RESUMO
Introdução: a fisioterapia mediada por tecnologia expandiu-se como estratégia de acesso, continuidade e monitoramento do cuidado, mas sua efetividade deve ser confrontada diretamente com intervenções presenciais. Objetivo: avaliar ensaios clínicos randomizados publicados entre 25 de junho de 2021 e 25 de junho de 2026 que compararam telereabilitação ou fisioterapia mediada por tecnologia com fisioterapia convencional exclusivamente presencial. Métodos: revisão sistemática reportada segundo o PRISMA 2020. Foram triados 218 registros únicos provenientes dos arquivos fornecidos e de busca complementar. A elegibilidade exigiu RCT, intervenção fisioterapêutica principal, comparador presencial ativo, resultados quantitativos e artigo completo revisado por pares. O risco de viés foi avaliado com a ferramenta Cochrane RoB 2. Devido à heterogeneidade clínica e tecnológica, realizou-se síntese narrativa. Resultados: 18 estudos, totalizando 1.378 participantes, foram incluídos. A área musculoesquelética concentrou 44,4% dos ensaios. Predominaram resultados sem diferença estatisticamente significativa ou de não inferioridade formal, especialmente para função, dor, capacidade física e qualidade de vida. Benefícios específicos favoreceram tecnologias com sensores, biofeedback e alguns programas síncronos; por outro lado, o atendimento presencial foi superior em um subgrupo idoso com Parkinson, em síndrome patelofemoral e em medidas pontuais de dor, autoeficácia ou desempenho muscular. Três estudos indicaram redução de custos no cuidado remoto/híbrido. O risco de viés foi baixo em cinco estudos, apresentou algumas preocupações em doze e foi alto em um. Conclusão: a fisioterapia mediada por tecnologia pode produzir resultados clínicos comparáveis ao cuidado presencial em diversas condições, desde que haja seleção adequada, suporte profissional, monitoramento e acesso digital. A evidência não sustenta substituição indiscriminada do presencial; modelos híbridos e estratificados parecem mais prudentes.
Palavras-chave: Telereabilitação. Fisioterapia. Telemedicina. Ensaio clínico randomizado.
Revisão sistemática. PRISMA.
ABSTRACT
Introduction: technology-mediated physiotherapy has expanded as a strategy to improve access, continuity, and monitoring of care, but its effectiveness must be directly compared with in-person interventions. Objective: to evaluate randomized clinical trials published from June 25, 2021, to June 25, 2026, comparing telerehabilitation or technology-mediated physiotherapy with exclusively in-person conventional physiotherapy. Methods: systematic review reported according to PRISMA 2020. A total of 218 unique records from the supplied files and a supplementary search were screened. Eligibility required an RCT, a primary physiotherapy intervention, an active in-person comparator, quantitative outcomes, and a full peer-reviewed article. Risk of bias was assessed using Cochrane RoB 2. A narrative synthesis was performed because of clinical and technological heterogeneity. Results: eighteen studies involving 1,378 participants were included. Musculoskeletal rehabilitation accounted for 44.4% of trials. Formal non-inferiority or no statistically significant between-group differences predominated for function, pain, physical capacity, and quality of life. Sensor-based feedback and some synchronous programs showed specific advantages; conversely, in-person care was superior in an older Parkinson subgroup, patellofemoral pain, and selected pain, self-efficacy, or muscle outcomes. Three studies reported lower costs for remote or hybrid care. Overall risk of bias was low in five studies, raised some concerns in twelve, and was high in one. Conclusion: technology-mediated physiotherapy can achieve outcomes comparable to in-person care across several conditions when patient selection, professional support, monitoring, and digital access are adequate. Evidence does not support indiscriminate replacement of in-person care; hybrid and stratified models appear more appropriate.
Keywords: Telerehabilitation. Physical therapy. Telemedicine. Randomized controlled trial.
Systematic review. PRISMA.
INTRODUÇÃO
A transformação digital dos sistemas de saúde ampliou a oferta de cuidados a distância e favoreceu o desenvolvimento de modalidades de telereabilitação. A Organização Mundial da Saúde reconhece a saúde digital como componente estratégico para ampliar acesso, continuidade e eficiência assistencial, desde que sejam asseguradas acessibilidade, segurança e equidade (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021; 2025).
Na fisioterapia, a telereabilitação pode envolver videoconferência, aplicativos, plataformas digitais, sensores, biofeedback e exergames. Revisões anteriores indicaram resultados clínicos frequentemente comparáveis aos do atendimento presencial, mas destacaram heterogeneidade de populações, tecnologias e comparadores (COTTRELL et al., 2017; SERON et al., 2021; PALACÍN-MARÍN et al., 2023).
A comparação metodologicamente mais informativa exige um grupo presencial ativo. Estudos que utilizam lista de espera, folhetos, cuidado usual ou exercício domiciliar sem supervisão não permitem distinguir o efeito da tecnologia do efeito de maior contato profissional. Por essa razão, esta revisão adotou critério estrito e incluiu somente ensaios randomizados com comparação direta entre fisioterapia tecnologicamente mediada e fisioterapia presencial ativa.
Justificativa
A atualização concentrada nos cinco anos anteriores ao encerramento da busca é relevante porque o uso de videoconferências, aplicativos e sensores se intensificou após a pandemia de COVID-19. A utilização conjunta do PRISMA 2020, da orientação SWiM para sínteses sem metanálise e da ferramenta Cochrane RoB 2 aumenta a transparência da seleção, da síntese e da avaliação crítica (PAGE et al., 2021; CAMPBELL et al., 2020; STERNE et al., 2019).
Objetivo geral
Avaliar os resultados clínicos, funcionais e terapêuticos de intervenções fisioterapêuticas mediadas por tecnologia em comparação direta com fisioterapia convencional presencial, em ensaios clínicos randomizados publicados nos cinco anos anteriores ao encerramento da busca.
Objetivos específicos
a) identificar RCTs compatíveis com a questão PICO; b) descrever populações, áreas, tecnologias, comparadores e duração; c) sintetizar resultados clínicos e funcionais; d) distinguir superioridade, não inferioridade e ausência de diferença estatística; e) avaliar o risco de viés pelo RoB 2; f) discutir aplicabilidade clínica, limitações e prioridades de pesquisa.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A telereabilitação pode ser síncrona, quando profissional e paciente interagem em tempo real, assíncrona, quando conteúdos e dados são acessados em momentos distintos, ou híbrida, quando combina encontros presenciais e remotos. A tecnologia pode funcionar como meio de comunicação ou acrescentar recursos terapêuticos, como feedback de movimento, gamificação e monitoramento por sensores (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2021; SERON et al., 2021).
A efetividade depende da dose terapêutica, progressão, individualização, feedback, segurança e adesão. A ausência de diferença estatística em um ensaio de superioridade não demonstra equivalência; afirmações formais de equivalência ou não inferioridade requerem hipótese, margem e análise compatíveis com esse desenho (HIGGINS et al., 2024).
Os desfechos mais frequentes incluem dor, função, força, equilíbrio, marcha, capacidade cardiorrespiratória, qualidade de vida, adesão, satisfação, eventos adversos e custos. Diante da diversidade clínica, uma síntese sem metanálise deve informar como os estudos foram agrupados, quais métricas foram priorizadas e como a direção dos efeitos foi interpretada (CAMPBELL et al., 2020).
MATERIAIS E MÉTODOS
Delineamento, protocolo e questão de pesquisa
Foi conduzida revisão sistemática de intervenções com síntese narrativa, reportada segundo o PRISMA 2020 e a diretriz SWiM (PAGE et al., 2021; CAMPBELL et al., 2020). A pergunta PICO foi: em pessoas submetidas à fisioterapia por condição clínica (P), intervenções mediadas por tecnologia ou telereabilitação (I), comparadas à fisioterapia convencional ativa e presencial (C), produzem resultados clínicos, funcionais ou terapêuticos diferentes (O)? A revisão não foi registrada prospectivamente e não teve protocolo público; os critérios descritos neste capítulo constituem o protocolo retrospectivamente documentado.
Fontes de informação e estratégia de busca
Foram analisados dois conjuntos bibliográficos fornecidos pela pesquisadora: 209 registros com resumos provenientes de MEDLINE/PubMed e nove registros exportados da Biblioteca Virtual em Saúde. A última verificação ocorreu em 25 de junho de 2026. Uma busca complementar dirigida em PubMed, Europe PMC, páginas dos periódicos e referências dos estudos elegíveis identificou um RCT adicional.
A estratégia retrospectivamente reconstruída para documentar os conceitos utilizados foi: (telerehabilitation OR tele-rehabilitation OR telehealth OR telemedicine OR videoconference OR mobile application OR digital platform OR virtual rehabilitation OR remote rehabilitation) AND (physiotherapy OR physical therapy OR rehabilitation OR therapeutic exercise) AND (randomized controlled trial OR randomised controlled trial) AND (face-to-face OR in-person OR conventional rehabilitation OR clinic-based OR center-based). Aplicaram-se os limites: humanos, artigo completo, periódico revisado por pares e publicação entre 25 de junho de 2021 e 25 de junho de 2026. Como a consulta original que gerou o conjunto de 209 registros não foi disponibilizada, esta estratégia deve ser entendida como reconstrução auditável, e não como transcrição literal da busca inicial.
Critérios de elegibilidade
Foram incluídos RCTs com intervenção fisioterapêutica principal, comparação direta com fisioterapia ativa presencial, resultados quantitativos comparáveis, artigo completo e publicação revisada por pares. Foram excluídos protocolos, revisões, meta-análises, estudos observacionais ou qualitativos, estudos piloto sem randomização, relatos de caso, intervenções predominantemente farmacológicas ou cirúrgicas, cuidado usual sem fisioterapia ativa, lista de espera, folhetos ou exercícios autoadministrados como único comparador e estudos nos quais o efeito da fisioterapia não pudesse ser isolado.
Seleção e extração dos dados
A seleção ocorreu por título, resumo e texto completo. Um revisor realizou duas passagens independentes em momentos distintos, registrando uma razão principal para cada exclusão em texto completo. Foram extraídos autor, ano, país, área, amostra, participantes, tecnologia, controle, duração, desfechos, resultados, conclusão, financiamento e conflitos quando disponíveis. Informações ausentes não foram imputadas.
Síntese dos resultados
Os estudos foram agrupados por área fisioterapêutica e direção do efeito. Foram preservadas as estimativas, intervalos de confiança e valores de p disponíveis nos relatórios. “Não inferior” foi utilizado apenas quando o ensaio declarou desenho e margem de não inferioridade; nos demais casos empregou-se “sem diferença estatisticamente significativa” ou “efeito misto”. A diversidade de populações, tecnologias, doses e instrumentos inviabilizou uma estimativa combinada clinicamente interpretável; portanto, realizou-se síntese narrativa conforme SWiM.
Risco de viés, viés de publicação e certeza
O RoB 2 foi aplicado ao principal resultado clínico no término da intervenção, considerando cinco domínios: randomização; desvios das intervenções; dados ausentes; mensuração; e seleção do resultado relatado. Os julgamentos e justificativas foram registrados em planilha
suplementar. Pela pequena quantidade de estudos por condição e pela heterogeneidade, não foram realizados funil ou testes estatísticos de viés de publicação; o risco de resultados ausentes foi discutido qualitativamente. A certeza do conjunto de evidências foi graduada de forma adaptada aos domínios do GRADE — risco de viés, inconsistência, imprecisão, evidência indireta e viés de publicação — e apresentada por domínio clínico.
Apoio, conflitos e disponibilidade
Não houve financiamento específico para esta revisão. A autora declara ausência de conflitos de interesse relacionados à síntese. A planilha de triagem, a extração dos estudos, os julgamentos RoB 2, a síntese de certeza e o código de geração do documento estão disponíveis nas pastas de auditoria e suporte técnico que acompanham o trabalho.
RESULTADOS
Seleção dos estudos
Foram identificados 219 registros: 209 no conjunto Medline/PubMed, nove no export da BVS e um por busca complementar. Após uma duplicata, 218 registros foram triados. Cento e oitenta e sete foram excluídos por título/resumo. Trinta e um textos foram buscados, um não foi recuperado e 30 foram avaliados integralmente. Doze foram excluídos após leitura completa, resultando em 18 RCTs incluídos.
Figura 1 – Fluxograma PRISMA 2020 da seleção dos estudos
Fonte: elaboração própria (2026), adaptado do PRISMA 2020.
Características dos estudos e áreas da fisioterapia
Os 18 estudos reuniram 1.378 participantes e foram publicados entre 2022 e 2026. As amostras variaram de 15 a 282 participantes. Oito estudos eram musculoesqueléticos; três neurológicos; três cardiopulmonares/cardio-oncológicos; dois gerontológicos; e dois de saúde pélvica/obstétrica. Tecnologias incluíram videoconferência, aplicativos, plataformas
assíncronas, sensores inerciais/eletromiográficos, exergames, telefonia e modelos híbridos.
Tabela 1 – Características dos estudos incluídos
Fonte: elaboração própria (2026).
Tabela 2 – Principais áreas da fisioterapia estudadas
Fonte: elaboração própria (2026).
Intervenções e efetividade
Quatorze estudos relataram não inferioridade formal, ausência de diferença estatisticamente significativa ou ausência de diferença clinicamente importante em seus principais desfechos. Vantagens tecnológicas foram observadas em sistemas com sensores para osteoartrite de joelho, em alguns desfechos de exergame pediátrico e na redução de dor durante retreinamento de corrida. O presencial foi superior no subgrupo idoso com Parkinson, na síndrome patelofemoral e em medidas pontuais de dor, autoeficácia ou função muscular. Três ensaios relataram menor custo para modalidades remotas ou híbridas.
Tabela 3 – Intervenções e efetividade
Fonte: elaboração própria (2026).
Ge et al. (2024) — Neurológica. Pessoas com doença de Parkinson, estratificadas por idade. A intervenção tecnológica consistiu em telereabilitação domiciliar com aplicativo, coaching e exercícios individualizados, comparada a fisioterapia domiciliar presencial individualizada. O protocolo durou 4 semanas; 5 sessões/semana; 40–60 min. Os principais desfechos foram updrs-iii/ii, bbs, tug, ftsst, fogq, marcha, força e pdq-39. Ambos os grupos melhoraram. Em participantes mais velhos, a fisioterapia presencial produziu maior redução
no UPDRS-III e vantagens em equilíbrio, mobilidade, velocidade da marcha e torque; nos mais jovens, não houve diferença relevante. As duas modalidades foram viáveis e efetivas, mas o presencial teve melhor desempenho e adesão no subgrupo mais idoso.
Zhang et al. (2025) — Gerontológica. Adultos idosos com sarcopenia. A intervenção tecnológica consistiu em aplicativo móvel com treinamento resistido remoto, comparada a treinamento resistido presencial supervisionado por fisioterapeuta. O protocolo durou 4 semanas. Os principais desfechos foram força de preensão, testes de sentar/levantar e braço, torque do quadríceps, bbs, tug, 6mwt e aivd. Força, equilíbrio e atividades instrumentais melhoraram em ambos os grupos, sem diferenças significativas entre as mudanças. A telereabilitação foi comparável à reabilitação presencial.
Keteyian et al. (2024) — Cardiopulmonar. Pacientes elegíveis para reabilitação cardíaca fase II. A intervenção tecnológica consistiu em modelo híbrido com sessões virtuais síncronas e 1–12 sessões presenciais, comparada a reabilitação cardíaca exclusivamente presencial em serviço. O protocolo durou até 36 sessões em 6 meses. Os principais desfechos foram comparecimento, conclusão de 36 sessões, capacidade de exercício e estado de saúde. Não houve diferença no número de sessões ou conclusão do programa; capacidade de exercício e estado de saúde apresentaram melhora equivalente. O modelo híbrido preservou os resultados da reabilitação cardíaca padrão.
Yang et al. (2025) — Musculoesquelética. Pessoas com instabilidade crônica de tornozelo. A intervenção tecnológica consistiu em aplicativo de telereabilitação com programa abrangente de exercícios, comparada a programa de exercícios em clínica. O protocolo durou 4 semanas, com avaliação em 4 e 8 semanas. Os principais desfechos foram função, dor, força, equilíbrio e autoeficácia para marcha. Ambas as modalidades melhoraram e mantiveram os ganhos. Apenas a autoeficácia para marcha favoreceu o presencial. A telereabilitação foi comparável ao cuidado em clínica, com pequena desvantagem em autoeficácia.
Lee et al. (2022) — Neurológica. Pessoas com AVC subagudo ou crônico. A intervenção tecnológica consistiu em dançaterapia não presencial por telereabilitação, adicional à fisioterapia convencional, comparada a fisioterapia convencional presencial. O protocolo durou sessões de 40 min; período descrito no protocolo do estudo. Os principais desfechos foram trunk impairment scale e equilíbrio. A telereabilitação melhorou o controle de tronco e atendeu ao critério de não inferioridade (diferença −0,86; IC95% −2,21 a 0,50). O programa remoto apresentou efeito semelhante ao tratamento convencional para controle de tronco.
Aily et al. (2023) — Musculoesquelética. Adultos com osteoartrite de joelho e dor crônica. A intervenção tecnológica consistiu em circuito periodizado domiciliar por vídeos e contatos telefônicos, comparada a mesmo circuito em formato presencial. O protocolo durou 14 semanas; seguimento em 26 semanas. Os principais desfechos foram dor, womac-função, força, função objetiva, catastrofização e composição/arquitetura muscular. Efeitos equivalentes para dor, função, força, catastrofização e medidas musculares; adesão e aceitabilidade altas. A telereabilitação foi não inferior ao programa presencial.
Gatica-Rojas; Cofré Lizama (2026) — Neurológica. Crianças de 7–14 anos com paralisia cerebral hemiplégica espástica. A intervenção tecnológica consistiu em exergame de realidade virtual não imersiva por telereabilitação, comparada a mesmo exergame presencial com fisioterapeuta. O protocolo durou 18 sessões em 6 semanas; seguimento até 10 semanas. Os principais desfechos foram oscilação do centro de pressão, tug e tônus muscular. Ambos melhoraram; a modalidade remota apresentou vantagens em deslocamento anteroposterior e TUG, mantidas no seguimento, enquanto o presencial reduziu tônus do tornozelo. A telereabilitação foi alternativa comparável, com ganhos funcionais específicos.
Menek; Dansuk (2025) — Musculoesquelética. Mulheres com síndrome da dor patelofemoral. A intervenção tecnológica consistiu em programa de exercícios baseado na web, comparada a exercícios supervisionados presencialmente; terceiro braço autoguiado. O protocolo durou 6 semanas. Os principais desfechos foram dor, kujala, tug e cinesiofobia. Todos melhoraram, mas o grupo presencial supervisionado obteve os maiores ganhos; o programa web superou o autoguiado. A modalidade web é útil quando o presencial não é viável, porém foi inferior à supervisão presencial.
Plavoukou et al. (2025) — Musculoesquelética. Adultos com osteoartrite de joelho. A intervenção tecnológica consistiu em knee-pad com sensores, biofeedback eletromiográfico e supervisão remota, comparada a fisioterapia convencional presencial. O protocolo durou 8 semanas; seguimento em 12 semanas. Os principais desfechos foram força do quadríceps, ativação neuromuscular, womac, tug, autoeficácia, ansiedade/depressão e cinesiofobia. As comparações favoreceram o sistema remoto para ativação, força, função, mobilidade e dor, com manutenção no seguimento. A telereabilitação aumentada por sensores mostrou potencial superior, ainda dependente de confirmação em amostras maiores.
Onan et al. (2024) — Musculoesquelética. Pessoas com cervicalgia crônica inespecífica. A intervenção tecnológica consistiu em exercícios de estabilização por vídeos ao vivo e gravados, comparada a mesmos exercícios presencialmente em clínica. O protocolo durou 8 semanas; 3 sessões/semana; 45 min. Os principais desfechos foram espessura do transverso do abdome e multífido, dor e incapacidade cervical. Ambos os grupos melhoraram, sem diferenças entre modalidades. Telereabilitação e atendimento presencial foram igualmente benéficos.
Withers et al. (2024) — Musculoesquelética. Adultos atendidos em ambulatórios públicos por diferentes condições musculoesqueléticas. A intervenção tecnológica consistiu em programa remoto com uma sessão inicial presencial, aplicativo, mensagens e telefonemas, comparada a fisioterapia ambulatorial presencial usual. O protocolo durou 6 semanas; seguimento em 26 semanas. Os principais desfechos foram patient specific functional scale, dor, incapacidade, cinesiofobia, qualidade de vida e satisfação. A diferença funcional em 6 semanas foi 2,7/100 (IC95% −3,5 a 8,8), atendendo à margem de não inferioridade; não surgiram diferenças clinicamente importantes nos secundários. O cuidado predominantemente remoto foi tão efetivo quanto a fisioterapia presencial.
de Lima et al. (2022) — Cardiopulmonar. Pessoas com doença coronariana elegíveis para reabilitação cardíaca. A intervenção tecnológica consistiu em reabilitação cardíaca domiciliar com sessões iniciais presenciais, exercícios em casa e supervisão telefônica, comparada a reabilitação cardíaca tradicional, predominantemente presencial no centro. O protocolo durou 12 semanas; 60 sessões planejadas. Os principais desfechos foram adesão, capacidade funcional, morbidade, fatores de risco, qualidade de vida e custo. Eficácia e adesão semelhantes; custo por paciente menor no modelo domiciliar (US$ 59,31 versus US$ 135,05). A estratégia remota foi comparável e menos onerosa.
Santiago et al. (2023) — Saúde pélvica. Mulheres com incontinência urinária de esforço ou mista com predomínio de esforço. A intervenção tecnológica consistiu em treinamento híbrido dos músculos do assoalho pélvico com videossessões e contatos presenciais pontuais, comparada a treinamento e consultas exclusivamente presenciais. O protocolo durou 12 semanas; reavaliação até 16 semanas. Os principais desfechos foram qualidade de vida relacionada à incontinência, sintomas, função sexual e sofrimento psicológico. A qualidade de vida melhorou nos dois grupos, sem diferença na magnitude (−10,0 versus −9,5 pontos; p=0,918). O protocolo híbrido foi comparável ao modelo tradicional.
Gatica-Rojas et al. (2025) — Gerontológica. Adultos de 65–75 anos. A intervenção tecnológica consistiu em exergames por telereabilitação, comparada a mesmos exergames presencialmente com fisioterapeuta. O protocolo durou 18 sessões em 6 semanas; seguimento até 10 semanas. Os principais desfechos foram centro de pressão em tarefas estáticas/dinâmicas e testes clínicos de controle postural. Não houve diferença global ao final; a telereabilitação reteve alguns ganhos no seguimento e cada modalidade favoreceu tarefas distintas. As modalidades foram globalmente equivalentes e podem ser escolhidas conforme acesso e necessidade.
Kim; Yi; Yim (2022) — Saúde pélvica. Mulheres entre 6 e 12 meses pós-parto com diástase do reto abdominal. A intervenção tecnológica consistiu em exercícios de estabilização em videoconferência síncrona, comparada a mesmo programa presencial. O protocolo durou 6
semanas; 2 sessões/semana; 40 min. Os principais desfechos foram distância inter-retos, espessura muscular, resistência de tronco e qualidade de vida materna. Ambos melhoraram de forma ampla; o presencial teve vantagem em algumas medidas musculares e de qualidade de vida, sem diferença na maioria dos desfechos. A videoconferência foi alternativa efetiva, embora o presencial tenha apresentado vantagens pontuais.
Chamradova et al. (2026) — Cardiopulmonar. Sobreviventes de linfoma em remissão ingressando em reabilitação cardio-oncológica. A intervenção tecnológica consistiu em exercício domiciliar com orientação por telessaúde, comparada a exercício supervisionado presencial em centro. O protocolo durou 12 semanas. Os principais desfechos foram vo₂pico, carga máxima, função física sf-36, adesão, eventos adversos e custos. Não houve diferenças entre grupos em VO₂pico, carga ou função; adesão semelhante, nenhum evento adverso e custo 48% menor no remoto. A telessaúde alcançou ganhos comparáveis com menor custo.
Florkiewicz et al. (2025) — Musculoesquelética. Corredores em recuperação de lesões de membros inferiores. A intervenção tecnológica consistiu em retreinamento de marcha/corrida por telessaúde com feedback verbal e visual, comparada a fisioterapia padrão presencial. O protocolo durou 4–6 sessões em 8–10 semanas. Os principais desfechos foram padrão de pisada, cadência, biomecânica, dor e função. Não houve diferença em biomecânica ou função; a redução da dor favoreceu a telessaúde (diferença média 2,52; IC95% 0,91–4,12). O retreinamento remoto pode reduzir dor, sem evidência de superioridade biomecânica ou funcional.
Pak et al. (2023) — Musculoesquelética. Adultos com dor crônica no ombro encaminhados para fisioterapia ambulatorial. A intervenção tecnológica consistiu em fisioterapia digital com sensores inerciais, biofeedback, aplicativo, educação, tcc e monitoramento assíncrono, comparada a fisioterapia presencial intensiva com exercícios, terapia manual, educação e tcc. O protocolo durou 8 semanas. Os principais desfechos foram quickdash, dor, intenção cirúrgica, analgésicos, saúde mental, adesão e satisfação. A função melhorou de forma semelhante (diferença −1,8; IC95% −13,5 a 9,8; p=0,75). O presencial reduziu mais a dor média e mínima, mas com efeitos pequenos e sem relevância clínica provável. A fisioterapia digital foi uma alternativa viável e escalável ao cuidado presencial.
Avaliação do risco de viés
Cinco estudos foram julgados com baixo risco global, doze apresentaram algumas preocupações e um apresentou alto risco para o resultado principal ao término da intervenção. As limitações mais frequentes foram descrição incompleta da ocultação, impossibilidade de cegar participantes e terapeutas, amostras pequenas, perdas diferenciais e ausência de protocolo analítico suficientemente detalhado. O julgamento de cada domínio e sua justificativa estão disponíveis no arquivo avaliacao_rob2.csv.
Tabela 4 – Avaliação do risco de viés segundo a Cochrane RoB 2
Fonte: elaboração própria (2026). Verde = baixo; amarelo = algumas preocupações; vermelho = alto.
4.5 Certeza do conjunto de evidências
Fonte: elaboração própria (2026), avaliação GRADE adaptada.
DISCUSSÃO
A síntese indica que a fisioterapia mediada por tecnologia é, em muitas situações, clinicamente comparável ao atendimento presencial, mas essa conclusão depende do desenho específico. Ensaios de joelho, cervicalgia, condições musculoesqueléticas variadas, sarcopenia, reabilitação cardíaca, saúde pélvica e cardio-oncologia mostraram que exercício estruturado, progressivo e acompanhado pode manter resultados quando parte ou todo o contato ocorre remotamente.
Os achados mais consistentes foram de não inferioridade formal ou ausência de diferenças estatisticamente significativas. Aily et al., Withers et al., Zhang et al., Onan et al. e Santiago et al. compararam conteúdo terapêutico semelhante e não encontraram perda clinicamente relevante. Esses dados apoiam o uso remoto para pacientes estáveis, capazes de executar exercícios com segurança e com acesso tecnológico adequado. No entanto, equivalência estatística não significa intercambialidade universal: características individuais, gravidade, necessidade de terapia manual e capacidade de autocorreção continuam determinantes.
As áreas musculoesquelética e cardiopulmonar concentraram maior volume e amostras mais robustas. A neurologia apresentou resultados promissores, porém com maior heterogeneidade e amostras pequenas. Em Parkinson, o presencial foi mais efetivo entre idosos, sugerindo que déficits motores, cognitivos ou tecnológicos podem aumentar a necessidade de contato direto. Em crianças com paralisia cerebral, o exergame remoto favoreceu alguns desfechos, mas a amostra de 15 participantes impede a generalização.
As tecnologias com feedback objetivo parecem oferecer valor adicional. O KneE-PAD combinou sensores, eletromiografia e supervisão remota e favoreceu força, ativação e função. A fisioterapia digital para ombro utilizou sensores inerciais e monitoramento assíncrono e obteve função comparável ao tratamento presencial intensivo. Isso sugere que o componente ativo não é apenas a distância, mas a qualidade do feedback e a capacidade de adaptar o programa.
Benefícios práticos incluíram menor deslocamento, flexibilidade, continuidade e redução de custos. A reabilitação cardíaca brasileira, a cardio-oncologia em sobreviventes de linfoma e o programa REFORM apontaram economia sem perda substancial de resultado. Tais benefícios são relevantes para sistemas de saúde com filas, grandes distâncias e limitações de mobilidade. Ainda assim, a economia não deve decorrer da transferência de responsabilidade ao paciente sem suporte profissional.
As situações de inferioridade ajudam a delimitar o uso clínico. Na síndrome patelofemoral, a supervisão presencial superou o programa web; na instabilidade de tornozelo, o presencial favoreceu autoeficácia; no pós-parto e ombro houve pequenas vantagens presenciais em medidas específicas; e em Parkinson idoso o contato domiciliar direto foi mais efetivo. Assim, triagem inicial presencial, critérios de segurança e possibilidade de escalonamento para atendimento físico são recomendáveis.
A revisão possui limitações. A busca partiu de conjuntos fornecidos e foi complementada de forma dirigida, não reproduzindo uma estratégia completa em múltiplas bases com vocabulários e datas documentadas desde a origem. A triagem e o RoB 2 foram conduzidos por um único revisor. A diversidade de populações, doses, desfechos e tecnologias impediu a metanálise. Além disso, vários ensaios tinham amostras pequenas, seguimento curto e impossibilidade de cegamento.
Pesquisas futuras devem realizar ensaios multicêntricos, pré-registrados, com ocultação adequada, avaliadores cegos, análise por intenção de tratar, seguimento prolongado e margens de não inferioridade clinicamente justificadas. Também devem comparar custos, equidade digital, eventos adversos e critérios de seleção. Estudos pragmáticos sobre modelos híbridos podem ser mais úteis do que a oposição rígida entre remoto e presencial.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A fisioterapia mediada por tecnologia apresentou resultados predominantemente não inferiores ou sem diferenças estatisticamente significativas em relação à fisioterapia presencial nos 18 RCTs incluídos. A evidência é mais consistente na área musculoesquelética, seguida por cardiopulmonar e neurológica. Aplicativos, videoconferência, sensores, biofeedback e exergames podem sustentar ganhos de função, dor, equilíbrio, força, capacidade de exercício e qualidade de vida.
Não há fundamento para substituição indiscriminada do atendimento presencial. Idade avançada, complexidade neurológica, necessidade de contato manual, baixa autonomia, risco clínico e barreiras digitais podem favorecer o presencial. A decisão deve ser individualizada e permitir transição entre modalidades. Em contextos apropriados, o modelo remoto ou híbrido amplia acesso e pode reduzir custos mantendo efetividade.
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2026.
APÊNDICE A — RELATÓRIO DE TRIAGEM
O arquivo eletrônico triagem_completa.csv contém a decisão e a justificativa individual para todos os 219 registros identificados, incluindo a duplicata. O arquivo artigos_excluidos.csv reúne apenas os registros removidos. A tabela abaixo apresenta as exclusões ocorridas depois da busca do texto completo.
Tabela A1 – Relatórios excluídos após busca do texto completo
Fonte: elaboração própria (2026).
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Copyright (c) 2026 Ana Caroline Cordeiro do Nascimento, Marcelo Ferreira Duarte de Oliveira (Autor)