estejam presentes em diferentes contextos históricos, elas assumem características particulares em sociedades marcadas por elevados níveis de desigualdade econômica.

A autora observa que adolescentes considerados populares costumam reunir atributos socialmente valorizados, como aparência física, habilidades esportivas, competências sociais e capacidade de adaptação às normas dominantes do grupo (Foulkes, 2024). Entretanto, muitos desses atributos estão direta ou indiretamente relacionados às oportunidades disponíveis em determinados contextos socioeconômicos. A participação em atividades esportivas, o acesso a determinados bens de consumo, a qualidade das escolas frequentadas e até mesmo certos padrões estéticos podem ser influenciados pelas condições materiais de vida.

Essa realidade torna-se particularmente importante quando se considera que a adolescência é também um período de comparação constante. Os jovens observam seus pares, avaliam posições relativas dentro dos grupos e procuram compreender seu lugar nas hierarquias sociais. Em contextos de desigualdade econômica, essas comparações frequentemente revelam diferenças significativas no acesso a recursos, oportunidades e formas de participação social.

Galinsky (2024) chama atenção para os efeitos psicológicos produtos por experiências de discriminação e exclusão durante a adolescência. Seus estudos demonstram que adolescentes que se percebem desvalorizados ou tratados de maneira desigual apresentam níveis mais elevados de estresse, menor autoestima, pior desempenho escolar e maior incidência de sintomas depressivos. Embora a autora analise diferentes formas de discriminação, suas conclusões ajudam a compreender os impactos produzidos por experiências recorrentes de exclusão associadas à condição socioeconômica.

A exclusão social nem sempre se manifesta de maneira explícita. Muitas vezes ela ocorre por meio de mecanismos sutis, como a impossibilidade de participar de determinadas atividades, o constrangimento diante da falta de recursos financeiros ou a percepção constante de ocupar posição inferior nas hierarquias sociais. Essas experiências podem influenciar significativamente a maneira como os adolescentes percebem a si mesmos e suas perspectivas futuras.

Steinberg (2017) destaca que a autoestima tende a desenvolver-se de forma mais saudável em ambientes nos quais os adolescentes experimentam relações positivas e apoio consistente por parte da família e da comunidade. Contudo, contextos marcados por insegurança econômica frequentemente expõem famílias e jovens a níveis mais elevados de estresse, reduzindo a disponibilidade de recursos emocionais, educacionais e sociais necessários para enfrentar os desafios próprios da adolescência.

Além disso, a percepção da desigualdade pode exercer influência independente das condições materiais objetivas. Um adolescente não precisa necessariamente viver em situação de pobreza extrema para experimentar sentimentos de privação relativa. Frequentemente, o sofrimento emerge da comparação entre sua realidade e a realidade daqueles que parecem possuir mais recursos, oportunidades ou reconhecimento social. A adolescência é particularmente sensível a essas comparações porque a identidade ainda está em processo de formação e porque a aprovação dos pares ocupa posição central na organização da vida social.

Essa observação aproxima-se de uma tradição filosófica que remonta à Antiguidade. Aristóteles afirmava que o ser humano é, por natureza, um ser social, destinado à vida em comunidade (Política, I, 1253a). O florescimento humano depende da participação em relações que permitam reconhecimento, amizade e desenvolvimento das potencialidades individuais. Embora o filósofo não tenha abordado a realidade das redes sociais contemporâneas, sua reflexão ajuda a compreender que a busca por pertencimento não constitui uma fragilidade da adolescência, mas uma característica fundamental da condição humana.

Na sociedade contemporânea, contudo, essa busca por pertencimento ocorre em contextos marcados por profundas desigualdades sociais. Antes mesmo de ingressarem nas redes sociais, adolescentes já vivem experiências distintas relacionadas à renda familiar, à qualidade da educação recebida, ao acesso à cultura, às oportunidades de lazer e às expectativas de futuro. Essas diferenças influenciam fortemente a forma como participam da vida social e como constroem suas identidades.

Compreender a relação entre adolescência e desigualdade constitui, portanto, condição indispensável para analisar adequadamente os impactos das redes sociais. As plataformas digitais não operam sobre sujeitos abstratos e iguais entre si. Elas encontram adolescentes inseridos em realidades profundamente diversas, marcadas por diferentes níveis de acesso a recursos materiais, culturais e simbólicos. É nesse encontro entre vulnerabilidades sociais pré-existentes e novas formas de interação digital que emergem muitos dos desafios característicos da adolescência.

2.2 Redes sociais, comparação social e exposição à desigualdade

A comparação social constitui um processo inerente à vida humana. Valkenburg (2022) argumenta que determinadas affordances4 das redes sociais favorecem a observação constante dos outros e intensificam processos de comparação social durante a adolescência. Desde a infância, indivíduos observam aqueles que os rodeiam para compreender seu próprio valor, suas capacidades e sua posição dentro dos grupos sociais. Durante a adolescência, contudo, esse mecanismo assume intensidade particular em razão da crescente importância atribuída ao reconhecimento dos pares e à construção da identidade pessoal. As redes sociais digitais modificaram profundamente esse processo ao ampliar exponencialmente o número de pessoas com as quais os adolescentes se comparam e ao tornar essas comparações praticamente permanentes.

Historicamente, a maior parte das comparações sociais ocorria em contextos relativamente limitados. Os adolescentes comparavam-se sobretudo com familiares, vizinhos, colegas de escola ou membros da comunidade local. Embora essas comparações pudessem gerar sentimentos de inferioridade ou exclusão, elas permaneciam circunscritas a grupos relativamente pequenos. A expansão das plataformas digitais alterou radicalmente esse cenário. Atualmente, adolescentes podem observar diariamente a vida de milhares de pessoas, incluindo celebridades, influenciadores digitais e indivíduos pertencentes a contextos socioeconômicos muito distintos dos seus. Estudiosos destacam que a exposição contínua a conteúdos idealizados tende a influenciar avaliações subjetivas sobre felicidade, sucesso e pertencimento (Lee et al., 2025).

Twenge (2018) argumenta que uma das características mais marcantes da geração que cresceu com smartphones é precisamente a intensificação da comparação social mediada pelas redes digitais. As plataformas permitem acesso contínuo a imagens, vídeos e narrativas que apresentam versões cuidadosamente selecionadas da vida cotidiana. Viagens, festas, roupas, aparelhos eletrônicos, experiências de lazer e conquistas pessoais são compartilhados de forma permanente, criando um fluxo contínuo de referências sociais contra as quais os adolescentes avaliam suas próprias vidas.

Esse fenômeno adquire particular relevância em contextos de desigualdade econômica. Enquanto adolescentes pertencentes a grupos mais favorecidos podem identificar-se mais facilmente com os estilos de vida exibidos nas plataformas, jovens provenientes de contextos vulneráveis frequentemente são expostos a realidades que parecem inatingíveis. A comparação deixa de ocorrer apenas entre pessoas que compartilham condições semelhantes e passa a envolver indivíduos separados por profundas diferenças econômicas, culturais e sociais.

As contribuições reunidas no Handbook of Adolescent Digital Media Use and Mental Health ajudam a compreender os mecanismos que tornam esse processo especialmente intenso no ambiente digital. Os autores destacam que determinadas características das plataformas – denominadas affordances digitais – favorecem a comparação social constante, a visibilidade pública das interações e a quantificação da aprovação social (Roberts et al., 2022). Curtidas, seguidores, comentários e visualizações funcionam como indicadores aparentemente objetivos de popularidade e reconhecimento, estimulando os adolescentes a comparar não apenas seus bens materiais, mas também sua posição social.

Nesse contexto, a desigualdade torna-se mais visível e mais difícil de ignorar. O adolescente economicamente vulnerável não encontra a diferença social apenas ocasionalmente. Ele pode observá-la inúmeras vezes ao longo do dia, diretamente na tela do telefone que carrega consigo. A experiência da desigualdade deixa de estar restrita a determinados espaços físicos e passa a acompanhar o indivíduo continuamente.

Haidt (2024) oferece importante contribuição para a compreensão desse fenômeno ao argumentar que o smartphone transformou profundamente a experiência cotidiana da adolescência. Embora sua análise esteja centrada principalmente na saúde mental, suas observações permitem compreender como a conectividade permanente ampliou a exposição dos jovens a conteúdos capazes de influenciar autoestima, expectativas e percepção de valor pessoal. Em sociedades marcadas por elevados níveis de desigualdade, essa exposição contínua pode intensificar sentimentos de inadequação e privação relativa.

A noção de privação relativa é particularmente útil para interpretar esse cenário. Diversos estudos em Psicologia Social demonstram que o sofrimento humano nem sempre está relacionado apenas às condições objetivas de vida, mas também à forma como essas condições são percebidas em comparação com as dos outros. Um adolescente pode possuir acesso a recursos suficientes para suas necessidades básicas e, ainda assim, sentir-se excluído ao comparar sua realidade com estilos de vida constantemente exibidos nas plataformas digitais.

Twenge (2018) observa que os efeitos psicológicos da comparação social não dependem necessariamente da veracidade das imagens observadas. Mesmo quando os adolescentes sabem que muitas publicações são cuidadosamente editadas e selecionadas, continuam suscetíveis aos sentimentos de inadequação produzidos por essas comparações. A percepção repetida de que outras pessoas possuem vidas mais felizes, mais interessantes ou mais bem-sucedidas pode influenciar negativamente a satisfação com a própria vida.

Essa dinâmica torna-se ainda mais complexa quando associada ao consumo. As redes sociais estão profundamente integradas à lógica publicitária e ao marketing de influência. Produtos, marcas e estilos de vida são continuamente promovidos por influenciadores e criadores de conteúdo. Para adolescentes em contextos economicamente vulneráveis, essa exposição pode reforçar a percepção de distância entre seus recursos disponíveis e os padrões de consumo apresentados como desejáveis.

Foulkes (2024) observa que a adolescência é marcada por sistemas de status nos quais determinados atributos recebem maior valorização social. Em sociedades de consumo, bens materiais frequentemente funcionam como símbolos de prestígio, pertencimento e reconhecimento. As plataformas digitais amplificam esse processo ao transformar objetos de consumo em elementos centrais da apresentação pública da identidade. Roupas, aparelhos eletrônicos, viagens e experiências tornam-se não apenas bens de uso, mas sinais visíveis de posição social.

Galinsky (2024) demonstra que experiências de discriminação e desvalorização produzem impactos significativos sobre autoestima, desempenho escolar e saúde mental. Embora a autora não trate especificamente da desigualdade econômica, suas conclusões ajudam a compreender os efeitos produzidos por experiências repetidas de exclusão simbólica. Quando adolescentes percebem que determinados padrões de participação social lhes são inacessíveis, podem desenvolver sentimentos persistentes de inferioridade, frustração e desesperança.

Entretanto, seria equivocado concluir que os adolescentes são meras vítimas passivas desses processos. Muitos jovens utilizam as redes sociais para desenvolver estratégias criativas de participação, expressão pessoal e construção de capital social que não dependem exclusivamente de recursos econômicos. Talentos artísticos, habilidades comunicativas, competências digitais e formas alternativas de pertencimento podem emergir precisamente em ambientes digitais, ampliando oportunidades para adolescentes provenientes de contextos menos favorecidos.

Ainda assim, a literatura analisada sugeria que as redes sociais modificaram muito a experiência da desigualdade durante a adolescência. Se a comparação social sempre esteve presente no desenvolvimento humano, as plataformas digitais ampliaram sua escala, sua intensidade e sua permanência. Em consequência, compreender a saúde mental e a construção da identidade de adolescentes em contextos de vulnerabilidade socioeconômica exige considerar não apenas suas condições materiais de vida, mas também a forma como essas condições são continuamente interpretadas e avaliadas em ambientes digitais.

Dessa maneira, as redes sociais não apenas refletem as desigualdades existentes na sociedade. Elas participam ativamente da forma como essas desigualdades são percebidas, experimentadas e incorporadas pelos adolescentes. É precisamente nesse encontro entre comparação social, exposição permanente e vulnerabilidade econômica que emergem alguns dos desafios mais significativos da adolescência na cultura digital contemporânea.

2.3 Popularidade, consumo e exclusão: a construção do status social na adolescência digital

A adolescência sempre esteve associada à busca por reconhecimento social. A necessidade de ser aceito pelos pares, construir amizades significativas e ocupar posições valorizadas nos grupos constitui uma das características mais marcantes dessa etapa do desenvolvimento humano. Contudo, a ascensão das redes sociais alterou profundamente os mecanismos por meio dos quais o reconhecimento é obtido, exibido e validado. Em consequência, a construção do status social adolescente passou a ocorrer em ambientes nos quais popularidade, visibilidade e consumo estão cada vez mais interligados.

Foulkes (2024) observa que a vida social dos adolescentes é organizada em torno de hierarquias relativamente estáveis, nas quais determinados atributos recebem maior valorização do que outros. Popularidade não depende apenas da simpatia ou da qualidade das relações interpessoais. Ela frequentemente está associada à capacidade de corresponder aos padrões culturais dominantes dentro dos grupos juvenis. Aparência física, habilidades esportivas, competências sociais e conformidade com determinadas expectativas coletivas tendem a favorecer posições de maior prestígio.

Embora esses mecanismos não sejam novos, a cultura digital ampliou sua visibilidade. As redes sociais transformaram a popularidade em algo observável, mensurável e permanentemente exposto. O número de seguidores, curtidas, visualizações e comentários passou a funcionar como indicador público de reconhecimento social. Roberts et al. (2022) observam que os indicadores quantitativos de aprovação social transformam o reconhecimento em algo permanentemente monitorável, favorecendo processos contínuos de avaliação social. O que antes era percebido de maneira subjetiva agora aparece traduzido em métricas visíveis que podem ser comparadas continuamente.

Essa transformação produz efeitos importantes sobre a experiência adolescente. Conforme destacam pesquisadores, as plataformas digitais favorecem processos de monitoramento constante do feedback social, incentivando os jovens a acompanhar permanentemente a recepção de suas publicações e a posição que ocupam dentro das redes de interação (Roberts et al., 2022). O reconhecimento deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a ser apresentado sob a forma de números aparentemente objetivos.

Nesse contexto, o consumo assume papel cada vez mais relevante. Em sociedades marcadas pela lógica do mercado e pela centralidade da imagem, bens materiais frequentemente funcionam como símbolos de prestígio e pertencimento. Roupas, aparelhos eletrônicos, viagens, restaurantes, festas e experiências de lazer não representam apenas objetos ou atividades; tornam-se elementos utilizados para comunicar status social.

As redes sociais intensificam esse processo ao favorecer formas de apresentação pública da vida cotidiana. Harrison (2025) observa que a arquitetura das plataformas digitais favorece formas de autoapresentação cuidadosamente selecionadas, nas quais usuários tendem a destacar aspectos positivos de suas experiências. Fotografias e vídeos compartilhados nas plataformas frequentemente destacam aspectos relacionados ao consumo e ao estilo de vida. Como resultado, os adolescentes passam a ser expostos continuamente a representações de sucesso associadas à posse de determinados bens e experiências.

Twenge (2018) observa que a cultura digital ampliou significativamente a exposição dos jovens a estilos de vida idealizados. Influenciadores digitais, celebridades e criadores de conteúdo apresentam versões cuidadosamente selecionadas de suas rotinas, frequentemente enfatizando viagens, conquistas, experiências exclusivas e padrões elevados de consumo. Ainda que os adolescentes compreendam racionalmente que essas imagens não representam a totalidade da realidade, a exposição repetida tende a influenciar suas expectativas e percepções sobre o que significa ter uma vida bem-sucedida.

Para adolescentes inseridos em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, essa dinâmica pode produzir tensões particulares. Muitos jovens convivem diariamente com a percepção de que determinados padrões de consumo amplamente valorizados nas redes sociais estão fora do seu alcance. Em consequência, a desigualdade econômica deixa de ser apenas uma realidade objetiva e transforma-se também em uma experiência subjetiva constantemente reforçada pelas comparações digitais.

A literatura sociológica frequentemente descreve esse fenômeno como uma forma de exclusão simbólica. Não se trata apenas da impossibilidade de adquirir determinados bens, mas da percepção de que a participação plena em determinados espaços sociais exige recursos que não estão disponíveis para todos. Durante a adolescência, quando o pertencimento grupal assume importância central, essas experiências podem produzir sentimentos de inadequação, vergonha ou inferioridade.

Foulkes (2024) demonstra que os sistemas de status adolescentes influenciam diretamente a inclusão e a exclusão dentro dos grupos de pares. Aqueles que conseguem corresponder aos padrões valorizados tendem a ocupar posições mais centrais nas redes de amizade e reconhecimento. Por outro lado, adolescentes que não possuem acesso aos mesmos recursos frequentemente enfrentam dificuldades adicionais para conquistar prestígio e visibilidade social.

A situação torna-se ainda mais complexa quando as diferenças econômicas passam a ser publicamente visíveis. O adolescente não apenas sabe que possui menos recursos do que alguns de seus pares; ele vê continuamente fotografias, vídeos e relatos que tornam essa diferença explícita. O telefone celular converte-se, assim, em um instrumento que aproxima indivíduos de realidades muito distintas e, ao mesmo tempo, torna essas distâncias mais perceptíveis.

Haidt (2024) argumenta que uma das transformações centrais produzidas pelos smartphones foi a incorporação permanente do ambiente digital à experiência cotidiana dos adolescentes. Diferentemente das gerações anteriores, os jovens atuais carregam consigo um dispositivo que oferece acesso contínuo às opiniões, imagens e estilos de vida de outras pessoas. Isso significa que as comparações sociais deixaram de ocorrer em momentos específicos e passaram a integrar o fluxo ordinário da vida diária.

Entretanto, seria um erro interpretar esse cenário apenas em termos negativos. As redes sociais também oferecem oportunidades para formas alternativas de reconhecimento que não dependem exclusivamente da condição econômica. Muitos adolescentes conquistam visibilidade por meio de talentos artísticos, criatividade, humor, produção de conteúdo, habilidades técnicas ou participação em comunidades de interesse. Em alguns casos, as plataformas digitais ampliam oportunidades de mobilidade simbólica que dificilmente estariam disponíveis nos contextos presenciais tradicionais.

Essa observação é particularmente importante porque evita uma compreensão determinista da relação entre desigualdade e cultura digital. A condição socioeconômica influencia significativamente a experiência adolescente, mas não define completamente suas possibilidades de participação social. Os jovens continuam capazes de construir estratégias de pertencimento, desenvolver competências e criar formas alternativas de reconhecimento mesmo em contextos marcados por limitações materiais.

Ainda assim, a literatura analisada sugere que a cultura digital introduziu novas formas de pressão relacionadas ao status social. A visibilidade permanente das diferenças econômicas, associada à valorização do consumo e à quantificação do reconhecimento social, contribui para tornar a desigualdade uma presença constante na vida cotidiana dos adolescentes. Em consequência, compreender os impactos das redes sociais sobre a saúde mental juvenil exige considerar não apenas os aspectos tecnológicos das plataformas, mas também as estruturas sociais que condicionam a forma como os jovens participam desses ambientes.

Dessa maneira, a adolescência digital revela uma tensão fundamental entre pertencimento e exclusão. As redes sociais ampliam oportunidades de conexão e participação, mas também tornam mais visíveis as diferenças de status e acesso a recursos. É nesse espaço de tensão que muitos adolescentes constroem suas identidades, desenvolvem suas relações sociais e elaboram suas percepções acerca do próprio valor e das possibilidades que o futuro lhes reserva.

2.4 Desigualdade, saúde mental e perspectivas de futuro

A adolescência é uma etapa do desenvolvimento caracterizada não apenas pela construção da identidade presente, mas também pela elaboração de expectativas em relação ao futuro. Durante esse período, os jovens começam a formular projetos de vida, imaginar trajetórias profissionais, definir aspirações pessoais e desenvolver percepções acerca das oportunidades que acreditam ter diante de si. A esperança, a autoestima e o sentimento de eficácia pessoal tornam-se elementos fundamentais para a consolidação de uma identidade saudável e para a transição bem-sucedida para a vida adulta.

Entretanto, essas dimensões psicológicas não se desenvolvem isoladamente. Elas são profundamente influenciadas pelas condições sociais nas quais os adolescentes vivem. A desigualdade econômica não afeta apenas a disponibilidade de recursos materiais; ela influencia também a forma como os jovens interpretam suas possibilidades de realização, avaliam seu valor pessoal e percebem seu lugar na sociedade.

Steinberg (2017) destaca que a autoestima adolescente resulta de uma combinação complexa entre experiências pessoais, relações familiares e reconhecimento social. Os adolescentes tendem a desenvolver uma percepção mais positiva de si mesmos quando experimentam relações de apoio, sentem-se valorizados pelos pares e percebem que possuem capacidade para enfrentar desafios e alcançar objetivos. Por outro lado, experiências recorrentes de exclusão, fracasso ou desvalorização podem enfraquecer significativamente a confiança em si mesmos.

Nesse contexto, as redes sociais desempenham um papel ambivalente. Yue et al. (2025) observam que os impactos das redes sociais sobre a saúde mental dependem da interação entre fatores individuais, relacionais e contextuais, não podendo ser explicados por um único mecanismo causal. Por um lado, elas oferecem oportunidades de expressão pessoal, acesso à informação e participação em comunidades que podem fortalecer a autoestima. Por outro lado, as plataformas ampliam processos de comparação social que frequentemente favorecem sentimentos de inadequação e inferioridade. Quando essas comparações ocorrem em contextos marcados por desigualdades econômicas significativas, seus efeitos podem ser particularmente intensos.

Twenge (2018) observa que a exposição constante a versões idealizadas da vida alheia está associada a níveis mais elevados de insatisfação, ansiedade e sofrimento emocional entre adolescentes. Embora esses efeitos não atinjam exclusivamente jovens economicamente vulneráveis, a discrepância entre a realidade vivida e os estilos de vida apresentados nas redes sociais pode tornar-se especialmente dolorosa para aqueles que enfrentam limitações materiais significativas.

A percepção da desigualdade não produz apenas sentimentos de privação. Ela também pode influenciar a forma como os adolescentes imaginam seu futuro. Jovens que observam continuamente padrões de sucesso associados a recursos inacessíveis podem desenvolver a sensação de que determinados objetivos estão fora do seu alcance. Nesse sentido, a comparação social excessiva pode contribuir para a formação de expectativas limitadas e para o enfraquecimento da esperança em relação às possibilidades de mobilidade social.

Galinsky (2024) apresenta evidências importantes sobre os efeitos psicológicos produzidos por experiências recorrentes de discriminação e desvalorização. Seus estudos mostram que adolescentes submetidos a tais experiências apresentam níveis mais elevados de estresse, maior incidência de sentimentos de desesperança, pior desempenho escolar e redução do engajamento com atividades acadêmicas. Embora a autora não trate especificamente da pobreza, suas conclusões ajudam a compreender os mecanismos pelos quais experiências de exclusão social podem afetar negativamente a saúde mental.

A desesperança merece atenção especial porque constitui um dos fatores mais frequentemente associados ao sofrimento psicológico durante a adolescência. Galinsky (2024) destaca que sentimentos persistentes de exclusão e desvalorização estão associados à redução do engajamento escolar e ao aumento do sofrimento psicológico durante a adolescência. Quando os jovens deixam de acreditar na possibilidade de transformação de suas condições de vida, tornam-se mais vulneráveis a sintomas depressivos, desmotivação acadêmica e dificuldades na construção de projetos de longo prazo. A percepção de que o esforço pessoal dificilmente produzirá mudanças significativas pode enfraquecer o sentido de autonomia necessário ao desenvolvimento saudável.

Haidt (2024) observa que a crise contemporânea da saúde mental adolescente não pode ser explicada por um único fator, mas resulta da interação entre diversas transformações sociais e culturais. Entre essas transformações encontra-se a crescente centralidade das redes sociais na vida cotidiana dos jovens. As plataformas digitais ampliam a visibilidade da desigualdade, intensificam a comparação social e favorecem formas de avaliação permanente que podem afetar profundamente o bem-estar psicológico.

Ao mesmo tempo, seria incorreto atribuir às redes sociais a responsabilidade exclusiva pelos desafios enfrentados por adolescentes em contextos de vulnerabilidade econômica. Yue et al. (2025) enfatizam que a saúde mental resulta da interação entre fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais. As plataformas digitais operam dentro de realidades sociais já marcadas por desigualdades históricas relacionadas à renda, educação, moradia e acesso a oportunidades.

Essa observação é particularmente importante para evitar explicações simplistas. A pobreza não determina inevitavelmente sofrimento psicológico, assim como a condição econômica favorável não garante bem-estar emocional. Muitos adolescentes provenientes de contextos vulneráveis desenvolvem elevados níveis de resiliência, constroem fortes redes de apoio e demonstram extraordinária capacidade de adaptação diante das dificuldades. Da mesma forma, jovens pertencentes a grupos economicamente privilegiados também podem enfrentar importantes desafios relacionados à saúde mental.

Entretanto, a literatura analisada sugere que a combinação entre vulnerabilidade socioeconômica e exposição contínua a comparações digitais pode criar condições particularmente desafiadoras para o desenvolvimento adolescente. A desigualdade deixa de ser apenas uma reality objetiva e transforma-se em uma experiência subjetiva constantemente renovada pelas interações online.

Nesse cenário, a educação assume papel fundamental. Galinsky (2024) destaca que adolescentes prosperam quando encontram adultos capazes de oferecer apoio, encorajamento e expectativas positivas em relação ao seu potencial. Feedbacks construtivos, oportunidades de participação significativa e experiências de sucesso contribuem para fortalecer sentimentos de competência e esperança. Essas práticas tornam-se ainda mais importantes em contextos marcados por desvantagens socioeconômicas persistentes.

A escola, a família e a comunidade podem funcionar como espaços de proteção capazes de contrabalançar os efeitos negativos da comparação social excessiva. Ao promover relações de reconhecimento, pertencimento e valorização das potencialidades individuais, essas instituições ajudam os adolescentes a construir formas de autoestima menos dependentes do consumo, da popularidade digital ou da validação constante dos pares.

Dessa forma, a discussão sobre desigualdade, saúde mental e redes sociais conduz inevitavelmente a uma reflexão mais ampla sobre justiça social e desenvolvimento humano. O grande desafio não consiste apenas em reduzir o tempo de uso das plataformas digitais, mas em criar condições sociais que permitam aos adolescentes desenvolver projetos de vida significativos, experimentar reconhecimento autêntico e cultivar esperança em relação ao futuro. Em sociedades profundamente desiguais, essa tarefa constitui um dos maiores desafios educacionais e políticos do nosso tempo.

3 Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa. A investigação foi desenvolvida a partir da análise de livros, capítulos de livros e artigos científicos nacionais e internacionais que abordam adolescência, vulnerabilidade socioeconômica, desenvolvimento humano, saúde mental e uso das redes sociais digitais.

A seleção das obras priorizou autores contemporâneos reconhecidos nas áreas da Psicologia do Desenvolvimento, Ciências da Educação, Sociologia e Saúde Mental, incluindo estudos de Steinberg (2017), Twenge (2018), Haidt (2024), Foulkes (2024), Galinsky (2024), Harrison (2025) e as contribuições de Nesi, Telzer e Prinstein (2022), além de seus respectivos colaboradores. Também foram consideradas pesquisas recentes sobre comparação social, pertencimento, reconhecimento, exclusão social e impactos psicossociais das mídias digitais na adolescência.

A análise dos dados ocorreu por meio de leitura interpretativa e análise temática do material selecionado, buscando identificar relações entre desigualdade socioeconômica, experiências digitais e processos de desenvolvimento adolescente. A partir da literatura consultada, foram organizadas categorias analíticas relacionadas ao pertencimento social, construção identitária, comparação social, saúde mental e perspectivas de futuro.

4 Resultados e Discussão

A análise da literatura evidencia que a experiência dos adolescentes em contextos de vulnerabilidade socioeconômica nas redes sociais é marcada por uma relação simultaneamente promissora e desafiadora. Os estudos analisados demonstram que as plataformas digitais ampliam oportunidades de acesso à informação, comunicação, aprendizagem e interação social, permitindo que muitos jovens ultrapassem limitações impostas pelo contexto econômico em que vivem. Nesse sentido, as redes sociais podem funcionar como espaços de socialização, expressão pessoal e construção de vínculos que contribuem positivamente para o desenvolvimento adolescente.

Entretanto, os resultados também revelam que os benefícios proporcionados pelas tecnologias digitais não são distribuídos de forma igualitária. As desigualdades socioeconômicas presentes na vida cotidiana tendem a reproduzir-se e, em alguns casos, a intensificar-se nos ambientes digitais. A exposição constante a estilos de vida idealizados, padrões de consumo muitas vezes inacessíveis e representações de sucesso associadas ao poder aquisitivo favorece processos de comparação social que podem gerar sentimentos de inadequação, exclusão e inferioridade.

Os estudos de Twenge (2018) e Haidt (2024) indicam que o aumento do tempo de exposição às redes sociais coincide com o crescimento de indicadores de sofrimento psicológico entre adolescentes. Embora tais fenômenos atinjam diferentes grupos juvenis, os jovens inseridos em contextos de vulnerabilidade socioeconômica podem apresentar maior suscetibilidade aos efeitos negativos dessas comparações, uma vez que convivem diariamente com limitações materiais e oportunidades reduzidas de mobilidade social.

Outro resultado relevante refere-se à importância do pertencimento social durante a adolescência. Conforme apontam Steinberg (2017) e Foulkes (2024), a aceitação pelos pares ocupa posição central nesse período do desenvolvimento. As redes sociais ampliam as possibilidades de interação, mas também transformam popularidade, reconhecimento e aprovação em indicadores permanentemente visíveis por meio de curtidas, comentários, seguidores e visualizações. Para adolescentes socialmente vulneráveis, a dificuldade de corresponder aos padrões de consumo e prestígio frequentemente valorizados nesses ambientes pode intensificar sentimentos de rejeição e marginalização.

A literatura também sugere que as desigualdades econômicas influenciam diretamente os processos de construção identitária. Morita et al. (2022) observam que a identidade adolescente é formada a partir da interação entre características individuais e contextos sociais. Quando os jovens se percebem constantemente em desvantagem diante dos modelos de sucesso difundidos nas redes sociais, podem desenvolver percepções negativas acerca de si mesmos e de suas perspectivas futuras.

Por outro lado, os estudos analisados demonstram que as redes sociais não constituem apenas espaços de risco. Diversos autores destacam que essas plataformas podem favorecer o acesso a informações educacionais, oportunidades de aprendizagem, redes de apoio e referências positivas capazes de ampliar horizontes e fortalecer projetos de vida. Assim, os impactos das redes sociais dependem não apenas da tecnologia em si, mas também das condições sociais, familiares, educacionais e comunitárias que cercam os adolescentes.

Os resultados encontrados reforçam a necessidade de compreender a relação entre juventude, redes sociais e desigualdade a partir de uma perspectiva multidimensional. Mais do que discutir o tempo de uso das plataformas digitais, torna-se necessário considerar as condições concretas de vida dos adolescentes e os diferentes recursos materiais, culturais e simbólicos disponíveis para enfrentar os desafios da atualidade. Dessa forma, a vulnerabilidade socioeconômica deve ser entendida como um elemento central para a interpretação dos efeitos das redes sociais sobre o desenvolvimento, o bem-estar psicológico e as expectativas de futuro dos jovens.

5 Considerações Finais

O presente estudo analisou como as desigualdades socioeconômicas atravessam a experiência digital dos adolescentes, influenciando processos de pertencimento, comparação social, construção identitária e saúde mental. A revisão da literatura permitiu concluir que as redes sociais não afetam todos os jovens da mesma maneira, sendo seus impactos fortemente condicionados pelas circunstâncias sociais, familiares e educacionais em que se desenvolvem.

Os resultados indicam que as plataformas digitais ampliam tanto oportunidades quanto vulnerabilidades. Ao mesmo tempo em que favorecem o acesso à informação, à aprendizagem, à expressão pessoal e à construção de redes de apoio, também intensificam processos de comparação social e exposição às desigualdades econômicas, podendo contribuir para sentimentos de inadequação, exclusão e desesperança entre adolescentes em contextos de vulnerabilidade.

A literatura analisada evidencia ainda que a adolescência constitui um período particularmente sensível à busca por pertencimento e reconhecimento social (Steinberg, 2017; Foulkes, 2024). Nesse contexto, as redes sociais potencializam dinâmicas já presentes no desenvolvimento juvenil, tornando mais visíveis as diferenças sociais e seus impactos subjetivos.

As reflexões apresentadas reforçam a necessidade de estratégias educacionais, sociais e políticas que promovam formas mais inclusivas e críticas de participação juvenil no ambiente digital. Conforme argumenta Third (2025), os adolescentes devem ser compreendidos não apenas como usuários de tecnologia, mas como sujeitos de direitos capazes de participar da construção de ambientes digitais mais seguros, inclusivos e promotores de bem-estar.

Por fim, reconhece-se que esta pesquisa possui as limitações próprias de uma investigação bibliográfica. Estudos futuros poderão aprofundar empiricamente as experiências de adolescentes em diferentes contextos socioeconômicos, especialmente em sociedades marcadas por elevados níveis de desigualdade. Compreender a interação entre juventude, desigualdade e cultura digital permanece um desafio fundamental para a promoção do desenvolvimento humano e da justiça social no século XXI.

4Affordances digitais são as possibilidades de ação oferecidas por uma tecnologia aos seus usuários. No contexto das redes sociais, incluem características como visibilidade pública, comunicação permanente, compartilhamento instantâneo, quantificação das interações e acesso ampliado a informações e pessoas. Valkenburg (2022) identifica visibilidade, persistência, disponibilidade pública e quantificação do feedback social como características estruturais das plataformas capazes de potencializar seus efeitos psicossociais. Essas características não determinam comportamentos específicos, mas influenciam significativamente a forma como os indivíduos interagem e constroem suas experiências nos ambientes digitais (Nesi et al., 2022).

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  1. Doutorando em Ciências da Educação pela Christian Business School – CBS. Mestre em Filosofia pela Pontificia Università Gregoriana. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9224-2225, e-mail: vandermartins57@yahoo.com.br

  2. Mestre em Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente (PROCISA/FADIP). Licenciado em Ciências Biológicas (FUNIP), Letras – Português e Inglês (PROMINAS), Química (FUNIP), História (FUNIP) e Geografia (FUNIP). Bacharel em Enfermagem (FADIP). Especialista em Educação Integral (Faculdade Bookplay/SP). Pesquisador em Políticas Públicas e Formação dos Profissionais da Educação (GEPPFOR/UFV). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3037-9595, e-mail: victorfontoura2000@hotmail.com

  3. Ph.D. Doutora em Ciências da Educação, Mestra em Ciências da Educação pela Universidade Federal de Alagoas-UFAL, Psicopedagoga, Pedagoga, Analista do Comportamento Aplicada, Especialista em Escrita Acadêmica Avançada, Professora do Ensino Superior e professora orientadora da Christian Business School-CBS. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-6863-7874, e-mail: rozineide.pereira1975@gmail.com

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