Resumo: A pandemia de COVID-19 provocou profundas transformações nos sistemas educacionais, impondo a adoção do ensino remoto emergencial e produzindo impactos significativos nos processos de aprendizagem. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo compreender as percepções de aprendizagem de jovens egressos da rede pública acerca de suas experiências no ensino remoto emergencial durante a pandemia de COVID-19. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, realizada com quatro jovens residentes no município de Alegre-ES. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, posteriormente transcritas e analisadas a partir da Análise de Conteúdo Temática proposta por Minayo. Os resultados evidenciaram percepções de prejuízo na aprendizagem, dificuldades de concentração, impactos emocionais relacionados ao isolamento social e fragilização das interações pedagógicas. Os participantes também relataram a necessidade de desenvolvimento de autonomia para organização dos estudos e utilização de estratégias adaptativas durante o período pandêmico. Além disso, os discursos destacaram a valorização da presença do professor e da escola enquanto espaço de aprendizagem, convivência e mediação do conhecimento. As análises também evidenciaram desigualdades relacionadas ao acesso à internet, equipamentos tecnológicos e condições adequadas de estudo. Conclui-se que as experiências de aprendizagem durante o ensino remoto emergencial foram atravessadas por fatores pedagógicos, emocionais, sociais e estruturais, reforçando a importância de práticas educativas mais inclusivas, dialógicas e sensíveis às diferentes realidades dos estudantes.
Palavras-chave: ensino remoto emergencial; aprendizagem; pandemia de COVID-19; escola pública; pesquisa qualitativa.
Abstract: The COVID-19 pandemic caused profound transformations in educational systems, leading to the adoption of emergency remote teaching and producing significant impacts on learning processes. In this context, the present study aimed to understand the learning perceptions of young graduates from public schools regarding their experiences with emergency remote teaching during the COVID-19 pandemic. This is a qualitative, exploratory, and descriptive study conducted with four young individuals residing in the municipality of Alegre, Espírito Santo, Brazil. Data collection was carried out through semi-structured interviews, which were later transcribed and analyzed using Thematic Content Analysis proposed by Minayo. The results revealed perceptions of learning impairment, difficulties with concentration, emotional impacts related to social isolation, and weakening of pedagogical interactions. Participants also reported the need to develop autonomy in organizing their studies and to adopt adaptive strategies during the pandemic period. Furthermore, the narratives highlighted the importance of teachers’ presence and the school environment as spaces for learning, social interaction, and knowledge mediation. The analyses also revealed inequalities related to internet access, technological resources, and adequate study conditions. It is concluded that learning experiences during emergency remote teaching were influenced by pedagogical, emotional, social, and structural factors, reinforcing the importance of more inclusive, dialogical, and sensitive educational practices that consider students’ different realities.
Keywords: emergency remote teaching; learning; COVID-19 pandemic; public school; qualitative research.
Resumen: La pandemia de COVID-19 provocó profundas transformaciones en los sistemas educativos, imponiendo la adopción de la enseñanza remota de emergencia y generando impactos significativos en los procesos de aprendizaje. En este contexto, el presente estudio tuvo como objetivo comprender las percepciones de aprendizaje de jóvenes egresados de escuelas públicas acerca de sus experiencias en la enseñanza remota de emergencia durante la pandemia de COVID-19. Se trata de una investigación cualitativa, de carácter exploratorio y descriptivo, realizada con cuatro jóvenes residentes en el municipio de Alegre, Espírito Santo, Brasil. La recolección de datos se llevó a cabo mediante entrevistas semiestructuradas, posteriormente transcritas y analizadas a partir del Análisis de Contenido Temático propuesto por Minayo. Los resultados evidenciaron percepciones de perjuicio en el aprendizaje, dificultades de concentración, impactos emocionales relacionados con el aislamiento social y fragilización de las interacciones pedagógicas. Los participantes también relataron la necesidad de desarrollar autonomía para organizar sus estudios y utilizar estrategias adaptativas durante el período pandémico. Además, los discursos destacaron la valorización de la presencia del profesor y de la escuela como espacios de aprendizaje, convivencia y mediación del conocimiento. Los análisis también evidenciaron desigualdades relacionadas con el acceso a internet, recursos tecnológicos y condiciones adecuadas de estudio. Se concluye que las experiencias de aprendizaje durante la enseñanza remota de emergencia estuvieron atravesadas por factores pedagógicos, emocionales, sociales y estructurales, reforzando la importancia de prácticas educativas más inclusivas, dialógicas y sensibles a las diferentes realidades de los estudiantes.
Palabras clave: enseñanza remota de emergencia; aprendizaje; pandemia de COVID-19; escuela pública; investigación cualitativa.
Introdução
A pandemia de COVID-19 provocou profundas transformações nos sistemas educacionais em escala global, impondo a suspensão das atividades presenciais e a adoção do ensino remoto emergencial como alternativa para a continuidade do processo educativo. No Brasil, essa transição ocorreu de forma abrupta e em meio a intensas desigualdades sociais e estruturais, evidenciando dificuldades relacionadas ao acesso às tecnologias digitais, às condições concretas de estudo e à organização pedagógica das instituições escolares.
Nesse contexto, a escola passou a ocupar lugar central nos debates acerca dos impactos sociais e educacionais produzidos pela pandemia. Para além de sua função de transmissão de conteúdos, a escola constitui-se como espaço de mediação do conhecimento, convivência social e desenvolvimento humano. Conforme Saviani (2011), a função social da escola relaciona-se à socialização do conhecimento historicamente produzido, possibilitando aos sujeitos a apropriação crítica da cultura e da realidade social. A interrupção das atividades presenciais, portanto, não representou apenas uma mudança de modalidade de ensino, mas uma ruptura significativa nas formas de interação e construção da aprendizagem.
Sob a perspectiva de Paulo Freire (1996), a aprendizagem deve ser compreendida como um processo relacional, construído por meio do diálogo, da interação e da troca entre educadores e educandos. Assim, o ato educativo não se reduz à transmissão mecânica de conteúdos, mas envolve experiências de escuta, participação e produção de sentidos. Durante o ensino remoto, muitos desses elementos foram fragilizados, impactando diretamente a experiência subjetiva dos estudantes e a maneira como percebiam sua própria aprendizagem.
Além das transformações pedagógicas, a pandemia também evidenciou desigualdades sociais historicamente presentes no cenário educacional brasileiro. Conforme argumenta Santos (2020), os efeitos da crise sanitária não atingiram todos os sujeitos de maneira uniforme, aprofundando vulnerabilidades previamente existentes. No campo educacional, tais desigualdades manifestaram-se nas diferenças de acesso à internet, equipamentos tecnológicos, ambientes adequados de estudo e suporte familiar, fatores que influenciaram diretamente as possibilidades de acompanhamento das atividades escolares.
Estudos recentes apontam que o ensino remoto emergencial esteve associado a dificuldades de concentração, desmotivação, sofrimento emocional e prejuízos na aprendizagem, especialmente entre estudantes da rede pública de ensino (Alves, 2021; Arruda, 2021). Ao mesmo tempo, esse contexto também exigiu o desenvolvimento de estratégias de autonomia, adaptação e reorganização das rotinas de estudo, produzindo experiências diversas entre os estudantes.
Diante desse cenário, torna-se relevante compreender não apenas os impactos objetivos do ensino remoto sobre o desempenho escolar, mas também os sentidos atribuídos pelos próprios estudantes às suas experiências de aprendizagem durante a pandemia. Considerar as percepções dos jovens permite ampliar a compreensão acerca dos efeitos subjetivos, emocionais e pedagógicos produzidos pelo distanciamento social e pelas mudanças nas formas de ensino.
Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo compreender as percepções de aprendizagem de jovens egressos da rede pública acerca de suas experiências no ensino remoto emergencial durante a pandemia de COVID-19. Busca-se identificar como esses estudantes significam suas vivências educacionais nesse período, investigando fatores que favoreceram ou dificultaram a aprendizagem, bem como os impactos emocionais e pedagógicos associados ao contexto pandêmico.
A realização desta pesquisa justifica-se pela relevância social, educacional e científica de compreender as experiências de estudantes que vivenciaram parte de sua trajetória escolar em um contexto marcado por profundas transformações nas práticas educativas. Além de contribuir para a discussão acerca dos impactos do ensino remoto emergencial, o estudo possibilita refletir sobre os desafios relacionados à equidade educacional, à mediação pedagógica e às condições necessárias para a promoção de processos de aprendizagem mais significativos e inclusivos.
Referencial teórico
Educação e função social da escola
A educação constitui-se como uma prática social historicamente situada, atravessada por dimensões políticas, culturais, econômicas e relacionais. Nesse sentido, a escola ocupa papel central na mediação do conhecimento sistematizado e na formação dos sujeitos, configurando-se como espaço privilegiado de acesso à cultura historicamente produzida. Conforme Saviani (2011), a função social da escola consiste em possibilitar aos indivíduos a apropriação dos conhecimentos científicos, filosóficos e artísticos acumulados historicamente pela humanidade, contribuindo para o desenvolvimento humano e para a formação crítica dos sujeitos.
Sob essa perspectiva, a escola ultrapassa a ideia de um espaço restrito à transmissão de conteúdos curriculares, assumindo também funções relacionadas à socialização, ao desenvolvimento cognitivo, à construção de vínculos sociais e à formação ética e cidadã. Trata-se de um ambiente no qual se articulam experiências educativas, afetivas e coletivas fundamentais para o desenvolvimento dos estudantes.
A relevância da escola tornou-se ainda mais evidente durante a pandemia de COVID-19, quando a suspensão das atividades presenciais produziu rupturas significativas nas formas tradicionais de ensino e convivência escolar. O deslocamento do processo educativo para o ambiente doméstico evidenciou que a escola exerce funções que extrapolam o ensino formal, constituindo-se também como espaço de interação, acolhimento e organização da vida cotidiana dos estudantes.
Arruda (2021), ao investigar percepções de estudantes e familiares sobre o ensino remoto, identificou que muitos sujeitos passaram a reconhecer a escola como um espaço insubstituível de aprendizagem e convivência social. Tal reconhecimento reforça a compreensão de que a experiência escolar envolve não apenas a aquisição de conteúdos, mas também processos relacionais e afetivos que contribuem para a construção do conhecimento.
Além disso, compreender a função social da escola implica reconhecer seu papel na promoção da equidade educacional. Em contextos marcados por desigualdades sociais, a escola pública assume importância fundamental na garantia do direito à educação e na democratização do acesso ao conhecimento, especialmente para estudantes em situação de maior vulnerabilidade social.
Aprendizagem como processo relacional
A aprendizagem pode ser compreendida como um processo relacional, construído por meio das interações estabelecidas entre sujeitos em contextos históricos e sociais específicos. Nessa direção, Paulo Freire (1996) propõe uma concepção de educação fundamentada no diálogo, na participação ativa e na construção coletiva do conhecimento, rompendo com modelos tradicionais baseados na mera transmissão unilateral de conteúdos.
Para Freire (1996), ensinar não significa transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção e construção. O processo educativo, portanto, constitui-se a partir das relações estabelecidas entre educadores e educandos, mediadas pela escuta, pela troca de experiências e pela problematização da realidade. A aprendizagem envolve, assim, dimensões cognitivas, afetivas e sociais, não podendo ser reduzida a um processo exclusivamente técnico ou instrumental.
Sob essa perspectiva, a presença do professor assume papel fundamental na mediação pedagógica e na construção de sentidos acerca do conhecimento. As relações estabelecidas em sala de aula favorecem o esclarecimento de dúvidas, o acompanhamento do processo de aprendizagem e o fortalecimento do vínculo entre estudantes e escola. Durante o ensino remoto emergencial, entretanto, muitos desses elementos foram fragilizados em razão do distanciamento físico e da redução das interações presenciais.
Estudos recentes apontam que o ensino remoto esteve associado a dificuldades de concentração, desmotivação e prejuízos na interação pedagógica (Alves, 2021; Arruda, 2021). A ausência do contato direto com professores e colegas impactou significativamente a experiência escolar de muitos estudantes, especialmente daqueles que dependiam mais intensamente da mediação presencial para organização dos estudos e compreensão dos conteúdos.
Além disso, a aprendizagem durante a pandemia exigiu dos estudantes o desenvolvimento de maior autonomia na condução das atividades escolares. Em muitos casos, os jovens precisaram reorganizar suas rotinas, buscar estratégias próprias de estudo e recorrer a pesquisas individuais para acompanhar os conteúdos escolares. Embora esse contexto tenha favorecido processos de autonomia e adaptação, também evidenciou dificuldades relacionadas à disciplina, à motivação e à autorregulação da aprendizagem.
Desse modo, compreender a aprendizagem como processo relacional implica reconhecer que o conhecimento é produzido em contextos marcados por interações sociais, afetivas e pedagógicas, sendo diretamente influenciado pelas condições concretas em que os sujeitos vivem e estudam.
Pandemia, ensino remoto e desigualdades sociais
A pandemia de COVID-19 representou um marco histórico que impactou profundamente os sistemas educacionais em todo o mundo, produzindo alterações significativas nas formas de ensino, nas relações escolares e nas condições de aprendizagem. A adoção do ensino remoto emergencial constituiu-se como alternativa necessária diante das medidas de distanciamento social, porém revelou e intensificou desigualdades sociais já existentes no cenário educacional brasileiro.
Conforme argumenta Santos (2020), as crises sociais não atingem todos os sujeitos da mesma maneira, tendendo a aprofundar vulnerabilidades previamente existentes. No contexto da pandemia, as desigualdades sociais manifestaram-se de forma evidente no acesso aos recursos tecnológicos necessários para acompanhamento das atividades escolares, como internet, computadores e ambientes adequados de estudo.
Segundo Alves (2021), embora o ensino remoto tenha possibilitado a continuidade das atividades educacionais durante o período pandêmico, sua implementação ocorreu em um cenário marcado por profundas disparidades socioeconômicas. Muitos estudantes enfrentaram dificuldades relacionadas à precariedade do acesso digital, à ausência de suporte familiar e às limitações estruturais do ambiente doméstico para realização dos estudos.
Além das dificuldades materiais, o contexto pandêmico também produziu impactos emocionais significativos. O isolamento social, a interrupção da convivência escolar e as incertezas associadas à pandemia contribuíram para sentimentos de ansiedade, desmotivação e sofrimento emocional entre crianças e adolescentes. Estudos de revisão indicam que o ensino remoto esteve associado à redução do engajamento escolar, dificuldades de aprendizagem e prejuízos emocionais, especialmente entre estudantes em contextos de maior vulnerabilidade social (Meneses et al., 2025).
Nesse cenário, torna-se importante compreender a educação inclusiva em uma perspectiva ampla, relacionada não apenas ao acesso formal à escola, mas também às condições concretas de permanência, participação e aprendizagem dos estudantes. Conforme discutido por Cossate (2019), a promoção de processos educativos inclusivos exige o reconhecimento das diferenças sociais e a construção de estratégias que possibilitem participação equitativa no contexto escolar.
Dessa forma, a pandemia evidenciou não apenas desafios pedagógicos, mas também a necessidade de políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades estruturais historicamente presentes no sistema educacional brasileiro.
Articulação entre escola, aprendizagem e desigualdades no contexto pandêmico
A articulação entre as contribuições teóricas de Saviani (2011), Freire (1996) e Santos (2020) permite compreender de maneira integrada os impactos do ensino remoto sobre os processos educativos vivenciados durante a pandemia. A escola, enquanto espaço de mediação do conhecimento e formação humana, exerce papel fundamental na promoção da aprendizagem e na construção das relações sociais. Entretanto, tais processos não ocorrem de maneira isolada, sendo profundamente influenciados pelas condições sociais, econômicas e culturais em que os sujeitos estão inseridos.
No contexto da pandemia, a interrupção das atividades presenciais comprometeu significativamente a mediação pedagógica e as interações escolares, produzindo impactos sobre a motivação, a concentração e o engajamento dos estudantes. Ao mesmo tempo, as desigualdades de acesso aos recursos tecnológicos e às condições adequadas de estudo intensificaram dificuldades já existentes no cenário educacional brasileiro.
Assim, compreender as percepções de aprendizagem de jovens que vivenciaram o ensino remoto emergencial implica considerar não apenas aspectos pedagógicos, mas também dimensões emocionais, sociais e relacionais que atravessaram suas experiências durante a pandemia. Essa perspectiva possibilita uma análise mais ampla dos efeitos produzidos pelo ensino remoto, contribuindo para reflexões acerca da importância da mediação docente, da função social da escola e da necessidade de construção de práticas educativas mais inclusivas e equitativas.
Método
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, cujo objetivo consistiu em compreender as percepções de aprendizagem de jovens egressos da rede pública acerca de suas experiências no ensino remoto emergencial durante a pandemia de COVID-19. A abordagem qualitativa mostra-se adequada por possibilitar a compreensão dos significados, experiências e
interpretações atribuídas pelos participantes ao fenômeno investigado (Minayo, 2012; Flick, 2009).
A pesquisa foi realizada com quatro jovens egressos da rede pública de ensino, residentes no município de Alegre, Espírito Santo, que concluíram parte de sua trajetória escolar durante o período de ensino remoto decorrente da pandemia de COVID-19. A definição do número de participantes ocorreu pelo critério de saturação temática dos dados, considerando a recorrência dos sentidos identificados nas entrevistas realizadas. Os participantes possuíam idade entre 20 e 23 anos.
Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se um roteiro de entrevista semiestruturada, elaborado pelas pesquisadoras, contendo questões abertas voltadas à compreensão: das experiências vividas durante o ensino remoto; das percepções acerca da aprendizagem; das dificuldades e estratégias desenvolvidas no período; da relação com professores, colegas e ambiente escolar; e dos impactos emocionais e pedagógicos associados à pandemia.
As entrevistas foram realizadas individualmente, em ambiente virtual, mediante autorização prévia dos participantes, com duração aproximada entre 30 e 50 minutos. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas na íntegra para análise.
Os dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo Temática proposta por Minayo (2012), desenvolvida em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento/interpretação dos resultados. Inicialmente, realizou-se leitura flutuante das entrevistas, seguida pela identificação de unidades de sentido recorrentes nos discursos dos participantes. Posteriormente, os conteúdos foram organizados em categorias temáticas construídas a partir da recorrência, relevância e articulação dos sentidos produzidos pelos entrevistados.
A análise dos dados possibilitou a construção de categorias relacionadas às percepções de prejuízo na aprendizagem, autonomia estudantil, impactos emocionais do ensino remoto, importância da mediação docente e estratégias adaptativas desenvolvidas durante o contexto pandêmico.
A pesquisa respeitou os princípios éticos previstos nas Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Foram garantidos anonimato, confidencialidade das informações e liberdade de desistência em qualquer etapa da pesquisa. Para preservação da identidade dos participantes, os nomes apresentados no estudo foram substituídos por pseudônimos.
Resultados e discussão
A partir da análise das entrevistas realizadas com os participantes — identificados neste estudo pelos pseudônimos Aurora, Joana, Carmen e Lúcia, visando à preservação do anonimato — emergiram categorias temáticas relacionadas às experiências de aprendizagem vivenciadas durante o ensino remoto emergencial no contexto da pandemia de COVID-19. As categorias foram construídas com base na recorrência dos sentidos presentes nos discursos, conforme os pressupostos da Análise de Conteúdo Temática proposta por Minayo (2012).
As análises evidenciaram que o ensino remoto foi marcado por percepções de prejuízo na aprendizagem, necessidade de autonomia estudantil, impactos emocionais significativos, valorização da presença do professor e utilização de estratégias adaptativas para manutenção dos estudos.
Percepções de prejuízo na aprendizagem durante o ensino remoto
Uma das categorias mais recorrentes nas entrevistas refere-se à percepção de prejuízo na aprendizagem durante o período de ensino remoto. Os participantes relataram dificuldades relacionadas à compreensão dos conteúdos, manutenção da atenção e sensação de aprendizagem insuficiente.
Aurora afirmou que “ninguém aprendeu de verdade o que estava sendo passado”, destacando que grande parte do aprendizado ocorreu “por conta própria”. Tal percepção também apareceu na fala de Lúcia, ao relatar que disciplinas como química, física e biologia não foram efetivamente aprendidas durante o ensino remoto, sendo necessário “aprender tudo de novo” após o retorno presencial.
Os relatos demonstram que o ensino remoto emergencial foi frequentemente percebido como um processo centrado no cumprimento de tarefas, e não necessariamente na construção significativa do conhecimento. Essa percepção aproxima-se das discussões de Freire (1996), ao enfatizar que a aprendizagem não se reduz à transmissão de conteúdos, mas depende de processos relacionais e dialógicos entre educadores e educandos.
Além disso, os participantes destacaram que a ausência da mediação presencial dificultava a concentração e o acompanhamento das atividades escolares. Aurora relatou que, durante as aulas online, costumava dividir a atenção entre a aula e redes sociais, afirmando que “na sala não podia fazer isso”, o que demonstra como o ambiente doméstico favorecia distrações e dificultava a manutenção do foco.
Esses achados dialogam com estudos que apontam o ensino remoto emergencial como um contexto associado à redução do engajamento acadêmico e a dificuldades na aprendizagem (Alves, 2021; Arruda, 2021). A fragilização das interações pedagógicas e a ausência do ambiente escolar presencial parecem ter impactado diretamente a percepção dos estudantes acerca da qualidade do aprendizado.
Autonomia estudantil e aprendizagem por conta própria
Outra categoria identificada refere-se ao desenvolvimento de estratégias de autonomia no processo de aprendizagem. Os participantes relataram que, diante das limitações do ensino remoto, precisaram assumir maior protagonismo na organização dos estudos e na busca por compreensão dos conteúdos.
Joana afirmou que “foi tudo mesmo autônomo”, destacando que muitas vezes precisava pesquisar sozinha os conteúdos e tentar resolver as dificuldades individualmente. De modo semelhante, Carmen relatou que a pandemia contribuiu para o desenvolvimento de “autonomia de estudo”, possibilitando perceber “as possibilidades de pesquisar por fora”.
Os discursos indicam que o ensino remoto exigiu dos estudantes reorganização das rotinas, criação de estratégias próprias de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades de auto-organização. Entre as estratégias mencionadas, destacaram-se o uso de planners, pesquisas online, grupos de WhatsApp e apoio entre colegas.
Apesar de tais estratégias terem favorecido certa independência acadêmica, os relatos também revelam que essa autonomia ocorreu muitas vezes de forma compulsória, diante da ausência de acompanhamento pedagógico mais próximo. Tal aspecto evidencia uma ambivalência: ao mesmo tempo em que os estudantes desenvolveram maior autonomia, também enfrentaram sentimentos de insegurança e dificuldades na condução do próprio processo de aprendizagem.
Esses resultados corroboram as discussões de Freire (1996), ao compreender o estudante como sujeito ativo do processo educativo, mas também reforçam a importância da mediação pedagógica para que a autonomia não se transforme em abandono pedagógico.
Impactos emocionais e desmotivação durante a pandemia
Os impactos emocionais produzidos pela pandemia apareceram de forma significativa nas entrevistas. Os participantes relataram sentimentos de tristeza, desânimo, procrastinação e dificuldade de manter uma rotina de estudos durante o período de isolamento social.
Joana descreveu a pandemia como “uma fase um pouco mais triste”, marcada pelo afastamento social e pela falta de motivação para realizar atividades escolares. Lúcia também destacou dificuldades relacionadas à disciplina e à procrastinação, afirmando que “a pior parte mesmo foi eu mesma”.
Os discursos evidenciam que as dificuldades de aprendizagem não estavam relacionadas apenas às limitações pedagógicas do ensino remoto, mas também às repercussões emocionais produzidas pelo contexto pandêmico. O isolamento social, a interrupção da convivência escolar e as incertezas relacionadas à pandemia impactaram diretamente o engajamento dos estudantes com as atividades acadêmicas.
Esses achados dialogam com Meneses et al. (2025), ao apontarem que o contexto pandêmico esteve associado ao aumento de sofrimento emocional, desmotivação e dificuldades de aprendizagem entre crianças e adolescentes.
Além disso, os relatos demonstram que a escola exercia funções para além do ensino formal, constituindo-se também como espaço de convivência, rotina e socialização. A ausência desse ambiente produziu impactos importantes na experiência subjetiva dos estudantes.
A valorização da presença do professor e da escola presencial
Os participantes também destacaram a importância da presença física do professor e das interações presenciais para o processo de aprendizagem. A mediação docente apareceu como elemento central para manutenção da atenção, esclarecimento de dúvidas e organização dos estudos.
Aurora afirmou que “o professor dando aula ali na sua frente você vai focar mais”, enquanto Lúcia ressaltou que “a aula presencial é outra coisa”. Os estudantes relataram que, mesmo quando havia possibilidade de contato virtual com os professores, a interação não ocorria da mesma forma que no ambiente presencial.
Os relatos reforçam a compreensão da aprendizagem como processo relacional, conforme discutido por Freire (1996). A presença do professor não foi percebida apenas como transmissão de conteúdo, mas como elemento fundamental para construção de vínculo, motivação e acompanhamento pedagógico.
Além disso, a escola passou a ser percebida pelos estudantes como espaço de convivência e interação social. Lúcia destacou a falta dos amigos e do contato cotidiano durante o período de isolamento, enquanto Carmen reconheceu diferenças importantes entre aprender em casa e aprender na escola.
Esses resultados aproximam-se das discussões de Arruda (2021), ao evidenciar que a pandemia contribuiu para uma maior valorização da escola presencial enquanto espaço de aprendizagem e convivência social.
Desigualdades sociais e condições de acesso à aprendizagem
Embora todos os participantes fossem oriundos da rede pública de ensino, os relatos evidenciaram diferenças nas condições de acesso aos recursos necessários para acompanhamento das atividades escolares. Questões relacionadas à internet, equipamentos tecnológicos e ambiente doméstico adequado apareceram como fatores relevantes para a experiência de aprendizagem.
Carmen destacou que alguns colegas enfrentavam maiores dificuldades devido à limitação de acesso à internet, especialmente estudantes residentes em regiões rurais. Lúcia relatou que, apesar de possuir celular, não tinha internet em casa em alguns momentos, precisando recorrer a apostilas disponibilizadas pela escola.
Os relatos reforçam as discussões de Santos (2020) e Alves (2021), ao demonstrarem que a pandemia intensificou desigualdades educacionais já existentes. O acesso desigual aos recursos tecnológicos impactou diretamente as possibilidades de participação e acompanhamento das atividades escolares durante o ensino remoto.
Além disso, os estudantes apontaram diferenças entre escolas quanto ao suporte oferecido aos alunos. Algumas instituições disponibilizaram materiais impressos, aplicativos e canais de comunicação com professores, enquanto outras apresentaram dificuldades maiores na organização das atividades remotas.
Desse modo, os resultados evidenciam que as experiências de aprendizagem durante a pandemia foram atravessadas não apenas por questões pedagógicas, mas também por condições sociais, emocionais e estruturais que influenciaram significativamente o processo educativo.
Considerações finais
O presente estudo teve como objetivo compreender as percepções de aprendizagem de jovens egressos da rede pública acerca de suas experiências no ensino remoto emergencial durante a pandemia de COVID-19. A partir da análise das entrevistas, foi possível identificar que o período pandêmico produziu impactos significativos nos processos de aprendizagem, nas relações escolares e na experiência subjetiva dos estudantes.
Os resultados evidenciaram que o ensino remoto foi amplamente percebido como um contexto marcado por dificuldades de aprendizagem, desmotivação, prejuízos emocionais e fragilização das interações pedagógicas. Os participantes relataram sensação de aprendizagem insuficiente, dificuldades de concentração e necessidade posterior de retomada de conteúdos após o retorno presencial. Tais aspectos reforçam a importância da mediação docente e da escola enquanto espaço fundamental de construção do conhecimento, convivência social e desenvolvimento humano.
Ao mesmo tempo, os relatos também demonstraram que o contexto do ensino remoto exigiu dos estudantes o desenvolvimento de estratégias de autonomia e
reorganização das rotinas de estudo. O uso de recursos digitais, pesquisas individuais e redes de apoio entre colegas configurou-se como importante estratégia adaptativa diante das limitações impostas pela pandemia. Entretanto, os discursos indicam que essa autonomia ocorreu, muitas vezes, em um cenário de pouca mediação pedagógica e intenso desgaste emocional.
Outro aspecto relevante identificado refere-se aos impactos emocionais associados ao período pandêmico. Sentimentos de tristeza, desânimo, procrastinação e isolamento estiveram presentes nas falas dos participantes, evidenciando que os efeitos da pandemia ultrapassaram o campo pedagógico e atingiram também dimensões subjetivas e relacionais da experiência escolar.
Além disso, os resultados reforçam as discussões acerca das desigualdades educacionais evidenciadas durante a pandemia. Questões relacionadas ao acesso à internet, equipamentos tecnológicos e condições adequadas de estudo influenciaram diretamente as possibilidades de acompanhamento das atividades escolares, demonstrando que o ensino remoto emergencial ocorreu em contextos sociais profundamente desiguais.
Nesse sentido, o estudo contribui para ampliar a compreensão sobre os efeitos do ensino remoto emergencial a partir das percepções dos próprios estudantes, possibilitando reflexões acerca da importância das relações pedagógicas, da função social da escola e da necessidade de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades educacionais.
Como limitação da pesquisa, destaca-se o número reduzido de participantes e o fato de o estudo contemplar apenas jovens oriundos da rede pública de ensino de um município específico, o que impossibilita generalizações amplas. Contudo, a proposta qualitativa não busca representatividade estatística, mas compreensão aprofundada das experiências vividas pelos participantes.
Por fim, considera-se relevante a realização de novas pesquisas que investiguem os impactos do ensino remoto em diferentes contextos sociais e educacionais, bem como estudos voltados às repercussões emocionais e pedagógicas da pandemia a longo prazo. Espera-se que esta investigação possa contribuir para reflexões sobre práticas educativas mais inclusivas, dialógicas e sensíveis às necessidades concretas dos estudantes.
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